Sangue de Uma Estudante Sem Graça

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Escrito por Alex Brehan

O sabor do sangue artificial era levemente adocicado, ainda que fosse um gosto estranho. Não era pra ter entrado na boca, apenas na superfície do lábio. Natalia cuspiu na pia do banheiro, não tinha certeza se poderia engolir a substância, mas a maquiagem estava perfeita. Com o rosto branco, olheiras escuras, boca jorrando sangue, o cabelo preto bagunçado e um vestido de noiva todo manchado, Natalia era uma perfeita noiva zumbi. Só estava falando o véu.

– Gi, você viu o meu véu?

– Em cima da sua cama – Giovana era a companheira de quarto. As duas eram alunas da Universidade de São Magnum e estavam se preparando para a festa de Halloween no campus.

– Valeu – Natalia saiu do banheiro em direção ao seu quarto e viu de relance Giovana se maquiando em frende ao espelho, formando uma caveira adornada, com rosas prendendo o cabelo. – Caveira mexicana? Você não ia de vampira? – e notou o sobretudo e presas falsas jogadas no chão.

– Ah, eu me vesti e não gostei. E o sangue ‘tava entrando na minha boca.

– O gosto é estranho mesmo. Mas caveira mexicana não é pro Halloween, é mais para o dia dos finados.

– O nome é Catrina, mostre respeito. E daí? O dia dos finados é amanhã mesmo.

– Como você é perdida – Natalia riu. – O dia dos finados é no dia dois, amanhã é dia de todos os santos.

– Ninguém liga pra esse dia. Enfim, vou assim mesmo. A que horas seu noivo zumbi vai chegar? A gente ainda tem que fazer a maquiagem nele.

– O Daniel não ‘tá respondendo – Natalia checou as notificações do celular. Não havia resposta do seu namorado, mas havia outra coisa. – Ah, não! A festa foi cancelada.

– O quê? Como assim? – Giovana pareceu ainda mais transtornada. – Por quê?

– Não estão revelando o motivo, que droga! – Natalia era uma excelente estudante, havia se dedicado tanto às provas nas últimas semanas e agora merecia se divertir em uma festa. – Vou ligar para o Daniel.

Enquanto o celular chamava, a campainha tocou.

– Deve ser o Daniel, até que enfim – anunciou Natalia indo até a porta. – Pelo menos, ele vai poder ver como eu fiquei.

Ao abrir a porta, deparou-se com uma mulher de traços finos, ruiva na casa dos trinta, acompanhada por um policial de rosto já conhecido no campus por eventuais confusões.

– Boa noite. Meu nome é Emily, sou uma das coordenadoras da universidade – não que as garotas conhecessem cada funcionário da instituição, mas aquele rosto parecia novo. – Natalia Sintra mora aqui, não é?

– Sim, sou eu.

– Podemos entrar?

– Hã… Claro, por favor.

Os dois entraram e as garotas ofereceram para que eles se sentassem. Emily sugeriu que Natalia fizesse o mesmo.

– Você namora Daniel Moraes, não é? – perguntou a coordenadora.

– Sim, por quê? – Natalia checou o celular mais uma vez na esperança de haver alguma resposta.

– Houve… – Emily hesitou ante de continuar. – Alguns assassinatos nas últimas horas. Esse é o motivo do cancelamento da festa de Halloween. Daniel… Foi uma das vítimas. Eu sinto muito.

A coordenadora falou mais alguma coisa, mas Natalia não ouviu. Seu coração inundou em um mar de descrença. Aquilo não podia ser verdade. Eles estavam errados. Daniel estava a caminho, atrasado, mas logo estaria ali. Não podia estar morto.

– Isso não é verdade – disse Natalia com a voz trêmula. – Deve haver algum engano – sentiu a mão de Giovana tocar seu ombro. A amiga já estava chorando, mas Natalia permanecia cética. – Não, não. Eu quero ver o corpo. Vocês se enganaram e eu vou provar.

– Não será possível – informou o policial. – Foi um assassinato incomum e…

– Eu quero ver! – exaltou-se Natalia.

Emily tocou o braço do policial e lançou um olhar penetrante. O policial pareceu perdido e hipnotizado.

– Me acompanhem – foi tudo o que o oficial disse.

Juntos os três foram a enfermaria onde os corpos estavam sendo mantidos. Logo seriam levados para o centro da cidade para exames mais detalhados. Era uma cidade pequena no interior do estado e sua única universidade se localizava na beira da estrada, sendo facilmente acessível a cidades vizinhas. Mas essa localização também a deixava perto de uma densa área florestal.

Alguns alunos costumavam perambular pelas floresta embora a reitoria tivesse proibido. Um muro deveria ter sido construído não fosse uma divergência de orçamento. Os alunos que entravam na floresta geralmente eram góticos que simulavam rituais elementais e alguns nerds que gostavam de jogar RPG em modo live action, deixando mais real seus papéis de personagens como elfos, monstros ou simples aventureiros da floresta. Daniel era um desses jogadores. O plano original era uma sessão de jogo durante a tarde até a noite e depois ele iria à festa de Halloween junto com Natalia.

Quando chegaram à enfermaria, ela descobriu que todos os companheiros de RPG de Daniel também estavam mortos. Os oficiais encarregados não queriam deixá-la entrar, mas de uma forma estranha, Emily era capaz de persuadir todos sem muito esforço. A sala de necropsia improvisada parecia um cenário de filme de terror. Corpos em cima de mesas, mas não eram cadáveres comuns. Eram apenas pele e ossos, como se toda a carne e fluidos tivessem sido retirados, como se tivessem transformado em múmias.

Nauseada, Natalia andou até a mesa com o corpo que havia uma etiqueta identificada como Daniel. A garota começou a tremer e sentiu um profundo enjoo. Embora houvesse apenas pele e osso, a fisionomia era a de Daniel. As pálpebras estavam fundas como se os olhos houvessem murchado, mas a fantasia de elfo usada nas sessões de live action era a mesma. Os pertences guardados ao lado como carteira, identidade, chaves e celular eram deles. O celular exibia todas as chamadas perdidas e as mensagens que Natalia enviara. No pescoço, o colar de pedra castroada que inicialmente ele comecara a usar para as sessões e depois começou a acreditar que lhe trazia sorte na época de provas. Natalia sempre fora contra aquelas superstições.

Ela levou a mão à boca, segurando o choro. Tocou a pele do namorado. Não era possível, aquilo era uma brincadeira de mal gosto. Aquele cadáver parecia ter morrido há anos, mas conservado de alguma forma. Nada daquilo fazia sentido.

– Que brincadeira é essa? – disse Natalia irritada. – Cadê o Daniel? Você é um dos amigos dele? Agora vocês foram longe demais com essa história de interpretar papéis.

– Querida, não sei do que está falando – defendeu-se Emily. – Imagino que seja difícil…

– Cale a boca! – Natalia saiu correndo da enfermaria.

O pátio central da universidade estava um caos. A reitoria não só havia cancelado a festa como pedira aos alunos residentes no campus que saíssem até a situação ser esclarecida. Muitos vinham de longe e não tinham condições de viajar agora. A decisão acabou causando protestos e confusão. Em meio a multidão, Giovana avistou Natalia correr em direção à área das árvores. Decidiu seguir a amiga, sendo atrasada pelo tumulto.

Natalia chegou à floresta com a lanterna do celular iluminando seu caminho. A luz da lua cheia também ajudava em alguns cantos. Ela olhava para todos os lados e começou a chamar por Daniel. Era difícil dizer se ela estava negando a tragédia ou se estava em choque. Independente do que fosse, ela precisava estar ali. Era uma espécie de conforto para sua alma.

– Agora tenho certeza de que você é loca – a voz de Giovana assustou Natália.

– Você quer me matar de susto? Qual é?

– Admito que foi engraçado, mas eu ‘tô preocupada com você. Acho que você não encarou muito bem a morte do…

Um clarão estranho chamou a atenção das duas. Uma chama havia brotado do chão, labaredas enormes sem combustão aparente, não consumia nenhuma das folhas no chão ou alguma das árvores próximas. Um cheiro de enxofre invadiu o ar. Perplexas e com medo, as garotas viram um homem sair das chamas, com roupas antigas e parcialmente queimadas. Era raquítico, quase como se não tivesse carne por baixo da pele, levemente parecido com os cadáveres daquela noite.

Giovana começou a correr gritando para que a amiga fizesse o mesmo. A criatura também disparou e saltou por sobre Natalia e caiu em cima de Giovana. As mãos dele envolveram o pescoço dela e antes que Natalia pudesse fazer qualquer coisa, os gritos da amiga cessaram. A pele começou a enrugar e a massa corporal diminuiu. Em questão de segundos, Giovana estava idêntica aos cadaveres da enfermaria. O homem das chamas porém, parecia ter ganhado um pouco mais de vigor, como se ele tivesse sugado toda a vitalidade de Giovana.

Natalia que sempre fora cética com superstições tentou se convencer de que aquilo era uma ilusão. Ela não lidara bem com a morte do namorado e agora estava delirando, era a única explicação plausível. Não teve nem tempo de continuar a raciocinar quando uma rajada de fogo azul passou por cima de seu ombro, direto na cabeça do monstro. Ele grunhuiu e correu mais adentro a floresta.

Natalia olhou para trás e viu Emily com sua mão direita brilhando como se fosse uma tocha de fogo azul.

– Rápido, venha comigo – disse a coordenadora.

– Você… – balbuciou Natália.

– Pra encurtar a história: eu sou uma bruxa. Sim, nós existimos, mas não somos ruins como dizem por aí. Bom, talvez alguns de nós – estendeu a mão para a garota. – Venha comigo, talvez possamos salvar a alma do seu namorado e da sua amiga.

– Espera, o quê? – Natalia seguia com dificuldades os passos largos de Emily.

– Eu sou bem mais velha do que aparento. Há algumas décadas minha irmã fez experimentos com necromancia, tentando trazer pessoas do inferno. Digamos que ela conseguiu, mas não do jeito que esperava. As almas que ela trouxe não conseguiam se sustentar no plano físico. Não sei bem como aconteceu, mas a única forma que encontraram de permanecer aqui foi drenando a energia vital de pessoas vivas. Minha irmã acabou virando uma das vítimas e eu venho limpando a bagunça dela desde então. Essas criaturas entram em uma espécie de hibernação durante a maior parte do ano, se não fizessem isso, acabariam voltando para o inferno. Mas é no Halloween, na véspera do dia de todos os santos, que eles saem para caçar e poder continuar aqui por mais um tempo. Existem muitas energias místicas circulando o planeta nessa data.

– Supondo que eu acredite nisso… – por mais que tenha visto tudo aquilo, era difícil para ela acreditar. – Como faríamos pra trazer meus amigos de volta?

– Eu não falei em trazê-lo de volta. A alma dele está presa naquele morto-vivo. É um destino muito pior do que o inferno em si. No caminho pra cá, me perguntei o porquê dele ter sido atraído até aqui. Mas quando pisei aqui, senti a sua presença. Você é uma descendente de São Magnum.

– O quê? Espera, santos não têm descendentes.

– Se tivesse a minha idade, saberia que alguns santos não foram sempre santos. O que importa era o bem que eles faziam e não como se divertiam.

– ‘Tá. Mas como a minha linhagem pode ajudar a salvar a alma deles?

– Seu sangue é diferente das pessoas comuns, sua descendência rara contém propriedades místicas. Vamos para a capela, lá o feitiço será mais forte.

A universidade fora construída sobre princípios religiosos, por isso havia uma capela no campus raramente frequentada naqueles dias. Estava trancada àquela hora, mas Emily não teve problemas para abrir a porta. A capela tinha um aspecto gótico e estaria completamente escuro não fosse os feixes do luar atravessando as vidraças.

– Vou descobrir onde se acende a luz – anunciou Natália.

– Talvez seja melhor não.

Emily pegou o braço de Natalia e o perfurou com uma navalha, fazendo o sangue respingar nas sombras. Natalia se afastou gritando de dor e de espanto. Emily murmurou palavras em latim e as gotas de sangue desapareceram, como se tivessem sido engolidas pela escuridão. Tentáculos de sombra brotaram dos cantos e agarraram os braços e pernas de Natália, esticando-a em posição de estrela.

– Você tem o sangue precioso demais pra uma simples estudante sem graça – disse Emily, cuspindo desdém. – Você daria uma bruxa poderosa, mas não vai ter tempo pra estudar pra isso.

Enquanto Natalia gemia tentando entender o que estava acontecendo, novamente chamas surgiram do chão sem consumir o ambiente. A criatura estava de volta.

– Eu não menti sobre minha irmã nem sobre sua linhagem – discursou Emily. – Só omiti o fato de que matei minha irmã e transformei seus experimentos em escravos.

– E quanto ao Daniel e a Giovana?

– Ah, sim. As almas deles estão aqui – apontou para o morto-vivo. – Mas não há como salvá-las. Nem a sua alma também. Eu só armei tudo isso para te trazer aqui, na capela do seu ancestral, e usar seu corpo em uma invocação. Vou arrastar o velho Magnus aqui para o plano físico, nós temos umas pendências para acertar, há séculos espero por isso. Infelizmente, sua alma ficará presa em um limbo no processo – ela checou o relógio. – Bom, já passamos da meia-noite, o Halloween acabou, hoje é o dia de todos os santos. Sinto muito, querida.

Emily ergueu os braços e começou a proferir palavras místicas. Natalia gritou, sentiu dores e ao mesmo tempo parecia enfraquecer, como se aqueles tentáculos estivessem drenando sua vida. O morto-vivo a encarava com tristeza no olhar. À medida que o encantamento prosseguia, mais dores Natalia sentia e mais pena a criatura parecia ter. De repente, a criatura começou a se contorcer e gemer.

Antes que Emily pudesse questionar seu escravo místico, ele pulou sobre ela, interrompendo o encantamento. Natalia caiu no chão quando os tentáculos negros se desmaterializaram. Emily tentou jogar seus feitiços sobre o morto-vivo, mas então chamas começaram a consumir os dois. Natalia viu o espectro olhar para ela, como se despedisse. O fogo consumiu os dois corpos até desaparecerem, deixando o cheiro de enxofre no ar.

Natalia mancou até onde eles estavam, havia machucado a perna com a queda. Ela não entendia o que aconteceu e nem deveria tentar entender, deveria fugir. Mas ficou algum tempo sentada na capela pensando no que tinha acontecido.

Demorou até que ela chegasse a uma conclusão: se duas das almas naquele morto-vivo quisessem defender Natalia, talvez fosse possível que tomassem controle do corpo. Era estranho, ela nunca acreditara em coisas assim e nas ultimas horas o misticismo tomara conta da sua vida. Talvez não devesse parar por aí. Emily acabou provando que não sabia exatamente tudo, uma vez que ela foi surpreendida por seu próprio servo. Talvez houvesse mais a descobrir, alguma forma de salvar Daniel e Giovana.

Natalia era boa em estudos, talvez fosse hora de se dedicar a assuntos mais ocultos, e a bruxa que quase a matara dissera que ela também poderia ser uma. Ela se levantou com dificuldade, saiu da capela. Era sua nova chance de olhar para o mundo com menos descrença. Era hora de descobrir até onde iria essa história de bruxaria.

Caminhou com seu sangue especial escorrendo do braço, em direção a uma nova vida, talvez.

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