Estrelas Frias (Pt. 1)

Capa-Estrelas-Frias_herdeiros

Alex Brehan

Naquela constelação havia apenas estrelas azuis, nenhuma branca ou vermelha. O que significava que todas tinham uma temperatura bem alta. Karen sempre achou aquilo engraçado, porque, de um ponto de vista humano, sempre se tinha a impressão de que as azuis eram frias e as vermelhas quentes. Eram impressões herdadas do tempo em que a humanidade ainda habitava a Terra. Mesmo tendo colonizado outros planetas por séculos, os humanos nunca abandonaram completamente sua cultura terráquea. Infelizmente, isso incluía o dom natural de aniquilar uns aos outros.

Os humanos haviam se espalhado por três sistemas planetários, unidos como uma nação interestelar. Mas questões políticas separaram os governos e deu-se início a uma guerra. Karen Dantas era uma capitã do sistema Central, mas já era considerada uma heroína militar por eventos antecessores à guerra separatista.

Sua nave não era dos modelos mais novos por própria escolha da capitã. Ela a batizara de Lumus décadas antes e não largara nunca, mesmo com o exército oferecendo outra mais nova. Karen não interagia muito com as pessoas, não tinha família, e era provável que ninguém a chamasse de amiga. Sua tripulação a temia e a respeitava, embora muitos dos soldados acabassem por pedir transferência. Mas a nave tinha valor sentimental, era uma das duas únicas coisas que Karen tinha amado na vida. A outra deixara de existir há muito tempo.

– Senhora? – Kirk, o subcomandante, chamou pela capitã ao entrar em sua cabine.

A nave era enorme, com quartos para os soldados, salas de holograma para treinamento e a espaçosa cabine de comando com os pilotos e cientistas. A capitã, porém, ficava em sua cabine particular na parte cima, onde podia ter toda a visão do universo à sua frente e ficar sozinha como sempre preferia.

– Sim? – o cabelo preto era curto, sem muita vaidade; os olhos castanhos e tristes, somados a algumas rugas e à periódica falta de sorriso, contribuíam para um semblante de uma pessoa sofrida. Ela estava sentada em sua cadeira flutuante.

– Apenas Julia e Silas conseguiram retornar.

– Conseguiram alguma coisa? – ela não demonstrou nenhum remorso em saber que menos da metade da equipe regressara da missão.

– Trouxeram um prisioneiro.

Karen levantou-se da cadeira e foi até o elevador, que desceu rapidamente à cabine de controle. Silas estava ao lado do prisioneiro com uma arma de plasma na cintura. Havia sangue em seu rosto. O prisioneiro estava ajoelhado com as mãos para trás presas a algemas magnéticas. Julia estava do outro lado da sala recebendo cuidados. A médica da nave, Dra. Selly, usava um objeto pequeno, semelhante à extinta caneta, que emitia um laser azul capaz de fechar feridas rapidamente e parar o sangramento.

– Conseguimos, Capitã – anunciou Silas. – Perdemos alguns soldados, mas sabotamos a entrada da nave deles no nosso sistema. E conseguimos arrastar um dos canalhas – chutou o prisioneiro, que estava tão machucado quanto seus raptores.

O sistema Central era o maior e o que tinha mais poder bélico, o que obrigou aos sistemas Norte e Sul a formarem uma aliança. Constantes ataques vinham dos dois lados. Lumus era uma das centenas de naves localizadas nas fronteiras entre os sistemas, incumbidas de interceptar qualquer ataque vindo dos separatistas. Karen analisou o prisioneiro e depois foi até uma das mesas e pegou um objeto cilíndrico. Quatro agulhas saíram da ponta do objeto, três na beirada e uma maior no meio. Voltou ao prisioneiro e enfiou as agulhas no olho esquerdo dele.

O cativo gritou de dor enquanto as três agulhas menores encravavam para manter a posição e a agulha maior penetrava o sistema nervoso e espalhava nanorrobôs em busca de dados neurológicos. A maioria dos soldados estava acostumada, mas os mais novos se impressionavam com a falta de compaixão da capitã. A “operação” levou cerca de trinta segundos e os nanorrobôs voltaram ao objeto. Karen entregou a Mark, cientista responsável da nave, que rapidamente conectou ao computador.

A parte física do computador era apenas um monólito prateado de um metro de altura. A tela gigante e os teclados flutuantes eram projetados à base de luz sólida, como se fossem hologramas tangíveis. Mark digitou e dados começaram a aparecer na tela. Apareceram diversas janelas com vídeos vistos em primeira pessoa. Eram as lembranças do prisioneiro.

– Quero saber de tudo que for relevante. Não me traga coisas inúteis como da última vez – informou a capitã.

– Sim, senhora – Mark começou a trabalhar arduamente enquanto Karen voltava a sua cabine.

Faltava pouco. O acordo com o exército era de que ela só teria mais algumas missões na fronteira e então se aposentaria. Havia um pequeno planeta acessível apenas a ex-militares onde ela receberia uma enorme propriedade para fazer o que quisesse. Ela escolhera ficar sozinha e exigiu que a nave continuasse com ela, mesmo que fosse só para embelezar seu quintal.

Silas foi ver como Julia estava.

– Ela nem agradeceu a gente – comentou Julia assim que viu seu companheiro se aproximar.

– Veja como fala da capitã, recruta – respondeu Silas. – Você é nova aqui, vai se acostumar com o temperamento dela. Quero te parabenizar pela sua primeira missão – Silas era um veterano enquanto Julia acabara de ingressar no exército.

– Obrigada – após agradecer, Julia ponderou sobre a capitã enquanto a Dra. Selly terminava os cuidados em seu braço. – Por que ela é assim?

– Você sabe mesmo quem ela é? – riu-se Silas.

– Eu sei que ela é uma heroína de guerra.

– Mas você sabe como isso tudo começou?

– Mais ou menos.

Silas suspirou e deu uma aula de história:

– Depois de colonizar vários planetas, nós encontramos uma raça alienígena.

– Os zandarianos, eu sei. Mas e daí?

– Eles habitavam planetas próximos ao buraco negro Nyag. Conseguiram explorar o interior do astro e descobriram um novo tipo de energia.

– A energia escura.

– Sim. Uma energia com poder altamente destrutivo e capaz de dobrar o espaço-tempo. Antes de conseguirmos contato com eles, fomos atacados. Usaram a dobra de espaço-tempo para teletransporte e criaram ataques em massa. Tivemos que responder e foi ela, a capitã, a única sobrevivente de uma missão de infiltração na base principal dos zandarianos. Ela conseguiu roubar a tecnologia para nós.

– E usaram a energia escura para criar uma reação em cadeia que destruiu o planeta Zandar e todos os habitantes. Já sei.

– O que você não sabe é que ela ficou presa com eles algum tempo e foi torturada. Por isso que ela é assim.

– Não – uma terceira voz surgiu, era a Dra. Selly, que terminara seu curativo em Julia e começava a fazer os curativos em Silas. – Não foi só isso. Houve uma equipe de resgate para ela e para a tecnologia, é claro. E na equipe, estava o noivo dela. Foram os dois juntos que conseguiram causar a explosão em Zandar. Só os dois conseguiram se telatransportar e voltar ao planeta Capital. E depois… Bom, vocês sabem, o sistema Central tinha a energia escura, os sistemas Norte e Sul também queriam e iniciou-se uma guerra separatista. E logo que começou, a guerra deixou a capitã viúva antes mesmo de conseguir se casar.

Julia e Silas sentiram pena, mas antes que pudessem falar algo, ouviram Mark gritar para o subcomandante, ele havia encontrado algo nas memórias do prisioneiro. Kirk chamou a capitã pelo comunicador:

– Senhora, eles interceptaram uma mensagem que estava destinada ao nosso exército. Era de um soldado sobrevivente de um ataque… – relutou em continuar. – Ele se declarou como Artur Benton.

A capitã nada disse, apenas desceu à cabine de controle e foi de encontro ao subcomandante. Kirk nem viu o soco chegar, apenas sentiu o impacto da mão de Karen e caiu no chão, com a boca sangrando.

– Que brincadeira é essa? – vociferou Karen. – Artur está morto e você vai estar também por inventar essa piada infeliz.

– Não é piada, senhora – Mark interviu e apontou para a tela de luz sólida, onde era exibida a lembrança do prisioneiro que mostrava Artur preso em uma cela com barras feitas de energia pura. – Eles interromperam a mensagem antes que pudesse chegar a uma das nossas naves e o capturaram.

Ninguém percebeu, mas a capitã tremia enquanto se aproximava da tela. Era ele mesmo. Mais velho, com cabelos e barba enormes, roupas sujas e bem mais magro do que ela se lembrava. Mas era ele com certeza.

– A nave onde ele está é uma do sistema Sul e mantém o curso para invadir nosso sistema – acrescentou Mark. – Posso traçar uma rota…

– Destrua a nave – Karen estava com os olhos aguados e a voz rouca. – É um truque. Deve ser um clone, replicante ou só um maldito holograma – a voz saiu quase gritando.

A capitã se afastou, pedindo que alguém lhe trouxesse água. Estava nervosa, mas sabia que tomara a decisão certa. Artur estava morto há vinte anos. Aquilo era qualquer tipo de modelo de vida artificial, mas não seu noivo. Bebeu a água que lhe trouxeram e assistiu Mark ajustar as coordenadas para que o canhão de energia escura destruísse a nave. Graças à tecnologia roubada dos zandarianos, eles tinham um alcance muito grande para a destruição, o que facilitou muita coisa naquela guerra. Mas só podiam usar em casos extremos. Independente do engodo que os separatistas tivessem armado, aquele farsante estava prestes a ser destruído.

– Espera! – Karen ordenou e depois hesitou ao ver seus subordinados olharem curiosos. – É melhor termos certeza. Mark, trace um curso até a nave. Silas, reúna uma equipe de infiltração – silenciou por um instante. – Eu vou liderar a missão.

Continua…

Um comentário em “Estrelas Frias (Pt. 1)

Gostou? Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s