Seven Sins – Inveja

inveja2.png“Queira – me, queira – me doce amor.
Deseje – me sempre com ardor.
Deixe – me ser a razão pela qual teu sangue corre nas veias
Almejai – me com a fúria que habita sua alma. 
Faça de mim tua senhora.
E quando não puder conseguir – me como alvo de teu desejo,
mate e usufrua do veneno que á ti dei de bom grado…”

A fumaça subia no ar em espirais etéreas, a cigarrilha estava quase no fim e a  moça olhava a ponta queimar preguiçosamente.

Ela se vestia como as damas antigas, o vestido creme feito em organza, o espartilho cinturado de mesmo tom possuía pequenas pérolas cravejadas, definindo o corpo e cada curva que ali havia.

O olhar tedioso se dirigia para o corpo nu sentado na cadeira grosseira e gélida. Os pulsos presos por couro perfurado por pregos começava a pingar as primeiras gotas de sangue na bacia de alumínio com água que apoiava os pés.

– Você me parece impaciente minha cara? – sussurrou a voz na escuridão, lançando seu sorriso alvo na direção da moça.

– Suma! – disse ela ríspida. – Detesto você e sua presença me irrita.

A sombra se recolheu calada, com um riso torto exprimindo sarcasmo.

Os longos cabelos vermelhos se misturavam a barba encardida, o homem gordo cheirava a álcool e cigarro.

– Quem é você? – perguntou mais para si do que para a vítima que começava a se mexer. Ela tinha nojo, o homem havia urinado na cadeira e ela não se sentia a vontade para esperar que ele acordasse. – Nunca tive muita paciência. – a cigarrilha chegou ao fim e ela jogou a ponta ainda acessa no chão pisando com a ponta do sapato de salto alto. – Vamos ao que interessa.

A moça caminhou até o homem com as mãos na cintura e desferiu-lhe um sonoro tapa na face, o que o fez acordar de imediato assustado.

– Bem vindo ao inferno e blá blá blá. Eu até poderia estender essa conversa e explicar tim tim por tim tim o que fez você, um preguiçoso resmungão de marca maior vir parar aqui, nas minhas lindas mãos, mas vamos poupar os detalhes, detesto circos e teatrinhos, afinal de contas sou a mãe de pessoas como você.

– Onde eu estou? – ele perguntou tentando entender do que a moça falava.

– Vamos assistir a alguns pequenos vídeos…- Ela arrastou até a frente do homem uma pequena mesinha e sobre ela colocou um notebook.- Para cada janela, um choque de 220 volts. Estamos combinados?

– Mas moça eu sou um cara bom, não atrapalho ninguém, vivo no meu canto. Não estou entendendo o que está acontecendo.

A moça ligava com agilidade os eletrodos aos mamilos, têmporas e nos órgãos genitais do homem.

O primeiro vídeo era uma gravação de um playboy ostentando o corpo e as mulheres que com ele se deitavam a sala encheu – se de gemidos provocativos. Ela ria histericamente enquanto notava a excitação do  rapaz que agora olhava furioso a cena que discorria na tela.

– Você parece gostar do que vê. Mas ao mesmo tempo parece odiar o rapaz. Conte – me por que…

– Não tenho que lhe falar nada. – ele respondeu furioso.

Ela se aproximou da ouvido dele e sussurrou delicadamente.

– É por esse motivo que você está aqui. Por que deseja ser esse homem, deseja ter as mulheres que ele tem, mas sabe o que você fez para conseguir o que ele tem? NADA! Você é inútil! E sempre será… – e assim sucedeu-se o primeiro choque.

Ele tremia compusivamente com a descarga enquanto ela parecia cantarolar alguma cantiga de ninar antiga.Desligou a descarga e olhou para ele, a boca sangrava por causa do movimento da cabeça.

– Ah, você ainda está vivo. Que pena! Parece que você resiste bem. Vamos para o próximo vídeo.

Ela acendeu outra cigarrilha e saboreou o gosto da mesma nos lábios, ela pensava em como aquilo era tedioso, se quer queria estar naquele lugar ou fazer aquilo, mas seus irmãos tinham feito tão melhor que ela. Com tanta maestria, com tanta sede de sangue por que não ela também?

Ela sorriu, não apenas causava nos outros, mas também sentia em si aquilo que era. E era dessa forma que os irmãos haviam feito até ali. Deixaram aflorar o que de pior representavam.

– Esse era pelo dinheiro, as coisa fúteis que já te fizeram ansiar. Mas não vai haver respostas novamente, então vamos continuar.

Ela amarrou o saiote do vestido e apertou ainda mais a fivela dos pulsos, buscou anilhas de ferro e prendeu aos pés do homem que tentou chutá-la, o que a deixou furiosa e com vontade de matá-lo de modo rápido.

Ela buscou uma marreta já suja de sangue e acertou-lhe o rosto.

– Idiota! Em uma mulher não se bate nem com uma rosa. – e antes que ele pudesse dizer algo ela tampou-lhe a boca com um pedaço de silvertape.

As mãos antes brancas agora estavam sujas com o sangue do rosto, os cachos antes bem definidos agora se desmazelavam, conforme ela se agitava.

O segundo vídeo acabou e nova voltagem foi descarregada. O homem agora começava a chorar, o salto chapinhava no sangue misturado a água que vazava da bacia, e ela assistia a tudo extasiada.

A voltagem dessa vez não foi desligada, os olhos deixando aparecer somente o branco da retina enquanto a fita colocada na boca se soltava e dava lugar a baba espessa misturada ao sangue. A água que havia antes nos pés agora fazia pequenas bolhas e liberava uma fumacinha insignificante.

Ela sentou-se no divã e ficou ali, assistindo a água secar, as luzes piscarem, o vídeo de festas glamourosas passar continuamente e o corpo entrar em combustão, deixando no ar o odor fétido.

– Você não deu nem a oportunidade dele falar. Não ensinou lição alguma. Não o fez perceber como teve uma existência fadada ao fracasso… Você é um erro!

– Eu… Sou… Perfeita… – disse ela retrucando a voz em meio a fumaça – Eu não sou subjugada e nem serei. Não devo motivos para um humano de merda, eles pouco se importam com o que fazemos ou falamos. Nos alimentamos deles, eles se deixam ser seduzidos por nós. Agora diga-me você, adianta fazer como os que vieram antes? Deram lindas lições e mataram, e você vem dizer a mim que fiz errado? Poupe-me bastardo!

Ela virou as costas e partiu sem se quer esperar respostas…

– Ah, minha amada Inveja, sucumbiu a si própria. És tão bela, e quem de nós não a sente todos os dias, não é mesmo?

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“Ela caminha arredia.
Nos becos da pobreza e nas escadas de alvo mármore.
Seríamos nós seus escravos?
Seríamos nós meras peças de um jogo bizarro de xadrez?
A Inveja habita teu cerne, naquele jeito ínfimo de agir.
Ninguém vê quando ela chega, por que em nossas almas ela sempre habita.
Eles caminham entre nós… Eles caminham entre nós…”

 

 

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