A Corte [Parte 14] –Dualismo

Escrito por: A.J. Perez

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“A Corte: Capitulo 14 – Dualismo”

Os policiais se aproximavam deles sem pressa vindo do outro lado da rua.

– Vão subornar eles? – questionou Mark

– Observe e aprenda como fazemos – respondeu Natalia.

Quando os oficiais da lei chegaram no meio da rua a voz de Guillehal chegou tediosa aos ouvidos do demais.

– Abraxas, é com você.

Abraxas uniu as mãos como em uma prece, fechando também os olhos e o mundo desacelerou lentamente até finalmente parar por completo.

– Bem vamos ver o que encontramos antes que os humanos idiotas destruam o local. – resmungou Zarrara conforme avançava para o beco, indo na frente dos demais.

– Ele, ele parou o tempo? Sério? – indagou Marcus que estava atordoado com a cena.

– Alguns dos poderes dos Celestes. – lhe explicou a gótica tentando ser menos detalhista o possível, aquela era um situação bem complicada para ficar explicando o mundo sobrenatural a alguém que nunca havia tido contado com ele, embora ela achasse que ele estava indo muito bem.

– O que são esses Celestes que vocês falam?

– Celestes é como chamamos os Vingadores Celestes, – Nath e Mark observaram todos os demais entrando no beco – São filhos de anjos com mortais. Podem ser de até sete gerações, também são chamados de Nephilins.

– Espera, então existem anjos? Anjos de verdade.

– É o que dizem, nunca ninguém viu um.

– Como ninguém viu um anjo, se eles estão por ai, você sabe, bem…

– Transando com as mortais gostosas?

– É..

– Não sabemos. Todos os Celestes que conheci e os demais também até onde eu sei eram de terceira geração ou inferior.

– No caso eram bisnetos do anjo.

– Exato, não temos como saber se de fato inicialmente foram criados por anjos, mas é o que as lendas dizem.

– Então não tem como saber se são mesmo anjos?

– Infelizmente não, mas os poderes e coisas que fazem lembram muito os anjos mitológicos. Seth é de terceira geração, ele ainda possui a habilidade de conjurar uma espada de fogo místico. Abraxas é de quarta ou quinta, não sei ao certo, eles eram amigos antigamente, na época que era da inquisição. Dizem que celestes de segunda geração podem voar, sabe com asas e tudo.

– Isso é incrível. Mas espera… Seth e Abraxas eram da inquisição? A inquisição que queimava – ele apontou com a mão na direção dela – bruxas?

– Sim eles eram, o Vaticano comandava tropas de Celestes naquela época, eles eram agentes de Deus na cruzada contra os filhos do diabo.

– E como eles estão do seu lado agora.

– A guerra acabou quando o Vaticano descobriu que existiam duas cortes de sobrenaturais, os Seelie e os Unseelie.

– Estou ouvindo.

– Os Seelie são a Corte da qual eu faço parte, nós acreditamos que sobrenaturais e seres humanos devem viver em paz e harmonia, nos vemos como iguais, nem mais, nem menos.

– Justo…

– Os Unseelie, – ela fez menção a Guillehal e e os demais de sua corte – Acreditam no oposto, os sobrenaturais são superiores aos humanos, e esses só existem para ser alimento ou diversão.

– Não gosto deles.

– Muita gente não gosta.

– Então o seu tio é tipo a ovelha negra da família?

– Não. Isso é complicado. Se importa se não falarmos disso.

– Tudo bem, desculpe não quis..

– De boa, vamos nos juntar aos outros.

Eles seguiram até o beco, que agora era bem iluminado por diversas luzes ligadas e os faróis de uma viatura.

– Pobre criança, – disse o rei ao ver o rosto de vida da jovem – tinha tanto a fazer ainda.

– Vamos pegar quem fez isso. – ralhou Zarrara.

– Vamos ver o que temos aqui – Disse Aloy, o lobisomem rastreador que era amigo de Zulbur.

Os membros da Corte Seelie ficaram para trás, fora do beco observando. Era o costume, entre os membros de cortes opostas observar sem interferir caso não fosse requisitado.

Natalia e Marcus olharam ao redor observando a crueldade do mundo diante de si, como alguém poderia fazer aquilo com uma mulher? Com qualquer pessoa?

– Vamos ver se achamos algo aqui. – disse Natalia de modo melancólico.

– Sinto quatro pessoas aqui, há pouco tempo. – afirmou Aloy, farejando o solo próximo a garota – Duas mulheres, uma é a garota morta a outra deve ser a tal bruxa que me contaram que estava aqui depois, e tem mais uma pessoa, mas ele usou ervas e um feitiço para ocultar o cheiro, maldito.

– Então foi premeditado. – afirmou Guillehal de modo triste ao observar a garganta cortada da jovem.

– Posso sentir uma quarta pessoa, mas não faz sentido…

Natalia olhou para Marcus, ele por sua vez observava Aloy, esperando algo mais que complementasse a afirmação.

– … Qualquer rastreador comum deixaria isso passar, provavelmente, mas havia outra pessoa no beco, um homem, mas ele não tem cheiro.

Todos se olharam.

– Parece com o novo amigo de minha sobrinha, – Guillehal colocou de modo jocoso – o estranho sem aura.

– Isso é diferente de qualquer coisa que eu tenha visto, ou cheirado no caso. Posso sentir o odor da jaqueta de couro, do colônia barata que usava, botas, odor leve de bancos de carro. É um homem, mas não tem odor próprio, poderia ser qualquer um. Não existe como rastrear ele se entrasse em um local movimentado, todos os odores são incrivelmente sutis, é como se ele tivesse um cheiro que abafa o próprio odor das coisas que usa.

– Cheiro sem cheiro? – resmungou Zarrara – Que cara bizarro.

– Por que estão focado em mim? – gritou Mark.

– Não podem nos ouvir. Mark tem algo que você precisa saber. Você já percebeu que estamos interessados em você…

– Por que vocês não conseguiram ver minha tal “Aura”. – respondeu ele.

– Sim. E agora sabemos que um lobisomem também não pode te rastrear.

– Sei o que está pensando, está errada. Não sou como vocês. Não tenho nenhum poder.

– Humanos tem auras também, até animais possuem, mas você não. Isso tem de ser algo Marcus. Não é comum.

– Não me torna sobrenatural.

– Te torna qualquer coisa, menos humano. Sinto muito por descobrir essas coisas tão abruptamente, mas você tem de aceitar os fatos. Não sabemos o que você é, mas com certeza você não é humano!

– Seu tio nos trouxe pra procurarmos coisas que eles podem não ter visto. Vamos nos focar aqui. – resfolegou Mark se afastando de Natalia.

O tempo passou e todos observavam o ambiente ao redor procurando pistas, Zarrara encontrou símbolos no beco que indicavam um ritual de ocultamento, o que explicava a interferência no espelho d’água. O local inteiro havia sido preparado para o homicídio da garota, Mark só pensava que alguém deveria estar com muita raiva dela para preparar tudo aquilo para matá-la. E logo seus pensamentos se voltaram a ele mesmo, como seria sua vida agora, agora ele sabia de coisas que mais ninguém fazia ideia. Como ele iria viver com aquilo, e a historia dele não ter aura ou cheiro começa a voltar recorrentemente a sua mente, até que algo chamou sua atenção.

Uma tampa de bueiro, no fundo da viela não estava colocada da forma correta, ela estava desencaixada, e nitidamente havia sido aberta recentemente.

– Achei algo! – Gritou Mark.

– O que? – Natalia chegou correndo parando ao lado dele.

Ele apenas indicou a tampa do bueiro e se abaixou para olhar na fresta, Natalia fez o mesmo, eles a observaram por alguns instantes.

– Acha que ele se escondeu ai? – indagou a garota.

– Provável, ele subiu muito rápido.

– Se ele foi pelos esgotos pode estar em qualquer lugar da cidade a essa hora.

– No fim isso não serve para na…

Ambos recuaram ao ver algo se mover abaixo da tampa. Era uma pessoa com um pequeno foco de luz, talvez uma vela.

– Mas que merda! O desgraçado ainda está ai! – gritou Natalia

– Por que ele ficaria tanto tempo no mesmo lugar?

– Devia estar esperando algo.

– Espera, como ele pode se mover se o tempo esta parado?

– Por que o desgraçado é sobrenatural, apenas sobrenaturais podem se mover quando um celestial para o tempo. Eles fazem isso para os mortais não nos verem.

Aquilo fazia sentido, sentido até de mais, mas Mark não pode perceber que aquela era a resposta de sua duvida.

– Então como estou me movendo…

– É… eu sinto muito, de verdade. Deviria ter descoberto de outra forma.

– Tudo bem, desculpe por ter sido idiota com você.

– Estamos de boa.

– Bem, – disse Mark se levantando subitamente, Natalia pode ver que ele estava com os olhos marejados, mas ela não disse nada – Vimos algo que eles não viram, como voltamos?

– Vem comigo.

Ambos foram até Guillehal, Natalia pôs a mão no ombro direito dele e Mark fez o mesmo no ombro esquerdo.

– Só tenho uma coisa pra te dizer, antes de voltarmos.

– O que?

Natalia segurou a mão dele.

– Não vomite em mim!

O mundo se esticou e girou mergulhando na escuridão, não havia em cima ou embaixo, mas ele ainda sentia seu corpo girando junto do dela. Não conseguia falar, não conseguia respirar, só sentia a aceleração vertiginosa…

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Continua…

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