Tambores da Bruxa

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“Batem-se os tambores da bruxa
Os tambores da bruxa
Melhor rezar para o
inferno, nada
de aleluia”
“Cupid Carries a Gun”, do Marilyn Manson

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A fumaça do cigarro de Connor Howe provocara, até aquele momento, quatro espirros em Joe. Seu amigo vinha tentando parar de fumar — e falhando — há mais de seis meses, pouco antes de iniciar o segundo período na Faculdade de Comunicações de Loyola, Nova Orleans. O rapaz tinha quase que gritar para que seus amigos pudessem ouvi-lo.

Do lado de fora da “The Old Absinthe House” — um tradicional bar e restaurante frequentado por todos que presavam por boa comida e para jogar conversa fora —, uma mescla de sons impedia qualquer um de ter uma conversa normal; gritos, risadas e ótima música bombardeavam a audição do mais surdo dos moradores. O Bairro Francês estava sitiado por pessoas e carros alegóricos cheios de cor e vida, numa parada onde crianças, adolescentes e adultos divertiam-se como nunca.

Faltava pouco mais de um dia para o Mardi Gras, ou “Terça-feira gorda”, embora as comemorações fossem realizadas por todo um mês. O famoso carnaval de Nova Orleans atraía pessoas de todos os lugares do mundo para uma festa de pura alegria, promovida por um povo tão sofrido quanto os Orlenianos. Eles eram capazes de contagiar a mais taciturna pessoa.

Do grupo de amigos, apenas Joe havia participado da festa anteriormente, já que morava na cidade desde que tinha doze anos; nunca conheceu seu pai, que abandonara a esposa quando esta ainda estava grávida, e sua mãe lutou por um ano contra a leucemia antes de vir a falecer. A parente mais próxima fora sua tia-avó, por parte de mãe, que não importara-se em adotar o pequeno órfão. Cecilie Eaton era descendente dos créole franceses que fundaram a cidade e morava, desde que nascera, na área pantanosa ao sul da Bayou.

Como uma boa Orleniana, levava muito a sério as superstições locais que — aos poucos — vinham sendo deixadas de lado enquanto a cidade crescia e os moradores se renovavam.

O rapaz já estava acostumado com toda a balburdia, mas seus amigos estavam afoitos com as possibilidades. Ansiavam por aquele momento desde o primeiro semestre, quando entraram para a universidade.

— O dia em que as inibições são deixadas de lado em prol dos prazeres da carne. — O “poeta” do grupo disse, com um tom sonhador.

— Nossa, Cain, para que toda essa formalidade para falar sobre gostosas mostrando os peitos? — Os quatro caíram na gargalhada, e Connor quase derramou seu copo de cerveja no chão.

— Vamos ver quem vai pegar mais mulheres, Paul. Beleza nem sempre é tudo. — Cain passou uma das mãos pelo cabelo, fazendo sua melhor expressão sedutora.

— Isso é um desafio?

Assim como Cain era o poeta, Paul era o galã. Sua beleza europeia — presente de seus avós franceses — e sua lábia, com um fajuto sotaque francês, eram capazes de atrair qualquer menina que desejasse.

— Entenda como bem quiser.

— Pois eu aposto que pegarei muito mais que você. O prêmio será… — Paul parou por um momento, pensativo.

— Doenças sexualmente transmissíveis? — Joe completou e acabou levando um soco no braço.

— Não seja um puritano, seu babaca. Vai dizer que nunca pegou várias garotas durante os sete carnavais que passou aqui? — Ele apenas deu de ombros e Paul voltou ao seu momento contemplativo. — Ah, já sei! Cerveja de graça por um ano.

Cain semicerrou os olhos, estudando a proposta, e acabou apertando a mão de seu amigo.

— Feito.

A Universidade de Loyola promovia diversos encontros e festas para os alunos; todas muito comportadas a partir do ponto de vista discente, por isso, a maioria dispersava e fazia a própria comemoração.

No meio do povo, o grupo de amigos — especialmente Paul e Cain — ofereciam os típicos colares de conchinhas para as jovens atraentes que encontravam pelo caminho. A maioria, em troca, levantava suas blusas e mostrava os seios, para o deleite da maioria. Joe era alvo frequente de chacotas por não gostar da tradição, que iniciara mais de um século antes.

Mesmo assim ele ficou com seus amigos e aguentou tudo com poucos sorrisos e muita vontade de voltar para o dormitório. Observou seus amigos beijarem diversas meninas, e perderem-se em alguns becos, para aparecerem pouco tempo depois com marcas de batom pelo rosto e o zíper da calça aberto.

Enquanto observava o desfile de carros alegóricos, durante o entardecer, notou uma jovem a alguns centímetros de distância; ela estava apoiada contra um poste e tinha um olhar distante, como se enxergasse além de tudo aquilo. Joe fixou os olhos em seu rosto com uma forte sensação de que a conhecia, só não sabia de onde. Entre os seus dedos, um cigarro de cheiro forte e sem filtro emanava um odor não tão fétido quanto o de um cigarro comum.

Curioso, aproximou-se dela até que seus olhos se encontraram. Joe paralisou, pego no flagra, mas o sorriso dela pareceu o suficiente para servir-lhe de incentivo.

— Hey, tudo bem? — Ele precisou falar em seu ouvido para que ouvisse. A mulher apenas assentiu e o silêncio caiu sobre os dois. — Não é uma cantada, bom? Acho que te conheço de algum lugar.

Ela riu e Joe sentiu-se um idiota por ter começado a falar. “Devo estar parecendo um retardado”.

— Conheço sua avó — disse, chamando sua atenção. — É uma mulher de fibra.

— Mesmo? — Parecia a opção mais provável para ele. — Então devo ter te visto na casa dela.

— Também, de certa forma. — Joe estava confuso, mas resolveu não entrar em detalhes. Preferia, apenas, olhar para ela.

— Sou o Joe. — Ele estendeu a mão para cumprimentá-la.

— Erzulie.

Ela estava prestes a dar prosseguimento no cumprimento quando, num impulso galanteador, Joe viu-se beijando sua mão. Erzulie era linda, sem dúvida, e algo em seus olhos denotava certo mistério e uma sedução implícita. Era o tipo de mulher que não precisava levantar sua blusa — embora estivesse usando um longo vestido verde — e mostrar os seios para chamar atenção.

Sua pele era cor de canela, olhos avelã e os cabelos negros cacheados chegavam nos quadris. Mesmo com o cheiro da fumaça de seu cigarro, Joe conseguiu sentir um perfume cítrico e picante vindo dela. “Florida Water” pensou ele, lembrando do frasco de perfume que sua vó tinha em sua velha penteadeira.

— Vem comigo? — Erzulie segurou sua mão com firmeza e sorriu, jogando o cigarro fora.

Joe achou a proposta mais que tentadora, mas não queria deixar seus amigos para trás. “Eles já me deixaram” pensou, olhando em volta e não os encontrando em lugar algum. Ele assentiu e ela começou a puxá-lo por entre a multidão, afastando-se cada vez mais da bagunça.

Nesse ponto a noite já havia, finalmente, caído, mas a festa continuava. Enquanto os dois caminhavam, viam casais aos beijos e bêbados trocando os pés enquanto lutavam para não cair em cima das outras pessoas.

Erzulie passou o braço de Joe pelas suas costas, posicionando a mão do rapaz em sua cintura. Ela parecia alguns anos mais velha, mas ele não se importava; precisava, somente, estar perto da bela mulher.

— Você é muito bonito para um blanc, Joe. — Os dois pararam numa rua não tão movimentada e Erzulie o segurou pelo pescoço, chegando seu rosto bem perto do dele, tendo que ficar na ponta dos pés. — Deseja beijar-me?

O pomo de adão de Joe subia e descia enquanto tentava controlar sua respiração. Não tinha dúvidas sobre sua vontade de beijá-la. Precisava fazê-lo. Antes que pudesse tomar a iniciativa, a mulher pareceu ler sua mente e adiantou-se. Erzulie, delicadamente, passou a língua em seus lábios antes de beijá-los. Sua boca tinha gosto de chocolate e rum, ao invés do amargo cigarro. Seu corpo era quente e convidativo; a pele macia, por si só, já era uma carícia contra as mãos duras de Joe.

— Hey, Joe! — Ele se afastou de Erzulie e viu seus amigos caminharem, a passos trôpegos, na sua direção. — Tem certeza que é ele?

— Claro que é! Ô Joe, quem é essa daí? — Paul jogou a garrafa de cerveja, que segurava, na calçada e essa espatifou-se em vários fragmentos.

De maneira protetora, entrou na frente de Erzulie, temendo o que seus amigos, fora de si, poderiam fazer. Mas ela não pretendia esconder-se de nenhum homem, mesmo apreciando sua atitude cavalheiresca.

— Você sumiu, cara, e por causa de rabo de saia — acusou-o Connor, apoiando-se no ombro de Cain.

— Ah, mas essa aqui não é qualquer rabo de saia, é? — Paul começou a aproximar-se dos dois, mas Joe foi à frente.

— Por que vocês não voltam para a festa e nos deixam em paz para conversar?

Connor e Cain caíram na gargalhada enquanto Paul encarava Erzulie, que tinha seus dedos entrelaçados com os de Joe.

— Vocês vieram para esse lugar afastado para conversarem? Qual é, Joe, acha que eu sou idiota? E essa daí até que é bem bonitinha para uma negrinha.

Pouco depois de Paul pronunciar a última palavra, a mão de Erzulie atingiu em cheio o seu rosto, e ela tinha uma mão tão pesada que o fez cambalear para o lado. Ao se recuperar do choque, Paul foi com tudo na direção da mulher e Joe tentou intervir.

— Sai da frente, seu idiota. Vou mostrar para essa aí o que é uma porrada de verdade.

— Tá louco, Paul? Ela é mulher. — Connor parecia confuso, mas não gostou muito da ideia de agredir ninguém.

— Foda-se, não será a primeira nem a última, e se você ficar na frente, Joe, também vai levar.

O rapaz não recuou e tentou convencer Erzulie a ir embora, mas ela plantou os pés com firmeza no chão, não disposta a ceder. Paul riu de ambos e deu alguns passos atrás. Por um instante, Joe pensou que ele iria desistir, até que o punho do amigo atingiu seu queixo.

— Segurem ela.

Cain e Connor hesitaram por um momento, mas acabaram fazendo o que fora-lhes mandado; seguraram a menina pelos braços e Paul deu um soco em sua barriga para que parasse de lutar contra. Joe, ainda entorpecido, correu na direção deles, farto de toda aquela loucura, mas foi empurrado e acabou caindo, batendo com a cabeça.

Ele não desmaiara, mas também não conseguia se mexer. Seu estado letárgico era o resultado de muita bebida e algo mais. Cogitou a ideia de que seus amigos tivessem colocado algum tipo de droga na sua cerveja em algum momento, mas não podia ser, já que não largou sua bebida sozinha por um segundo sequer.

Como se estivessem a metros de distância, ele os ouviu rirem e gritarem com a menina, enquanto esta clamava por ajuda. Joe lutava para tentar levantar, mas seus membros não respondiam à ordem direta.

— Joguem essa vadia no chão e tampem a boca dela! — A voz de Paul, mesmo distante, era clara para Joe. — Vamos mostrar o que acontece com quem não segue a tradição do Mardi Gras.

Poderia estar enganado, e tudo não passaria de um delírio, mas antes que a escuridão o engolisse, seria capaz de jurar que ouviu o som de tambores reverberarem por toda Nova Orleans.

Joe acordou em sua cama com uma forte dor de cabeça. Sua nuca latejava e seu corpo parecia ter passado por um moedor de carne, mas sua memória permanecia intacta com as lembranças da noite anterior. O toque de Erzulie ainda queimava em sua pele, assim como seus gritos, pedindo ajuda, ecoavam em sua mente.

Levantando-se rápido demais, fora acometido por uma onda vertiginosa que o fez voltar a se deitar. Seu estômago estava embrulhado e a bebida que não saíra em seu suor pedia passagem por sua garganta. Ele só teve tempo de virar para o lado para não vomitar na própria cama.

Sua garganta queimava e o cheiro azedo só servia para fazer as coisas piorarem.

— Ah cara, que nojo! — Connor estava parado em frente à porta do quarto com uma expressão de repulsa.

Mesmo enjoado, e um pouco tonto, Joe levantou e quase jogou-se em cima do colega de quarto. Seu punho acertou duas vezes o rosto dele antes que o tirassem de cima do garoto, que sangrava pelo nariz.

— Seu merda! O que vocês fizeram com ela?! — Joe se debatia, tentando voltar à sessão de pancadaria, mas mais de três rapazes o seguravam. — O que vocês fizeram com a Erzulie?!

No corredor do dormitório, outros estudantes começaram a aparecer graças ao barulho. Connor levantou, olhos lacrimejantes por causa da dor, com a face tingida de carmesim. Não demorou muito para Paul e Cain também aparecerem.

— Joe, aqui não, cara — pediu Cain, tentando acalmá-lo. — Vem com a gente.

Paul apenas observava de braços cruzados e com uma expressão de poucos amigos. Os olhos dele estavam envoltos por olheiras e sua face pálida. Cain também não estava em seu melhor momento.

Com muito custo, Joe se acalmou e seguiu Cain e Paul para fora do dormitório, enquanto Connor foi levado para o posto médico. Assim que chegaram num ponto mais afastado, e privado, Joe voltou a fazer as mesmas perguntas, ainda que temesse as respostas:

— Não lembramos de quase nada — disse Paul, dando de ombros.

— Mesmo? Pois eu lembro! — Seus colegas se entreolharam, e Connor pareceu envergonhado. — Lembro de vocês chegarem bêbados e atacarem Erzulie e eu. O que fizeram com ela?

— Já falei que não lembramos de nada. — Paul se aproximou, parecendo ameaçador. — E é melhor você também não lembrar de nada, entendeu?

— Ou o quê? — Joe, mais uma vez, não recuou. Se fosse necessário, iria até a polícia.

— Qual o seu problema? Era uma garota qualquer. Se não quisesse um pouco de diversão, não deveria participar da festa. Estava lá porque desejava o que dei para ela. Aposto que estará hoje de novo para dar continuidade ao que fizemos ontem. — O sorriso em seu rosto era tão desprezível quanto o cheiro do lanço.

Joe cerrou os punhos, mas controlou-se. Sabia que a briga não daria em nada. Precisava achar Erzulie, mesmo não sabendo por onde começar a procurar. Dando as costas para os dois, Joe saiu sem olhar para trás. Se não conseguisse encontrá-la, daria parte na delegacia.

Tentou refazer seus passos do dia anterior, mas as ruas estavam insuportavelmente cheias de turistas. Em alguns momentos, confundiu-a com outras meninas, mas nenhuma delas era Erzulie. “Como se ela fosse estar andando por aí caso algo tivesse acontecido, seu estúpido” pensou Joe, voltando ao local onde a viu pela última vez.

A rua em questão não estava tão lotada, mas nenhuma das pessoas que via era a que desejava encontrar. Prestes a desistir, viu a barra esvoaçante de um vestido verde perto de um beco. Joe correu na sua direção a tempo de ver os cabelos negros de Erzulie antes que esta desaparecesse numa viela adjacente.

Não importava o quão rápido corresse, ele não conseguia alcançá-la. Chamou seu nome, na esperança de que parasse, mas ela prosseguia. Joe temia que o odiasse por causa de seus amigos, mas queria conversar; implorar seu perdão de joelhos, caso fosse necessário, pois tentara protegê-la e não conseguira.

Quando já não aguentava mais correr, a viu entrar em uma livraria. O lugar era-lhe familiar graças à sua avó, que — certa vez — o levara consigo quando precisou comprar um livro de receitas novo. Pelo menos fora isso o que dissera para ele.

O lugar cheirava a mofo e livros velhos. Grossas camadas de poeira cobriam as estantes e, aparentemente, a velha atendente atrás do balcão; seus cabelos brancos provocavam um forte contraste com a pele de ébano.

Erzulie não estava em lugar algum.

— Com licença — A mulher, que lia um livro tão antigo quanto ela, levantou a cabeça e o encarou com seus olhos leitosos —, a senhora viu uma menina entrar aqui há poucos minutos atrás? Ela é morena, cabelos negros…

— Nenhuma menina entrou aqui, meu jovem. — respondeu, cortando-o e voltando sua atenção para o livro.

— Tem certeza? Usava um vestido verde e… Seu nome é Erzulie.

A anciã congelou sua respiração por alguns segundos e Joe pensou que ela estava tendo um ataque cardíaco. Quando voltou a olhá-lo, o estudou com muito cuidado, como se estivesse vendo-o pela primeira vez. A passos lentos, saiu de trás do balcão e parou de frente para ele.

Joe sentiu-se um pouco sem graça com o olhar penetrante da mulher, mas viu-se incapaz de desviar sua atenção. Os olhos da velha arregalaram-se por um instante, vendo algo que não vira anteriormente.

— Final do corredor, blanc, e vire à direita. Não é preciso bater na porta, apenas entre. Ela o estará esperando.

— Obrigado.

Enquanto caminhava pelo corredor indicado, sentia o olhar da senhora em suas costas; o ar ficava cada vez mais pesado à medida em que adentrava o extenso corredor. Seu corpo parecia estar sofrendo pela atração da gravidade em direção ao solo. Até mesmo sua respiração tornara-se, levemente, ofegante.

Ao chegar em frente à tal porta, fez como a senhora mandara. Sem bater, a abriu, mas sem antes estudar o que havia lá dentro. Na soleira da porta havia um traço de ponta a ponta feito de pó de tijolo. Na casa de sua avó isso era comum; dizia que afastava toda e qualquer pessoa que ansiava fazer o mal para o habitante da residência.

Mesmo o quarto sendo escuro, Joe deu um passo à frente, passando pela barreira de proteção sem receio algum.

O que via poderia ter saído de um filme de terror ou fantasia: No centro do quarto havia uma coluna — poteau-mitan — feita de madeira que chegava até o teto, decorado com fitas vermelhas e verdes. Ao redor desta, no chão, diversos desenhos decorativos — vevers — feitos com farinha de milho. Eram tão intricados que apenas um artista conseguiria reproduzi-los com tamanha beleza. Todos os desenhos tinham um coração, uns com uma adaga atravessando-o. Nos cantos, instrumentos musicais o lembraram do som dos tambores que ouvira antes de desmaiar.

Do meio da escuridão, uma voz forte chegou até os seus ouvidos no dialeto crioulo-francês. Aquela não era a voz de Erzulie. Ele olhou ao redor à procura da pessoa, mas não havia ninguém além dele naquele quarto.

— Erzulie? — chamou, mas não houve resposta.

O medo começou a marcar presença e Joe estava prestes a recuar quando sentiu algo rastejante aos seus pés. De rabo de olho ele olhou para baixo e viu uma grande serpente formando um círculo ao seu redor, quase engolindo a própria calda.

— Você cheira a medo, blanc. — Uma mulher trajando vestes brancas e um turbante da mesma cor surgiu do meio da escuridão. — O que teme?

O sibilar da cobra fazia-o suar em bicas enquanto tentava não se mexer. Quase podia ouvir o som das batidas aceleradas de seu coração. A mulher se aproximou do poteau-mitan e a cobra fez seu caminho até ela. O ofídio subiu por sua perna, rastejando sobre suas roupas, até parar ao redor de seu pescoço.

— Não ouvi uma resposta para minha pergunta. O que teme, Joe Eaton?

— Cobras — respondeu ele e a mulher gargalhou.

— A serpente simboliza a terra, sabia disso? — Joe negou com a cabeça, ainda paralisado da cabeça aos pés. — Nos permitem enxergar o que nossos olhos não são capazes, detentoras de todo o conhecimento sagrado e antigo. Não precisa temê-las. — A mulher brincava com a serpente como se esta fosse um animal de estimação.

Joe aproveitou para continuar olhando em volta, mas sem se mexer bruscamente.

— Onde estão meus modos… — ela deu um passo à frente e velas ao redor começaram a acender — Sou Joséphine Labelle.

— Você é uma mambo, não é?

Quando se mora em Nova Orleans, não há maneira de escapar de — pelo menos — parte de seus mistérios. Mambo era o nome dado às sacerdotisas do Vodu, também chamadas de Rainhas. A mulher na sua frente, sem sombra de dúvidas, estava relacionada à religião haitiana.

— Mambo? Não, blanc. Como aprender sobre a vida se percorremos apenas um caminho, sem experimentar todas as possibilidades que nos são oferecidas? — Joséphine se aproximou de Joe, que pôde ver as cicatrizes que marcavam sua face. — Um dia, sim, fui conhecida como mambo, mas isso foi há muito tempo atrás. Hoje sirvo aos Loas com ambas as mãos.

Além das mambos e hungans — sacerdote vodu — havia os bokors que, assim como a Rainha falara, servia aos Loas — os espíritos da religião — com ambas as mãos através da prática de magia de forma desequilibrada, vulgarmente conhecida como “negra e branca”. Eram conhecidos por praticar a arte da necromancia para prejudicarem outrem, além dos famosos fetiches, conhecidos pelo povo como bonecos de vodu.

Joe afastou-se e a mulher sorriu. Seus olhos lembravam os de Erzulie.

— A senhora conhece… — A atenção do rapaz voltou-se para um porta-retratos em cima de uma pequena mesa de canto.

Sem a permissão da mulher, ele se aproximou e viu que a pessoa da foto era a mesma que o beijara na noite anterior. Erzulie e Joséphine sorriam para a câmera de forma radiante.

— Minha filha — murmurou a bokor, com certa mágoa.

— A senhora é mãe de Erzulie? — Calmamente ela retirou o porta-retratos de suas mãos e ficou observando a imagem da filha. — Onde ela está?

— Num lugar a salvo da maldade de seus amigos, blanc. — A acusação em sua voz não estava voltada para Joe. — Mas não se preocupe, eles terão o que merecem.

— O que você irá fazer com eles?

— Eu? Nada, mas não há viva alma que mexa com Erzulie e saia ileso.

— Preciso saber se ela está bem. — a mulher suspirou e afastou-se.

— Como se sentiria caso seu corpo fosse violado, Joe Eaton? Tratado com tanta violência que nem mesmo sua alma saísse ilesa. Bem, encontre a resposta para essas perguntas e saberá, parcialmente, se minha filha está bem ou não. — Ainda de costas para o rapaz, ela continuou. — Volte para o seu dormitório e descanse. Hoje à noite não será um momento propício para andar pelas ruas de Nova Orleans.

Joe deixou o lugar às pressas, mas ao invés de voltar para o seu dormitório, foi buscar abrigo na casa de sua avó. Lugar onde seria mais provável conseguir respostas para suas perguntas. Tinha quase certeza que, com os anos vividos na cidade, ela saberia a história da Rainha Vodu.

— Eaton, não deve mexer com o que não conhece. — Cecilie serviu seu neto com uma xícara de chá, enquanto este prestava atenção ao tilintar do mensageiro dos ventos. — Não se meta com Joséphine.

— Por isso mesmo preciso saber do que se trata tudo isso. — Joe manteve a xícara em suas mãos, aproveitando o calor emanado pela porcelana. — Por que Joséphine se tornou uma Bokor? E os símbolos que vi no chão? Por que ela não quis falar direito sobre Erzulie?

A xícara que estava na mão de sua avó escapuliu e foi de encontro ao chão.

— Onde você ouviu esse nome?

— Erzulie? — repetiu ele, confuso. — Esse era o nome da menina, a filha de Joséphine.

— Não, meu filho, esse não é o nome da descendente de Labelle. — A mulher afundou na poltrona. — Há anos atrás, pouco antes de você chegar em Nova Orleans, Joséphine era uma Mambo. Suas práticas não prejudicavam ninguém e sua filha estava trilhando o mesmo caminho. As duas eram inseparáveis até que, um dia, a menina saiu com algumas amigas para aproveitar o Mardi Gras. Acabou se distanciando das outras e, pouco depois, foi abordada por um grupo de rapazes… turistas. Ela não teve chance de se defender. Seu nome era Coralin e seu corpo nu foi achado numa viela imunda.

Joe não sabia o que pensar ou dizer. Aquilo não podia ser verdade, não depois de tê-la visto e tocado.

— Não, isso não pode ser verdade. Eu a vi.

— Tem certeza? Você sabe quem é a verdadeira Erzulie? — O rapaz negou e Cecilie dirigiu-lhe um sorriso tristonho. — Ela é uma Loa, um espírito do panteão haitiano. Os desenhos que viu no templo eram símbolos de invocação, já que Joséphine sempre a teve em forte devoção, e frequentemente cede seu corpo a ela e, na posse de um corpo, decide qual imagem deseja passar. Ontem ela foi Coralin, amanhã pode ser qualquer outra mulher.

— O que ela fará com Paul, Cain e Connor? — Joe sentiu um calafrio perpassar sua espinha. Não tinha como duvidar de sua avó.

— Erzulie tem muitas faces; bela e sedutora em um de seus aspectos, protetora e vingativa em outro. Você conheceu um deles, pode imaginar qual o que seus amigos terão que enfrentar.

— Se ela é tão poderosa, por que eles conseguiram tocá-la? Por que não fez nada para impedi-los?!

— Você viu eles a estuprarem? Pelo o que me contou, desmaiou antes, certo? Eles se lembram de alguma coisa? Acredito que tanto quanto você. Seus amigos nunca a tocaram de verdade, mas tentaram e isso é o suficiente para ela. Não há como impedi-la, meu filho, então, fique o mais longe possível de toda a confusão.

Mas Joe não poderia deixar que isso acontecesse sem, ao menos, avisar seus colegas. Eles eram uns idiotas de marca maior, mas não concordava com o método de justiça perpetrado por Joséphine e Erzulie.

De volta ao dormitório, os procurou em todos os cantos, mas, pelo adiantado da hora, já estariam farreando no último dia de carnaval. Para ele, seria como procurar uma agulha no palheiro, para Joséphine seria a distração perfeita.

Quando os últimos raios de sol extinguiram-se, o batuque dos tambores começou. Dentro do templo, Joséphine e seus seguidores preparavam o ritual para Erzulie Dantor, a face vingativa da Loa. No altar, todas as oferendas foram postas: griot, creme de cacau, rum, cigarros e o perfume Florida Water.

A bokor dançava ao redor do poteau-mitan pronta para receber a entidade em seu corpo. Desde o assassinato de sua filha, a mulher encontrou forças em suas crenças, especialmente, em Erzulie. Entregara-se de corpo e alma para que a Loa proporcionasse sua vingança contra àqueles que torturaram e mataram sua filha. Daquele dia em diante, as duas uniram forças para obliterar qualquer um que tentasse infligir a mesma dor e sofrimento que Coralin tivera que suportar. Esse tornara-se o dogma de Joséphine, que não se lembrava por completo da noite anterior, quando estava entregue à Loa, mas — ao despertar — encontrou três punhados de cabelo em seu altar e sabia exatamente o que precisava fazer.

Agora, na última noite de carnaval, tinha três bonecos à sua frente. Dentro de cada um havia um punhado de cabelo, transmitindo a energia de seus donos para os fetiches. Cada um representando os rapazes que tentaram estuprar Erzulie. Isso não era o bastante. Atrás dos bonecos, um crânio humano estava virado para a bokor com suas órbitas vazias, embebido com sangue de porco.

A vingança estava armada, e qualquer um que se intrometesse também viraria alvo da fúria que dispersaria naquela noite.

— Você precisa acreditar em mim! Onde estão os outros? — Joe gritava, tentando colocar um pouco de juízo na cabeça de Cain.

— Então tem um espírito atrás da gente? Cara, não sei o que você fumou, mas também quero.

No meio da multidão ensandecida, e depois de percorrer ruas e mais ruas em busca de seus “colegas”, Joe encontrou Cain atracando-se com uma turista. Como já era de se esperar, o garoto não acreditou em nada do que ouviu.

— Ela virá atrás de vocês. Vá embora daqui antes que seja…

Entre tantos jovens e adultos saudáveis e alegres, criaturas cinzentas e débeis apareceram atrás de Cain. No primeiro instante, Joe não entendeu o que estava acontecendo, contudo, ficou impressionado com maquiagem tão realística deles. Em todos os seus anos como morador de Nova Orleans, vira diversas fantasias que, de tão bem feitas, chegavam a ser aterrorizantes. Infelizmente, algo em seu cerne dizia que não tratava-se de maquiagem perfeita e lentes de contato brancas.

— Temos que sair daqui. — Joe tentou puxar o colega pelo braço, mas este se negou.

As criaturas estavam cada vez mais próximas e passando desapercebidas por quase todos ao redor. Alguns apontavam e comentavam alguma coisa com um amigo, em sinal de aprovação.

— Não, cara, não vou a lugar algum. — Cain deu alguns passos atrás e foi de encontro a um deles.

Os olhos do rapaz, finalmente, encontraram as órbitas brancas daqueles que, um dia, tiveram um coração batendo em seu peito. Mesmo não querendo admitir, Joe achava o plano de Joséphine genial, afinal, quem iria notar — durante o Mardi Gras — um grupo de mortos-vivos?

— Não, Cain! — Antes que pudesse fazer algo, um grupo de foliões entrou na sua frente e acabou empurrando-o para longe.

Mesmo com toda a bagunça e vozes exaltadas, ele ainda conseguiu ouvir o grito de seu amigo. Joe pulava, tentando encontrá-lo, mas não encontrou nenhum sinal dele.

— Joe! — A voz de Connor foi captada por sua audição. O garoto estava a alguns metros de distância e acenava.

Empurrando várias pessoas para fora de seu caminho, conseguiu chegar até o colega e já saiu puxando-o para longe. Connor não foi tão contra, mas perguntava sem parar o que estava acontecendo. Quando chegaram numa área mais vazia, Joe tentou explicar o que estava acontecendo, todavia, dizendo que a Bokor Joséphine mandara um grupo fantasiado de zumbis atrás deles para pregarem uma peça.

— O quê?! A gente ferrado, e o Paul nem sabe ainda. — Connor tinha as mãos da cabeça e olhava para todos os lados como se fosse ser atacado a qualquer momento.

— Você sabe onde ele pode estar?

— Ele falou alguma coisa sobre encontrar uma garota. Acho que recebeu um bilhete de uma admiradora secreta, sei lá, marcando um encontro.

— Onde?! — Connor engoliu a saliva ruidosamente, e quando voltou a falar o fez quase como um sussurro.

— No mesmo lugar de ontem.

Os dois correram em direção à rua da noite anterior. À medida que aproximavam-se, mais inóspita ficava. As luzes dos postes piscavam e um nevoeiro parecia separar aquele local de todo o resto. Connor começou a chamar pelo amigo, mas não houve resposta.

Quanto mais adentravam, mais pareciam estar saindo da realidade de Nova Orleans; entrando em outro mundo.

Joe parou e olhou em volta. Era difícil enxergar com toda aquela névoa.

Os dois ouviram um grito — levemente — abafado e imaginaram ser de Paul, vindo de um dos becos. Eles voltaram a correr, mas, segundos depois, Joe ouviu outro grito e esse vinha de muito perto. Ao virar-se, encontrou Connor caído; sua perna esquerda estava flexionada num ângulo anormal. O rapaz urrava de dor, enquanto Joe observava a fratura exposta que surgira do nada.

— Me ajuda! — gritou ele, e o colega tentou, mas cada movimento que fazia era outro grito. — Como… Como?

Por entre o nevoeiro, os mortos-vivos reapareceram. Ambos entraram em desespero, sem saber o que fazer.

— Deixe-o, blanc. — A voz da bokor ecoou em sua mente, como se esta tivesse sussurrado em seu ouvido.

Mas ele não podia deixar seu colega para trás, independentemente dos seus erros. Quando estava prestes a levantá-lo, ignorando seus gritos, algo o puxou, jogando-o do outro lado da rua a metros de distância. A mesma sensação de entorpecimento da noite anterior voltou.

Os mortos-vivos já estavam em cima do seu colega; o som úmido da carne sendo dilacerada e os grunhidos das criaturas eram as únicas coisas que conseguia ouvir, até a melodia dos tambores começar. Joséphine e Erzulie estavam conseguindo concretizar sua vingança, e só faltava mais um: Paul.

Assim como no dia em que se conheceram, a Bokor surgiu das sombras arrastando alguém pela camisa. A força que estava fazendo não poderia vir dela, somente. Seu vestido branco era alvo exclusivo de uma brisa que o fazia dançar ao som dos tambores que vinham de lugar algum. Em sua cabeça, um lenço verde de seda, representando sua fidelidade à Loa.

Joe tentou se arrastar para longe, mas não tinha forças; sentia-se drenado.

— Joséphine falou para você ficar longe disso, blanc. — Diferente da voz que ouvira no templo, essa era tão suave quanto veludo.

Era a voz de Erzulie.

Ela parou no meio da rua e soltou o corpo que arrastava. O corpo de Paul. Ele parecia desmaiado, mas logo começou a voltar a si. Na mão livre, a entidade carregava um boneco de massinha no formato de um homem.

— Você é um bom rapaz, Joe Eaton, mas precisa parar de se meter onde não é chamado. — Paul soltou um gemido de dor, levando a mão à cabeça. — E monsieur Paul Biggs, por outro lado, merece tudo o que está para acontecer. Por todas as jovens que não chegaram em suas casas após saírem do trabalho ou escola. — A Loa pegou o braço direito do boneco e o torceu. No mesmo instante, o braço de Paul reproduziu o mesmo movimento, fazendo o osso de seu braço rasgar a pele. — Por todas as menininhas agredidas pelos pais bêbados e sem caráter, perdendo sua doce infância. — Erzulie fez o mesmo com o outro braço e os urros de dor e choque de Paul aumentaram. — Pelas mães que apanham de seus maridos para protegerem seus filhos. — No mesmo movimento, ela quebrou as duas pernas do boneco, consequentemente, as de Paul, que não tinha mais forças para gritar.

Ela retirou uma bolsinha de dentro do decote, abrindo-a e virando o conteúdo em seu rosto; um pó amarelo que cobriu o rosto de Paul.

— Por fim, pelas jovens que não têm direito de se divertirem sem que alguém aproveite-se da situação, como se as roupas que usam, os gestos que fazem, e sua beleza fossem um convite aberto para serem invadidas por qualquer homem que assim desejar fazê-lo. — Os olhos de Erzulie e Joe encontraram-se brevemente, mas sua atenção voltou-se para Paul. — Melhor rezar para o inferno, pois sua alma agora me pertence, assim como as dos zumbis que devoraram seus dois amigos. Nos vemos no próximo Mardi Gras.

Dito isso, a mulher dobrou o boneco ao meio.

Joe Eaton observava a tumba de seu antigo colega, Paul; a única que tinha um corpo com nenhum pedaço faltando — diferente das de Connor e Cain. Sobre o túmuro, flores deixadas pelos parentes.

Depois do que acontecera, Joe dormiu por três dias seguidos. A polícia não sabia explicar o que havia acontecido, ou quem assassinara brutalmente os três jovens. No início, a culpa recaiu sobre ele, mas ficara provado que um homem com sua estrutura física não seria capaz de causar tanta destruição. Havia boatos que o DNA encontrado nos restos mortais de Connor eram de um antigo morador da cidade, que morrera há mais de duas décadas.

O crime alimentou as lendas locais, mas só Joe sabia o que tinha acontecido. Ele e Joséphine.

Dando as costas para a última morada de seu colega, caminhou em direção à saída do Cemitério Lafayette. Tinha um compromisso inadiável e não poderia se atrasar, já que sua anfitriã não suportava demoras, especialmente pelo fato de que aceitara dividir seu conhecimento sagrado com um blanc.

A sineta da livraria empoeirada tocou, e a anciã atrás do balcão levantou seu olhar. Joe aproximou-se e fez um breve meneio de cabeça para ela, enquanto passava pelo balcão em direção ao familiar corredor e, por fim, virando à direita. Ele observou o pó de tijolos na soleira, como sempre fazia, antes de girar a maçaneta e abrir a porta.

— Boa tarde, Joe Eaton.

— Boa tarde, Bokor Joséphine.

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Blanc – Termo francês utilizado para caucasianos.
Imagem da capa: “Voodoo priestess”, da michellemonique

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