Etérea ao Luar

Etérea ao Luar

Por Raven Ives

“Pálida à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada […]”


Paraty, Rio de Janeiro — 1883

A carruagem parou de maneira brusca, obrigando a única passageira a se segurar onde pôde para não ir à frente. Chegou a ouvir as reclamações do cocheiro bronco que a conduzia pelas ruas de Paraty, como se o trajeto revestido com pedras irregulares que a faziam chacoalhar não fosse o suficiente. Observou os casarões e sobrados coloniais pela janela, recebendo alguns olhares curiosos de volta. Não duvidava que uma quantidade considerável de moradores soubesse de sua visita à cidade e isso a deixava apreensiva, por não saber lidar com atenção em tal alto grau. 

Chegou a pensar em desistir, mas as palavras desesperadas que lera na carta enviada pela família do vereador Nogueira e Sá a mantinham firme na decisão de ajudar. A antiga vila não era um lugar que lhe chamava atenção, embora tenha sido de grande importância para o Império graças ao Caminho do Ouro. Imaginar o tráfico escuso de seres humanos pelas antigas rotas a deixava enojada. E há quem ainda diga que os piratas e corsários foram a pior nódoa a assolar a cidade, pensou Maeve, ajeitando um friso em sua saia.

Quando a carruagem voltou a parar, teve certeza de que havia chegado ao seu destino, ouvindo o cocheiro descer, reclamando das juntas, e bater na portinhola. A dama respirou fundo pouco antes de se ver descendo em frente a um casarão colonial amarelo, cuja porta se abriu em seguida, revelando um senhor distinto no princípio dos cinquenta anos. O sol do meio-dia incidiu em seus cabelos brancos, ao descer os degraus, fazendo-os brilhar enquanto cumprimentava a visitante que esperara com tanta ansiedade. A esposa os aguardava sob o alpendre, mantendo sua pele pálida a uma distância segura da luz.

Um dos empregados ficou responsável por levar seus pertences ao quarto de hóspedes enquanto o casal anfitrião fazia de tudo para se mostrar diligente, embora Maeve fosse incapaz de acreditar em tamanha solicitude quando sentia as emoções por trás dos sorrisos. Não os condenava apesar disso, acostumada em ser vista como uma aberração pelo os que a conheciam de maneira superficial. Sentada à sala de estar, fingia não notar o escrutínio da Sra. Nogueira e Sá na sua direção, medindo-a dos pés à cabeça e ponderando se a presença da jovem não havia sido um erro.

— Sinto muitíssimo pela perda de sua filha. — Maeve apresentou suas condolências. — Mamãe costumava dizer, após a morte prematura de meu irmão, que não há luto maior do que o de um pai ao ser obrigado a ver sua criança partir.

— A senhora sua mãe estava certa, minha cara — afirmou o vereador, colocando-se ao lado da poltrona onde a esposa se encontrava sentada. — Sou muito grato por suas palavras e por sua presença em meu lar. Com a perda de nossa amada Valeriana, voltamo-nos ao nosso bom Deus em busca de conforto, porém… — Ele olhou para a esposa, que parecia desconfortável com a situação — Acredito que nossa menina não encontrou a paz. Mal consigo dormir à noite ao pensar nisso. Sonho com ela; vejo-a no cemitério da igreja. A luz da lua consegue atravessá-la enquanto tenta beber da água do chafariz. —  O Sr. Nogueira e Sá precisou parar por um instante, recobrando a compostura. —  Sabendo de nosso infortúnio, meu bom amigo, Sr. Brás, indicou-me seu nome.

— Caso fosse dada a acreditar em coincidências, senhor vereador, diria que esta foi uma das grandes — falou Maeve, com sua voz ressoando branda e melódica pelo cômodo frio, sem tentar esconder o sotaque de seus primeiros anos na Inglaterra. — Contudo, depois de tantas experiências vividas apesar da pouca idade, sei que tudo acontece por um motivo. O Sr. Brás é um bom amigo de minha família, dos tempos em que o senhor meu pai trabalhava na construção da São Paulo Railway. Ajudou-nos por demais na mudança permanente de Londres para São José dos Campos.

— Sr. Brás contou-nos sobre o que é capaz de fazer.

A voz da Sra. Nogueira e Sá saiu tremida em um misto de medo e repulsa, acompanhada do sotaque lusitano que não passou despercebido a Maeve, sorrindo em resposta. Da testa da mulher rorejava gotas e mais gotas de suor, correndo pela face de traços aristocráticos. A visitante sabia que para ela, a vida no Brasil era um martírio, desejando voltar a Portugal.

Não se ache no meio de ti quem faça passar pelo fogo seu filho ou sua filha — continuou a senhora, citando a bíblia —, nem quem se dê à adivinhação, à astrologia, aos agouros, ao feiticismo, à magia, ao espiritismo, à adivinhação ou à invocação dos mortos, porque…

O Senhor, teu Deus, abomina aqueles que se dão a essas práticas — cortou-a Maeve, surpreendendo o casal ao continuar a citação —, e é por causa dessas abominações que o Senhor, teu Deus, expulsa diante de ti essas nações. Serás inteiramente do Senhor, teu Deus. As nações que vais despojar ouvem os agoureiros e os adivinhos; a ti, porém, o Senhor, teu Deus, não o permite. Sim, minha boa senhora, conheço não só Deuteronômio, mas também toda a bíblia. Ainda assim não posso negar o que vejo… não posso negar o que ouço, o que sinto. Não hei de fazê-lo, pois sinto o toque do nosso Senhor em mim, desta maneira não há pecado em fazer sua obra.

As duas se encaram por alguns segundos antes que a mulher desviasse o olhar para a mão do marido em seu ombro, pedindo-lhe calma no silêncio de um simples gesto. Não era a primeira vez em que ouvia alguém aludir a Deuteronômio a fim de lhe atribuir poderes demoníacos. Por isso mesmo se via preparada nas vezes subsequentes, com um discurso dolorosamente preparado ao longo dos anos.

— Admito que acreditei ser usada como uma ferramenta de forças sombrias na infância — Maeve passou a mão enluvada pelas bochechas úmidas de suor, tão coradas quanto os arrebóis das nuvens ao soar do galo —, mas como diria um dos homens mais sábios que tive o prazer de conhecer “Sede prudente, não admitais nem rejeiteis nada sem um exame maduro; aquilo que não puderdes compreender, jamais digais que não é”.

Foi no início de 1873 que Maeve conheceu Louis-Alphonse Cahagnet, contudo, precisou passar pelo inferno antes de o evento que dividiria sua vida para sempre chegar. Com apenas oito anos, poucos meses depois de perder o irmão mais velho para a tuberculose, foi diagnosticada com Neurastenia por um médico que cheirava à sopa de cebola e lhe tocava de maneira rude com os dedos enrugados. A lembrança dos momentos em que passara em sua companhia a assombravam quase todas as noites.

Sua família não tinha grandes posses e por isso mesmo seu pai tentou a sorte no Brasil, por intermédio de um amigo, em 1864 para trabalhar na construção da São Paulo Railway; a primeira rodovia de São Paulo. Deixou a esposa grávida e o filho na Inglaterra, à procura de uma chance real de melhorar suas vidas. O Sr. Murray voltou em 1867 sem três dedos do pé direito, pois os perdera em um acidente pouco antes da inauguração da rodovia. O dinheiro que conseguira seria suficiente para uma vida confortável no outro continente, mas precisava lidar com o filho que adquiria uma nova enfermidade a cada mês. Como fazer uma viagem tão longa dessa forma?

Permaneceram em Londres apesar das dificuldades aumentarem a cada dia. Sr. Murray precisava encontrar um emprego que não lhe exigisse muito das pernas, a Sra. Murray cuidava 24h do filho doente e da filha — Maeve — que fazia a família “passar vergonha” ao insistir em conversar com amigos que ninguém, além da menina, enxergava. Apesar do receio, isso ficou em segundo plano até o falecimento do único filho homem dos Murray.

Maeve começara a chorar pelos cantos semanas antes de o irmão fenecer, sabendo o que o destino lhe guardava. Abraçada à boneca de pano, continuava conversando com os amigos imaginários, implorando por uma ajuda que não veio. Nervosa com a morte do filho, Sra. Murray começou a aplicar castigos severos em Maeve que, com o tempo, passou a sussurrar quando a mãe não estava por perto, temendo as punições. Isso não impediu os pais de procurarem auxílio médico.

A menina aprendeu a mentir muito bem, porém não foi o suficiente. Quando a palavra lobotomia surgiu nas conversas com o doutor, os Murray ficaram devastados mais uma vez, questionando a necessidade de um procedimento tão invasivo em uma criança tão pequena que “tem apenas uma imaginação muito fértil”. Foi então que o caminho de ambos cruzou com o de um famoso magnetizador e espiritualista francês, após uma palestra que o próprio ministrara em Londres, falando sobre sua publicação mais recente: “Estudo sobre o Materialismo e o Espiritualismo”. Os Murray frequentavam a igreja e tentavam viver um estilo de vida cristão, mas encontraram em Cahagnet uma chance de curar sua filha sem correrem o risco de destruí-la no processo.

Os amigos de Maeve lhe disseram que Louis-Alphonse era um bom homem e ela acreditou, sabendo que eles nunca a trairiam. Apesar do receio dos pais quanto à repreensão da igreja católica a tais práticas, seguiram em frente. As sessões com o magnetizador não curaram a menina, pois não havia nada nela para ser curado. Não havia Neurastenia. A capacidade que ela tinha em se comunicar com os espíritos foi vista com admiração por Cahagnet, que lhe mostrou o caminho que poderia optar por seguir.

Pouco tempo depois, sua jornada foi desviada para além do oceano, quando a mãe finalmente aceitou se mudar para o Brasil. Miguel Brás, conhecido de seu pai, ajudou-o a conseguir um emprego em São José dos Campos, onde poderia residir em paz com sua família que tanto fora maltratada pelo destino. A mudança não foi fácil, parecendo impossível se adaptar ao clima brasileiro a princípio. O que não impediu Maeve de continuar seus estudos com os livros que ganhara de Cahagnet. A leitura não era de fácil aprendizagem para uma menininha, mesmo que mui perspicaz, mas ela tinha o outro plano ao seu favor.

Na adolescência, tornou-se uma mocinha que irradiava beleza ingênua, salpicada de encantos e de sardas na face quase sempre rosada de sol. Como protegida do Sr. e da Sra. Brás, aprendeu a refinar seus modos, além de ter dedos ágeis fosse para coser, bordar ou tocar piano. Contudo era dos livros que ela mais gostava. Dos livros e de Aurélio Brás, o filho mais novo de três irmãos e cinco anos mais velho que Maeve. Era um rapaz estudado e cheio de uma generosidade que maravilhava a menina e assustava os próprios pais. “Trabalhar a preço de porcos e galinhas não o fará um grande médico”, insistia em dizer o Sr. Brás, mesmo sabendo que isso não daria jeito no caráter bondoso do filho. Bem como não adiantou falar que se envolver em enlevos românticos com uma garota humilde como Maeve não o ajudaria a ascender profissionalmente.

Ele não deu ouvidos, é claro, e o casamento foi arranjado. Os dois tinham certeza que seriam felizes juntos; um apoiando o outro no que haviam decidido para o futuro. E foram… Foram por cinco meses após o casamento, antes de Aurélio contrair febre amarela. A morte veio rápida, sorrateira, mas complacente ante o sofrimento de tão boa alma. Maeve nunca se apegou tanto ao seu conhecimento, seus livros, seus amigos. Decidiu continuar ajudando as pessoas, como fora seu plano desde pequena. E era isso o que pretendia fazer ao casal Nogueira e Sá: ajudar não só eles, mas também a filha. A bela Valeriana, com data marcada para se casar e que havia morrido uma semana antes do evento que marcaria sua vida.

O noivo estava presente no momento em que a família se reuniu à mesa para o séance. As sociedades espíritas e as mesas volantes possuíam um espaço maior na Europa ocidental, mas aquela sessão não seria a primeira no Brasil. Maeve ficara sabendo de um jornalista — Luís Olímpio Teles de Menezes — que organizara algo parecido em 1965 na Bahia. Isso a alegrava apesar de saber dos empecilhos encontrados no caminho da disseminação espírita em um país tão católico.

O casal Nogueira e Sá, acompanhado do antigo noivo de Valeriana, colocou as mãos sobre a mesa redonda, coberta por uma toalha branca, e Maeve o fez em seguida. A presença da falecida não estava na casa, mas além. Antes de fechar os olhos, Maeve rezou um “Pai nosso” com os outros e pediu que todos mentalizassem a imagem de Valeriana. Assim eles o fizeram, então o chamado começou. Maeve pedia para que a menina fosse até eles, ignorando outros espíritos que a cercavam em busca de auxílio, pois ao chamar um, os demais também escutavam. Não estava sendo fácil conseguir a comunicação desejada, além de sentir a impaciência crescer entre os outros.

— Mantenham o foco, por favor — pediu ela, mantendo os olhos cerrados. — Não percam a esperança… — Foi então que um suspiro deixou seus lábios, chamando a atenção. — Ah… Bem-vinda, Valeriana.

De repente sua cabeça foi jogada para trás e o ar lhe faltou. A jovem estava presente na sala, mas Maeve sentia como se alguém comprimisse seu pescoço de uma maneira tão intensa que lhe cortava o ar. Chegou a sentir seu corpo ir à frente, caindo sobre a mesa, antes que as paredes que a rodeavam evanescessem. Quando a escuridão se desfez, viu-se de frente para o espelho de uma penteadeira. Seus cabelos negros pareciam ter absorvido a luz do sol de tão loiros, contrastando com o azul-topázio dos olhos. “Valeriana”, pensou, como se sua alma tivesse invadido o outrora corpo da menina.

Ela penteava os cabelos com esmero, admirando seu belo reflexo antes de sorrir para si mesma, pensando no casamento. Largou a escova de lado e fechou as cortinas antes de se deitar na cama confortável. Caiu no sono entre suspiros apaixonados, para acordar horas depois, sentindo os raios de luz atravessarem a fresta da janela até seu leito. Quando tentou abrir os olhos, notou que algo estava errado. Insistiu várias vezes e nada aconteceu. Seu corpo não respondia aos estímulos que enviava. Gritou por dentro, clamou por ajuda, chorou sem lágrimas, mas se encontrava congelada na escuridão. Maeve foi sua companhia nas horas que se seguiram, ouvindo o chamado da Sra. Nogueira e Sá, as sacudidas que a menina levara, os protestos, os choros. Escutou as palavras do padre e contou as vezes em que a pá adentrou a terra, abrindo a cova onde seu caixão seria enterrado.

Como se esse desespero não fosse suficiente, os movimentos voltaram pouco depois do enterro terminar. Então sua voz saiu e seus punhos atingiram a estrutura de madeira. As lágrimas inundaram a face pálida à medida que gritava e ninguém ouvia. E gritou e gritou e gritou até ficar rouca. Sua garganta nunca estivera tão seca. A verdade era clara: morreria uma segunda vez e ninguém prantearia o verdadeiro falecimento.

Envolvida por um vórtice, sentiu a desesperança de Valeriana antes de ser jogada para fora de seu corpo, vendo-se próxima ao chafariz da Igreja de Santa Rita. A lua se encontrava no plenilúnio, cobrindo a Terra em um véu pálido, e saída do cemitério, uma jovem vestida de noiva caminhava na sua direção. Os cabelos loiros pareciam brancos sob o luar. Sua expressão permaneceu vazia enquanto passava por Maeve e se abaixava próxima ao chafariz para beber de sua água.

— Meus lábios estão sempre secos, e nunca tem ar suficiente — disse Valeriana, com tristeza, antes de se virar na direção de Maeve. — Diga a eles, sim? Diga para abrirem o caixão. Necessito de água. — E então voltou a olhar o chafariz.

Maeve despertou em sua cama, levantando ainda sonolenta para abrir as cortinas. A paisagem da janela mostrava o quintal do seu lar em São José dos Campos. A impressão que ficara da família Nogueira e Sá a marcara profundamente, mas de uma maneira positiva, pois ajudara Valeriana a encontrar a paz. Pouco depois de despertar do transe, encontrou a família e o noivo da jovem em choque. Não se lembrava ao certo o que tinha acontecido, tendo certeza de apenas uma coisa: eles precisavam verificar o caixão da falecida. E o fizeram.

Valeriana foi encontrada de bruços com os lábios entreabertos. Os arranhões na estrutura de madeira também estavam lá. O Sr. Nogueira e Sá derramou água na boca da filha enquanto enxugava as lágrimas do próprio rosto. Maeve ficou mais alguns dias como hóspede, para auxiliá-los com a perda, mas o padre de Santa Rita a pediu “gentilmente” para se retirar da cidade e não voltar.

Depois de três anos, preparando-se para mais uma viagem ao Rio de Janeiro a fim de assistir uma palestra no salão de conferências da Guarda Velha com o sábio Bezerra de Menezes, a imagem de Valeriana havia voltado à sua mente, e Maeve tinha certeza de que nunca mais esqueceria a sua presença etérea ao luar.Etérea ao Luar 03 01

História também postada no Wattpad.

4 comentários em “Etérea ao Luar

  1. Se há uma pessoa que eu asmiro cada vez mais quando venho colocar minhas leituras em dia é você, moça.
    Como é encantadora forma como você escrever, as palavras que usa, me dá a sensação de “assistir” a tudo como se eu estivesse dentro do conto. Achei lindo!!! Parabéns Ives ❤

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