Prisão Rubra

Por: Natasha Morgan

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Ela o conheceu num passeio ao bosque da cidade. Um rapaz educado de sorriso doce, divertindo-se com a família em meio ao festival de primavera. Seus olhos tinham o tom de um castanho intenso e os lábios finos se repuxavam num sorriso encantador.

Lolla estava atravessando a grama verdinha, próxima á fonte quando os olhares se cruzaram numa sintonia contagiante.

Apenas um sorriso e o encontro foi marcado.

Combinaram de se encontrar num café, próximo ao farol. E naquelas mesinhas cor de teca iniciaram uma conversa entusiasmada.

O beijo veio logo em seguida, no portão de casa. Os lábios sedosos se encontrando com suavidade e depois sofreguidão.

A primavera foi intensificada de flores e cores para o jovem casal, abençoando a relação com alegria

O verão foi igualmente florido em cores alegres. E o inverno, apensar de cinza, foi aquecido pelos corações apaixonados.

Foi na primavera seguinte, no mesmo festival, quando ele pediu a mão de Lolla em casamento.

Pedido um tanto equivocado uma vez que não se conheciam tão profundamente. Mas o coração dos apaixonados, em geral se convence de que o amor é tudo o que há.

O casamento ocorreu no meio do verão num festejo elegante e cheio de flores frescas.

Dos pais amorosos, Lolla ganhou passagens para Paris e lá celebrou uma lua de mel abençoada por Afrodite.

John não podia ser mais atencioso, amoroso e dedicado depois do casamento. Era um marido maravilhoso ao qual a esposa não tinha do que se queixar.

Lolla ouvira e presenciara histórias de amor equivocadas nas quais, depois do casamento, o marido se tornava distante e revelava uma personalidade diferente ao qual a esposa o conhecia. Mas John era exatamente a pessoa amável que se mostrou desde o primeiro encontro.

Suas vidas juntos floresceu como um jardim silvestre. A prosperidade reinava, a amizade fortalecia-se e o casal caminhava junto em passos tranquilos.

John trabalhava como músico num restaurante renomado e ocasionalmente se apresentava em estabelecimentos menores, arriscando-se muito de vez em quando nas orquestras mais sofisticadas da cidade. Enquanto Lolla tinha espaço e liberdade para cursar sua faculdade e trabalhar como jardineira nas casas mais bonitas dos nobres bairros que enfeitavam a cidade.

O tempo corria relativamente bem, abençoando o afortunado casal.

Não havia motivos para reclamações ou infortúnios.

Até que o inverno se estendeu em sua frieza, penetrando as cores alegres com seu cinza fosco.

Lolla se apercebeu de sua infelicidade naquela noite tempestiva, enrolada nos lençóis ao lado do marido adormecido.

A tristeza se aproximou de seu coração, derrubando o equívoco de sua felicidade.

Olhou para o rosto bonito do marido e se perguntou o que é que havia de errado. O que desejava seu coração que já não houvesse conquistado?

Aquele momento de dúvida a assombrou naquela noite. E nas noites seguintes também.

Tentou conversar com a mãe sobre o que sentia, mas obteve uma resposta ríspida e moralista.

O que lhe faltava? Perguntara a mãe.

– O que mais quer de uma vida onde tem tudo o que poderia desejar? Um marido excelente que a ama incondicionalmente, uma carreira promissora, uma casa elegante. Talvez esteja na hora de ter un filho!

– Filhos não resolvem problemas e é um egoísmo tê-los nesse intento. Não, não quero filhos quando tantas dúvidas me assombram as ideias.

– Ora então o que quer?

– Eu não sei. – suspirou ela em frustração.

– Lolla, está reclamando de barriga cheia! Não há por que se sentir insatisfeita com a vida que tem.

Lolla ficou em silêncio durante um tempo. Quando voltou a falar, sua voz carregava uma tristeza profunda.

– Acho que não amo mais o John.

A mãe arregalou os olhos em ultraje.

– E como poderia não amar um homem como ele? Um rapaz decente, esforçado, que lhe faz de tudo e a trata tão bem!

– Eu não sei. – suspirou novamente Lolla – Ele é maravilhoso. Apenas não correspondo mais aos seus sentimentos.

– Há outro homem em sua vida?

– Não. Claro que não.

– Então a sugiro dissuadir-se dessas ideias descabidas. Acaso preferiria que ele a tratasse mal, vivesse enfurnado em bares até altas horas da madrugada na companhia dos amigos e deixasse os serviços de casa tudo a seu critério?

– Não, claro que não.

– Pois então deixe de lamúrias e dê valor ao marido que tem.

– Eu dou valor a ele.

– Pois não parece. Dizendo que não o ama mais, procurando coisa onde não tem. Acaso prefere ficar sozinha, ser cruel com alguém que tanto a ama? Não seja boba, Lolla. John é o amor de sua vida. Não se atreva a perdê-lo por disparates!

Lolla nunca mais tocou no assunto com a mãe. As palavras ácidas que lhe foram proferidas em tom moralista a fez calar seus lamentos e dar seguimento a um casamento esquecido por Afrodite.

John era um marido fantástico e, mesmo diante do semblante melancólico da mulher continuou atencioso, esboçando preocupação.

Mas Lolla não lhe disse nada, temendo dilacerar seu coração amável. Engoliu sua insatisfação, sua tristeza e guardou as dúvidas para si mesma.

Ela tentou conversar com as amigas mais íntimas, cautelosa a princípio. E recebeu de cada uma as mesmas respostas que a mãe lhe dera.

Blanca ainda ressaltou, amavelmente:

– Casamentos passam por crises como essa. Não vale a pena abandonar o barco na primeira crise. É preciso lutar para preservar um casamento. Deus sabe o que Steve e eu já passamos.

Lolla a fitou com lágrimas nos olhos.

– Mas, Blanca, você e Steve são felizes.

A amiga lhe sorriu com amabilidade.

– Ah, tenho certeza de que vai ficar tudo bem entre vocês.

Mas Lolla duvidava muito disso. Começara ver tristeza não apenas no reflexo de seus olhos no espelho, mas também no olhar de John. Sua melancolia o estava atingindo também e, por mais que se esforçasse, não conseguia desanuviar sua expressão tristonha.

Decidiram ter um filho no verão. Movida pela insistência da mãe de que uma criança lhe traria alegria novamente e faria com que voltasse a amar o marido, Lolla decidiu engravidar e obteve sucesso na primeira tentativa.

John se exaltava em felicidade, mimando-a durante a gravidez inteira, dedicando-se ainda mais á esposa tão amada. E a cada demonstração de amor sincero, Lolla se culpava ainda mais por não correspondê-lo.

O que havia de errado com ela?

Como pôde deixar de amar um homem tão maravilhoso como John?

Essa era uma incógnita de seu coração cruel.

A criança nasceu num dia florido de primavera, um menino gracioso e saudável. Mas ao contrário de trazer de volta a alegria para Lolla, trouxe com suas risadas uma melancolia ainda mais densa.

Ela o amava, o filho tão querido. Mas os sentimentos pelo marido turvaram-se até não restar absolutamente nada.

O afeto de outrora, a amizade e companheirismo se tornou ressentimento. Como um preso se ressente das grades cinzas de sua cela.

Lolla se sentia numa prisão grotesca, afundando-se cada vez mais no lodo lamacento sob o qual aquele casamento a prendia.

John se tornou igualmente melancólico. Seus sorrisos eram reservados ao filho, a criança inocente que eles puseram no mundo e que não merecia conviver em meio a uma casa tão tristemente cinzenta.

Ele não cobrava a mulher, mas seus olhos lhe pediam silenciosamente que o libertassem caso ela não o amasse mais, pedido esse que Lolla não ousou conceder uma vez que todos abelhavam em seu ouvido que seria uma ingrata caso se separasse.

A mãe era a que mais lhe despejava críticas, aconselhando que se esforçasse mais para salvar aquele casamento.

E, por mais que estivesse infeliz e duvidasse que seus esforços fossem obter algum resultado de resgate ao seu casamento, Lolla acatava o que lhe diziam por medo de ser deveras cruel com aquele que tão bem lhe tratava.

Lolla não tinha medo de ficar sozinha, como a maioria de suas amigas. Em seus momentos de sinceridade para consigo mesmo, ela admitia que ficar sozinha seria algo aceitável.

Também não tinha receios de criar o filho divorciada. Sabia que ele sentiria muito, como a maioria das crianças, mas tinha certeza de sua capacidade em amenizar aquela situação.

O que a assombrava como o mais nefasto monstro era a possibilidade de magoar um homem que sempre lhe foi deveras gentil e lhe ofereceu tão sincero amor.

No fundo, com tantas pessoas aconselhando de que aquela situação era normal, ela se achou responsável por não amar mais o marido.

A culpa era inteiramente sua.

Talvez fosse uma alma cruel, desejosa de despedaçar outras almas e destruir os sonhos alheios.

Em seus momentos mais terríveis, ela acreditou piamente que fosse culpada e cruel por tudo isso.

E teria se afundado completamente nesses sentimentos deploráveis, levando a família na infelicidade se não tivesse conhecido Joyce.

Conheceu a moça de aspecto desimpedido num clube de leitura. A cabeleira negra em cachos exuberantes e a postura firme de mulher que se impõe chamou sua atenção para a garota.

Joyce falava muito em liberdade, amor próprio e o direito de viver. Era contagiante escutá-la. As duas acabaram numa conversa inebriante num café próximo ao lago, onde Lolla expôs sua tristeza e dúvidas.

– Eu percebi seu olhar. – Joyce dissera. – Um ponto sem luz no meio de tantos olhos brilhantes e entusiasmados.

Ao contrário de suas amigas e família, Joyce não tentou convencer Lolla de que a infelicidade é uma coisa normal. Tampouco apresentou argumentos sobre a salvação de um casamento.

– A questão é muito simples, minha amiga, se você não está feliz, liberte-se. Nada mais horrendo do que aprisionar uma alma se você não a ama mais. Sua tristeza o condena também. E não importa se ele é o melhor marido do mundo e se você nunca mais encontrar um homem como ele. Manter um relacionamento quando você não o ama mais é ser cruel. Com ambas as partes.

Com palavras simples e conselhos sutis, Joyce dissuadiu Lolla da ideia absurda de que ela era culpada por não amar mais o marido.

Aos poucos, Lolla foi colocando sua cabeça no lugar. Sem o estigma que seus familiares despejavam em seus ouvidos, ela foi capaz de ter um parecer sobre o que realmente sentia e valia a pena.

O que queria da vida?

Era realmente justo condenar John a um casamento isento de amor da parte dela? Não seria isso puro egoísmo?

Enchendo-se de coragem, Lolla decidiu ter uma conversa séria com o marido naquela noite.

Vítor estava dormindo no quartinho que montaram para ele. E John estava recostado em sua poltrona de couro, olhando sem realmente ver a tela da tv.

Lolla se sentou ao lado dele, apanhando o controle remoto e desligando o aparelho.

Os olhos melancólicos do marido se voltaram para ela, encontrando o olhar igualmente triste que ela exibia no rosto cansado.

– Precisamos conversar.

John ficou mudo por um instante antes de seus olhos empoçarem-se de lágrimas e ele assentir silenciosamente.

Sim, ele sabia.

O momento fatídico chegara. E, apesar da dor intensa que se instalara em seu coração, ele se sentiu aliviado.

Enfim seria forçado a se libertar da relação a qual ele jamais tivera coragem de dar um basta.

Com palavras breves e angustiadas, Lolla os libertou daquela prisão cinzenta. E pela primeira vez em onze anos sentiu o alívio lhe preencher a alma.

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