O Segredo das Árvores [Início] – Amor Insólito

Por Gabi Waleska

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Este conto é inspirado na lenda paraibana da Árvore do Abraço. Vide no final do capítulo um pouco sobre o local.

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Que bela manhã”, suspirou Leonor com a cabeça apoiada sobre os braços no peitoril da janela. O sol adentrava as folhagens das árvores, fazendo subir a bruma comum da manhã em meio a Mata Atlântica. Era lindo e poético. Leonor era jovem e gostava daquilo, romântica, inocente e doce, ainda não conhecia o mundo e a ferocidade humana.

Estava apaixonada e o amor lhe era ainda desconhecido, gostava de vê-lo passar a cavalo todos os dias, e algo em sua postura a fazia sentir-se segura. Na primeira vez que trocaram olhares, ela soube de algo terrível e belo ao mesmo tempo. Seu coração era dele. Afonso, com sua pele bronzeada do sol litoral e os olhos verdes, tinha apenas um defeito. Era empregado de seu pai. Sua família descendia de portugueses, como a dela, mas misturado a indígenas, não vinha de linhagem rica como ela e não possuía bens. Isso para Leonor pouco importava, mas seu pai jamais permitiria esta ligação.

Seu pai, José António, um rico fazendeiro, descendente de portugueses que herdara aquela terra rica e fértil de seus pais, era viúvo e faria de tudo por sua jovem filha. Doía-lhe o coração pensar em dar-lhe a mão para alguém; mas já bolara um plano para não permitir que ela fosse levada: daria a fazenda como dote, assim seu marido ficaria ali e herdaria as terras.

E assim seguiam as manhãs, inicialmente frias e depois abafadas. Suspiro após suspiro. Sua ama, Jacinta, não mais suportava aquela rotina, quando puxou Leonor pelo braço, com certa agressividade e falou séria, para que a criança compreendesse o que dizia.

– Não adianta ficar na janela, dona moça. Seu pai logo há de desconfiar da sua falta de apetite. Esqueça esse rapaz e passe a pensar em como será Senhora deste local em breve. E não adianta, – interrompeu Leonor, quando esta ia protestar – seu pai já busca um bom partido para você, e este local permanecerá com a família. Deixe de murmúrios e lamentos e vamos caminhar. Já está ficando doentia de tanto tempo trancada neste aposento!

O passeio foi belo, os pássaros cantavam, o riacho borbulhava, as trilhas ao redor da fazenda, faziam com que várias pessoas aparecessem a passeios, pegando frutas caídas das árvores ou em busca de uma moradia. Mas José António era o dono de mais de quinhentos hectares daquele local, e ao serem informados disto, os viajantes pediam emprego.

Leonor e Jacinta passearam por alguns minutos, quando encontraram Afonso, vindo em seu cavalo em direção à fazenda.  A jovem fez o possível para disfarçar a palidez seguida de um forte rubor, cobrindo a face com o leque. A ama, desconfiava que era ele o objeto da afeição de Leonor, mas nada podia provar.

– Dia, senhorinha. Dia Jacinta. – O rapaz falou sorrindo, como se alheio aos sentimentos da mocinha à sua frente. Ambas acenaram com a cabeça, cumprimentando-o. – O patrão pediu para explorar a área do bambuzal, e descobrimos uma nova fonte de material para a fazenda! – Exclamou feliz – Então agora sou o encarregado de fiscalizar se tem gente roubando bambus de lá, enquanto não terminamos de perfurar os poços do outro lado da fazenda.

– Que notícia boa Afonso! – Jacinta respondeu, sabia que os bambus ajudariam com mais renda para a fazenda; mas fez um muxoxo, vendo que sua patroa não entendia de nada disto. – Ah, patroinha, deves aprender logo sobre isto, porque vai ajudar com o casamento e a administrar a fazenda quando vos casar. – Dito isto, Leonor sentiu a face ficar escarlate e virou o rosto, de modo a parecer petulante, para a fazenda, atrás de si.

– Se é isto que o Senhor, meu pai deseja, então que assim seja! Iremos agora até o bambuzal, Jacinta. – Falou pegando na mão da ama e a puxando.

– Se as senhoritas desejarem posso lhes mostrar o bambuzal amanhã cedo, mas hoje não é mais hora. – Afonso falou preocupado. – Percebi que algumas pessoas andaram por lá, e não sabemos que tipo são. Não é seguro duas damas passearem por lá sozinhas, sim?

– Amanhã, após o desjejum, então, Afonso, nos encontre em frente a casa. – Falou Jacinta, que tinha medo de ladrões e outros tipos piores, logo puxou Leonor pelo braço de volta a casa. Sabia que o patrão ficaria zangado, caso fossem sozinhas até lá.

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– Ah, que noticia boa! – Exclamou o senhor José António – Vejo que minha querida filha está mais interessada na administração da casa. Aprenda bastante! Pedirei ao senhor Afonso que lhe ensine o que precisa, pois assim, dentro de três meses posso oferecer uma festa para que os pretendentes se anunciem.

– Sim, sim, senhor patrão. Percebi que a senhorinha não entendia nada do que Afonso nos falava ontem, por isso falei para que ela aprendesse. Mas, acha que Afonso é o melhor empregado para isto? – Falou, sem tentar levantar o patrão contra o rapaz.

– Há algo que não o recomende, Jacinta? É um excelente empregado, faz tudo que se pede, sem reclamar ou contrapor, dá bons palpites, e pode defender-vos em caso de ataque de algum invasor, sim? Além do mais, pela proximidade de idade, pode ser mais fácil para que ela entenda o que ele explica sobre a fazenda, já que os outros homens são muito mais velhos. Afonso é de minha confiança e nada tenho a dizer contra ele.

– Ah, não, senhor patrão. Afonso é um bom rapaz, não tenho nada contra ele. Apenas questionei exatamente esta questão da idade. Ele não seria jovem demais para o serviço?

– Afonso tem a cabeça no lugar. – Disse o Senhor José António. – Mostra-se maduro, um homem para tão pouca idade. Fica decidido, Afonso ensinará nossa Leonor.

Leonor apenas ouvia, enquanto terminava sua comida. O coração pulsava em ansiedade. Estaria ela no paraíso ou no inferno? Poderia sentir tanto sentimento dentro de si e guardar do mundo sem demonstrá-lo nem um pouco? Três meses, teria que suportar em tê-lo perto todos os dias e depois vê-lo, porém ela pertenceria a outro.

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Então dia após dia Jacinta acompanhava Leonor e Afonso nas trilhas, enquanto o rapaz falava com empolgação sobre tudo no local, desde as espécies animais e vegetais, até as funções das plantas medicinais e dos maquinários que eram usados nos serviços. Explicava sobre como os pássaros semeavam as árvores e como elas cresciam. E dia menos dia, Leonor demonstrava mais seu interesse no rapaz, o qual não permaneceu indiferente.

A beleza e postura inteligente de Leonor, aprendendo tudo com tamanha rapidez, e seu jeito taciturno o fez sentir algo próximo do afã, que com o encorajamento da moça, quando os olhos cuidadosos de Jacinta distraiam-se, acabou tornando-se um sentimento intenso e cobiçoso, o qual não podia declarar-se abertamente, mas o fazia com gestos e palavras gentis, que tocavam-na cada vez mais.

Certo dia, mais ou menos um mês após o início do aprendizado de campo, José António viajou a negócios para o estado vizinho, deixando a filha sob os cuidados de Jacinta, que nesta tarde, encontrava-se indisposta. Leonor, portanto foi passear pelos jardins desacompanhada.

Encontrou Afonso perto da ponte, seu coração palpitou ao vê-lo e desta vez não tentou disfarçar. Caminharam até o coreto, conversando sobre as coisas na fazenda, porém seus gestos mostravam que outra coisa queria ser dita.

– Afonso, que achas de me casar? – Perguntou Leonor finalmente, olhando para os peixes do rio.

– Ah, senhorita, – ele riu – não é o que desejas? Todas as moças ricas devem casar-se bem… – ele titubeou e depois completou sem jeito – E não com empregados como eu… – disse coçando a cabeça.

– Eu preferiria mil vezes casar com você do que com alguém que não conheço – Leonor disparou, a face ruborizada. Os olhos de Afonso lampejaram para a moça, esperançosos.

– Casaria?

– Sim, porque não? – Leonor disse num ímpeto de coragem – Por mais que meu pai quisesse o contrário, meu coração não é comandado por ele. E eu… – Calou-se, quase revelando seus sentimentos neste momento de ousadia.

– E o coração da senhorita já encontrou o amor? – Ele a encorajou.

– Sim, – disse olhando para baixo. – Mas é difícil… Falar. Quem eu amo não deve me amar. Nem pode e provavelmente nem sente o mesmo. Com um baile marcado em menos de dois meses, iria eu ser feliz revelando este amor?

– Mais vale um amor vivido, por menor que seja o tempo, do que o arrependimento de jamais revelar seu sentimento. – Afonso conjecturou. – E por este motivo, senhorita, pode mandar me despedir ainda hoje, mas não mais posso suportar, preciso declarar, eu a amo e mesmo sabendo que não podemos viver, sinto-me feliz de servi-la e mostrar cada pedacinho do meu conhecimento até que o casamento a leve e o meu navio me devolva a Portugal.

– Que estás dizendo Afonso? – Leonor expressava surpresa e alegria.

– Que a amo, senhorita. Mais do que posso admitir algum dia.

– Oh, estarei eu nos céus? – Ela disse em júbilo, se aproximando dele – Não fazes ideia do quanto eu desejei este dia, essas palavras… Eu o amo, Afonso, o amo há tanto tempo que até parece outra vida!

Afonso não pôde conter-se, a felicidade foi tamanha que roubou-lhe um beijo, inocente e suave, apressado, pois estavam às vistas e se ajoelhou.

– Prometo-lhe, Leonor, que meu amor é teu e sempre será, mesmo que em dois meses estejas casada. Lhe servirei até o fim da vida. – Disse e levantou-se – Agora tendes de ir, antes que Jacinta vos busque.

– Me procure após a ceia, aqui no coreto – ela disse rapidamente, e voltou para a casa extasiada.

E assim viveram pelas semanas seguintes, de dia caminhando com Jacinta e aprendendo sobre o gerenciamento da fazenda e à noite, se encontrando escondidos no jardim, trocando beijos e carícias apaixonadas por alguns minutos e voltando para seus aposentos enquanto todos dormiam. Cada vez mais apaixonados, mais ligados um ao outro, com um sentimento puro de alegria, alegria a qual não passou despercebida por José António que acreditava advir do conhecimento e do casamento em breve, ou por Leonor, que imaginava o motivo, porém não podia ter certeza.

O casal se realizava apenas em se encontrarem nos olhares. Palavras trocadas na entonação certa eram seu segredo ali entre os jardins, entre as árvores que os ouviam e acompanhavam silenciosamente, guardando-os em segurança até as vésperas do baile.

 Continua…

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Criado pelo governo do Estado da Paraíba em 2000, o Jardim Botânico é uma das maiores reservas de Mata Atlântica do Brasil, com 515 hectares. Além de área de lazer, é também local para estudos de espécies da fauna e da flora. Através de três trilhas, o turista pode vislumbrar espécies animais e vegetais típicas da Mata Atlântica. As atrações incluem ainda a “árvore do abraço”, um dendezeiro que cresceu no meio de uma gameleira, dando a impressão de que as duas árvores estão enlaçadas.

N.A.: Esta história não contém nomes reais.

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