Seven Sins – Orgulho

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“Haviam três damas…
Três damas bem diferentes de olhar frio e ar exigente!
Haviam três cavalheiros…
Três cavalheiros elegantes, trajando cartolas e de sorriso inebriante!
Tinham sede, sede rubra de sangue.
Deixando apenas no recinto nauseante, um autor sem coração pulsante.
-Assim contava aquele que de fora, tornou possível aquele instante…”

– Respeitável público!

Fui acordado pela voz de trovão ribombando em meus ouvidos como se houvessem vários altos falantes aos redor de minha cabeça, a salva de palmas parecia vir de uma multidão, mas no recinto só haviam sete pessoas, observando – me, olhando com curiosidade, vez ou outra sorrindo com o que viam, olhos brilhantes, olhar de minúcia…

– Eis entre vós, meus caros irmãos, o relator tão eficiente de nossa jornada. Aquele que amou sonhar cada palavra do que transformamos em realidade. Como sentiu – se quando mostrou – nos ao mundo? Orgulhoso? Despiu nossas máscaras, suas máscaras… Eis aqui diante de vós, criador, tuas criaturas. Aquelas que com tanto prazer e empenho descrevestes, e tão bem alimentastes…

Reconheci primeiro os sapatos de verniz vermelho e o rosto um tanto quanto infantil, ela descia os degraus decidida e com um sorriso de escárnio se dirigia a mim.

Meu primeiro pensamento: sentir – me confuso. Como aquilo que eu havia sonhado, havia criado e descrito com tamanha riqueza de detalhes, havia ganhado vida? Seria alucinação?

Tentei me levantar de onde estava, mas foi inútil, meus pés e mãos estavam afivelados em uma cadeira velha de madeira e diante de mim estava uma máquina de escrever antiga e  meu caderno de anotações, com cada rascunho e ideia que eu tinha sobre cada um deles e de meus mal fadados contos que não obtiveram o mesmo sucesso.

– Finalmente nos encontramos meu querido assassino. Sabe a que sua Gula se remete? Ao sangue… Sangue pelo qual você saliva ao olhar para uma garganta, sangue que você sente prazer em descrever  de modo tão frenético a cor, a morte, a riqueza dos detalhes ao descrever as vias pelas quais o liquido precioso corre em suas e nas veias alheias. Você já se importou com alguém mais do que com essa sua famigerada fome? – perguntou – me ela.

Eu não conseguia parar de olha – lá, as mãos frias correram pelas palmas de minhas mãos enquanto ela procurava uma de minhas veias próximas aos pulsos.

A dor veio lancinante, meus olhos arderam em lágrimas, aquilo queimava. Meu sangue agora escorria lentamente.

– Teu sangue me é pedido como pecado. Teu sangue pertence a mim, a mãe de todas as fomes, teu pecado encarnado em vida, ele me será dado de bom grado por ele. – dizia ela, de costas para mim e falando com seus irmãos. – E escreverá tua história a partir de agora.

Num estalar de dedos dela a máquina de escrever correu de um lado a outro, digitando palavras vermelhas com precisão no rolo de papel que se estendia no chão subindo até ela.

Eu seria entregue ao meus pecados nesta noite, mas aquele se quer passava perto do meu pior tormento.

Ira me olhou de soslaio, apertando um pouco os olhos como quem tenta ler a mente do outro, aquele olhar me causou arrepios. Lembrei – me do meu tio, na infância, que gostava de acariciar nosso corpo, fingindo que abraçava, dos socos e chutes que levei na escola durante meses, afinal eu era o novato, tinha que ser ridicularizado diante de todos.

Eram lembranças infernais, corroendo minha mente, vindo como um filme, e ele assistia a tudo, sorrindo e analisando a mudança dos vincos de minha face ele parecia se divertir me vendo naquele estado. Foi então que lembrei da arma…

Um Carnaval em 1988… Meu tio… A criança que ele pegava no colo…Não!

Ele jazia morto no meio da multidão, a criança correndo chorava, o sangue corria sob os pés dos foliões, máscaras, confetes, serpentinas, ele jamais a tocaria, nem a ela nem a ninguém mais…

Ele bateu palmas satisfeito, sorria diabolicamente em minha direção, eu o havia sentido com todo meu ódio fervendo no sangue que ainda escorria, as palavras na folha em branco tornaram – se mais escuras, um vermelho beirando o negro.

Touché! – disse ele fazendo o movimento de um florete no ar e colocando as mãos diante de sua face, declarando – se vencedor.

Ele pareceu satisfeito com o que havia me feito lembrar, minhas mãos sujas de sangue, a fuga de casa, o ódio da família, ninguém entendia o porque. Nem mesmo quando minha prima disse o que ele havia feito e fazia com as crianças da casa.

Eu os odiava. Desejei – lhes a morte e prometi vingança, mas nunca voltei atrás e me criei sozinho no mundo depois daquilo. Indigente, sem laços…

Era aquele constante estar só, aquilo habitava minha alma me corroendo desaforadamente. Eu via casais na rua e sonhava com aquilo pra mim, desejava até a mesma mulher.

Os filhos, as festas de família que acompanhava de amigos e os maldizia por terem tudo e eu apenas sendo a maldita sombra daquilo. Que te tipo de ser humano eu era que não merecia se quer isso?

Inveja me olhava sorrindo e só então entendi o por que, a minha mente estava trabalhando a favor dela, que caminhava sinuosa chacoalhando uma pequena latinha, a maquina de escrever estava frenética e mesmo sem conseguir ler, eu sabia que ela digitava cada pensamento meu, cada palavra, cada sensação que eu estava sentindo neste exato momento.

– Agulhas… – foi apenas o que ela me disse.

O alvo de cada uma delas foi o meu olho esquerdo, nas laterais à principio, a retina ardia e meu olho lacrimejava, correndo de um lado á outro, eram cinco, tornaram – se incontáveis quando ela passou á enfia – lás uma por uma na íris de meu olho, o sangue quente corria por meu rosto, molhando meu pescoço, enquanto eu gritava insanamente.

Me parecia cruel agora, mas eu mesmo já tinha usado aquele tipo de tortura em personagens e ansiava por vezes fazer com minhas próprias mãos, nem mesmo assim eu me sentia culpado.

– Guardarei o restante para o gran finale, afinal de contas você precisa assistir a tudo o que vai lhe acontecer, será um espetáculo! – disse – me empolgada.

Ela estava vestida de azul e me assistia arfar de dor com o tédio estampado em seu rosto, lembrei – me de quando a criei e me perguntei quando eu havia vivido em tal pecado.

– Nós sempre vivemos com a preguiça, meu caro. – disse ela desembainhando uma adaga e enfiando nas minhas pernas, eu urrei de dor e não suportando urinei, ela descia a adaga rasgando minha carne como se fosse papel.

Só assim me lembrei dos documentos da empresa de RH que eu trabalhei, eu achava um jeito de sempre encontrar alguém que fizesse o trabalho por mim e ganhar o mérito, eu odiava trabalhar, odiava meu chefe e as garotas que se vendiam fáceis por um drink na Sexta – Feira após o expediente.

Dos dias que ficava a  morar no meio da sujeira e pagava verdadeiras misérias a diarista, que sempre me foi tão educada e eu por vezes da ressaca sempre rude. As caixas de pizza espalhadas, a roupa suja de batom, as camisinhas jogadas em qualquer canto o banheiro cheirando a urina, eu via e nada queria fazer, afinal de contas eu sempre poderia pagar alguém e encontrar minha casa cheirosa quando voltasse, daquele inferno de lugar.

Eu nem notava que nas pequenas, nas ínfimas coisas eu alimentava os pecados que eu criará com voracidade me inspirando nos outros, nos defeitos alheios sem notar os meus próprios.

– Ele é perfeito, não? – me falou aquele a quem eu não havia escrito uma linha. – Não fomos devidamente apresentados, afinal de contas eu sou aquele pecado que você está se perguntando quando o cometeu, não? Como escrever sobre algo que você desconhece? Te darei o meu “presente” no final de tudo, eles tem coisas á te mostrar e alguns detestam quando interrompo. – disse – me ele se aproximando de meu ouvido sussurrando.

Era o turno de ser avaro e o senhor idoso descia os degraus com dificuldade, enquanto eu sentia as fivelas em minhas mãos e pés se apertarem mais, a aparência era doentia, bem mais do que eu havia descrito. A idade deveria estar para mais de cem anos, as costas encurvadas, ele se arrastava lentamente, e ninguém no recinto se manifestava, as mãos começam a ficar dormentes, enquanto a ponta dos dedos se arroxeavam, parecia que tudo ia se partir, começou a latejar. Eu não suportaria por mais tempo tamanha dor, ma também não tinha, ainda a plena certeza de que era tudo era real.

Minha ânsia desejava que tudo não passasse de uma noite presa num pesadelo terrível e que quando acordasse tudo fosse apenas mais uma ideia para o fim absurdo de minha obra. Ledo engano.

Perdi os tendões e ganhei um corte profundo nos pulsos e nas pernas, eu via meus músculos expostos e o sangue correr quente em direção ao chão, não havia se quer um momento desses em que a máquina tivesse parado sua edição macabra, a folha continuava  a subir freneticamente, eu implorava, mas de nada adiantava, ali não existia clemência, como também ela não mais existia em mim já a algum tempo.

Avareza chegou a mim cansado, puxando ar para os pulmões com dificuldade, tocou minha testa e me chamou de culpado e usurpador, não me disse mais que isso, minha cabeça parecia se abrir com a dor que senti a seguir. Eu a sacudia feito um louco,tentando segura – lá, minhas mãos não mais respondiam aos movimentos e o sangue em meus pulsos se tornava uma coisa seca, coagulando, se tornando negro.

Eu só podia estar enlouquecendo.

– Seu dinheiro sempre foi a razão, não é mesmo? Para tudo… – ele disse com a voz pesada e o ar rabugento, os olhos verdes agora me fitavam, oscilando entre tons cinzas, negros e âmbar. – Para matar, para humilhar, para ferir, para fazer as pessoas se sentirem inferiores, quantos mais depois de se tio você “assassinou”? Não digo a carne, mas quanto você quis guardar para si, causando danos alheios á outras pessoas? Vocês vivem em cadeias e uma simples atitude pode destruir a vida de muitos. Lembre- se dos empregados que foram mandados embora por engano e do que você ganhou quando ajudou nesse processo, o funcionário do mês, aquele que recebia seus lucros e os escondia sem jamais usufruir apenas do necessário. Para quem ficará teu rico dinheiro agora, Augusto? Para que acumular tantas riquezas, construir tantos inimigos se nada você levará consigo?

A aparência dele mudou drasticamente, do velho caquético, um rapaz moreno apareceu, seus lábios eram grossos e sua aparência jovial, nas mãos havia uma balança e me perguntei por uma fração de segundos para que servia.

– Conheces Anúbis? – ele se aproximou sem me dar tempo para dar resposta e enfiou a mão em meu peito, meu coração ficou ali, palpitante, quente e ensanguentado. A balança pendeu e o rapaz sorriu.

Eu de olho arregalado não acreditava, como poderia ainda estar vivo?

– Corrompido! – foi sua sentença ao virar – se de costas para mim e olhar para seus irmãos.Vi sorrisos extasiados, como quem espera alegre pela próxima refeição.

Eu sentia cada parte ferida de meu corpo começar sua parada definitiva rumo a morada da morte.

Ele passou as mãos pelo cabelo antes de vir até mim, ainda não seria o “xeque – mate”, mas causaria dor.

Luxúria ao seu dispor. – disse ele fazendo uma reverência exagerada e levantando as mangas do paletó no qual estava vestido, o braço era marcado por tatuagens que representavam seu nome em diferentes culturas.

Me lembrei dos corpos e das chantagens que fiz para obter transas proibidas, assédios por corpos comprometidos que me diziam NÃO várias vezes, mas eu achava um jeito. Minha ambição eram os corpos, a beleza, vê – lás submissas e vê – lás chegarem as lágrimas, eu era um sádico que sempre desejava mais.

– Olha ele sabe por que está aqui. – disse ele em tom de deboche enquanto lia a folha caída ao chão.

Primeiro veio o gosto do alicate enferrujado na boca, invadindo – a e arrancando – me a língua fora, eu não poderia mais falar, aliás eu já estava morto.

As seringas foram aplicadas sem piedade, como quem portasse uma faca e tentasse exterminar uma vítima o mais rápido possível.

Eu não sei o que era aquilo correndo em minhas veias, mas queimava, devorava minha carne como se fossem milhões de insetos, a falta de ar me fazia convulsionar desesperadamente enquanto meu único olho bom se revirava, ficando apenas a retina leitosa a mostra. O sangue que saia de minha boca se misturava á uma espuma espessa, e mal cheirosa.

Eu estava pedindo a morte, mas parecia que ela estava de folga.

Eu pedia para acordar do pesadelo, mas eu estava encarcerado ali, naquela tortura intermitente.

– Irmão. – disse ele. – Faça as ordens…

Ele estava sentado, um pouco encurvado com os cotovelos sobre os joelhos, analisando minuciosamente a cena a sua frente.

Meu corpo se contorcia, mas minha mente parecia que estava ali, ligada ao corpo, mas livre pra perambular no recinto. Livre pra descrever meus terrores daquela noite. Livre pra descrever com minhas palavras pelo o que eu estava passando.

– Como é bom se sentir no topo de tudo. Como o predador e não como a caça, não é mesmo? Ambos entendemos qual a sensação de saciedade que o poder trás. E não é a toa que estamos aqui.

O preço a ser pago pelas coisas das quais você não se arrependeu é ser apenas consciência. Sem alma, sem corpo… Apenas uma consciência a vagar pelo mundo, ciente de cada dor e sentindo cada dor das vítimas que tão bem descrevestes.

Qual não foi minha surpresa ao olhar ao redor e ver cada corpo que havia descrito ali, em estado de decomposição.

– Eles serão tua companhia pela eternidade.

Um á um eles se levantaram, em meu único olho bom ele despejou ácido, minha pele foi corroída de imediato, deixando a mostra os ossos de meu crânio e uma orbita vazia, meu sangue que fora pedido por Gula agora se findava, meu corpo ficava seco…

Não tinha mais volta, almas agora se aglomeravam ao meu redor e enquanto eu murmurava em desespero eles partiam, sumindo no ar feito fumaça.

Vermes começavam um desesperado caminho em direção ao meu corpo, para devora – lo, na mesa onde estava a máquina de escrever minha cabeça pendia sobre a folha.

Éramos as almas roubadas por nossas ganancias e anseios, deformadas por nossos vícios e desejos…

Éramos agora, os pecados que caminhavam entre vós, alimentando – nos diariamente do que vocês negam ter…

 

 

“Nascemos da triste sinfonia, diziam os antigos.
Tempos depois, era após era fomos chamados de erro de Pandora.
Nós caminhamos entre vós, como belos senhores e doces senhoras.
Lhes inspiramos atrocidades, mas também lhes trazemos o prazer dos doces pecados.
Nós caminhamos entre vós… Caminharemos entre vós…”

 

 

FIM…

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A todos que chegaram até aqui o meu muito obrigado!!!

Por terem acompanhado, compartilhado ajudado com os comentários…

Espero que tenham gostado de ler tanto quanto eu gostei de escrever.

Nos vemos na próxima aventura…

😉 L. Orleander

 

 

 

 

 

Um comentário em “Seven Sins – Orgulho

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