Seven Sins – Avareza

lav2

“Houve um  rei,
Que por prazer contava moedas e guardava com temor todo ouro que podia.
Havia um deus bondoso,
que grato pelo favor prestado por tal rei, decidiu com um presente lhe agraciar.
– O poder de transmutar tudo em ouro! – disse eufórico o rei.
Pesaroso, o deus assim lhe concedeu
E por tal pedido Midas quase padeceu…”

center-divider

A chuva caia portentosa, como quem quer naufragar os navegantes noturnos. Raios e trovões cortavam o céu, transformando o desenho das nuvens em desenhos macabros, descendo ao solo em busca de algum desavisado para atingir.

O guarda – chuva chamativo, estava fechado diante do homem de expressão sisuda e olhos negros. Vestia calça azul celeste e um hobby verde esmeralda, acompanhado por um par de pantufas alaranjadas, um tanto quanto desbotadas, formando uma mistura exagerada e desconexa de cores confusas.

As rugas marcavam – lhe o rosto e as mãos secas, denunciando a idosa idade, tamborilavam o guarda – chuva roxo, impaciente.

A boca mexia – se nervosamente com a ponte móvel que ali fazia morada, fazendo um barulho estranho, de como quem mastiga de boca aberta.

– Paciência, meu velho! – pediu a voz envolta em sombras, sorrindo com seu costumeiro sarcasmo e dentes alvos.

– Velho é o senhor seu passado! – brandiu ele rabugento.

O corpo nu dentro do cilindro de vidro reforçado, tateava as cegas o lugar em que se encontrava, quando inesperadamente os holofotes se acenderam, cegando – lhe de imediato, fazendo com que a vítima cobrisse os olhos.

– Já não era sem tempo! – exclamou o velho rabugento, se aproximando á passos lentos do cilindro e alcançando – o com a ponta do guarda – chuva.

O rapaz não deveria ter mais que 30 anos e ficou apreensivo de imediato:

– Que brincadeira de mal gosto é essa? – os punhos fechados tentavam quebrar a parede do cilindro sem sucesso.

– Ora, pare de reclamar. Isso não é brincadeira nenhuma e eu estou aqui para lhe ensinar uma grande lição, a mais importante de sua vida.

– Lição? Quem é você, velho caquético para me ensinar algo? Você é só a escória da sociedade.

– Sabe por que seres como você morrem cedo? Por que não merecem estar aqui. E não tem respeito por nada, nem por vocês mesmo. Armazenam coisas tão fúteis e tão sem valor com medo de perder, mas vamos ao que interessa. Você fala de mais, e eu detesto gente desse tipo.

Mangueiras grossas deixaram o liquido viscoso e quente escorrer para dentro do cilindro rapidamente.

– Sabe Lucian, o maior pecado do homem é ter medo de perder aquilo que mais lhe apetece… Carros, joias, casas, mulheres, no seu caso, como foi um antigo e amado soberano, ouro, mas não bastava comprar e guardar longe dos outros olhos, não. Seu desejo exacerbado te fazia mentir, te fazia matar, te fazia roubar, mas sempre sem sujar as suas mãos.

O rapaz dentro do cilindro parecia se afogar no líquido denso, tentando gritar mas sem sucesso, o barulho que a mangueira fazia calava – lhe a voz por ser mais alto, até que parou.

O líquido escorria com a mesma rapidez que entrara, deixando o corpo do rapaz pegajoso e fazendo-o cair de joelhos no chão, arfando pelas pequenas marcas de queimadura que agora marcavam o seu corpo.

– Não se preocupe, o próximo jato, vai te ajudar a sentir menos dor. – sorriu o velho sarcástico.

– Porque eu? – perguntou Lucian apoiando no vidro, enquanto tentava limpar seus olhos sem resultado.

– Por que você é uma obra-prima dos avaros. Sempre houve aqueles que se arrependeram, e voltaram para o caminho menos desesperador, e com a minha idade, eu aprendi a ser justo, eu diria. Aos que aprendem, a redenção. Aos iguais a você, de mãos manchadas, eu dou o presente de Baco.

– Presente de Baco? – A cera quente invadia o cilindro e os gritos de dor se tornaram desesperadores, a pele na ponta dos dedos passou a soltar – se enquanto o resto do corpo se tornava uma massa vermelha.

– Acho que me enganei sobre o alivio. Como disse, seu ouro, fará de você uma lenda. Fará sua vida ser esplendorosa. Você consegue se lembrar do som dos carros correndo em Ibiza, e das barras de ouro, manchadas pelos miolos de seu sócio. Era o brilho, lembra? Você precisava daquilo. Era lindo demais, lhe comprou mulheres exóticas, até mesmo aquelas que não te queriam.

E os homens que você usurpou em favor de ter mais um pouquinho da sua “droga” dourada? Me lembro como se fosse hoje de sua primeira abstinência, um roubo. Um simples, anel de ouro, você quase enlouqueceu. Arrancou os dedos, os olhos e a língua daquela pobre criatura, na frente das filhas. Ela vendeu para alimenta-las, sabia? Ela morreu e no final, as crianças, duas meninas, foram compradas por você anos mais tarde, suas escravas, banhadas em ouro. Queimadas pelo líquido que você tanto idolatrava…

– Midas… – disse Lucian.

– Este é meu garoto. Viu como você se lembra. Era assim que todos lhe chamavam quando você chegou ao poder, não é mesmo? Tirando vidas e fazendo de seus restos mortais, pequenos lembretes para quem ousasse tocar nos teus tesouros.

Agora é sua vez de experimentar seu próprio castigo, na caldeira ao lado, tem a mesma quantidade do ouro que você guardou, líquido, puro e reluzente. E eu realmente espero que você goste.

O corpo gemendo no chão, retesou-se quando as paredes do cilindro se abriram e deixaram escorrer o restante da cera quente pelo recinto, o velho aproximou-se do rapaz caído, e o prendeu a ganchos de açougueiro.

– Por favor! Eu pago o valor que você quiser! – Lucian implorou, deixando escorrer lágrimas.

– Seu ouro e seu poder não podem comprar quem sou. Eu tenho mais do que você. Eu tenho mais que todos. Eu sou a Avareza.

EU SOU TUDO O QUE O VOCÊ POSSUI. E ATÉ MAIS

O corpo erguido, feito uma cruz, estava sobre a caldeira e foi descido vagarosamente para dentro da maravilha dourada.

Primeiro os pés, joelhos e os gritos, a pele soltando-se e o sangue se misturando ao líquido dourado. Absorvido, tornando-se um ao amor de Lucian.

– Você sente prazer em matá-los dessa forma, não velho? – perguntou a voz nas sombras.

– Você não vê? Eles são acumuladores. Todos os dias, cada dia mais, caminhando em direção á mim, com avidez. Escondem sapatos e perfumes como se fosse uma preciosidade inestimável, compram coisas que guardaram, sem jamais usar simplesmente por medo de perder e cada vez mais se tornam egoístas.

Eles se rendem a mim, meu prazer é recebê-los e vê-los perecer…

Os restos mortais saiam da caldeira, agora sem vida. Como um deus pagão moldado em ouro, o corpo magro e esguio iria secar ao vento da tempestade torrencial. Vísceras douradas, uma órbita ocular vaga, enquanto a outra parecia  observar aterrorizada, na boca o sorriso macabro mostrando o que sobrou dos nervos faciais…

” São pessoas e mais pessoas,

desejos da carne em ganância.

Vontade de manter aquilo que possui apenas para si,

alimentando cada vez mais a fome de tal pecado.

Tornando-se parte de algo irrevogável.

Eles caminham entre vós… Eles caminham entre vós…”

CONTINUA…

Gostou? Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s