In the Depths of her Soul – O Ruir do Véu (Pt. 11)

 

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O Ruir do Véu – Capítulo 11

Escrito por: Natasha Morgan

 

Hugh chegara ao Casarão á tarde, mas ninguém quis lhe dizer o que estava acontecendo, nem mesmo Leola a quem era mais próxima naquele antro de hostilidade.

 – Sabemos como você se sente em relação á humanos – ela sussurrou, um tanto temerosa e lhe deu as costas.

Ora, o que ela quis dizer com isso?

Ele não era nenhum entusiasmado com mortais, como o próprio Rudolf se mostrava. Tinha por Erin grande apreço e se metia na cama de muitos homens humanos, mas isso nunca o impedira de se esbaldar nas grandes caçadas. O instinto selvagem era o que prevalecia.

E, exceto por alguns conflitos, sempre respeitara a autoridade do clã.

Então o que Leola queria dizer com aquela frase estúpida?

Hugh se enchera de raiva e partira em direção ás cavernas. Se havia alguém que não lhe pouparia palavras duras era Vex, embora a ideia de rever o mercenário lhe causasse dissabores.

Ele escalou a montanha ao cair da tarde e se infiltrou em seus túneis úmidos. Podia escutar Ragnar distribuindo ordens em seu escritório improvisado. Certificou-se de passar bem longe dali. Se os outros ocultaram as informações dele, Ragnar seria o último a abrir a boca.

Os corredores estavam escuros e morbidamente silenciosos. Hugh jamais gostara daquele lugar, seu lado esnobe preferia uma casa confortável e de pequenos luxos.

Podia ouvir os gritos desesperados dos lycans presos nas masmorras, criminosos que enfrentavam sua pena cruel.

Um arrepio frio lhe cruzou a espinha e ele recuou alguns passos, trombando em alguém.

Com um pulo rápido ele se virou, exibindo os olhos dilatados, caninos proeminente e as unhas longas de lycan.

Vex soltou uma risada sensual.

 – Você se arrepia como uma menina.

Hugh se refez da postura ofensiva, mas o humor era o mesmo: Aborrecido.

 – Consegue parecer um humano.

 – Você e suas gentilezas.

 – Não foi um elogio.

 – Não pensei que fosse.

 – O que quer aqui? Detesta esse lugar.

Hugh se recompôs, abraçando a frieza que lhe era tão familiar.

 – Vim para falar com você.

Vex ergueu as sobrancelhas e um sorriso malicioso se espalhou por seu rosto.

 – O que Kieran queria? O que está acontecendo? Victória está em Montana. – Hugh foi logo disparando.

 – Está é?

 – O que sabe sobre isso, Vex?

O mercenário observou o rapaz em silêncio, sondando aqueles olhos claros.

 – Se houvesse comparecido á reunião no Casarão saberia o que está acontecendo. Não precisaria vir até aqui me perguntar.

 – Eu estava de porre.

 – Claro que estava. Você é mais humano do que qualquer um de nós.

 – É por isso que me persegue? Porque preservei a minha humanidade? – Hugh jogou contra ele, os olhos exigindo sinceridade.

Vex esboçou um sorriso.

 – Não. Não é por isso que o persigo.

Hugh cruzou os braços.

 – Kieran veio nos alertar sobre os caçadores.

Vex contou a ele sobre a audiência convocada, sobre o alerta real. E sobre a ordem de Elvira.

A indignação toldou as feições delicadas de Hugh. Ele se afastou três passos, mirando Vex com revolta.

 – Victória veio para caçá-la!

 – Ragnar não acredita que Moon conseguiria.

 – Vocês são detestáveis! Estão condenando uma garota inocente a um destino terrível!

 – Garota inocente? – a voz de Vex reverberou pelas paredes rochosas da caverna. – Acaso ouviu o que eu disse? A garota inocente – ele retorceu a palavra – vai nos expor!

 – Você não sabe disso. As investigações não serão concluídas.

 – Hugh, deixe de ser um garoto ingênuo! Não lamentamos matar, não lamentamos destroçar. Vivemos para isso!

 – Seu monstro impiedoso!

Vex sorriu, exibindo dentes perfeitos.

 – Todos somos, acostume-se a isso.

Vex se aproximou dele, invadindo seu espaço pessoal e se agigantando sobre o rapaz. Seus lábios, sempre rígidos, se aproximaram dos lábios aveludados de Hugh.

 – Quando eu provei da sua carne, você também passou a ser um monstro sem coração.

Hugh o empurrou.

 – Será que é por isso que me rechaça tanto? – Vex jogou o mesmo tipo de pergunta pela qual foi confrontado. – Porque eu te condenei a essa maldição?

Hugh o fitou nos olhos.

 – Não é uma maldição. E não, não é por isso que eu te detesto. Tem mais a ver com você ser tão detestável.

 – Você não costumava me achar detestável…

Hugh o ignorou, dando meia volta e seguindo pelo túnel de volta á superfície.

 – Não vá se meter onde não é chamado! – Vex alertou. – Se não fosse por mim, suas transgressões já o teriam levado ás masmorras.

 – Não preciso que interceda por mim.

 – Hugh! – Vex gritou, mas o rapaz já havia desaparecido nas sombras da caverna.

 

Hugh sentia cheiro de chuva no ar, a tempestade já se avizinhava. E a sensação de que coisas ruins aconteceriam começou a perturbar o rapaz.

Ele sacou o celular do bolso e discou o número de Erin, esperando com impaciência.

 – Erin, a coisa ficou feia! Acho que a garota está com problemas, me encontre na casa dela agora.

Hugh desligou o telefone sem dar chances da amiga falar, arrancou as roupas, amontoou-as próximo ao tronco de uma árvore, junto com o celular e chaves de casa e saiu correndo nu pela floresta, aguardando a euforia tomar seu corpo e com ela vir a força abrasadora do Lycan.

Erin o esperava próxima á estrada que levava ao rio, parada casualmente junto ao chevette branco, com uma peça de roupas masculinas á mão.

Abençoada seja aquela mulher!

Hugh surgiu do meio das árvores, nu, e correu naquela direção. Não havia tempo para as gracinhas que geralmente o acometia quando se encontrava em situação parecida, seu rosto estava sério, sombrio.

Ele pulou para o banco de trás, vestindo-se com rapidez enquanto Erin tomava a direção do carro e seguia pela estradinha.

 – O que está acontecendo? – ela inquiriu

 – Ragnar deu ordens para Victória matar Rachel.

Erin se limitou a encarar o amigo.

 – Devo pensar que Moon não vai deixar. – ela disse, cautelosa.

 – Moon é… Complicada.

 – Moon não ousaria fazer menos.

 – Erin, sabe que nem sempre depende de nós. Prepare-se para tudo.

Mas a casinha estava silenciosa quando chegaram. Nenhum rastro de sangue, nenhum corpo retalhado. Apenas a varanda parcialmente destruída e a linda cerquinha de madeira retalhada.

Hugh e Erin se aproximaram da casa, cautelosos.

O carro de Rachel exibia marcas de arranhões na lataria e o chão de terra batida ostentava pegadas grotescas.

Eles se encararam em silêncio.

 

Rachel tremia, sentada no sofá com Flook no colo e a espingarda na mão, os olhos estatelados de choque estavam grudados na porta. Havia coberto todas as janelas e bloqueado a porta dos fundos com um móvel alto.

O silêncio imperava do lado de fora, sequer os animais ousavam profaná-lo diante do horror que acontecera há pouco.

Ela ainda tremia, o coração batia descompassado e o medo a bombardeava, gelando até o último osso de seu corpo.

O porquinho em seu colo parecia compartilhar do mesmo medo, tremendo e escondendo o focinho em suas vestes.

Quando ouviu passos na varanda, Rachel se precipitou, forçando os olhos a observarem a porta com mais atenção, seu dedo pousou ameaçadoramente no gatilho da espingarda.

Houve duas batidas na porta.

Ela deu um pulo, retesando-se.

 – Rachel? – uma voz conhecida chamou.

Rachel sentiu o princípio de alívio se espalhar por seu corpo. Os olhos se fecharam por alguns segundos e as mãos que seguravam a espingarda relaxaram um pouco.

A batida persistiu e desta vez foi Erin quem chamou seu nome, uma entonação preocupada tingindo a voz doce da mulher.

Rachel se levantou, um tanto hesitante e se aproximou da porta. Seus olhos fitaram a sombra sos pés deles por baixo da porta e ela se sentiu menos temerosa.

Ela entreabriu a porta, colocando a cabeça para fora e encontrando os dois colegas com expressões preocupadas.

 – Rachel, você está bem? – Erin foi logo inquirindo, avançando um passo.

Rachel recuou, visivelmente assustada e Erin arrastou os passos para trás, respeitando o espaço da garota.

 – Estou bem. – ela conseguiu dizer, percebendo o quão falha sua voz estava. – Acho que estou bem.

 – O que aconteceu aqui? – Hugh fitava a varanda arruinada.

Rachel varreu os olhos pela redondeza duas vezes, certificando-se que estava tudo relativamente calmo.

 – Entrem. – ela abriu um pouco mais a porta e permitiu que eles entrassem.

Erin foi cautelosa, tomando cuidado para não assustar ainda mais a garota e Hugh foi gentil em imitá-la. Seus olhos varreram a casa mal iluminada, fitando as janelas firmemente trancadas e a porta dos fundos bloqueada por uma cômoda pesada. Hugh acompanhou seus olhos e eles trocaram um olhar silencioso.

 – O que aconteceu aqui? – ele perguntou.

 – Aquela coisa, predador, o que quer que aquela merda seja, apareceu aqui esta noite! – Rachel desembestou a dizer, eufórica.

 – O urso?

A expressão da garota se fechou.

 – Aquilo não era um urso, puma ou outro maldito animal selvagem!

 – O que era então? – os olhos de Hugh assumiram um brilho astuto.

Erin interferiu, aproximando-se da garota e lhe oferecendo um aperto gentil no ombro.

 – Está tudo bem, querida. Precisa se acalmar.

 – Não! – Rachel se agitou ainda mais. – Nunca vi nada como aquilo! O que era aquela coisa? A força abrasadora, a raiva, a fome…

Os olhos de Hugh avaliaram a garota, fixando-se no braço ferido.

 – Ele encostou em você? – a pergunta foi dita em tom seco.

Rachel seguiu o olhar dele, vendo a manga da blusa manchada de sangue.

 – Não. Eu me cortei na lataria do carro.

Hugh se aproximou a passos largos, tomando o braço da garota e focando a ferida grotesca.

 – Tem certeza disso?

Rachel libertou o braço, recuando.

Erin se aproximou com gentileza.

 – Tudo bem. Vamos limpar essa ferida e fazer um curativo. Depois limparemos a bagunça lá fora e veremos o que fazer, certo?

Isso pareceu a Rachel razoável e ela relaxou um pouco, permitindo-se ser conduzida por Erin até o sofá.

 – Você chamou a polícia? – Hugh perguntou.

 – Não. Não consigo pensar em como dizer ao Xerife que o cão de satanás escapou do inferno e tentou me devorar.

Hugh se sentou na ponta do sofá, soltando um suspiro.

 – Tudo bem. Você está em choque. Relaxa um pouco. Beba um pouco de café e tente clarear as ideias.

 – Acha que estou alucinando e não sei o que vi?

 – Eu não disse isso. Acho apenas que se assustou o bastante para não se lembrar exatamente o que era.

 – Ah, sem essa! – Rachel se levantou num rompante. – Sem essa psicologia babaca de querer dizer que eu acho que vi alguma coisa. Eu vi!

 – E o que você viu?

 – Uma besta enorme, fedorenta e cheia de fome! E estava na cara que queria me devorar.

 – Como conseguiu se livrar dela? – Erin perguntou, calmamente, enquanto a fazia se sentar para limpar a ferida dela.

 – Eu me enfiei debaixo do carro e a outra Coisa apareceu, se embrenhando com a outra e desaparecendo na floresta.

 – Outra Coisa? – Hugh parecia surpreso.

 – Ao que parece Satanás tem muitos cães. – a voz de Rachel se tingiu de sarcasmo.

Erin continuou a desinfectar o ferimento em silêncio, fitando a pele arranhada com atenção. Ela balançou a cabeça uma vez, imperceptível, e deu prosseguimento ao curativo.

Hugh relaxou, recostando-se no sofá com os olhos fechados.

 – Existe mais daquelas coisas. – Rachel disse, eufórica. – E provavelmente vivem na floresta. Foi isso o que atacou aqueles jovens no bar, a Cabana Harper e Tobias Hawke.

Hugh a encarou em silêncio.

 – Eu só preciso descobrir que porra é isso.

Erin suspirou, terminando.

 – Acho que é uma boa ideia descansar primeiro. Você passou por um trauma forte.

 – Não vou descansar! Eu quero saber o que me atacou. Precisamos prevenir as pessoas da cidade e bloquear o acesso á floresta.

Rachel fez silêncio repentinamente.

 – O que fazem aqui? Por que vieram, afinal?

Erin hesitou.

 – Ouvimos coisas esquisitas nas proximidades da floresta. – Hugh disse. – Achamos que podia ser algum animal selvagem e que você poderia estar em apuros.

Rachel estreitou os olhos, não acreditando naquela historinha de merda.

 – Está quase amanhecendo. – Erin disse, interferindo novamente. – Por que não descansa um pouco? Ficaremos aqui com você.

 – Já disse que não quero descansar. – o olhar da garota estava carregado de desconfianças. – Não estão acreditando no que estou dizendo ou estão convenientemente ignorando.

 – Acredito em você, Rachel. – Erin a fitou nos olhos. – Eu vi a varanda e as marcas em seu carro.

 – Então por que diabos não está desesperada como eu?

 – Porque sabemos o quão selvagem são essas montanhas e florestas. Esse não é o primeiro ataque de um animal selvagem.

 – Não foi um animal selvagem.

 – Você mesma disse que nunca havia visto isso.

 – Exatamente. Eu tenho um parco conhecimento sobre espécies selvagens, então quando digo que nunca vi aquela coisa é porque não é um maldito animal selvagem!

 – Cães de Satanás não é uma descrição que lhe dará credibilidade com o Xerife. – Hugh disse, sensatamente.

 – Pois é exatamente isso que pareciam.

 – Rachel…

 – Eu quero ficar sozinha. – a garota respirou fundo, sentindo as lágrimas empoçar seus olhos. – Só quero ficar sozinha, por favor.

 – Ficar sozinha não é uma boa ideia agora.

 – Ela tem razão. – Hugh se apressou em dizer, lançando um olhar significativo á Erin. – Devemos deixá-la organizar seus pensamentos, se acalmar um pouco e quem sabe dormir.

Ele se aproximou de Rachel.

 – Quando estiver se sentindo melhor, nos ligue. Tome o tempo que precisar.

Rachel encarou aqueles olhos claros, mas não se deixou enganar pela falsa aura amistosa.

Ela assentiu em silêncio e os observou ir embora. Quando o som do carro desapareceu pela estrada, ela pulou do sofá, trocando de blusa às pressas e rumando para as casinhas mais afastadas, próximas ao rio.

O céu já ostentava os primeiros raios da manhã, turvando-se numa coloração misteriosa.

Conforme rumava pelo caminho de cascalhos naturais, Rachel não pôde conter as lembranças assombrosas daquela noite. A criatura horrenda, as patas enormes de garras afiadas, a boca de dentes pavorosos, o hálito quente e fétido, o grunhido ensurdecedor…

O que diabos era aquilo?

Em sua mente borbulhava uma suspeita, era fácil assemelhar a imagem daquela criatura com os filmes que assistira. Fácil demais comparar as mortes na floresta com as lendas. Mas sua mente racional rejeitava qualquer teoria baseada em lendas antigas para assustar garotinhas frágeis.

Seus passos prosseguiram, desta vez com mais firmeza, levando-a para a primeira casinha graciosa a surgir. Como a que alugara, essa também era cercada por uma cerquinha de madeira harmoniosa, as paredes num tom rosa bebê, a varanda ostentado vasos de rosinhas vermelhas espalhados pelo deque envernizado, uma cadeira de balanço e uma mesinha de vidro onde havia um bule de porcelana e duas xícaras.

Rachel passou pela cerquinha de madeira, aproximando-se da varanda com hesitação. O silêncio imperava por ali.

Havia um sino antigo pendurado no arco de entrada e ela o tocou, aguardando com impaciência. Se pensasse muito no que estava fazendo desistiria uma vez que a ideia lhe parecia absurda. Mas ela precisava saber!

Alguns minutos se passaram antes que alguém finalmente atendesse a porta. Soren surgiu usando apenas uma calça de moletom. Seu peito magro estava nu, ostentando poucos músculos pálidos e uma tatuagem do sol asteca no peito esquerdo. Ele trazia o semblante sonolento, esfregando os olhos.

 – Um pouco cedo para visitas não, Bones? – ele disse com seu sorriso matreiro.

 – Preciso falar com Charlotte.

Soren franziu o cenho, analisando bem a expressão da garota.

 – Mamãe está se preparando para o café…

Rachel passou por ele e adentrou a casa. Em geral, não era dada a esse tipo de comportamento. No entanto aquilo era importante.

O aroma de pão recém assado e café invadiu seu nariz tão logo adentrou a casinha graciosamente decorada.

Charlott estava sentada á mesa, servindo uma caneca de café. Ao lado da senhora havia dois cãezinhos, um Pug e uma Pinscher. Eles rosnaram quando a garota se aproximou, atraindo o olhar de Charlott.

A senhora a fitou com surpresa.

 – Sinto muito vir tão cedo e interromper seu desjejum, mas realmente preciso conversar com a senhora.

Charlott a encarou por alguns segundos, procurando algo na expressão da menina. Ela soltou um suspiro compreensivo e assentiu para si mesmo.

 – Espere lá fora, Soren.

O rapaz franziu o cenho, mas obedeceu. Apanhou um pãozinho de cima da mesa e saiu revirando os olhos para as loucuras da mãe.

Charlott se levantou e fechou bem a porta da sala, convidando a garota a se sentar no sofá de pelúcia cor de rosa. Os cachorrinhos acompanharam a dona, ajeitando-se nas almofadas espalhadas no canto do tapete felpudo.

 – Eles vieram atrás de você, não foi? – Charlott disse com pesar. – Uma jovem tão bonita e inocente, estava claro que ia despertar o interesse deles em corrompê-la. Ouvi os rosnados na madrugada.

 – Você ouviu? – Rachel parecia horrorizada.

 A mulher balançou a cabeça.

 – Eles não a arranharam ou morderam, não é? É assim que corrompem os inocentes.

 – O que são eles?

 – Bestas do inferno. – Charlott se benzeu. – Tem certeza de que não foi ferida? – seus olhos se demoraram no curativo no braço da garota.

 – Eu me machuquei na lataria do carro. – Rachel disse, distraidamente – Nunca vi nada como aquilo na minha vida!

Charlott não pareceu muito convencida de que a menina estava falando a verdade sobre o braço. Seus olhos continuaram mirando o curativo com atenção enquanto ela mordia o canto da boca.

 – Se foi ferida por um deles precisa me dizer com sinceridade. Conheço pessoas que podem ajudá-la.

Rachel franziu o cenho, olhando para o próprio braço e então novamente para a senhora.

 – Ajudar?

 – Eu lhe disse, menina. É assim que eles corrompem a alma de uma jovem. Pela mordida.

 – Como uma infecção?

O horror toldou a expressão da jovem e ela se pôs de pé. O conto de fadas que antes assombrara sua mente se aproximava perigosamente de ser real.

 – Senhora Blanc, o que eles são? – ela repetiu a pergunta.

 – Eu já lhe disse: Filhos de Satã.

 – A senhora há de convir que tenho certa dificuldade em acreditar nisso. O que me atacou na madrugada foi muito real.

 – Acha que os filhos de Satã são histórias inventadas para assustar garotinhas católicas? Pois bem. Darei algo que sua mente reconheça. Filhos da Lua, Amaldiçoados, Servos de Licaonte, Aqueles que Uivam para a lua nas Noites de Lua Cheia, Loup Garou, SkinWalkers, Licantropo.

A expressão da velhinha se tornou sombria.

 – Em qual deles prefere acreditar?

Rachel recuou dois passos, fitando a senhora com o cenho franzido.

 – Eu entendo a sua dificuldade em crer. Essas criaturas são parte de lendas não plausíveis para uma mulher como você acreditar. Mas acredite. Eles estão por aí. Vagam pela terra desde não sei quantos séculos, atravessando com sua imponência, fazendo os homens se curvarem diante de sua fome, ofertando sacrifícios á lua e deixando para trás uma trilha densa de sangue e corpos dilacerados.

Charlott fez uma pequena pausa, observando o semblante da jovem.

 – E a sua queridinha é um deles. – Charlott disse com certa crueldade. – A garota desajustada, Moon – ela pronunciou o nome como se fosse uma praga. – É a meretriz satânica que corrompe e devora o coração dos homens na floresta.

Rachel balançou a cabeça efusivamente.

 – Charlott, não pode acusar as pessoas de monstruosidades e inventar um disparate desses somente porque não aprova o estilo de vida delas! – Rachel praticamente gritou, tremendo numa raiva odiosa.

A senhora deu um sorrisinho sinistro.

 – Eu a vi. Há muitos anos, na floresta. Uma menina nua com os mesmos traços, devorando um cadáver parcialmente comido ao lado da mãe. Eu tinha sete anos na época… E a garota não mudou absolutamente nada. Continua jovem, bela e saudável. A personificação nefasta da sedução de Satanás!

 – Charlott!

 – Ele a banhou em sangue! Deu a ela poderes satânicos e a fome de cem cães do inferno!

 – Pare com isso! – Rachel avançou contra a senhora, segurando-a pelos ombros. – Se continuar dizendo tais absurdos vai incitar uma turba! Não faz ideia de como as pessoas embotadas pelo medo podem ser perigosas.

 – Eu não me calo! Tenho Deus ao meu lado. Nenhum filho de Satã pode com uma serva de Deus! A amiguinha que você tanto defende matou milhões desde que foi amaldiçoada por Satã. E não me surpreenderia nada se fosse ela a criatura que tentou te matar! Ela é a responsável por sua maldição. Uma mordida ou apenas um arranhão e você é corrompido.

Rachel recuou dois passos, soltando a mulher.

 – Sua velha lunática. Eu me arranhei na lataria do carro.

 – Espero que esteja dizendo a verdade, menina. Ou será a sua desgraça se fartar em carne e sangue, honrando Satã a cada lua cheia.

Rachel se virou com brusquidão e desatou a correr para fora daquele antro de maluquices.

 – Corra, Cordeirinho! Esconda-se enquanto pode!

Charlott avançou para a varanda.

 – Mas não esqueça que tem a proteção de Deus quando resolver servir á causa Dele!

Rachel correu pelos cascalhos úmidos, sentindo o vento açoitar seu rosto com violência.

Sua mente era aprisionada por um turbilhão de emoções desconexas. Terror, ceticismo, curiosidade, indignação, raiva, ultraje.

Apesar de achar loucura tudo o que a velha dissera, uma pontinha cruel de incerteza pairava em seu âmago.

 

 

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