A Irmandade Dos Bruxos Modernos (Pt.1) – Feliz Aniversário

Conto

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Por: Alfredo Dobia

Capítulo 1 — Feliz Aniversário 

 

Alguns anos atrás

Eram nove horas da noite, quando as ondas frenéticas do mar preocupavam o coração de Thonsom Wayler. Ele fazia de tudo para manter o equilíbrio do barco, mas os gritos de pavor de Lily Wayler só o deixava mais tenso e frustrado.

— Nós vamos morrer! — disse ela, espavoridamente.

Lily podia ver os raios ondulantes dançando entre os céus, enquanto o mar erguia-se perante a fúria das ondas cavalgantes. A chuva já se fazia sentir, seguido dos raios fortes e assustador. Uma tempestade assassina se formava entre as nuvens negras do céu.

O vento era inquieto e as ondas grandes seguiam em picos metros quatro a seis afastados da costa.

— Não, não vamos morrer — respondeu Thonsom, tentando ser corajoso e forte.

Os relâmpagos tornavam-se cada vez mais avolumados, e isso fazia Lily pensar que não havia chances de sobrevivência para eles. Seu telefone estava molhado e não parecia que iria ligar após várias vezes que ela tentara.

As rajadas de vento traziam consigo medo e terror.

— Deus, proteja a nossa filha se a gente não sair vivo dessa. Não permita que nada de mal aconteça com ela.

O casal Wayler tinha uma filha linda e encantadora de apenas onze anos de idade. A menina Lúcia Wayler era a filhinha dos pais. Mas a tempestade enfurecida não permitia Thonsom pensar em outra coisa que não fosse tirar sua esposa daquele tormento marítimo.

Com os braços doridos, ele contraiu toda sua força, e com isso, puxava sua esposa para mais perto de si, quando um furor de onda virou seu barco e ambos caíram em um pânico nunca antes vivido em suas vidas.

— Lily!!! — gritava ele, em angústia.

O colete em seu corpo o deixava por cima. Thonsom não conseguia ver nada, além dos relâmpagos assustadores. Ele tentava nadar contra a correnteza do mar, tentava acreditar que Lily ainda estava viva, até que algo obscuro puxava-a para o fundo do mar.

Ele lutava para se soltar, mas a força que o puxava para o abissal das águas, era muito maior que a dele.

Em rápidos segundos, Thonsom viu Lily lutando com algo mas não sabia o que era exactamente. O que lhe via em mente, era que uma criatura marinha estava atacando-a.

O céu ribombava segundos a pois segundos.

Ele sentia-se inútil e impotente por não conseguir ajuda-la, e isso o fazia sair do controle, apesar de que era meio difícil manter o controlo naquele momento. O vendaval crescia de forma rústica. A falta de oxigénio o fazia perder as forças, e quando percebeu que não havia mais nada a fazer, ele tentava focar-se na imagem da sua família.

A criatura que o puxava para mais baixo do mar, finalmente largou-o e foi de encontro a Lily. Ele tentou com toda última gota de força do seu corpo impedir a criatura de ataca-la, mas já não havia fôlego suficiente para se mover, até que seus olhos se fechavam e bem lá no fundo ele via a criatura pegando sua esposa que já se apagara da realidade.

O colete da dela havia sido arrancado do corpo, e assim como seu esposo, ela também não conseguiu ver ou identificar o tipo de criatura que os atacava. Quando por fim, ele se desligou, completamente afogado.

As ondas brutas do mar finalmente atenuavam-se e a tempestade enfurecida parecia diminuir a cada minuto que passava.

Dias Atuais

Era incrível a impaciência dos clientes do bar. Ter que aturar um bando de homens bêbados idiotas com hálito de cigarro a noite inteira, era frustrante de mais para Lúcia Wayler. Aqueles homens a davam cabo dos nervos. Na semana passada um cara que havia bebido de mais, acabara por vomitar por cima dela tão enojadamente que a fez se sentir como se ela fosse um autoclismo público.

— E aí, como vai isso? — perguntou Sasha, num tom de voz meio grogue.

Seus olhos pretos estavam ensonados. Ela havia passado toda madrugada acordada preparando a festa surpresa da Lúcia.

— Cheio e revoluto, como sempre — Lúcia respondeu, tirando copos vazios de umas das mesas. — Você sabe como isso fica a essa hora. — ela encarou a amiga por alguns segundos, reparando que Sasha parecia diferente. — O que aconteceu contigo? Pareces cansada.

— Digamos que tive uma madrugada um tanto quanto complicada.

— Anda logo com isso, quanto tempo se faz para trazer uma simples cerveja? — murmurou um dos clientes com a voz grossa e rouca.

O bar estava muito cheio, havia pessoas entrando e saído o tempo todo.

— Aquele, cara lá está quase cortar os pulsos por causa de cerveja — disse Lúcia, olhando de relance no homem impaciente.

— Nesse caso eu ajudo você — Sasha disse, dando a volta ao balcão.

Lúcia tornou-se a única funcionária do bar, desde que sua colega se casou com um ricaço e se mudou para Nova Orleans.

— Não Sasha, não acho que você esteja em condições para trabalhar. Olha pra ti, você está exausta.

— Ah sim… estou, e muito — Sasha respondeu, atirando sua bolsa a Lúcia. — Mais me diz. Que tipo de melhor amiga seria eu se deixasse você trabalhar sozinha com esses bêbados brutamontes?

Lúcia abriu um sorriso curto pra ela e caminhou até a cozinha do bar.

Na volta, ela troce um avental de cor branco e entregou a Sasha.

— Então vamos fazer isso rápido e dar o fora daqui. Você precisa descansar e eu preciso ver o meu avô.

 ●   ●   ●

 

O relógio já batia vinte uma hora e meia, quando Sasha trazia Lúcia pra casa. Ela sentia seu coração palpitar, se perguntando se tudo estava correndo como planejado.

Ela combinara com seus amigos para fazerem uma festa surpresa a Lúcia e deu-se a tarefa de mantê-la ocupada durante a tarde, enquanto os outros terminavam os últimos preparativos.

Lúcia introduziu a chave na fechadura da porta — e depois de gira-la, ela empurrou-a. Estava tudo escuro e logo que acendeu as lâmpadas, ouviu os gritos de alegria de todos.

— Feliz Aniversário! — todos gritaram em coros com sorrisos entre dentes, enquanto ela segurava seu porta chaves, tentando parecer surpresa com seu sorriso esforçado.

A casa estava toda decorada com balões e um cartaz de cor cinza colado na parede com os dizeres que a desejava parabéns! Os olhos de Lúcia avistaram a sala inteira. A maioria das pessoas que estavam dentro de sua casa, eram seus ex-colegas do ensino médio. Fazia tempo que ela já não falava com eles — na verdade, ela quase que não falava com mais ninguém além da Sasha e o Deny.

A morte de seus pais fizera dela uma garota anti-social. Sasha entrou na sua vida no momento que ela mais precisava, ambas partilharam dores ao perder suas famílias. Sasha foi obrigada a abandonar seus amigos e sua escola, quando seu pai foi seleccionado para trabalhar com a equipa de engenheiros que preparavam o lançamento do primeiro satélite do seu país.

— O que se passa contigo? — Sasha perguntou, incrédula. — E que sorriso fúnebre é esse?

Lúcia arqueou as sobrancelhas.

— Na verdade, eu meio que já sabia de tudo.

— Como assim já sabia de tudo? Eu me lembro de ter feito tudo direitinho. As únicas pessoas que sabiam disso eram eu, o Sr. Wayler e o… — ela soltou um suspiro antes de continuar a lista de nomes. — Eu vou matar o Deny! — terminou, com olhos afogueados de decepção e raiva.

Lúcia sorriu, e dessa vez não parecia estar fingindo.

— Não vai nada — sentenciou. — Fui eu quem o pressionei a contar-me hoje de manhã. Ele passou por cá antes de ir pra universidade, e você sabe como ele é desajeitado. Começou a me fazer um monte de perguntas esquisitas, como o meu prato favorito, o que eu gostaria de receber de presente no meu aniversário. Acreditas nisso? Quer dizer, vocês são os meus melhores amigos desde que éramos crianças e eu venho dizendo a ele o meu prato favorito desde quando ele tentava me impressionar quando dizia estar apaixonado por mim. Não foi muito difícil juntar as peças para perceber que ele estava tramando algo.

Depois de toda explicação da Lúcia, Sasha respondeu inconformada:

— Ainda assim quero mata-lo.

No decorrer da conversa o pessoal aproximou-se delas, abraçando Lúcia calorosamente. Porém, olhando nos olhos da Sasha que cintilavam raiva enquanto se aproximava, Deny saiu correndo a mesa de som e colocando a primeira música que aparecera.

O pessoal começou a vibrar. Depois de agradecer a todos, Lúcia caminhou até o quarto do Sr. Wayler.

— Posso? — perguntou ela atrás da porta.

— Podes sim.

— Boa noite!

Ela disse, enquanto se aproximava para lhe dar um beijo na testa.

O quarto do Sr. Wayler era tão espaçoso e bem distante da sala que quase não se ouvia a música tocando. Depois que ele se convencera que seu filho estava morto, ele vendeu sua humilde casa assim como do seu filho, e comprou uma maior, colocando tudo em nome da Lúcia.

O Sr. Wayler criou Lúcia desde a morte do seu filho e sua esposa na tempestade que acontecera a 11 anos atrás, depois de ter passado vários anos na pesquisa dos corpos e nunca os ter encontrado. Ele prometeu cuidar da Lúcia por ser a única família que lhe restara e por ama-la com todas as suas forças — mas fazia oito anos que o Sr. Wayler não está bem de saúde, e vive deitado a uma cama á maior parte do tempo.

Ele sabia que já não lhe restava muitos anos de vida, ele fazia de tudo para garantir a segurança de Lúcia quando a morte o chamar, e que homem nenhum a pusesse na rua por não pagar o aluguer. Por isso adorava vê-la ao lado de Sasha e Deny, que depois dele, eram as pessoas mais próximas que Lúcia poderia chamar de família.

— O quê que você esta fazendo aqui? — resmungou ele, num tom grogue. — Você deveria estar lá se divertindo com os seus amigos.

— Só vim ver como o vovô passou o dia. — Lúcia respondeu em um tom de voz afável, enquanto se sentava perto dele na cama.

Ela ficou o encarando por alguns demorados segundos, tudo para fugir da agitação enfadonha em sua sala. A seguir arregalou os olhos, observando o cabelo platinado do avô.

— O que foi agora? — indagou Wayler, de modo gentil. — Que cara é essa? Eu já disse que estou bem, você não precisa se preocupar. Não é como se eu estivesse preso uma cama e com os dias contados.

Ela não riu do humor sádico do avô, apenas soltou um suspiro antes de responder. Seus aniversários nunca mais foram os mesmos depois da morte dos seus pais. Ela sentia deprimida à cada ano que passava, todas as lembranças deles vinham a tona em sua mente — e isso, a faziam se sentir mal.

— Sabe vovô, eu sinto falta deles. Sinto falta do papai e da mamãe. Sei que é meu aniversário e que o pessoal está se esforçando para me fazer esquecer mas as vezes é meio difícil. Eles morreram dois dias depois do meu aniversário, tecnicamente faz onze anos que eles já não estão entre a gente — ela abaixou a cabeça, olhando para as mãos cansadas do Sr. Wayler. — Por isso eu não quero que o vovô continue bravo comigo por estar trabalhando no bar — continuou. — Sei que tem muitos empregos por aí, mas nesse eu consigo dinheiro todo dia com as gorjetas que recebo, sem ter que se preocupar muito com o final do mês. Dessa forma poderemos pagar os melhore médicos para o seu tratamento. Já perdi o papai e a mamãe, não estou pronta pra perder o Sr. também.

O Sr. Wayler arqueou seu corpo cansado na cama.

— Você ouviu os médicos, não há mais nada a fazer e nós já conversamos sobre isso. Escute aqui minha menina, sei que é difícil pra você ter que encarar tudo isso, mas tens que começar a aceitar que essa realidade mais cedo ou mais tarde vai acontecer. Agora levante essa cabeça. Não gosto de te ver desse jeito — ele levou a mão até o queixo dela, trazendo os olhos da neta para os dele. — Então vá se divertir com os seus amigos que eles já devem ter notado a tua ausência.

Lúcia levantou e caminhou até a porta. Ao puxa-la para frente o Sr. Wayler chamou por ela:

— Lúcia — ela se virou pra ele. — Feliz aniversário!

Lúcia deixou a porta encostada, soltando a mão da maçaneta e deu um forte abraço nele, enquanto lágrimas passeavam em seus olhos e escorriam lentamente até seus belos lábios escarlates.

— Muita coisa ainda está por vir, é só você ser forte que tudo correrá bem. Eu prometo — ele disse, passando a mão nos cabelos loiros escuros da neta.

Continua…

Obs: PT… escrito em Português/Portugal.

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