No Cair da Escuridão

 

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Nós não temos uma escolha para ficar
Preferimos morrer do que fazer do seu jeito

°o°

21 de Dezembro de 2012. A data que muitos acreditaram que marcaria o fim da civilização. O fim dos dias, Apocalipse, Armagedom… Independentemente do nome, muitos esperaram que, nesse dia, alterações cataclísmicas fossem destruir nosso planeta. Mas não foram tsunamis, terremotos e erupções vulcânicas as responsáveis pela nossa quase extinção. Um império que caíra em um dia. O dia.

Quando tudo começou, o mundo virou um caos. O palco para uma Guerra dos Mundos assim como no livro de H. G. Wells. A escuridão havia caido sobre a Terra, que se uniu contra um oponente comum. Infelizmente, as vias que os Chefes de Estado encontraram para lutar contra os aliens não foram as mais sensatas para o bem do nosso planeta. Nunca pensaram que poderiam perder tudo.

Bombas nucleares explodiram dizimando não só parte dos hóspedes indesejados, mas também grande parcela da população. Quem sobreviveu teve que modificar de maneira drástica seu estilo de vida, mudando-se para bunkers criados pelo Governo; apenas pessoas ricas e influentes tiveram acesso. Os países pobres foram dizimados não só pelas bombas, mas por doenças, escassez de água potável e alimentos. Ainda assim a guerra continuou até que os “Ofídios” — modo como os aliens ficaram conhecidos graças à forma sibilante de se comunicarem — retrocederam. Não porque ficaram com medo da extinção, mas porque a Terra havia se tornado um local infértil para seus propósitos de colonização.

O alívio entre o que restara da população durou pouco. O planeta fora dilacerado. Tudo o que fizeram foi colocar a humanidade com as costas para a parede, de olhos fechados. Não havia mais glória. As vítimas eram os próprios executores; com as mãos empunhando as armas, tiveram apenas que preparar, apontar e atirar nas próprias cabeças.

Mais uma vez o ser humano recorreu à tecnologia, chancelado pelo desespero da iminente extinção e tirando proveito do que conseguiram aprender com os Ofídios a partir da tecnologia confiscada. As mudanças foram rápidas, fomentadas pelo desespero. Os especialistas e Chefes de Estado desviaram quase todos os recursos para si, a fim de darem continuidade à obra de reconstrução do planeta. Os outros, com medo, deixaram tudo nas mãos dos grandes líderes. E então, um milênio depois, continuávamos nas mãos dos chefes que não passavam de marionetes para as grandes corporações.

Novos países foram criados, e uma nova sociedade — com preceitos arcaicos — surgiu. Todos pensaram que a tecnologia seria nossa salvação, mas não foi. Notamos tarde demais que os nossos nêmesis estavam presentes no momento em que nos olhávamos no espelho. O ser humano foi o único responsável por seu infortúnio; o catalisador de seu próprio declínio.

Entretanto, no meio da desordem, evoluímos. Pessoas se adaptaram geneticamente a essa nova cyber realidade, capazes de controlar a nível mental e físico as máquinas. Eu sou uma delas. Meu nome é Pandora e sou uma Tecnopata.

°o°

A chuva fina caía com a promessa de abrandar o tempo árido. Orestes se divertia observando e mediando a corrida das gotículas de água que traçavam seu caminho pelo vidro da janela. Narrava baixinho como um locutor. Meu irmão precisava se divertir.

A situação estava ficando cada vez mais difícil para nós com os Cyberdooms — humanoides responsáveis pela segurança “do povo” — espalhados por todas as casas, ruas e vielas. Felizmente, eles não eram capazes de nos encontrar sem ajuda da polícia. Não quando podíamos manipulá-los. Então um ficava responsável por nos identificar e o outro, por nos prender.

Os Tecnopatas eram pessoas capazes de manipular tecnologia; desde descobrir um defeito em uma máquina com um toque, até criar frequências telepáticas ou utilizar a telecinese tecnológica. É claro que todas essas habilidades estavam divididas em níveis. Só existiu uma pessoa na história, segundo registros, que chegou ao último nível conhecido: Deckard Seyfert. Meu avô.

Não cheguei a conhecê-lo, pois faleceu antes de meu nascimento. Agora, como um homem tão poderoso como ele pode ter morrido? Bem, nem sempre é fácil lidar com tanto poder. Especialmente quando você é o único. De qualquer forma, esse dom vinha passando de geração em geração. Não se sabe ao certo quando surgiu, mas o motivo veio da necessidade em suportar nossa nova realidade. E quando digo “nova realidade”, refiro-me apenas à tecnologia. Algo que veio para nos salvar e se tornou outro problema graças à ganância.

Grandes corporações regiam o mundo por trás de rostos sorridentes que se proclamavam Altos Chanceleres. A Chanceler de nosso país, Géraldine Lemaire, era esposa do presidente da Tecnocorp: a maior produtora de tecnologia do mundo. Quem perdesse um membro e precisasse de uma prótese, devia recorrer a eles, por exemplo… ou ao Mercado Negro, já que os preços da corporação eram para lá de abusivos.

Os pobres coitados que trabalhavam para sobreviver sustentavam os luxos dos abastados. Por essas e outras estava disposta a participar de um plano insano. Era de se esperar que, no meio de tanta desigualdade, eu não fosse a única descontente com a situação. Muitas pessoas dentro do próprio Governo queriam ver o fim de Géraldine e sua corja.

Ao longo dos anos, essas pessoas insatisfeitas se uniram, espalhando-se pelo globo. Eles tinham tudo, ou melhor, quase tudo para realizar o golpe. Precisavam apenas do apoio dos Tecnopatas. Admito que não somos as pessoas mais sociáveis que existem. Estamos acostumados a lidar com computadores, não humanos. E como poderíamos confiar, afinal? Poderia ser um plano para descobrir os rostos por trás dos nicknames e serviços sujos que realizávamos.

Muitos de nós trabalhavam para as corporações, ou seja, alimentavam o sistema. Outros, como eu, faziam o extremo oposto. Inventávamos o que podíamos para destruir, de dentro para fora, as malditas empresas que nos transformaram na ralé. Se tivéssemos que adotar a imagem de criminosos, que fosse. A ferida purulenta que nunca sara. Seríamos os párias no meio de desajustados.

— Orestes, não lembro vê-lo de banho tomado há algum tempo — digo, mantendo os olhos na tela do computador.

— Eu tomei… antes de ontem. — Ele manteve os olhos na janela.

— Antes de ontem não é hoje. Vai tomar um banho. — Uma pontada aguda de dor na cabeça faz minha visão embaçar.

Orestes bufou, mas fez o que mandei. Desde que nosso pai foi preso e assassinado por um Cyberdoom, tornei-me responsável por meu irmão. Nossa mãe morrera em seu parto. Isso só foi mais um motivo para culpar o Governo. Se ela tivesse a oportunidade de ser assistida por um bom médico, ao invés dos carniceiros que fizeram seu parto, ainda estaria viva. Foi um milagre meu irmão sair vivo e sem sequelas. Lutava mais por ele do que por mim. Queria que tivesse um mundo melhor para viver ao invés do lixo a que éramos sujeitados.

Recosto em minha cadeira, exausta. Com dor de cabeça. Maldita enxaqueca que vinha me tirando do sério há dias, semanas talvez. Sem contar os enjoos e vômitos. Mas a pior de todas essas reações era a perda de minhas habilidades. Não era uma experiência nova. A última vez que senti algo do tipo foi quando avancei um nível de Tecnopatia. Não queria virar o meu avô e só faltava um nível para isso.

Olho para a tela do monitor e peço que realize uma conexão segura com Synesious. Não demora muito e seu rosto sonolento aparece.

— Isso é hora de dormir?

— Aparentemente não, já que você me acor… — Ele para de falar para dar um longo bocejo — Você não deveria estar…

“Se preparando”, era isso que queria dizer. Paro um momento, analisando o peso daquelas palavras.

— Você também deveria — digo, sorrindo tristemente.

— Descansar o cérebro é essencial. E Orestes?

Sinto um aperto em meu coração e não consigo evitar olhar para o vidro da janela.

— Ficará bem. — Independentemente do que acontecesse naquela noite. E faltava pouco para o entardecer. — Só queria saber se você estava legal. Nos vemos n’A Hora Profana.

A Hora Profana era um bar xexelento onde prostitutas, ladrões e beberrões se reuniam para festejar a promiscuidade. Os Tecnopatas aproveitavam o lugar para jogarem conversa fora. Contudo, naquela noite, serviria para nos unirmos antes de colocarmos em prática o golpe.

— Nos vemos lá. Vista-se sexy, por favor. Quero que minha última visão seja esplendorosa.

— Já falei para você parar de ficar pesquisando palavras no dicionário para tentar me impressionar.

— Se esse é o único jeito, então está bom para mim. — Ele piscou para mim e a tela apagou.

Naquela noite aconteceria o Jubileu de Evragius. Apenas um nome bonito — inspirado no sobrenome de um dos cientistas que “salvou” a raça humana da extinção — para denominar o aniversário de mil anos desde que a invasão dos Ofídios cessou. A noite era marcada por um grande baile regrado à comida suculenta, com diversos tipos de bebida. Coisas que 95% da população nunca provara e nunca provaria.

Os ricos comemoravam como se eles mesmos tivessem batalhado contra os aliens. Seria o momento em que a segurança estaria reforçada no Palácio Vermelho, já que todos os Chefes de Estado estariam reunidos no local. É aí que entravam os nossos infiltrados. O trabalho era simples comparado ao nosso. Tudo o que precisavam fazer era “fechar os olhos” enquanto entrávamos de penetra. Poderia parecer besteira, mas não era. Sem o aval deles, não conseguiríamos prosseguir.

Pouco antes do horário marcado, apaguei todos os dados relacionados à missão. Mesmo com os computadores criptografados de uma maneira que nem um Tecnopata nível quatro pudesse burlar, achei melhor prevenir do que remediar.

— Quando você irá voltar? — Orestes me encarou com os braços cruzados.

— O quanto antes.

— O quanto antes significa “eu não sei”. Papai também dizia isso.

— E tenho certeza que ele fez o possível para voltar.

— Mas não voltou.

Não, não voltou. Acaricio seus cabelos e sorrio. Queria dizer que voltaria num horário específico e que não haveriam riscos, mas não podia dizer essas palavras sem soar leviana.

A chuva diminuíra, mas os pingos gelados ainda me incomodavam. Seguro a mão de Orestes e caminho por entre as sombras. Por favor, que elas nos encubram. Nossos passos são rápidos, e olho para trás a cada minuto. A Hora Profana ficava em uma viela fedorenta. Quem passasse em frente nunca diria que era um verdadeiro antro. Por ser distante do Palácio, era de se esperar que a segurança estivesse fraca.

Era de se esperar.

Estávamos próximos da viela quando senti a frequência típica dos Cyberdooms. Puxo Orestes para um vão entre as paredes e tampo sua boca, sabendo que o mais baixo gemido de protesto que ele desse chamaria atenção. Sua respiração entrecortada seria o suficiente para o maldito humanoide.

— Acalme-se — murmuro em seu ouvido. — Estou aqui e não deixarei que ninguém te faça mal.

Só desejava que eles não passassem por perto. Seria tão fácil me detectar. Orestes vinha demonstrando sinais de um Tecnopata nível um; muito mais fácil de iludir os Cyberdooms. Já eu…

Ouço o som úmido de alguém pisando numa poça d’água e sei que eles estão se aproximando. Merda, só mais alguns metros e estaria em frente à maldita porta. Respiro lentamente tentando me acalmar, quando sinto meu estômago revirar. Minha cabeça volta a doer e sei que estamos perdidos. Os passos vão chegando mais perto e tento mandar um sinal de desativação para o Cyberdoom. Falha. Cada vez que tento algo minha cabeça dói ainda mais.

— Corra para o bar assim que eles saírem de perto — murmuro para Orestes.

Iria chamar a atenção dos dois e ele teria a chance de escapar. Estava prestes a fazê-lo quando os passos pararam. Ouço-os correndo para o lado oposto. Algum sinal interferira em sua caçada. O alívio só não é capaz de fazer minha dor de cabeça ir embora.

Olho de esguelha e vejo que estamos sozinhos. Puxo Orestes e corremos em direção à porta. Bato cinco vezes, num ritmo predeterminado, e espero até que o rosto do leão-de-chácara apareça no visor à minha frente.

— Senha? — Sua atenção estava voltada para alguém dentro do bar.

— Abre logo essa porta ou então não haverá uma para você abrir. — Seu olhar se volta na minha direção e ele sorri.

— Boa noite para você também, Pandora — disse antes de abri-la.

— Feche os olhos, Orestes. — Ele parecia prestes a contestar e eu não estava com paciência para isso. — Faça logo o que digo e só os abra quando mandar.

Seus olhos se fecharam, mas, por via das dúvidas, uso minha mão para tampá-los. A Hora Profana não era um lugar para crianças. Assim que boto meus pés lá dentro, sou bombardeada com odores decadentes. O cheiro do lugar era tão ruim quanto o da viela. Podridão, devassidão e suor.

Não quero olhar para os lados, mas preciso saber se é seguro. Conheço cada rosto por aqui: um grupo de trabalhadores bebendo e jogando cartas, uma prostituta com sua perna protética cor de rosa já gasta pelo tempo e um de seus clientes. Alguns bêbados com a cabeça apoiada no balcão, enquanto levantavam apenas um dedo para sinalizar o pedido da próxima dose.

— Alguém mais?

— Sim. — Essa é a única resposta.

Chegamos em frente à escada e deixo que Orestes abras os olhos. Nosso ponto de encontro era num porão bolorento, mas que tinha uma ótima saída de emergência. No fim da escada, mais uma porta, mas esta era totalmente tecnológica, de modo que só um Tecnopata poderia abri-la. Suspiro, torcendo para que minhas habilidades funcionem.

— Quer tentar? — pergunto para Orestes e seu rosto se ilumina. Estava apenas tentando ganhar tempo para me concentrar.

Os olhos dele se fixam na porta e suas feições se contraem em uma careta de pura concentração. Vincos se formam entre suas sobrancelhas e seu rosto começa a ficar vermelho. Enquanto isso, o leão-de-chácara sorri e se despede com um aceno.

— Quem sabe daqui a alguns anos — digo, apertando de leve o seu ombro.

Volto-me para porta e respiro fundo. A dor de cabeça, do mesmo jeito que veio, foi embora. Um pedido para o dispositivo na minha frente, e ouço o som da tranca se abrindo por dentro. Quando a porta se abre, vejo meus amigos sentados em volta de uma mesa, uma garrafa de vodca, alguns copos e o Alto Chanceler Domenico De Rege; o responsável pela área que antes era conhecida como Europa, que fora reduzida a sua metade já que grande parte havia se tornado inabitável. Ele era um Tecnopata nível dois e nosso principal aliado. Estávamos apostando todas as nossas fichas nele. Felizmente, em seu rosto se via a expressão de um homem com uma missão.

— Senhorita, que bom vê-la. Agora podemos revisar o nosso plano.

°o°

Terminamos pouco antes da meia-noite. Domenico precisou sair às pressas em direção ao Palácio Vermelho. Todos estavam tensos. Éramos quinze Tecnopatas, apenas sete eram nível três e dois, nível quatro: Synesius e eu. Ficaríamos com a parte mais complicada: infiltrar-nos no Palácio Vermelho, onde, segundo informações, estava localizado o principal computador da Tecnocorp, e quebrar o sinal de todos os Cyberdooms. Só então estariam à mercê de qualquer um que conseguisse dominá-los: nós. Eles, aos nossos comandos, iriam matar os Altos Chanceleres, à exceção de Domenico, e o presidente e vice da corporação. Contudo, isso era trabalho do nível três.

Havia diversos rumores sobre um Tecnopata nível quatro trabalhando para Géraldine. Ninguém sabia a identidade da tal pessoa, mas seria um grande empecilho. Só que eles não estavam contando com dois Tecnopatas nível quatro para destruir todas as barreiras de segurança. Sem contar o fato de que eu estava passando por mudanças. Em breve seria uma nível cinco. Podia sentir isso em meu cerne e, pela velocidade com que estava evoluindo, iria acontecer antes do esperado.

De qualquer forma, precisávamos adentrar a sala onde estava localizado o Mainframe e invadir o Servidor Central. Não antes de matarmos alguns funcionários da empresa que estariam dispostos a defender os segredos da Tecnocorp com unhas e dentes. Pior para eles.

— Prontos? — Theon, um nível três, entregou-nos um minúsculo dispositivo para encaixarmos em nossos ouvidos; nossa comunicação.

As armas estavam na mesa. Tão necessária quanto nossas habilidades. Acabei mudando minha visão em relação a elas ao longo do tempo. Um mal necessário. Abraço meu irmão e dou um beijo em sua testa.

— Se eu não voltar até o amanhecer, passe por aquela porta ali — apontei para uma porta que tinha o seu tamanho — e vá para a casa de Theon. A esposa dele estará te esperando. Lembre-se sempre que isso que estamos fazendo é para o bem de todos.

Ele apenas assentiu, e me virei antes que as primeiras lágrimas escorressem pelo seu rosto.

— Vamos.

Havia uma passagem pelo esgoto que daria direto em um dos banheiros do Palácio. Tomamos esse caminho, ignorando os ratos e o cheiro pútrido de decomposição. Andamos alguns minutos até avistarmos uma tampa com o nome da corporação. Tomo a frente e dois colegas me erguem para que possa encostar nela. Três segundos é o suficiente para as travas se abrirem. Idiotas de nível dois que não conseguem nem criar uma fechadura direito.

Subo primeiro e auxilio os outros. Os de nível três teriam que aguardar pacientemente, camuflados por entre os convidados, até que eu e Synesius conseguíssemos dar um jeito no sinal.

— Vai ser meio difícil vocês se enturmarem com esse cheiro de vala — brincou Synesius, mas ninguém estava muito a fim de risos. — Desculpe. Temos que dar um jeito nas câmeras.

Theon trancou a porta do banheiro enquanto eu e Synesius pegávamos nossos laptops. Iríamos modificar o sinal e transmitir uma gravação nas câmeras do elevador. Desse modo, poderíamos passar despercebidos. O Mainframe ficava no subsolo, logo, teríamos que descer de novo.

Alguns minutos, alguns cliques e voilà! Os seguranças estariam assistindo uma gravação de um outro dia rotineiro.

— Não acredito que me colocarão num vestido de gala — reclamo enquanto dou uma olhada na roupa que terei que usar.

Retiro apenas minha jaqueta e coloco o vestido por cima da minha roupa atual. Felizmente a barra da saia tampava minhas botas. Depois de muita água e gel, consigo jogar meu cabelo para trás. Tiro também os piercings e os guardo com cuidado em uma bolsa pequena.

— Você quase parece normal. — Synesius usava roupas que pareciam ter o dobro de seu tamanho.

Só então saímos no hall e caminhamos em direção ao elevador. Havia poucas pessoas e poucas notaram nossa presença. Synesius apertou o botão do elevador e esperamos. Por favor, que ninguém…

— Boa noite. — Um homem trajando vestes pomposas parou ao nosso lado. — Engraçado, acredito que não os conheço. Como é que eu nunca vi seus rostos por aqui?

— Viemos de fora. — Synesius força um sotaque estrangeiro que quase me faz rir… de nervoso.

O homem começou a falar sem parar até que o outro elevador chega. Respiramos aliviados e ignoramos seu convite para o acompanharmos. Com a chegada do “nosso” elevador, entramos e tratamos de fechar a porta. A voz eletrônica pede que nos identifiquemos e digamos o andar. Nós dois nos concentramos, pelo que parece ser vários minutos, até que ouvimos a voz novamente, dizendo que estávamos indo em direção ao subsolo.

Sinto algo quente escorrendo sobre meu lábio superior e constato que é sangue. Uma dor excruciante na cabeça faz eu me apoiar contra a parede. Tento respirar pela boca, já que o sangue continua escorrendo de meu nariz.

— Pandora, acalme-se… — A voz de Synesius está longe e sinto que vou desmaiar. — Preciso de você aqui.

Fecho os olhos, mas é ainda pior. Tudo está girando e só tenho tempo de virar o rosto para o lado antes de sentir o que restara em meu estômago sair em um jorro de minha boca.

Meu corpo está caindo enquanto a escuridão tenta me levar com ela. Sons de tiro? Alguém gritando. Sinto a superfície tremer; talvez seja apenas eu. Enxergo apenas códigos, linguagens e ouço estática. Uma overdose de informações e, então, tudo o que resta é minha respiração ofegante.

Volto a olhar para Synesius; seu rosto transmite apenas desespero. As balas se chocam contra a porta do elevador e me levanto. Não havia mais dor, apenas o gosto amargo em minha boca. Estava na hora de pôr um fim nessa história… e no maldito vestido que estava usando. Havia me tornado uma Tecnopata nível cinco, mas não se tratava de ser apenas uma Tecnopata. O que os amedrontava era nossa capacidade de pensar. A ignorância é seu principal subterfúgio. Por isso que somos tão perigosos. A informação, para nós, é ilimitada.

Sinto os Cyberdooms do outro lado da porta e envio um comando. Eles respondem de imediato, mais fácil do que conseguir fazer meu irmão tomar banho. Ouço os gritos dos policiais e os tiros. A porta do elevador se abre e vejo os corpos no chão, ao longo do corredor extenso. Synesius não tem tempo de ficar em choque ou perguntar nada. Pega suas coisas e uma das armas dos policiais mortos.

— Vão na frente e se certifiquem de que nada nos impeça de chegar no Mainframe — dou a ordem aos Cyberdooms, que assentem e seguem na nossa frente.

Há apenas uma porta ao fim do corredor, com um código mais sofisticado, mas que não me impede de prosseguir. Fácil demais. Enquanto a porta se abre, leio a assinatura de quem criara o código e… não pode ser. Empurro Synesius para o lado a tempo dos tiros passarem zunindo por nossas cabeças. Os nossos Cyberdooms reagem, mas muitos caem inertes. Quando os tiros cessam, sei que ainda sobraram androides do outro lado e todos tinham suas armas apontadas para a entrada.

— É Géraldine — digo, empunhando minha arma.

— Como? — Mas a resposta estava lá.

Por isso que ninguém conseguia burlar o sistema da Tecnocorp. Por isso que ela era imbatível. A Alta Chanceler era uma de nós. Uma Tecnopata.

— Fique aqui e aguarde.

O comando que mando dessa vez para os Cyberdooms tem que ser mais forte. Ela está lutando para manter seu controle. Paro em frente à entrada e a vejo cercada pelos androides. Seus cabelos loiros presos num belo penteado e o vestido de gala intacto. Como pude ser tão idiota. Ela era o computador; era o Mainframe, o Servidor Central. Uma Tecnopata nível cinco.

— Mais um passo e atiramos em você.

— Então por que não o fez ainda? Ah, sim, você não consegue. — Os Cyberdooms pareciam dormentes.

— Não sabia que existia outra Tecnopata nível cinco por aí. Se soubesse teria…

— Me aniquilado? É, eu imaginei. Agora me diga o que leva uma Tecnopata a matar seus iguais?

Mantenho uma distância de segurança entre nós, travando uma verdadeira batalha mental com ela pelo domínio dos Cyberdooms.

— De que adianta ter vários iguais a mim? Muita concorrência.

— Só pode existir um — cito um dos meus filmes antigos preferidos, mas ela não pareceu notar. Sem cultura. — Bom, você não é a única e nunca será, lamento. — Sinto a frequência do dispositivo em meu ouvido e envio uma mensagem para Synesius.

Precisaria de um pouco mais de ajuda. Logo sinto seus comandos se unindo aos meus. Géraldine não aguentaria muito tempo… e não aguentou. Os Cyberdooms implodiram um a um. Nesse momento, ela aproveitou para correr em direção à outra porta. Uma saída de emergência.

Corro atrás dela e dou graças por não estar mais usando o maldito vestido. Géraldine começa a atirar a esmo e acerta meu ombro. Ignoro a dor e continuo, afinal, era minha vez de atirar. A porta tinha acabado de abrir quando meu tiro acertou suas costas. Ela caiu com metade do corpo para dentro da sala e a outra, para fora.

— Não faça isso. Você é uma Tecnopata nível cinco! Pode trabalhar na Tecnocorp e ganhar rios de dinheiro. Escolha ficar do meu lado… — Sangue escorria de seu nariz.

— Eu nunca seria bem-vinda aqui, e ficar do seu lado não é uma escolha válida. Prefiro morrer a fazer as coisas do seu jeito.

Meu olhar se volta para a porta, e Géraldine sabe o que estou prestes a realizar. A porta se fecha, dividindo-a em duas. O império caiu mais uma vez. Sinto Synesius se aproximar e me volto na sua direção. Estava na hora de mandar o sinal para os outros.

— Theon, o servidor caiu. Siga em frente.

— Entendido — diz ele, segundos depois, em meu ouvido.

Ainda pude ouvir sua voz mandando o alerta para os outros: “Preparar, Apontar… Fogo!”

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