A Garota com a Alma do Diabo [Pt.5] – Madame Bordeaux [+18]

C__Data_Users_DefApps_AppData_INTERNETEXPLORER_Temp_Saved Images_images1HIW0UNF

 

Halle foi instalado num motel puído de um bairro periférico em Moscou. O lema era incorporar completamente seu disfarce. Para conseguir chegar ao seu alvo precisava andar como os recrutas, portar-se como eles e exibir uma aparência semelhante.

Um homem como Velásquez costumava exigir muito de seu pessoal e quando recrutava homens para os negócios sempre tinha um padrão. E como um bom caçador, Halle estava incorporando exatamente o tipo que o traficante esperava.

Antes de sair de New York, ele recebeu uma pasta onde continha informações sobre o traficante, a investigação completa sobre o sujeito, lista de nomes envolvidos em seus negócios, locais onde costumava frequentar, hábitos, gostos e qualquer transação feita por ele. Além de uma foto com sua ficha criminal.

Halle passou as horas de viajem estudando todos aqueles detalhes. Um bom agente memorizava seu alvo com precisão. E, naquela área, não existia caçador melhor do que ele.

Ele recebeu também uma mala interessante com alguns objetos que precisaria usar. Escutas, telefones descartáveis, passaporte e documentos falsos. E uma arma. Não a Beretta negra que costumava portar em sua época de campo. A pistola oferecida era uma Sig Sauer pouco majestosa – o que o deixou um tanto decepcionado.

Halle preparou seu território meticulosamente, escolhendo o motel mais capenga, um quarto isolado e arrumando-o conforme a ocasião pedia. As paredes manchadas ofereciam um visual desleixado, o papel de parede puído se soltando nas bordas. A cama era de metal e rangia ao menor peso. Os lençóis eram marrons e exibiam marcas de água sanitária. Havia uma cômoda perto da porta do único banheiro e dois criado-mudo ao lado da cabeceira da cama. O ventilador de teto exibia teias de aranha e uma lâmpada quebrada no lustre embutido.

No banheiro havia um sanitário sem tampa e uma banheira cheia de rachaduras, além da pia de louça e um espelho trincado.

Lugar fantástico para um forasteiro se abrigar.

Halle escondeu a pasta com as informações sobre Velásquez debaixo da tábua do assoalho, arrastando a cômoda por cima. Deixou seus documentos falsos na gaveta do criado-mudo, guardou a mala preta embaixo da banheira e espalhou as roupas que tinha levado pelo quarto, amarrotando-as de qualquer jeito num ambiente bagunçado. Puxou as roupas de cama, embolando-as no colchão e amassou os travesseiros.

O próximo passo seria seu visual.

De frente ao espelho trincado do banheiro, Halle se desfez da barba tão bem cuidada, deixando apenas um tufo desleixado abaixo dos lábios. Com o auxílio de gel projetou seu cabelo para cima, deixando-os espetados ao estilo punk. Ele apanhou uma agulha alongada numa caixinha transparente depositada sobre a pia e a esterilizou com álcool. Em seguida, puxou o lábio inferior e perfurou a carne macia sem hesitar. O piercing que inseriu era de aro negro e o deixou com um visual rebelde.

Quando se encarou no espelho, o reflexo que lhe retribuiu o olhar não era de Halle Bennett. Quem o encarou de volta era um rapaz encrenqueiro e rebelde que só queria desafiar o sistema. Aquele era o Halle de sua adolescência, o filho anarquista que viu a irmã desaparecer numa festa para maiores de dezoito. Festa ilegal a qual ele a havia levado clandestinamente.

Halle fechou o punho e golpeou o próprio rosto, deixando uma marca profunda próxima a boca.

Seu personagem estava completo. Só lhe faltavam as roupas características.

Antes de deixar o motel, ele leu o endereço oferecido por Cherry. Ah, sim… Um pouco de diversão lhe cairia bem naquele momento. Ainda mais quando sua nova personalidade esbanjava excitação e encrenca.

 

A Red House ou, como os russos chamavam era um prédio localizado na zona nobre de Moscou, decorado em tons de vermelho. O arco de entrada era adornado de fitas carmim e um tapete de veludo sofisticadamente projetado sobre os degraus de pedra. Havia dois seguranças, um de cada lado da porta, trajando ternos negros formais.

Para adentrar por aquelas portas ricamente decoradas era preciso constar na lista. Se você não fosse um convidado era preciso ter uma boa lábia para convencer os homens a deixa-lo entrar.

Halle se aproximou com passos trôpegos, alisando o tufo de barba de bode. Seus olhos firmes se encontraram com um dos seguranças e ele exibiu um sorriso informal.

– Eu procuro por Madame Maxinne Bordeaux.

Os homens se entreolharam.

– Seu nome. – pediu um deles com aspecto rude.

– Meu nome não consta em sua lista. Sou um convidado de última hora. Agradeceria, no entanto, se passasse meu recado à sua chefe.

O segurança mais alto o fitou com atenção.

– Diga a ela que quem me mandou foi Mona Von Kern.

O homem assentiu uma vez e se dirigiu ao hall.

Cinco minutos se passaram até o cara voltar. Sua expressão não era das melhores.

– Madame Bordeaux diz que Mona Von Kern morreu em seus domínios.

Halle ergueu uma sobrancelha.

– No entanto – continuou o segurança – Ela diz que quer falar com você.

Halle foi guiado pelo segurança até o lado de dentro. O hall era como ele tinha imaginado, as paredes perfeitamente conservadas ostentava o tom bordô, o carpete era aveludado num tom mais escuro de vermelho e o aroma sobrepujante era de vinho francês.

Eles passaram pela recepção onde uma mulher seminua ostentava um semblante malicioso atrás do balcão de mogno, adentraram um corredor largo e igualmente perfumado até uma porta entreaberta.

O segurança apontou para que Halle fosse até lá, assumindo uma postura formal junto à porta.

Halle se deparou com um escritório sofisticadamente mobiliado, como costumava ser o escritório de bons advogados. No entanto, quem se sentava na poltrona confortável do outro lado da enorme mesa de carvalho não era um advogado renomado e sim uma belíssima mulher.

Ela deveria ter seus cinquenta e tantos anos, mas sua pele sedosa não era marcada por uma única ruga. A beleza refinada se instalava em cada pedacinho do rosto perfeitamente modelado, ressaltando os olhos astutos. Seus cabelos avermelhados caíam em cachos pelas costas esguias, emoldurando o rosto numa delicadeza provocante. Ela trajava um vestido de corpete vermelho que fazia seus seios fartos preencheram o bustiê com a elegância de uma meretriz do século XV e, sentada como estava, a seda da saia do vestido deixava entrever as coxas pálidas.

Seus olhos sedutores pousaram em Halle tão logo ele adentrou o escritório e ela soltou a fumaça do cigarro com sensualidade, equilibrando entre os dedos, de forma elegante, a piteira adornada de rubis.

– Eu estou realmente curiosa – sua voz anasalada preencheu o pequeno espaço com sensualidade. – O que um rapaz como você pode ter com a jovem Mona?

– Ela não gosta que a chamem assim.

– De fato. Mona Von Kern morreu num desses quartos a quatorze anos atrás.

Halle encarou a mulher, ocultando seus sentimentos.

– Então foi aqui que aconteceu.

Não era uma pergunta, mas a cortesã foi gentil em responder.

– Ela foi trazida ainda uma pequena jovem. O búlgaro queria que ela amadurecesse e aprendesse a arte da sedução com minhas meninas. Enquanto eu pude mantê-la em meus braços protetores, ela foi acolhida. No entanto, quando seu ventre floresceu, ele veio colher suas flores.

Halle entendeu o significado perverso daquelas palavras e o sangue ferveu em suas veias.

– Ela foi levada logo em seguida, com a alma despedaçada. Só Deus sabe o que aquele homem fez com ela depois disso. E eu nada pude fazer para impedir. Sou apenas a senhora desta casa.

Os olhos da mulher se anuviaram em tristeza por alguns segundos antes de recuperarem a astúcia. Ela o fitou com atenção novamente.

– Por que Cherry Vicious o mandou até aqui?

– Tenho negócios com ela. E soube que você recebe convidados influentes.

– Meus convidados, independentemente de seu status, sempre saem satisfeitos de minha casa. No entanto, nem todos eles são sociáveis com estranhos. Dependendo de quem procura, senhor…?

– Howl. Otávio Howl.

A mulher sorriu misteriosamente.

– Dependendo de quem procura, Sr. Howl, não posso garantir sua satisfação. No entanto, se quiser utilizar uma de minhas meninas, posso garantir que tenha todos os desejos realizados.

– Não estou atrás de mulheres, Madame Bordeaux.

– Não trabalho apenas com mulheres. – o sorriso dela foi malicioso.

– Estou procurando por Caetano Velásquez.

A expressão de Maxinne se turvou.

– De todos os clientes renomados que frequentam meus salões, o Sr. Velásquez é o que consegue me despertar repulsa. Se eu o suporto dentro de minha casa é porque não tenho outra escolha se não oferecer o mínimo de cortesia que as boas maneiras permitem. Cherry sabe com quem pretende fazer negócios?

– Cherry me disse que eu o encontraria aqui.

A mulher se levantou com suavidade e fechou a porta do outro lado da sala, passando com elegância ao lado do visitante. O aroma que deixou no ar era sedutor como seus modos provocantes.

Ela se sentou na borda da mesa, encarando-o com franqueza.

– Nesse caso, Senhor Howl, só posso supor que o esteja caçando. O que faz de você um policial infiltrado ou um assassino particular. Qual dos dois você é?

Halle recuou diante das palavras diretas da meretriz.

– Não acredito que Cherry tenha me mandado um problema. – ela continuou. – No entanto, preciso saber exatamente o que você é para fazer um acordo que não comprometa meus negócios.

– Não estou aqui por causa da sua rede de prostituição.

– Não. Você está aqui para caçar Caetano Velásquez, o que me causa bastante alegria. No entanto, apesar de não suportar esse homem, eu o tenho em meu círculo de clientes e conto com sua generosidade para manter meus negócios em pé. Não posso arriscar qualquer tipo de problema dentro desses muros. E, acima de tudo, não posso me indispor com Velásquez.

– Cherry não teria me dado seu endereço se eu fosse lhe causar qualquer tipo de problemas. Eu só preciso do contato com ele. O resto eu me viro muito bem fora de sua casa. Tudo de que preciso é de um convite.

Maxinne o encarou meticulosamente por alguns segundos.

– Por favor, diga-me que é um assassino.

Halle sentiu um sorriso se formar nos lábios.

– Sou um caçador experiente, Madame.

– Você cheira a problemas. Do tipo sensual e explosivo. Chave de cadeia. Você é como aqueles jovens cheios de excitação, o qual oferece uma noite de prazeres ensandecidos e depois faze nosso mundo ruir.

Ela o avaliou com precisão, comendo-o com os olhos.

– Aquela garota não me deve nada. No entanto eu lhe devo muito. – Maxinne retirou um cartão elegante de uma das gavetas embutidas na mesa de carvalho e entregou a ele.

Halle observou o convite, assentindo em agradecimento.

– Direi a Cherry que você manda lembranças.

– Há regras nesta casa, Sr. Howl. Pode desfrutar de minhas meninas com elegância e refinamento. Há categorias de garotas, para seu gosto. Não é permitido usar de violência contra nenhuma delas. Não se porte como um porco. Este é um ambiente de luxo e prazeres, para ambas às partes. Se quiser ser satisfeito, deve satisfazer minhas meninas também. Deixe que elas o guiem na arte da sedução e terá uma das melhores noites de sua vida.

Madame Bordeaux se aproximou dele, fitando seus olhos escuros.

– Nós nunca tivemos essa conversa. Nunca nos conhecemos. Você foi convidado por uma antiga amante e está procurando um pouco de prazer e negócios. O que quer que aconteça nesta casa, não envolva minhas meninas.

– Madame Bordeaux, foi um prazer fazer negócios com você.

Halle a beijou de leve nos lábios e se retirou.

Um comentário em “A Garota com a Alma do Diabo [Pt.5] – Madame Bordeaux [+18]

Gostou? Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s