Canção de Pertencimento

pert

Por: Caliel Alef

Certa vez vivi em uma cidade, em paz, junto de minha mãe e irmã mais nova. Éramos felizes, mesmo sem a presença do pai, que morrera anos antes em uma guerra qualquer, pelo tanto que sabia. Quando vivo, nunca foi muito presente, mas quando aparecia costumava ser afetuoso. Minha mãe dizia que ele era um guerrilheiro, que lutava por uma boa causa, e por isso passava tanto tempo fora. A luta lhe custara a vida, mas também lhe dera muito dinheiro. Vivíamos de forma segura e confortável, até o dia em que comecei a levar uma vida criminosa.

Mas, de certa forma, eu já levava uma vida criminosa, assim como a minha mãe. Ela era uma fora da lei, como costumava dizer. Fora expulsa de todos os lugares por onde passou por praticar o que chamam de “magia da terra”. Nada mais do que o conhecimento antigo sobre doenças, ervas e outras obscuridades que costumam cativar e assombrar o povo comum. Seja como for, era um conhecimento proibido, ou pelo menos era assim em todos os lugares que já conheci. Nem me lembro quantas casas já tive, a desta cidade, porém, foi a mais duradoura. Minha mãe praticava sua magia à surdina e somente com pessoas cuidadosamente escolhidas, com as quais ela podia livremente chantagear, isso com a minha ajuda. Já fui um tipo muito precário de espião, encarregado de descobrir qualquer segredo imundo o suficiente para manter seus clientes de boca fechada. Roubos, traições e intrigas, quantas coisas eu já descobri apenas observando.

Numa de minhas andanças curiosas me deparei com Emílio, um jovem de não muito mais que os meus 14 anos, de olhos claros e cabelos em caracol. Eram castanhos, assim como a tímida barbicha que ele tinha abaixo dos lábios finos e moldados para o riso. Nunca trocamos uma palavra sequer, mas eu já ouvira a sua voz, inúmeras vezes, era macia e acariciava suavemente meus ouvidos, fazendo voltas e mais voltas até se desfazer em uma lembrança. Como eu gostava do chiado de sua fala e da forma como sua língua descia do céu da boca em cada “lá” que ele pronunciava. Mesmo de longe ele me arrancava sorrisos, e eu o perseguia aqui e ali, descumprindo com todas as minhas tarefas rotineiras. Quantas palmadas os doces olhos de Emílio me renderam, mas eu gostava mesmo assim, de seguir seu perfume, rastrear os seus passos e deleitar-me com seus caracóis castanhos.
Certa vez cheguei bem perto, bem perto mesmo, e lhe toquei o braço, num esbarrão quase acidental. Pensei em pedir desculpas só para meus olhos cruzarem com os dele, mas preferi o silêncio. Contentei-me apenas em ver sua reação surpresa a me olhar confuso e lançar-me um sorriso desajeitado. Depois de me presentear com dois ou mais segundos de euforia ele se virou e continuou seu caminho. Carregava uma caixa de flores, nem de perto tão perfumadas quanto seus cabelos. Seu pai tinha uma floricultura, eu descobri, e ele costumava fazer entregas. Tinha braços modestos, mas aguentavam bem o serviço. As pernas bronzeadas pelo sol terminavam num par de sapatos velhos e poeirentos, que eram sua companhia noite e dia. Sua rotina seguia um ritmo completamente aleatório e imprevisível, o que me fascinava e o banhava em mistério. De manhã fazia entregas, mas demorava a voltar para a floricultura, e assim começavam os seus improvisos. Resolvia visitar um amigo, brincar com as crianças na praça ou beijar os lábios de uma garota. De certo modo eu tinha inveja do carinho que ele despejava nelas e por vezes desejei sua boca, mas sempre me mantive à distância, apenas observando, curiosamente. Os meninos têm medo dessas coisas nessa parte do mundo, mas com o tempo eu descobriria que eles agiam diferente em partes mais ao sul. E assim eu passava os meus dias, perseguindo os seus encantos, me afeiçoando cada vez mais por este menino de sorrisos leves e andar calmo de uma maneira que só eu posso entender.

Ele despertou em mim instintos antigos, como se viessem de outra vida. Por vezes o imaginava bem perto de mim, de um jeito que não agradaria aos mais pacifistas. Depois de muito observá-lo comecei a cortejar as facas e tesouras de minha mãe, me questionando sobre qual delas combinaria melhor com a pele de Emílio. Eram tantas que ficava difícil decidir. Depois de muito pensar escolhi uma de porte médio, não tão afiada, de um brilho esfumaçado que me lembrava os olhos dele, sim, foi por isso que a escolhi. Não era nem de longe a mais prática, mas foi fácil prendê-la ao cinto da calça sem maiores complicações. No mesmo dia em que escolhi minha faca ouvi dizer que aconteceria uma apresentação de música, na parte alta da cidade, à noite. Fui até lá na esperança de encontrar Emílio, pois sabia muito bem do gosto que ele tinha por canções. O encontrei todo belo e de sorriso armado, como de costume. Estava com os poucos amigos de sempre e seus olhos miravam mais nas garotas do outro lado da rua do que nos músicos que animavam a noite. Com firmeza ele foi falar com uma delas e depois de algum tempo os dois sentaram numa mureta na beira da estrada, trocando carícias e beijos desajeitados. Ele parecia ser bom  isso, já que a menina sorria demoradamente cada vez que os lábios dos dois se afastavam. Uma linda garota, não podia negar, de tez morena e cabelos negros que desciam até a metade das costas. Eu até falaria com ela se tivesse algum pingo de coragem, querendo talvez chegar ao mesmo fim que ela tivera com Emílio, ou quem sabe este fosse um plano
ambicioso demais. Nenhum dos amigos dele ousou interrompê-los, quem fez isso foi o irmão da moça, com a ira pintada nos olhos. Emílio foi veloz em fugir dele e em pouco tempo já estava longe, mas não era tão rápido para fugir de mim. Eu não tinha nenhum perfil atlético, mas era mais ágil que a maioria. Quando o alcancei ele já estava ofegante, trotando sozinho em uma ruela na parte baixa da cidade. O segui bem devagar, temendo que algum barulho indesejado demais o alertasse. Meus ouvidos se atentaram aos sons de seu corpo, podia ouvir de longe o coração acelerado pela corrida e os pulmões tentando recobrar o fôlego a todo custo. Certamente ele não estava acostumado a correr, e por isso parou, pondo as mãos na cintura, se preocupando apenas em respirar.

E eu observava tudo apreensivo. Tirei a faca do cinto com cuidado, como se fosse um cálice de vidro frágil, e dei um salto para junto dele, tapando-lhe a boca com minha mão poderosa. Nunca fui muito grande, mas sempre tive força. Ele se esperneou furiosamente, como se sentisse o cheiro da morte, mas eu o segurei firme, sentindo o seu corpo se contorcendo contra o meu, sua pele tocando minha pele, ah Emílio, até no desespero tu eras belo. Pressionei seu corpo contra a minha carne, demorei-me ao afagar seus cachos com minha boca, e ele… ainda protestava, valente, mas nem mesmo um pedido seu poderia me parar agora. Deslizei a faca lentamente por seu pescoço, pintando uma linha vermelha em sua garganta. O sangue jorrou quente para beijar a ponta dos meus dedos, imediatamente meu corpo inundou-se em deleite, com calafrios que estremeciam a alma. Larguei a faca, com a mão já dormente, e rocei meu nariz por seus cabelos, embriagando-me com seu cheiro, ah, como eu amei inalar o seu perfume, misturado ao sangue que lhe encharcava o peito. Como era linda a canção dos nossos corpos, o meu se enchendo de vida e o dele se esvaziando, aos poucos. Longos segundos de prazer imensurável, delírios incontroláveis, arrepios que me arrancavam a lucidez, oh, quão doce era o aroma desse meu vício doentio… E ele ainda arfou de dor e se esperneou, impetuoso, aprisionado entre meus braços, tentando agarrar-se à vida num último gesto desesperado, mas já era tarde demais, não havia mais volta nem salvação. Seus gemidos ritmados foram se escasseando aos poucos, até não sobrar nenhum. Ele fraquejou e suas pernas perderam a força, recebi o peso de seu corpo sobre o meu como um aguardado presente e me aqueci com o calor de sua morte. Pousei-o no chão com delicadeza, como uma mãe que carrega um filho, com meus braços já amortecidos e a respiração descompassada, todo o corpo fora de meu controle, me fazendo cócegas por dentro, perdido em lampejos de prazer. Ah Emílio, como eu amei tê-lo em meus braços, tão perto de mim, fruto de meu pecado. Com pernas  bambas eu me pus no chão, sentando ao lado da infeliz vítima de minha loucura. Ajeitei os seus braços desfalecidos junto ao corpo, estiquei as suas pernas e encarei seus belos olhos uma última vez, demoradamente, antes de aprisioná-los para sempre na escuridão do abismo. Descanse em paz, eu lhe disse no fim e depois segredei uma bobagem qualquer em seu ouvido. Desta vez ele não sorriu, e nem podia, seu rosto estava congelado pelo medo. Não me importei, de agora até o sempre Emílio pertence a mim.

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