Crônicas da Livônia

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Escrito por Caliel Alef

— Deixarei vocês aqui, não me atrevo a avançar mais — anunciou Ulrich, o guia da expedição, assim que alcançou o limite de sua coragem — A toca da bruxa é logo atrás daquela colina — ele esticou o braço em direção ao leste, apontando o caminho, e logo o recolheu para junto do corpo, num gesto trêmulo, como se temesse que alguém (ou algo) percebesse o seu movimento, ou talvez apenas para disfarçar o medo — Sinto o cheiro dos demônios daqui!

— Também sinto o cheiro, mas acho vem das suas calças — Heinrich o provocou, todo debochado, e depois fez um som de peido com a boca.

— Não tenho tempo para sua insolência, Heinrich. Você faria bem se calasse a boca.

— E você faria bem se tivesse coragem. Suas mãos tremem, parece um garotinho mimado. Um homem de verdade nos ajudaria a matar a bruxa — seu desafio foi acompanhado de um brilho no olhar.

Ulrich franziu o cenho e deixou escapar um leve rosnado. Não matarás, se forçou a pensar quando percebeu sua mão descer até o botão da espada. O mandamento sagrado ecoou em sua mente repetidas vezes, mas não foi suficiente para fazer refrear aquela infâmia. Em seu coração o jurava de morte, mas de sua boca saíram outras palavras:

— Não confunda prudência com medo. Coisas estranhas acontecem nessa terra.

— E o que é mais estranho do que um homem que foge da luta?

— Heinrich, por favor — gritou Hettore com firmeza, pondo fim àquela discussão tola. A idade avançada e uma nomeação do próprio papa o colocavam como líder daquele grupo e, como a posição exigia, precisava demonstrar sua força — Agradecemos sua ajuda, Ulrich, podemos continuar sozinhos daqui. Que Deus lhe acompanhe em seu retorno.

— Prefiro que Deus esteja com vocês, frade — rebateu Ulrich, quase numa ameaça — Eu sei como funciona este lugar, já vocês… É uma pena — ele pousou demoradamente o olhar sobre Hettore e abanou a cabeça, sem disfarçar sua decepção.

O tom sombrio de Ulrich pintou aquela despedida em tons fúnebres e Hettore precisou controlar seu pessimismo. Crentes e pagãos disputavam aquelas terras há meio século e em nenhum momento o tratamento entre as duas partes fora amistoso. Um mês atrás as rivalidades entre as duas partes se acentuaram, resultando numa batalha sangrenta e encarniçada, num lugar que os pagãos chamam de Saule; uma derrota custosa para a cristandade, que teve a sua principal ordem praticamente dizimada. Os Irmãos Livônios da Espada controlavam a região desde a chegada do cristianismo ali, em fins do século XII, mas deles agora só restam escombros, dos quais quatro acompanhavam Hettore naquela ingrata jornada. Três seriam despachados junto de Ulrich, e o quarto permaneceria com o frade para a terrível missão.

Martin von Bernal não passava de um aspirante a soldado, de quarenta anos, que ao longo da vida nunca fora mais que um chefe de armazém, promovido às armas pela escassez de homens competentes para o serviço após a tragédia de Saule. Agora, além da luta entre os homens, existia a rivalidade entre Cristo e os deuses pagãos, uma luta muito mais ferrenha e encarniçada que Hettore estava prestes e adentrar. Tudo ali cheirava a tragédia.

— Ele estará — Hettore soou confiante, embora não estivesse. Era apenas um inquisidor, dotado de enorme conhecimento teórico, mas nenhuma prática. Ao longo dos anos construiu seu conhecimento de demonologia, cultos pagãos e regras da igreja com o que leu nos livros. O pouco que conhecia da realidade viera de uma curta experiência como inquisidor no interior da Baviera.

No restante de sua carreira se limitou ao ambiente reconfortante dos mosteiros italianos. Estava em Veneza quando o papa o convocou, e de lá até a costa báltica enfrentou uma terrível viagem. Entretanto, nenhum tormento físico se comparava a tortura psicológica que lhe impunha este local. Desde que chegara à Livônia os moradores locais o viam como uma espécie de salvador, um verdadeiro messias que os livraria de um grande mal, coisa que o incomodava muito. Sua única expectativa ao chegar ali era dar um fim nas heresias, um serviço com o qual já estava acostumado. Mas os cristãos dali eram atormentados por coisas muito piores que práticas desviantes. No exato momento em que Hettore se abrira para receber as denúncias dos fiéis, choveram pessoas aos seus ouvidos, fazendo todo e qualquer tipo de acusação, das quais a maioria recaía sobre uma pessoa em particular: Anna, por nome de batismo, muitíssimo mais conhecida por Audra, seu nome pagão, a tal feiticeira que se escondia atrás daquela colina e arrancava-lhe a serenidade.

— Se não retornarem até domingo eu voltarei com reforços — prometeu Ulrich, em tom soturno, já tomando seu rumo junto de seus companheiros.

Estavam numa sexta-feira, 31 de outubro de 1236. Com a partida de Ulrich o restante se pôs em marcha, muitos a contragosto. A tal colina não ficava distante, mas o caminho até ela era difícil. De todos os lugares úmidos e lamacentos do mundo aquele era o pior para se viver. Todo o caminho era um verdadeiro atoleiro, com chuva de tempos em tempos que só servia para dar mais peso à lama.

Apenas os mais ousados chamariam aquele caminho de estrada, nem os cavalos a toleravam, ameaçavam cair a cada passo e foi com muito custo que chegaram até a colina e então a contornaram. Do outro lado estava a casa, ou covil do demônio, como Ulrich ensinou a chamar o lugar. Um grande carvalho se erguia a oeste, com galhos majestosos imitando um candelabro, e um lago perfeitamente circular coroava o fundo daquela estranha paisagem, igualmente assustadora e bela.

A comitiva parou em frente à casa, Heinrich von Krottzemberg foi o primeiro a descer. Um cavaleiro teutônico, forte e robusto, coberto por aço e arrogância da cabeça aos pés, e com o manto branco de sua ordem encimando tudo. Depois foi a vez de Martin, o Livônio; Johann seguiu seu exemplo. Hettore foi o último.

— Creio que estejam esperando o meu comando.

— Naturalmente — respondeu Johann, afavelmente, afastando-se habilmente daquela responsabilidade, como era de seu feitio.

Era apenas um noviço, longe de terminar seus estudos eclesiásticos, mas dono de uma fé sólida, embora muito medroso, mas Hettore não tirava sua razão, ele próprio andara muito assustado nos últimos dias e desde que soubera o caminho que iria trilhar não dormiu em paz. A noite anterior fora penosa, regada à velas e pensamentos sombrios, pensamentos que o visitavam agora, plantando em seu coração enorme medo. Mesmo temeroso resolveu avançar, ainda que lentamente, e ao chegar na porta nela encostou o ouvido e apenas escutou.

Nada, concluiu, depois de quase um minuto de silêncio. Ao seu lado os três companheiros permaneciam imóveis, como que paralisados de medo, com qualquer coisa de muito perturbadora no olhar. Até mesmo os cavalos se mantinham quietos, respirando devagar, imóveis mesmo. Hettore correu os olhos vagarosamente pela paisagem, temendo que algum movimento seu despertasse algo de muito mal, mas, ao contrário de todos ali, a natureza gritava, em seu ritmo irrefreável. Nuvens escuras traziam fortes trovões que ressoavam distantes e uma garoa fina começara a cair, fazendo o lago cantar sempre que era atingido pelas gotas, uma melodia calma e melancólica, capaz de pôr lágrimas no rosto de um homem bruto. Os pássaros também gritavam, se bicavam no ar, um desejando a carne do outro. E também existia o vento, o mais maquiavélico de todos, feliz em sua ironia, que sussurrava maldições e profecias de morte… e uma a uma, cada uma delas fazia pouso em seus ouvidos. Mas dentro da casa, ali permanecia o silêncio, completo e absoluto.

— Não tem ninguém aqui — falou Hettore, num tom muito baixo, quase inaudível. Os companheiros se abaixaram para ouvi-lo e a notícia os fez soltar o ar em alívio, ainda que timidamente. A tensão se dissipara, mas ainda se fazia presente, Hettore não negava, mas a aparente calma o dotou de rara coragem. Pressionou ainda mais a cabeça contra a porta e então percebeu — Não está trancada.

Alegria, medo, tensão, tudo se misturava agora num movimento que lembrava o furor das ondas. Todos sabiam o que fazer, mas ninguém sabia como.

— Devemos entrar — decidiu Heinrich, avançando com agressividade.

Hettore o parou com um gesto e pediu para que ficasse em silêncio. Ele colocou a mão sobre a fechadura e suavemente empurrou a porta, com calma, centímetro a centímetro, procurando não fazer barulho algum, mas fracassou. As dobradiças lançaram um lamúrio metálico no ar e não houve respiração nenhuma entre os presentes até que a porta se abrisse por completo. O vazio visitou os olhos dele e enfim pôde recobrar a calma. Todos entraram.

— Parece que não tem ninguém mesmo – verificou Heinrich, depois de sair de um quarto escuro.

— Por enquanto, mas logo alguém voltará – alertou Hettore, com sensatez, embora duvidasse muito que estivessem realmente sozinhos.

No mais, a casa não destoava muito das que visitara antes, exceto pelos adornos claramente pagãos, proibidos nas aldeias sob domínio cristão. Frascos de especiarias e poções envergavam prateleiras poeirentas e aves empalhadas pendiam do teto, penduradas pelos pés, de cabeça para baixo. No centro da sala existia uma mesa e sobre ela uma incrível variedade de facas e tesouras, raízes e peles de animais.

— Santo Deus, isso é… horrível! — exclamou Johann, assustado.

— A vadia é uma bruxa, o que esperava? Borboletas? — Heinrich revirava tudo, sem cuidado algum. Jogou os vidros no chão e quebrou os frascos.

— O que está fazendo?

— Enfraquecendo a magia dela — ele arrancou um pássaro do teto — Que tipo de gente faz isso? Faremos bem em dar um fim nela.

— Você é louco, isso pode ter algum feitiço — alertou Martin, que de todos ali era o que menos falava. Se algo saíra de sua boca era porque tinha medo.

— E você é idiota. Duvida do poder de Deus?

Martin nada respondeu, apenas recuou as palavras, de certo sabia que era inútil discutir com Heinrich.

— O que faremos agora? — perguntou Johann, olhando para Hettore, de quem todos aguardavam instruções.

— A nós resta esperar…

*****

Duas horas se passaram até que notassem as primeiras anormalidades. No exato momento do fim do pôr do sol o fogo se acendeu na lareira.

— Maldição, a bruxa chegou — gritou Heinrich, levando a mão até a espada.

Todos despertaram do ócio, desajeitados e tensos.

— Não vejo ninguém lá fora — Johann, ao lado da janela estava mais trêmulo do que de costume. Fechou-a com violência e fez o sinal da cruz.

— Ela está perto — concluiu Hettore, para seu desespero — Martin, vigie o lado de fora. Precisamos nos preparar para o pior.

Martin prontamente obedeceu; saiu para o lado de fora, com espada em punho, mas não teve nem tempo de gritar. À espreita do outro lado estava Gunther, marido de Audra e um cristão fervoroso num passado distante. Ele surpreendeu Martin e o fez de refém, abriu a porta com um chute e uma faca ainda manchada de sangue apontada na garganta de seu prisioneiro.

— O que fazem aqui? — ele gritou. Logo atrás dele entrou uma menina com arco e flecha, apontando diretamente para Hettore. Certamente era a filha dele, Gabija.

— Em nome de Deus, abaixe essa arma. Não viemos aqui machucá-lo.

— Então por que vieram? — ele pressionou ainda mais a faca contra a garganta de Martin e as primeiras gotas de sangue mancharam seu manto.

— Viemos resgatá-lo. Você não vê que ela te cegou, que te afastou dos caminhos de Deus? — disse Johan, embriagado pelo nervosismo.

— Saiam! – ele gritou, e então a mulher apareceu na porta.

— O que está acontecendo?

— Fuja, agora!

Sem pestanejar ela se pôs a correr. Heinrich foi o primeiro a segui-la e Martin aproveitou o momento de distração para se libertar, dando uma cabeçada no queixo de seu captor, e também correu atrás da bruxa. Gunther caiu no chão e derrubou sua faca, Johann a pegou, veloz, mas não pôde impedir que o marido corresse atrás da esposa, levando a filha consigo.

Na floresta Heinrich corria com dificuldade, tendo que enfrentar, além da mata densa, a lama e o peso de sua armadura. O solo era uma verdadeira sopa de folhas, que prendiam seus pés e o atrasavam ainda mais. O som dos galhos secos arranhando sua armadura o irritava, mas foi outro som que lhe chamou a atenção.

Era a voz de Johann, um grito, disso tinha certeza, um grito lamentoso, de profunda dor e angústia. Johann era um menino chorão, bem sabia, mas naquele fim de mundo era seu aliado. Decidiu voltar para acudi-lo, e teve sorte em fazer isso: a menina estava um pouco a sua frente, e ao lado dela a mãe, o demônio que procurava.

Primeiro ela tentou fugir, mas Heinrich a alcançou. Agarrou-a pelas costas e a jogou no chão, usando todo o seu peso para controlá-la, mas ela se debatia, com uma força absurda, sobre-humana. Ela se virou e unhas fortes arranharam o capacete de Heinrich. Os dois se debatiam e com muito esforço ela abriu a viseira dele, dando ao cavaleiro um vislumbre de seu rosto. A pele descorada e os olhos arregalados; o cabelo transformado numa ruína e dentes apodrecidos, afiados como os de um animal, a língua uma perfeita cobra em êxtase de loucura. Sem piedade ela enfiou a mão dentro da viseira e avançou as longas unhas até os olhos dele. Um escapou, mas do outro jorrou sangue. O golpe feriu Heinrich profundamente, mas foi imprudente da parte dela.

Exaltado, Heinrich fez de sua ira um punho e a acertou no flanco desprotegido. Ela caiu para o lado e Heinrich se pôs sobre ela, enforcando-a com mãos poderosas. O corpo dela foi aos poucos se enfraquecendo até que parou de se mover e ele levantou, de braços dormentes, e a jogou sobre os ombros.

A menina não estava mais ali, mas Heinrich pouco se importava com ela, já conquistara o seu prêmio. Mesmo sem saber onde estava se pôs a andar, guiado pela lembrança do grito de Johann. Encontrou o caminho de volta por um milagre e se deparou com Hettore tentando consolar o jovem garoto, que estava ajoelhado no chão, se desmontando em lágrimas.

— Qual o problema? – Heinrich perguntou, mas não precisou de resposta.

Boquiaberto, encarou a terrível visão de Martin pendurado pelo pescoço, no alto do carvalho, nu e com uma cruz riscada no peito, cortes profundos. Olhos vazios encaravam o alto, talvez buscando em Deus a salvação. A boca escancarada se enchia de moscas e no peito as feridas vertiam sangue negro. Um terrível fim para um soldado. O vento transformara o corpo num pêndulo e uma garoa fria começava a cair.

— Leve-a para dentro — instruiu Hettore enquanto se levantava.

— E Martin?

— Amanhã teremos tempo para ele — Hettore estava prestes a entrar quando viu Gunther saindo da mata, segurando a mão da filha, com lágrimas nos olhos. Ele se aproximou do corpo de Martin e chorou, parecendo não acreditar no que via. Ele voltou a face desolada para Hettore e constrangido perguntou:

— Ela que fez isso?

Hettore se apiedou nele, mas foi firme em responder:

— Foi o demônio que habita nela — as palavras foram suficientes para derrubá-lo. Gunther soltou a filha e cobriu o rosto, envergonhado, enquanto seu corpo todo denunciava sua tristeza.

Ele olhou mais uma vez para Hettore e decidiu tomar uma atitude. Tirou as vestes e prostrou-se diante do lago, lançando com gestos rudes água ao corpo, pintado em homenagem aos deuses pagãos. Esfregava os braços com violência e tenacidade, tentando a todo custar livrar-se daquela tinta profana. Porém, mais imundo que as cores que o marcavam era o seu pecado. Ainda lembrava da primeira vez em que se ajoelhara para a Virgem Maria e a imagem de Cristo, imitando o gesto dos pais. Era apenas um menino, inocente e puro em todos os seus atos. Isso parecia ser há tanto tempo. Agora, carregando no olhar quase três décadas de árduo sofrimento, tudo era diferente. Adorava outros deuses, abandonara sua antiga fé, e esta, a todo custo, o chamava de volta.

Hettore seguiu Gunther até o lago e ajoelhou-se ao lado dele. Com um olhar acolhedor ele estendeu a mão, mostrando um rosário rústico e marcado pelo tempo. Gunther viu sinceridade no gesto do frade, mas a presença dele o constrangia. Quando foi que decidi abandonar tudo aquilo em que acreditava? As respostas escapavam-lhe da mente e apenas o silêncio lhe descia aos lábios.

Desviou os olhos do monge e voltou-se para o seu reflexo no lago. Aquelas águas mostravam muito mais do que um singelo caçador consumido pela culpa, mostravam um homem em busca de redenção. Pegou o rosário das mãos do frade e o colocou em volta do pescoço. Com suavidade pegou a cruz sagrada e a beijou, longamente.

Seu retorno estava selado, depois de tantos anos afastado, agora estava pronto para cumprir a vontade de Deus. Hettore o ajudou a se levantar e os dois entraram na casa. Gabija já estava lá dentro e Johann tentava confortá-la. Diferente era o tratamento que Heinrich dava a Audra. Com enorme dificuldade ele tentava amarrá-la, mas a mulher, já desperta e louca em sua cólera, protestava, agressiva em cada movimento.

— Traidor – ela gritou, com uma voz que era tudo menos humana. Gunther pareceu não se abalar, foi até as prateleiras e voltou de lá com um saco grosso.

— Precisamos libertá-la — sua voz era ternura e com um cuidado materno ele cobriu com o saco o rosto da esposa. O gesto pareceu acalmá-la e tempos depois Audra já não mostrava nenhum movimento, e então foi amarrada. Foi o tempo que Hettore precisava para que se preparasse para o depois. Cheio de fé pegou sua bíblia e água benta, além de um crucifixo e tudo mais que achava necessário naquela hora.

Tentava a todo custo disfarçar a insegurança, mas era difícil se livrar dos tremores. Estava com medo, e muito. Os demônios se levantavam dos sepulcros no dia de Samhain e se tornavam mais poderosos, disso sabia. Hettore ainda estava perdido em seus devaneios quando Audra retomou a consciência e despertou. Soube disso por meio de Johann, que o tocou no ombro assim que percebeu a movimentação da mulher. O frade, curioso, passou a olhá-la com atenção. Audra permanecia de olhos fechados, se limitando apenas a um tímido movimento de cabeça, que depois se abrandou.

Lembrava muito um alongamento de pescoço, como se costuma fazer depois de uma noite mal dormida. Mas o movimento logo se tornou insano, de uma flexibilidade absurda. A cabeça se contorcia em ângulos nunca vistos, seus ossos estalaram quando ela virou a cabeça quase totalmente ao contrário e depois voltou rapidamente ao normal, só para repetir o movimento no sentido oposto. Os olhos se abriram, estavam inquietos, tintos de vermelhos, moviam-se para lá e para cá, sem rumo preciso, em ferocidade doentia. Eram rápidos, velozes mesmo, tão alucinantes que despertavam sensações de náusea.

Oh céus, como aqueles olhos se moviam, para cima e para baixo, e rodopiavam, giravam em espirais demoníacas. Hettore não aguentava mais vê-los, como ele queria arrancar aqueles olhos. Pare, ele dizia em sua mente e os outros homens ali pareciam igualmente incomodados. Até mesmo Gunther, que de todos era o mais habituado ao rosto daquela mulher, estremecia com aqueles olhos inquietos.

Ela deu uma gargalhada miúda, quase imperceptível, que se transformou num gemido de prazer. O tronco também se moveu, e então os quadris, de forma obscena, sacolejaram em cima da cadeira; os gemidos aumentaram. Para os mais desatentos a sua voz se misturava aos trovões, mas Hettore sabia que eram os trovões que faziam coro à sua voz.

Por Deus, sua alma era consagrada a Laima, mas seu nome honrava Perkunas, o deus dos trovões. O deus pareceu se apetecer da causa da filha e os trovões tornaram-se incessantes, tão estrambólicos que faziam tudo ali estremecer e a voz da mulher… sua voz era a própria tempestade, e a natureza parecia seguir os seus encantamentos.

As janelas começaram a vibrar e um vento gelado invadiu a casa. Do lado de fora o som era de um dilúvio. Pesadas torrentes castigavam o solo e água fria escorria por rachaduras no teto e os passaram empalhados rodavam em círculos profanos. E de repente o fogo consumiu a lareira, lançando chamas compridas até o teto, e as sombras que delas vinham dançavam em torno da bruxa. Ela ria e gritava, e gemia, estremecendo de sua cadeira, com seus olhos inquietos e sua voz de trovão.

Atrás de Hettore Johann se encolhia assustado. Aquela era a primeira vez que se deparava com o demônio e a cada grito que a mulher dava ele acreditava menos no poder de Deus.

— Pelo amor de Cristo, Maria e todos os santos, liberte este corpo! — bradou Hettore com a bíblia em mãos e lançando água benta no rosto da mulher. Ela parecia se queimar a cada gota e se contorcia em sua cadeira.

— Liberte-a, padre — Gunther estava desesperado, com uma enorme lança em mãos. Do lado de fora da casa lobos uivavam e pessoas brancas como a neve batiam com força nas portas e nas paredes. Alguns apareciam nas janelas e logo se retiravam. Outros rastejavam pelo telhado, enfiando as mãos para dentro da casa. Tudo ali era terror, tudo ali era medo.

Heinrich lutava contra um deles quando Audra se desprendeu de suas amarras e partiu para cima dele. Ela arrancou-lhe a face com os dentes e com gritos Heinrich compôs a mais fúnebre e dolorosa de todas as canções.

— Mate-a — gritou Hettore em desespero e Gunther sem pensar muito pegou sua lança e a enterrou na cabeça da esposa, atravessando-a por completo, só para depois encontrar o rosto desfigurado de Heinrich e penetrá- lo também, dando fim ao seu sofrimento. Mas o demônio ainda era poderoso dentro dela.

Ela virou os braços para trás e suas unhas fincaram na carne da coxa dele e Gunther arfou de dor, mas não fraquejou, continuou a fincar a lança na cabeça da esposa, enquanto ela se debatia e o arranhava, e foi assim até o último suspiro, profundo e demorado. Os braços dela foram perdendo a força, pouco a pouco, e como uma flor murcha aterrissaram no solo, mortos por completo.

O que se seguiu foi uma cena de profundo desgosto. O rosto de Gunther estava moldado pela culpa e o terror exalava de seu corpo; os olhos arregalados encaravam o severo fruto de sua força e a boca entreaberta jorrava incredulidade. Ele largou a lança e se retirou dali. Cobriu com as mãos a vergonha de sua face e fez da parede sua companheira; com as costas deslizou nela até encontrar o chão e ali ficou, com o luto instalado no olhar. Gunther era um homem com a esperança desolada.

— E serão perdoados todos os pecados daqueles que lutarem em favor da causa de Deus, assim ordenou o papa. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Gunther pouco caso fez das palavras de Hettore e só esboçou reação quando a filha foi ao encontro dele, então, pai e filha entraram no quarto, sem se preocupar com explicações. A casa voltara ao normal, sem fogo ou vento, e sem mais ninguém do lado de fora.

Enquanto Johann e Hettore cuidavam dos corpos, Gunther tentou buscar no sono algum conforto, mas a insônia o visitou e não havia pensamento que afastasse de sua mente a imagem da esposa desfigurada, morta por suas próprias mãos. O sentimento de culpa também o visitou e em seu coração fez acampamento. Era tão grande a sua lástima que lágrimas lhe vieram aos olhos. Tentou conter o pranto para que a filha não o visse sofrer, mas quando se deu conta já era tarde. Uma mão pequenina afagou a sua barba e logo subiu para o rosto, secando-lhe as lágrimas com dedinhos diminutos. A filha ergueu-se por cima do ombro do pai e encostou a boca no ouvido dele:

— Faça – ela disse, com a voz igual a da mãe. Gunther se virou e a encarou, incrédulo, como se perguntasse se era realmente aquilo que ela queria dizer. Gabija balançou a cabeça em sinal de concordância e Gunther levantou-se da cama desajeitado, com pressa em fazer cumprir seus desejos mais imundos.

Foi para a porta do quarto e abriu uma pequena fresta, suficiente apenas para que pudesse ver o que se passava no outro cômodo. Hettore estava na sala, em pé com sua batina imunda, sangue misturado ao barro. A expressão solene escondia o verdadeiro demônio que vivia nele, Gunther sabia. O maldito o fizera matar sua amada, não o perdoaria por isso, nunca! Botou no rosto uma expressão carrancuda e cerrou os punhos. Estava prestes a abrir a porta quando uma mãozinha tocou suas costas…

— Ele não — disse a filha, ainda com a voz da mãe.

— Quem então? O moço?

— Não também — lhe respondeu a filha, e foi quando ele entendeu

— Sim — disse Gunther e sua resposta pôs um sorriso no rosto da filha.

Ele abaixou para beijar-lhe a testa e ela se encolheu envergonhada. Gunther então beijou mãos dela, rapidamente, e repetiu o gesto, e depois outra vez, como costumava fazer sempre que saía para caçar. Por fim a filha beijou o pai e ele se sentiu abençoado. Pronto para sair, ele pulou a janela e seus pés descalços encontraram o mato úmido e coberto de lama do lado de fora.

Foi até o carvalho onde o corpo de Martin pendia e subiu nele. Era isso o que tinha que fazer, sim. Chegou até o galho em que ele estava amarrado e içou o corpo apodrecido do maldito até o seu colo. A barriga dele estava aberta e já não se via mais o sinal da cruz, os demônios brancos haviam feito um bom trabalho. Maldito Martin, que em sua morte o fizera trair a esposa. Os olhos vazios do cavaleiro encararam os dele, furiosos, como se soubessem o que ele estava planejando. Gunther não se importou.

Tirou a corda que prendia Martin e a cabeça sem vida tombou sobre a sua coxa, ainda dolorida. Em seguida Gunther tirou do pescoço o rosário que o frade lhe dera e o guardou na boca de Martin. O rosário, porém, era grande demais, então Gunther o empurrou para dentro, com força. A carne podre facilitava o caminho e quando a cruz estava a ponto de arrebentar a pele da garganta ele fechou a boca do morto e lançou o corpo para baixo. O mato molhado abafou o som e isso o alegrou.

Não queria que fosse descoberto, por Hettore e sua corja de seguidores, que estragaram tudo aquilo que lhe era mais querido. Agora sua esposa ardia junto de satanás e as suas mãos estavam manchadas com o sangue dela. Felizmente encontrara a solução, sim encontrara. Sua própria filha lhe apontara o caminho, sua alma se juntaria a de Audra novamente, como tinha que ser.

-Seu amor será sua perdição” ela havia profetizado para ele. Na hora Gunther não entendera as palavras, mas agora tudo tomava forma. -Sua perdição será o caminho- dizia também a profecia.

— O caminho de volta ao amor — completou em voz alta, afrouxando o nó da corda. O abriu bem largo e então pôs em torno do pescoço e o apertou — Nos encontraremos no inferno, querida — e saltou, fazendo cumprir a profecia.

*****

Dentro da casa Hettore estava concentrado em suas cartas quando ouviu um barulho atrás dele. Olhou para trás e viu Gabija de relance, quieta encostada na porta de seu quarto; parecia assustada.

— Não consegue dormir? — ele perguntou docilmente — Venha até aqui.

A menina seguiu o conselho, mas só percorreu metade do caminho. Hettore não queria forçá-la a nada, ainda mais depois de tudo, então se limitou a voltar para seus escritos. A vela tremulava calmamente e a tinta, ainda molhada, brilhava sob sua luz.

— Você não deveria ignorar o sangue — ela disse, em latim fluente, com uma voz que se assemelhava muito à da mãe.

Hettore não entendeu o que ela quis dizer com aquilo, mas, assustado, soltou a pena. A vela agora tremulava freneticamente e a tinta sobre a folha caminhava em direção ao fogo, deixando um rastro negro no papel. — O que é dos pais passa para os filhos — ela completou, e foi quando ele entendeu. Do seu lado esquerdo a sombra da menina crescia rapidamente, disforme e escura. Os braços se alongaram e no alto da cabeça brotaram chifres.

— Eu vim te buscar — ela terminou e a vela se apagou, banhando tudo em escuridão.

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