Visitando os Mortos

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Por Lucas Samuel 

O sol já se punha nas colinas. Da sacada, Alissa podia ver os campos que se estendiam ao norte, com as folhas das árvores brilhando ao tom do fim de tarde, laranjas e avermelhadas. A presença de gatos pulando nos galhos e a orquestra de grilos escondidos lá embaixo alegravam seu coração. Porém, era apenas virar-se para o outro lado, que as coisas começavam a irritá-la.

A rua de sua casa estava completamente decorada para o Halloween: abóboras sorridentes, teias de aranha sintéticas e vassouras eram vistas por toda parte. Isso sem contar as irritantes crianças que movimentavam-se em alvoroço por todo o bairro, vestidas como vampiros, bruxas e fantasmas, gritando aos pais que arrumassem-lhes sacolas para a caça aos doces.

Não que ela não gostasse do evento. Na verdade, Alissa amava o Halloween, mas em sua essência pura, com sua ligação aos mortos e ao ano novo celta, e não como simples brincadeira de crianças. De qualquer forma, não participaria disso. Não era querida pelos vizinhos, e tampouco nutria simpatia por algum deles. Era já uma mulher adulta, com seus vinte e cinco anos, independente de qualquer um e dona do próprio nariz.

Alissa desceu para o banho. Despiu-se e, antes de entrar no boxe, parou em frente ao espelho. Era bela, com a pele cor de nozes e longos cabelos cacheados, negros como as penas de um abutre. Seus olhos eram duas pedras castanhas, frias e quentes ao mesmo tempo. Não saberia dizer por quanto tempo esteve ali, parada, contemplando a própria imagem. Tinha os traços de sua família, os antigos Ellenir, outrora uma poderosa linhagem de bruxos. Pensar naquilo fez duas lágrimas nascerem em seus olhos. Sacudiu rudemente a cabeça, deixou o espelho e foi tomar seu banho.

O relógio marcava 20 horas. Alissa estava deitada, confortavelmente, em sua cama. Naquela noite estava sem fome, e decidira-se por dormir mais cedo. Já fazia uma hora que estava ali, e parecia que uma força invisível impedia-lhe o descanso. A noite estava barulhenta, e a madeira daquela casa velha rangia de forma constante. Estava sozinha e sentia medo. Aquele era um dia importante para pessoas como ela, e não deveria estar ali. O Dia dos Mortos devia ser passado com os homenageados. Os seus mortos estavam lhe esperando, e tinha que ir até eles.

– Será que consigo? – A verdade era que Alissa queria esquecer tudo, mas o sangue da família falou mais alto. Relutante, levantou-se, e, enrolada no fino cobertor amarelo, desceu as escadas para visitá-los.

Ali, no corredor, estava realmente assustada. A voz do vento fazia ouvir-se, lamuriosa, enquanto as janelas resmungavam rispidamente, com suas madeiras já quase inteiramente apodrecidas. As luzes estavam acesas, porém, ainda assim, sentia uma completa escuridão, não física, mas na alma. Ainda podia lembrar-se da noite em que ocorrera a tragédia.

Todos estavam em casa, com exceção de Louis, seu irmão mais novo, que havia saído para juntar-se às crianças normais. O restante da família celebrava o Halloween, o verdadeiro Dia dos Mortos. Cantaram, oraram e banquetearam-se. Tudo ocorrera muito bem, mas Alissa estivera inquieta. Pela manhã, sonhara com uma menina fantasmagórica. Devia ter sua idade, oito anos, e trajava um longo vestido branco, com teias de aranha envolvendo seu rosto, e apenas uma boca negra à vista. Carregava, nas mãos, um fio branco de seda, quebradiço, no qual estava escrito um nome, Louis, numa tinta vermelha que parecia sangue. Acordara febril e encharcada de suor. O medo era tamanho que impedia-lhe de verbalizar o pesadelo. Mesmo à noite, enquanto ajudava a mãe a preparar a refeição, era ainda capaz de ver a garota, pelos cantos, com o nome do irmão sangrando a seus pés.

Louis, pela primeira vez, decidira passar o Halloween com seus amigos de escola, procurando por doces ou distribuindo travessuras. Assim que ele saíra, Alissa sentira uma pontada de culpa.

– E se ele não voltar?– pensou.

Nunca estivera tão certa.

– Esqueça isso. – disse a si mesma.

Os mortos estão no passado. O tempo aprisionou todos eles. E, afinal, não devia ter medo. Os Ellenir não temiam a morte, e disso ela teve provas suficientes. Olhou da janela. Lá embaixo, crianças jogavam ovos na casa à frente. No céu, a lua reinava, amarela e cheia. Enquanto observava, distinguiu uma formiga que atravessava a janela, do lado de fora. Suspirou.

– Por que não consigo continuar? – Alissa estava corada. – São minha família e precisam de mim. Estão mortos. Vou continuar negando que estão aqui e abandoná-los na noite em que mais desejam minha companhia?

Sua imagem na janela a encarou de volta, com a formiga andando por seu nariz refletido. Sentiu-se tola.

– Não, não vou deixá-los. Vou até eles, pelo menos por uma noite. O que está feito não pode ser mudado. Preciso deles, e eles de mim.

Caminhou decidida pelo corredor, e, sem olhar para trás, girou a maçaneta.

– Não! Diga que está errada! O meu Louis não está morto, ele não… – A senhora Morgana chorava e agarrava firmemente os pulsos da filha. Minutos depois, lá estavam, no meio da rua, abraçando o pobre garoto, cruelmente esfaqueado por uma gangue de menores infratores.

Alissa dera por si tremendo, enquanto passava os olhos por toda a sala. Era estranho como perdera a coragem tão facilmente. A memória do irmão fez-se novamente presente, e a antiga culpa voltara. Talvez, se ela tivesse narrado o sonho à mãe, hoje Louis poderia estar vivo. Mas a reflexão dissipou-se como névoa, quando, adentrando o quarto, deparou-se com a causa de seu medo.

Eram ainda os mesmos. Sim, podia reconhecer todos, sem exceção. Lá estava seu pai, o velho Elder, com a túnica cinzenta, cajado de madeira antiga e metade do rosto coberta de vermes. Ao lado, Morgana, sua esposa, estava sentada numa cadeira, com uma faca cravada no braço direito, e sangue seco espalhado pelo vestido azul. Em todo o recinto, para qualquer lado que mirasse, via tios, primos e sobrinhos. Uma senhora de meia-idade (provavelmente uma das irmãs de seu pai) estava suspensa numa forca, com o rosto arroxeado e travado num macabro sorriso. Havia, numa das paredes, um rapaz que aparentava seus dezesseis anos. Da cintura para baixo, estava queimado, reduzido às cinzas, e sua cabeça pendia para um lado, com a garganta exposta de forma grotesca.

Alissa percorreu o quarto, trêmula, lembrando-se de cada um deles. Não havia fiação elétrica ali, então contava apenas com a luz da lua, que, no entanto, mostrava-se generosa no Dia dos Mortos.

Sua família havia sido cruelmente massacrada na noite seguinte ao assassinato de Louis. Criaturas sanguinárias e monstruosas, ouvia sua mãe sussurrar em seus sonhos, e Alissa tinha total certeza de que dizia a verdade. Homens e mulheres, eram as criaturas. Um clã de bruxos tão antigo quanto os Ellenir, que, não vendo maneira honesta de aumentar seu poder, acabou por liquidar os inimigos da pior forma possível, reservando a cada um deles uma face diferente da morte. Como ainda velavam o corpo de Louis, Alissa pôde fugir, usando o cadáver do irmão para quebrar a janela e saltar os muros da casa. Um ato de coragem para si mesma, de desonra para com o irmão, e mais um pecado sobre suas costas.

Não foi, porém, capaz de fugir. Ficou escondida numa moita, chorando baixinho e rezando pelas almas de seus parentes. O barulho da chacina era alto, e somente magia impediria os vizinhos de ouvirem os gritos. O clã dos Gaelan – malditos sejam para sempre – abandonou a casa somente após o último suspiro de cada Ellenir. E, por especial bênção dos deuses, não deram falta da filha mais velha de Elder. Ela pôde voltar, e o que viu a marcou para sempre. Sangue, morte e impiedade. E, no meio de tudo, lá estava ela, uma criança que, banhada em lágrimas, limpava os corpos e amaldiçoava os assassinos.

Como se já não bastasse tal barbaridade, ainda havia sido lançado um feitiço cruel: os corpos estavam destinados a permanecerem como morreram, e, alguns, no máximo, num estado de semi-decomposição, num espetáculo de horrores. E a garota percebera que, afinal, fora lembrada, porque teve também sua maldição. Fugira da morte, mas estava condenada a permanecer com a mesma para sempre, naquela casa, aprisionada por barreiras invisíveis que a mantinham ligada ao local, sem jamais poder sair, sem nunca vingar-se. Chorou novamente.

Perdida em sua tristeza, ajoelhada em frente a uma de suas tias, amordaçada e esquartejada, Alissa ouviu um ruído, vindo da sala, ao que parecia. Sentou-se no chão, trêmula, e prestou atenção. O barulho cessara, mas, segundos depois, ouviu passos e risinhos se aproximarem. Crianças, malditas e delinquentes. Pegou um punhal que estava no chão e levantou-se.

– Levaram meu irmão uma vez. Não vão me matar. Não agora, quando voltei para a minha família.

O cheiro nauseabundo dos cadáveres enchia o local, e moscas adentravam o quarto, por frestas nas janelas. Mais alguns instantes e a maçaneta da porta girou. Dois vampirinhos e uma zumbi saltaram para dentro, e o grito irritante invadiu o silêncio:

– Gostosuras ou travessu… Aaaaaahhh!!!

Tomada por um acesso de loucura, medo e autodefesa, Alissa saltou sobre as crianças, brandindo a arma e rugindo como uma fera. O sangue vermelho esguichou em seu rosto, e as vísceras dos visitantes espalharam-se pelo quarto. Os gemidos de dor das crianças foram diminuindo, até que três pares de olhos vidrados encaravam-na. Doces e balas misturavam-se às entranhas dos corpos. Ao ver o que fizera, Alissa lançou para longe o punhal e correu para os pés de seu pai, chorando.

– O que eu fiz?– perguntou aos mortos.

– Eu os impedi de nos incomodarem novamente, não foi? Dessa vez eu não fiquei quieta, eu agi. Estamos salvos.

Alissa riu de satisfação, encarando os cadáveres das crianças. Talvez, finalmente, tivesse consertado o seu erro. Ficou ali, sentada, pelo que pareceram horas. A lua ainda estava brilhante, mas o céu começava a tingir-se de um pálido azul cinzento, a cor indefinida que antecede o amanhecer.

Seus olhos vacilaram, e pendeu a cabeça. Quase imediatamente, voltou a ficar acordada. Olhou seus parentes, um por um, e certificou-se de que estavam bem, sob sua vigilância. Estavam todos em suas posições, exceto por uma garotinha encostada à porta. De onde estava, era distinguível apenas a sombra de sua silhueta, uma criança com, no máximo, oito anos.

– Venha, menina – Alissa chamou-lhe, amigavelmente –, sente-se comigo, vamos cantar para os mortos, antes que a noite acabe.

A garota não respondeu. Seus pés, no entanto, arrastaram-se para dentro.

– Ora, venha, não seja tímida. – A mulher a incentivava. – Você deve ser uma de minhas primas. Vivian, talvez?

A garota soltou um grunhido ininteligível. Prosseguiu na direção de Alissa, que sorria. A alegria, contudo, dissolveu-se lentamente à medida em que a criança aproximava-se, até que seu rosto converteu-se numa expressão de puro terror. Diante de seus olhos, a garota fez-se visível. Trajava um longo vestido branco, tinha o rosto coberto de teias e uma boca negra à mostra, esboçando um sorriso de escárnio. Segurava, nas mãos, um fio de seda, também ele, branco. Estendeu-o em sua direção, e nele havia um nome gravado em sangue.

Alissa.

Tentou fugir, mas a menina fantasmagórica agarrou seu braço, cravando neles as unhas afiadas. Debateu-se, arrastou-se, tentou golpear e morder a velha conhecida, em vão. Seu coração batia aceleradamente, seu corpo inteiro tremia e lágrimas vertiam de seus olhos. A voz já não saía-lhe da boca.

A menina aproximou o rosto e sua boca abriu-se, liberando o fétido odor de sangue e carne podre. O estômago de Alissa revirou, não com isso, mas com o que ouviu, vindo da medonha garota, que, para seu espanto, tinha a bela e inocente voz de Louis, seu irmão há muito morto:

– Venha comigo, irmã.

O espectro afundou mais ainda as unhas nos braços de Alissa, e correu pelo quarto, gritando de forma demoníaca. Parou, de repente, e abriu a janela. Ajudou a infeliz mulher a subir no parapeito, e, usando toda sua força, lançou-se com ela para fora. Durou segundos, mas Alissa foi capaz de tudo perceber. Sentiu os ossos deslocarem-se com a velocidade da queda, a horripilante menina dissipar-se, o vento rugir em seus ouvidos um lamento fúnebre, o terreno íngreme aproximar-se cada vez mais. A noite girou em torno de si, e já não havia mais lua, nem doces, nem travessuras.

A escuridão estendeu-lhe as mãos, e ela abraçou a noite eterna.

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