Coven das Rosas (Pt. 5) – Reencontros

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Coven das Rosas

Reencontros (Pt. 5)

Escrito por: Lua Morgana

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Liz

Assim que cheguei em casa, depois de longos dias internada – parecia que eu estava em um universo paralelo e o tempo não passava – tinha uma festa daquelas bem clichês comemorando a minha chegada. Tinham faixas, balões, comida e muita gente! Todos da vizinhança estavam ali, comemorando minha volta e pedindo desculpas pela forma com que fomos tratadas. Filipe estava ali também, me deu um buquê de rosas vermelhas e disse que depois da festa queria conversar comigo… Meu coração acelerou. Estava nervosa, porém feliz.

Kass me deu um colar lindo com uma metade de um coração escrito “best” e me mostrou o dela que estava escrito “friend”! Fiquei emocionada com aquela demonstração de carinho que havia acabado de ganhar. Acho que nem em todos meus aniversários ganhei tanto presente na vida. Desde pequenos bilhetes a ursos de pelúcia e chocolates, foi muito gratificante saber que eu era querida por aquelas pessoas e que elas estimavam minha melhora. Foi melhor ainda saber que nosso Coven finalmente estava sendo aceito naquela comunidade.

Todavia, mesmo com toda aquela festa e animação, não saia da minha cabeça nem por um segundo o que o Filipe tinha para falar comigo. Segurei minha ansiedade e me concentrei nas pessoas que me rodearam para eu não surtar.

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Alanna

Desde o dia do ocorrido, havíamos recebido todo o tipo de suporte das pessoas vizinhas ao nosso Coven. Muita gente se solidarizou com nossa tragédia e nos ajudou com doações e sorrisos… Era lindo de se ver! A gente só queria ser aceita, nada mais que isso. Nosso Coven é voltado apenas para educação de jovens bruxas na Arte, nada mais.

As pessoas vizinhas começaram a enxergar as bruxas como gente, não como seres demoníacos. Apesar de não termos as mesmas crenças, éramos igualmente ser humanos. Não vou mentir que alguns ainda torciam o nariz para nós, porém, ao menos, nos respeitavam agora. Não nos olhavam com desdém.

Filipe organizou a festa de boas vindas para Liz, junto com Kass. Eu dei todo o suporte, como mãe. As meninas foram de porta em porta falar sobre a festa e os vizinhos ficaram superanimados com a ideia, ajudaram, levaram comidas e presentes. Demonstrar carinho para com a minha filha é mais gratificante para mim, do que se fosse comigo mesma. Eu fiquei tão emocionada, chorei muito de alegria. Algo que lutamos muito para acontecer estava acontecendo, mesmo que, para isso, teve que acontecer uma coisa horrível – graças a Deusa que não foi uma fatalidade completa.

A festa correra maravilhosa, nunca vi Liz tão feliz e receptiva. Chegado o fim do dia, recebi uma ligação um tanto estranha! Estava em pé e cheguei a sentar… Era a mãe de Filipe, até o momento eu não havia ouvido ninguém falar dela, mas ela apareceu e queria conversar comigo pessoalmente. Marcamos um dia… Fiquei pasma, pois ela disse que tinha algo muito importante para me contar.

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Liz

Havia chegado a noite, tomei um banho, guardei todos os meus presentes no quarto, ajeitei o que pude. Estava louca para pôr em dia os assuntos e meus seriados, pois no hospital eu não fazia quase nada, além de ler muito e ver o noticiário. Disse à Kass que iria me encontrar com Filipe mais tarde, ele viria me buscar às 21 horas, hoje era sábado, portanto tudo bem ser esse horário. E, como eu era recém-chegada, tive algumas regalias quanto ao horário também. Kass ficou superanimada, disse que era pra eu contar tudo à ela quando chegasse em casa! Claro que eu iria, né!

Às 21hrs em ponto ouvi a campainha tocar, minha mãe abriu a porta e era o Filipe. Desci correndo as escadas, quase esquecendo dos meus pontos, só lembrei quando senti uma pontada. Parei no final e arfei de dor… Eles correram para perto de mim e muito preocupados perguntaram como eu estava, falei finalmente que estava tudo bem, eram só pontadas. Minha mãe suspirou de alívio e me deu um beijo na testa, desejou “juízo”, como todos os pais dizem.

Filipe estava sorridente, porém nervoso e ansioso, deu pra perceber de longe, isso me deixava ainda mais nervosa… Ele havia comprado um carro com as economias que fez. Abriu a porta para que eu pudesse entrar e me ajudou a sentar, pois eu ainda não conseguia mover muito bem minha perna devido à cirurgia. Confesso que me derreti, era muito cavalheiro da parte dele fazer isso! Fiquei vermelha de vergonha, pois pensei em mil coisas.

No caminho ao restaurante, ele não me disse quase nada, apenas conversamos sobre o clima e coisas do tipo. Aquelas conversas casuais para não deixar um gelo. Ao chegar no restaurante, ele abriu a porta para mim e me ajudou a sair do carro! Era muito fofo. Ele ficava todo preocupado com a minha perna, eu tinha que falar toda hora que estava tudo bem.

Jantamos – uma comida maravilhosa – e fomos andar um pouco até o parque ali perto. Estava uma noite maravilhosa! Muitas estrelas e o céu limpo. O parque estava bem cheio, muitos casais e amigos estavam lá sentados observando o céu, jogando conversa fora, rindo e namorando. Sentamos em um banco ali perto, num lugar um pouco mais silencioso… Foi então que o Filipe começou a falar, parecia nervoso, porém decidido:

—Liz, apesar do pouco tempo que nos conhecemos, já vivemos tanta coisa juntos. Além de toda a parte ruim, também teve algo muito bom. Pude te conhecer melhor nos dias em que te visitei no hospital, vi o quão você é especial e forte. – Sorriu – Apesar de todo seu sofrimento com a cirurgia, as dores, você sempre estava preocupada comigo e sua mãe. Sempre demonstrando afeto e carinho… – Segurou minhas mãos – Eu queria te dizer… que… estou apaixonado por você. – Olhou-me nos olhos, vermelho.

—Nossa, Filipe. – Eu estava totalmente sem graça e vermelha da cabeça aos pés – Eu também sinto o mesmo por você. Todo o seu cuidado comigo é muito fofo! – Alisei o rosto dele. – Me sinto segura perto de você, é algo inexplicável… – Sorri.

—Você é linda. Me sinto muito sortudo de ter alguém como você por perto. Além de bruxa poderosa, é uma pessoa maravilhosa. – Ele me puxou para mais perto, com todo cuidado.

—Obrigada por você estar aqui. – dessa vez eu tive a atitude e dei um beijo nele. Foi um beijo longo, doce, apaixonado. Esse beijo demorou algumas semanas para acontecer, porém, foi o mais gostoso do mundo!

Depois de alguns minutos nos beijando, nos abraçamos e ficamos observando o céu. Para quebrar o silêncio, ele fez uma última e porém, mais importante pergunta de todas:

—Liz, você aceita namorar comigo? – olhou em meus olhos, sorrindo, esperançoso.

—SIM! – disse, por fim, e dei outro beijo nele.

Mais tarde ele me levou até em casa e nos despedimos. Contei tudo para as minhas amigas aquela noite, antes de dormir… Elas gritavam de felicidade comigo! Eu estava muito feliz, muito mesmo. Tinha a melhor família e agora o melhor namorado de todos os tempos.

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Alanna

Liz havia me contado tudo o que tinha acontecido aquela noite, até do pedido de namoro. Fiquei muito feliz pela minha filha! Mas nada conseguia tirar da minha cabeça o que a mãe do Filipe – que até então eu não fazia ideia de quem era – estava querendo me contar. Eu estava em um nível de ansiedade enorme, iria me encontrar com ela naquela tarde… Iríamos tomar um chá em um café ali perto. Ela só me disse um detalhe do que usaria para eu reconhecê-la – uma luva de renda branca – mal pude me conter de nervosismo. Nem falei nada para ninguém sobre meu encontro, muito menos para Liz. Não queria deixá-la nervosa e também não queria estragar a felicidade que ela emanava.

Fiz todas as tarefas muito rápido e me ausentei das aulas aquela tarde. Disse que iria me encontrar com o advogado, para resolver o caso do “atirador”. Pois bem, todas acreditaram e não desconfiaram de nada… Pude, por fim, ir ao encontro sem preocupação.

Chegando ao café, notei que havia uma mulher de costas segurando uma xícara de chá, usando nitidamente luvas de renda branca. Ela usava um vestido verde limão e um chapéu branco. Parecia algo dos anos 60.

Aproximei-me e olhei-a nos olhos… quase tive um infarto ali, naquele momento.

—NIVEA! – Gritei.

—LANA! – Ela gritou de volta e me abraçou.

—Pensei que você estivesse… – fiz uma pausa dramática.

—Morta? – Ela riu alto e me convidou para sentar. – Tenho uma longa história para te contar…

Sentei-me, aflita, não sabia se chorava ou se ria. Nivea era uma das bruxas que fazia parte do Coven das Rosas, junto comigo e Wendy. Digamos que éramos um trio, até o sumiço de Nivea. No começo, quando ela havia sumido, procuramos em tudo quanto é lugar. Porém ela não deixou rastros. Depois de um tempo achamos que ela havia morrido… Alguns meses após o sumiço dela, começaram os ataques contra nosso Coven. E fomos todas separadas ou mortas. Nunca na minha vida, eu imaginaria que reencontraria Nivea de novo… Mas espera ai, ainda tem a história dela ser “mãe do Filipe”. Indaguei assim que lembrei…

—Sou mãe do Filipe sim. E infelizmente tive um caso com o caçador… Vou te contar desde o meu sumiço… Não sei se você lembra, Lana, mas eu estava em uma fase que não aceitava mais ser bruxa, por causa de todo sofrimento que a gente passava nesse lugar. – disse ela, enquanto bebericava o chá de canela – Enfim, eu fugi de todo aquele fardo, assim considerava… Fui morar em outra cidade, perto daqui, com uma tia distante que eu tinha… Mudei de nome e etc. Consegui fazer uma faculdade e deixei “morrer” toda aquela história de bruxa. Depois de um tempo, viajei para cá, conheci o pai de Filipe e tivemos um caso… – Fez uma pausa – Engravidei. Porém, não queria ter que me casar e cuidar de um filho, eu tinha uma carreira… Ele aceitou ficar com o bebê depois dos 6 meses.

—Nossa, não sei nem o que te dizer, Nivea. Se é que posso te chamar assim… – Fiz cara de raiva – Pois nos preocupamos muito com você. Choramos a sua possível morte, e você estava vivíssima da Silva e nem nos contou nada. Wendy e eu, sentimos muito a sua falta. – Meus olhos se encheram de lágrimas relembrando aquela época.

—Meu amor, me desculpe… – ela segurou minha mão – Eu tinha 17 anos, não pensava muito bem nas consequências das minhas escolhas. Eu também senti muita falta de vocês duas, muita mesmo. Mas eu não queria ser bruxa.

—Como você descobriu a gente? – Disse.

—Vi notícias do que aconteceu aqui, aquela confusão toda… Vi fotos de vocês no jornal, vi meu filho junto de Liz. Meu coração disparou, vocês estavam vivas. – Ela sorriu – Pensei que depois de todo aquele desastre do passado vocês haviam partido…

—Graças à deusa não! – Fiz um gesto de agradecimento e sorrimos juntas.

Continuamos conversando durante a tarde inteira… Nivea me disse que Filipe não a conhecia, porém, ela recebia fotos e cartas do pai de Filipe esporadicamente, para ela saber como o menino estava. Todavia, ela não imaginava que ele fosse um caçador de bruxas e, muito menos, um assassino. Agora que ele estava preso, Nivea teria que se apresentar para Filipe, que agora tinha 19 anos. Pois ele estava sozinho, só tinha o pai, agora, mais ninguém.

Ela me pediu para que armasse um encontro para ela e o filho. Nivea queria ser mãe dele agora, recuperar o tempo perdido… Eu faria de tudo para isso ocorrer bem, mas não havia como prever a atitude de um filho rejeitado, por assim dizer, pela mãe.

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Liz

Passaram-se alguns dias após o nosso início de namoro e estava correndo tudo bem. Até que, Filipe me ligou muito nervoso. Disse que havia recebido uma ligação de uma mulher que dizia ser sua mãe. Ele nunca pensou que um dia pudesse encontrá-la, Filipe só sabia que ela era uma mulher muito ocupada e rica, mas nunca se quer havia visto uma foto dela. Seu pai se recusava a mostrar fotos ou conversar com ele sobre a mãe. Apenas dizia que ela era uma vadia rica, que preferiu viver a cuidar de uma família.

A tal mulher, queria marcar um encontro com Filipe no nosso Coven! Como assim? Não entendi absolutamente nada. Ele perguntou-me se eu a conhecia, mas não… Até que liguei os pontos! Minha mãe semana retrasada trouxe uma amiga bruxa antiga até aqui e apresentou-a a todas nós! Ela disse-nos que era uma velha amiga e que já havia feito parte do antigo Coven, porém teve que se desligar por motivos pessoais – e não tocou mais no assunto quando a perguntei sobre, apenas disse que era complicado. Será que era Nivea, mãe de Filipe? Fiquei a pensar nesse assunto, porém não contei nada a ele. O encontro estava marcado para esta tarde… Eu estava muito ansiosa e ele muito mais. Eu não sabia qual seria a reação dele, isso me assustava.

Minha mãe pediu para que todas as meninas fossem dar um passeio a tarde, só ficamos em casa ela, Wendy e eu. Esperávamos a chegada do Filipe e da mãe dele… Até que a campainha tocou… Era Filipe, muito nervoso, estava transpirando muito e não conseguia falar coisa com coisa. Sentamos na sala de estar para esperar a tal mulher. Já se passava das 17hr e nada, a mulher estava atrasada e nós estávamos nervosas. Bebericávamos xícaras de café e comíamos biscoitos e nada dela. Deu 18hr e um carro parou na frente do Coven. Corri para a janela e vi Nivea… Eu sabia!

Nivea adentrou e todos levantaram-se, olhando para Filipe, ansiosos para saber qual seria a reação dele, principalmente. Ela chegou perto dele e se apresentou:

—Olá Filipe, desculpe a demora, preferia que não demorasse tanto tempo… – sorriu – Meu nome é Nivea Scarth… – fez uma pausa, demonstrava emoção – E… Eu sou sua mãe. – gelou.

Filipe se aproximou dela e deu-lhe um abraço, surpreendendo a todos:

—Você demorou exatamente 19 anos, quase 20… – ele sorriu, emocionado e aliviado – Pensei que nunca fosse conhecê-la.

—Meu filho! – Disse Nivea enquanto abraçava Filipe bem apertado – Você me perdoa? – ela olhou-o nos olhos, emocionada.

—Não há o que se perdoar… Você fez uma escolha e, no momento, considerou como o melhor para você. Não tenho magoas. – ele enxugou as lágrimas com as costas das mãos. – Vivi uma vida boa com meu pai, tive boa educação, apesar do jeito explosivo dele, ele soube me criar.

—Ah, meu filho. Você é um menino de ouro.

Eles se abraçaram e ficaram assim por um tempo, pareciam que estavam tentando recuperar o tempo perdido apenas naquele abraço de reencontro.

Todos nós ficamos emocionados, era um novo começo para os dois. E eu queria fazer parte disso tudo.

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Alanna

O encontro de Nivea e seu filho foi muito além do que esperávamos. Eu, como conhecia o menino, sabia que ele não teria nenhuma atitude negativa. Porém, se tratando de um tema tão delicado como esse, era compreensível se ele explodisse de raiva ou algo do tipo, mas foi bem diferente disso. Chego me arrepiar quando lembro de Filipe dizendo que não havia nada para perdoar… Compreendendo a atitude de sua mãe! Foi MÁGICO! Ficamos todos extremamente emocionados e felizes com essa nova fase de nossas vidas, principalmente Nivea e Filipe.

Todo esse reencontro, bruxa antiga chegando e etc, atraiu tanta energia boa para nós! Nosso Coven está de vento em polpa, todas as meninas estão empolgadas para aprenderem e domarem seus dons, fora que os Sabbaths agora ficarão ainda mais animados e com mais pessoas. Com a chegada de Nivea, parece que ela com sua energia boa trouxe novas bruxas para nós. Algumas meninas perderam o medo e vieram nos encontrar… Fiquei extremamente feliz com isso. Elas confiavam em nós, seus pais confiavam em nós! Não tinham mais medo das bruxas, finalmente aprenderam a respeitar. Agora tratavam-nos como seres humanos, como sempre fomos. Demorou um pouquinho, mas com carinho e dedicação conquistamos nosso espaço na sociedade. Espero que seja assim para sempre. A caminhada é longa, mas, o que não falta nas bruxas, é a esperança!

Assim seja, assim se faça.

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FIM

Um comentário em “Coven das Rosas (Pt. 5) – Reencontros

  1. E a gente fica exatamente assim… Se emociona, ri, se alegra, chora e se arrepia…
    A magia flui em cada conto seu de um jeito tão único e tão envolvente que é impossível não sentir cada sensação que tem dentro das palavras ali presentes…
    Muitíssimo obrigado Miss Moon, estava perfeito, e “viajar” com Liz & Cia foi uma honra… Parabéns!!! ❤

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