Voraz – Mythos (+18)

Um Conto de Horror Cósmico, por A.J. Perez

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*ATENÇÃO: esse conto contem trechos de VIOLÊNCIA EXTREMA, se você for uma pessoa sensível ou facilmente impressionável não recomendamos que leia o texto a seguir. Lembramos que o Blog assim como o autor desse texto não compactuam com qualquer tipo de violência ou abuso. Essa é uma obra de ficção, qualquer semelhança com situações reais ou pessoas vivas ou mortas é uma infortuna coincidência.

“Para o mestre Neil Gaiman, serei eternamente grato por me apresentar seus deuses mais que americanos.”

O som dos mosquitos zumbindo como uma sinfonia infernal enchia o ar, juntamente com os odores acre-doces de plantas em decomposição ao longo da estrada quente e lamacenta.

Era começo do Verão e a podridão começava a se espalhar lentamente ao longo da borda de Carcosa. O ambiente era úmido, era quente e acima da de tudo ele era fétido. Tudo graças ao  enorme pântano que banhava metade da cidade.

Só Deus – e provavelmente o Diabo – sabiam as coisas que deveriam ter se perdido e acontecido nos mangues ao longo dos anos, mas historias eram contadas. Sacrifícios humanos, monstros do pântano,  seitas satânicas, orgias sexuais, serial killers e todo o tipo de coisas que povoam a imaginação popular. óbvio, para o povo de Carcosa tudo aquilo era besteira. Eram só historias diziam eles, alguns por que acreditavam nisso, outros para se convencerem disso.

Ao longe se podia ver na estrada um carro velho e carcomido, se aproximando. Ele era branco, onde não havia lama ou a ferrugem não tinha devorado a lataria, uma Pick up  velha, mas era 4×4. ao lado das portas se podia ver o símbolo de algo que seria uma gota d’agua com um chapéu de operário. Se ele não estivesse tão sujo poderia se ver logo abaixo D.A.E.C. – Departamento de Água e Esgoto de Carcosa.

Conforme o veiculo se aproximava o som da musica ia ficando mais alto até finalmente a melodia poder ser compreendida por completo.

“Well you may throw your rock and hide your hand

Workin’ in the dark against your fellow man

But as sure as God made black and white

What’s down in the dark will be brought to the light

You can run on for a long time

Run on for a long time

Run on for a long time

Sooner or later God’ll cut you down

Sooner or later God’ll cut you down”[1]

As mãos do motorista batiam no volante do veiculo tentando acompanhar o ritmo da musica enquanto ele cantava a letra em resmungos.

— Já te disseram que você não tem nenhum ritmo? — Debochou o homem no banco do carona, com seus óculos de aro grosso e preto e o cabelo até então bem penteado para trás enquanto o gel começava a derreter e escorrer pela testa junto ao suor.

— Já te mandaram calar a porra da sua boca, Luca? — ralhou o motorista facilmente teria 15 anos e 40 quilos a mais que outro.

— Sua mãe, quando eu… — antes de terminar a mão do motorista acertou a nuca dele com tanta força que o fez ser lançado pra frente e trancar o cinto.

— Olha o respeito, seu merdinha. Tem sorte de estarmos chegando.

Luca olhou a frente a estrada seguia beirando o pântano e então subia até o topo de uma colina onde havia uma imensa mansão com enormes muros de rocha.

— Ouvi histórias sobre esse lugar.

— Não seja idiota garoto, são só um bando de merdinhas como você, a diferença é que eles tem mais merda na cabeça que nós.

Ao chegarem a frente do grande portão de ferro duplo ele se abriu.

— Jesus! — exclamou Luca se assustando de imediato enquanto o seu colega gargalhava no banco ao lado.

— É um portão automático seu imbecil. — sentenciou o motorista apontando a câmera no muro — Deixe de ser um merdinha maricas.

Luca se ajeitou no banco se sentindo um idiota, ele leu mais de uma vez a placa no muro antes de entrarem. “Sanatório de Carcosa”.

Já no pátio os homens pegaram seus equipamentos e colocaram seus capacetes. Em instantes a porta da frente se abriu.

— Bom dia senhores. Sou Alana Forrester, a diretora do Sanatório — disse ela estendendo a mão para o homem gordo, que prontamente limpou a mão na roupa e a cumprimentou.

— Sou Matthew, esse é Luca meu ajudante.— O jovem acenou com a cabeça por estar carregando uma caixa de ferramentas em cada mão.

— Fico feliz que os tenham mandado tão rápido.

— Então qual o problema, senhora?

— Senhorita. — disse ela com ênfase antes de retomar o assunto. — Tem algo obstruindo os canos. Escutamos ruídos estranhos e a água tem falhado em áreas diferentes do Sanatório. Está ficando complicado.

— Em qual área tem faltado água?

— Todas. Cada dia é uma ala diferente, mas os barulhos nos canos sempre são ouvidos na ala onde não tem água, acredito que tem algo dentro dos canos.

— Provavelmente, talvez precisemos abrir paredes, vai ser um transtorno e tanto.

— Espero que não. Estamos sem água no térreo e o pessoal da limpeza disseram que ouviram batidas nos canos vindo do subsolo do prédio e lá os canos são mais acessíveis.

— Bem então não vamos perder tempo. Pode nos mostrar o caminho?

Eles seguiram andando pelos corredores hospitalares passando reto até o pátio interno onde alguns pacientes andavam pelo jardim.

— Não é perigoso deixar eles soltos assim?

— Nem todos os doentes são perigosos, esses que estão aqui são completamente inofensivos.

— Bom dia,— disse uma bela jovem de cabelos de um intenso vermelho sangue entrando na frente — Como estão hoje?

— Bom dia, L. estamos todos muito bem e você?

— Nos sentimos excelentes, não é? — perguntou a garota para alguém invisível ao seu lado, e aguardo alguns instantes como se estivesse ouvindo uma resposta de seu amigo, invisível, até finalmente sorrir e olhar de volta pra diretora e os dois homens.

— Bem se você nos dá licen… — a frase da diretora foi cortada ao ver um dos seus pacientes defecando na fonte — Jesus Cristo, Juan! Senhores um minuto.

Ela saiu gritando por enfermeiros que começaram a correr na direção dele.

— Ele tem medo de vasos sanitários. — disse ela olhando os homens — ele acha que os barulhos nos canos são um crocodilo.

— E o que você acha, bonitinha? — questionou Luca.

— Eu não acho nada, eu sei o que tem nos canos.

Os homens se olharam rindo.

— E o que tem neles? — perguntou-lhe Matthew.

— Isso é segredo,  mas vocês vão descobrir. — a ruiva sorriu e simplesmente se virou e saiu andando.

— Devia ter sido enfermeiro, imagine as coisas que não dava pra fazer com ela aqui dentro.

— Cala a boca garoto. — ralhou o homem mais velho repreendendo Luca enquanto lhe dava um tapa na nuca.

— Pronto! — disse a diretora assim que retornou — Ela é um doce não é? — ela olhou para L. sentada em um banco na sombra conversando com alguém que só ela via — É realmente uma pena ela estar em um lugar assim.

Eles seguiram para o porão e a diretora finalmente os indicou a entrada para a rede de esgotos. Era um tipo de bueiro interno que descia até uma rede subterrânea de tuneis com canos. Assim que o abriram o sons de batidas foram ouvidos.

— Olha o safado ai, com certeza tem algo preso nos canos. — Comemorou Luca.

— Bem não vamos perder tempo.

— Vou deixa-los trabalhar. — disse a diretora os deixando.

— Vamos descer logo. — ralhou Matthew para Luca.

Ao descerem ascenderam as lanternas nos capacetes. Eles estavam em um túnel, ainda havia luz vindo do bueiro aberto acima deles.

— Olha só essa merda. — disse o gordo.

— O que é isso?

— É um portão de contenção. Ali, aperta o botão na parede. — indicou ele.

Luca o apertou e com um zunido o portão abriu.

— Deixa um calço nessa merda, se essa porcaria fechar ficamos presos do outro lado.

— Vou deixar uma das bolsas de ferramentas. Se precisar de algo eu volto e pego.

— Pode ser.

Ele apoiou a pesada bolsa deixando o portão aberto e eles seguiram pelo túnel de pedra. Ele era feito de tijolos a vista muito antigos, inicialmente o calor era infernal mas, logo o calor foi ficando para trás e um frio sepulcral tomou conta do ambiente quanto mais eles avançavam.

— Ah ótimo. — resmungou Luca — tá alagada essa merda de túnel.

— Deixe de frescuras.— O homem gordo prontamente entrou na água, que batia em sua cintura. Eles devem ter um vazamento e tanto.

— Não será água do pântano?

— Então pode ter mesmo um crocodilooooooo. — Disse o gordo debochando de Luca.

— Deixe de ser babaca Matthew.

— Agora entre aqui e vamos achar logo es…— antes de terminar a frase o homem foi puxado pra dentro d’água e começou a se debater.

— Ahhh me ajude! Socorro!

Luca tentou pegar a mão do amigo sem sucesso então lançou o corpo para frente tentando agarrar a mão dele, quando ele finalmente sentiu as mãos de Matthew agarrarem a sua o puxando com tanta força que ele também caiu na água.

Luca mergulhou de cabeça na água, pode sentir o chão logo abaixo dele e então se empurrou pra cima saindo da água atordoado olhando para os lados, mas só encontrou Matthew escorado rindo da cara dele.

— O que? Você? Seu filho da Puta!

— Tinha que ter visto sua cara garoto! — sentenciou ele em meio a risadas — Estamos no topo da colina garoto o pântano não tem como vir até aqui.

— Seu idiota eu vou…

O som de batidas ecoou pelos tuneis, elas eram altas e descompassadas, como algo se debatendo vinham de poucos metros a frente deles.

— Vamos ver o que diabos é isso.

Matthew foi na frente procurando a origem das batidas, elas ficavam cada vez mais altas até que finalmente eles encontraram o local de onde elas vinham era o cano principal preso no teto.

Acima deles um cano estava completamente deformado, inchado e curvado, haviam também furos pequenos que vazavam água.

— Que diabos é isso, Matthew?

— Não faço ideia garoto. — ele bateu no cano e um segundo após houve uma batida em resposta.

— O que? — disse Luca assustado.

— Não seja cagão! — gritou o homem mais velho.

Ele bateu três vezes no cano.

— Viu, foi só uma coincidência, seu merdi…

Ele parou ou ouvir três batidas vindo do cano.

— Meu Deus. — Luca fez o sinal da cruz.

— Deus é o caralho! — o homem mais velho pegou uma chave de fenda e uma marreta da bolsa presa a sua cintura — Quer me sacanear seu filho da puta? Então vamos sacanear!

Ele colocou a ponta da chave em um dos pequenos furos e bateu a marreta com toda a força que tinha. Um som estridente e ao mesmo tempo tenebroso guinchou de dentro dos canos, quando um liquido negro jorrou pela chave de fenda. Matthew a puxou com força causando outro grito agora claramente de fúria.

O cano se partiu e algo saiu de dentro dele. Algo disforme, mas ainda assim lembrava algo,  era o âmago do medo e do horror primordial, a face que assombra os humanos em seus terrores noturnos mais profanos. Uma criatura distorcida, saída de um pesadelo doentio. E agora ela estava ali.

A coisa se agarrou no homem gordo, com suas dezenas de tentáculos repletos de ventosas que rapidamente arrancavam pedaços de sua carne como centenas de bocas diabólicas mordiscando repetidamente.

Ele não pensou duas vezes e começou a apunhalar a coisa o mais rápido que podia então repentinamente ela se soltou e voltou para a água.

— Vamos sair daqui! — O homem empurrou Luca que caiu para o lado ainda em choque de ver a criatura.

— O que era aquilo? — perguntou Luca chorando.

— O que interessa vamos sair daqui!

Assim que ele terminou de falar pode ver a criatura saltar da água direto no rosto do garoto, e os tentáculos  começaram a devorar sua garganta em segundos fazendo o sangue jorrar aos montes enquanto o corpo dele mergulhava para o esquecimento.

Matthew correu e forçou seu corpanzil para fora d’água onde rastejou um pouco até finalmente se levantar e correr com dificuldades pelo corredor. No final dele, ele viu uma pessoa e começou a a gritar por ajuda até que a poucos metros da pessoa em questão ele tropeçou em algo no escuro.

O barulho de ferramentas soou pelo corredor, era a bolsa de Luca que devia estar segurando o portão.

O capacete dele que caiu um pouco mais a frente chegou aos pés da garota de cabelos vermelhos sangue.

Ela sorriu e olhou para o portão que se fechou sozinho. Enquanto o sorriso em seu rosto perfeito se alargava, e algo selvagem surgia em seus olhos quando ela começou a cantar para ele.

“You can run on for a long time

Run on for a long time

Run on for a long time

Sooner or later God’ll cut you down

Sooner or later God’ll cut you down”[2]

O homem apenas gritou quando os tentáculos o alcançaram puxando-o para a escuridão, conforme a criatura o mordia e o apunhalava nas costas com a chave de fenda.

— Espero que isso seja sinal que de que abandonou os seus joguinhos, Lithurielle. — Disse o Rei ao lado dela.

— Lamento desaponta-lo, meu rei. Meus jogos nunca terminam.

O senhor de Carcosa acompanhou ela com seu olhar dissecador até que ela terminou de subir e trancou o bueiro mergulhando tudo na escuridão.

Lithurielle seguiu pelos corredores rumo ao jardim, cantando com sua voz de anjo.

“Go tell that long tongue liar

Go and tell that midnight rider

Tell the rambler, the gambler, the back biter

Tell ‘em that God’s gonna cut ‘em down

Tell ‘em that God’s gonna cut ‘em down”[3]

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[1][2][3] – “God’s Gonna Cut You Down”, versão deJohnny Cash

-Tradução

[1]

Bom, você pode balançar sua rocha e ocultar sua mão

Trabalhar na escuridão contra seu colega

Mas tão certo quanto Deus fez o preto e o branco

O que é abaixo na escuridão será trazido à luz

Você pode correr por um longo tempo?

Correr por um longo tempo

Correr por um longo tempo

Mais cedo ou mais tarde Deus o reduzirá

Mais cedo ou mais tarde Deus o reduzirá

[2]

Você pode correr por um longo tempo?

Correr por um longo tempo

Correr por um longo tempo

Mais cedo ou mais tarde Deus o reduzirá

Mais cedo ou mais tarde Deus o reduzirá

[3]

Vá, diz àquele mentiroso de língua longa

Vá, diz àquele cavaleiro da meia-noite

Diga ao vagabundo, ao jogador, aos caluniadores

Diga a eles que Deus os reduzirá

Diga a eles que Deus os reduzirá

Diga a eles que Deus os reduzirá