In the Depths of her soul (Pt. 8) – Visita Indesejada [+18]

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O homem vagava pela floresta brumosa, profanando o silêncio com o suave farfalhar das folhas sob seus pés enlameados.

Parecia um viajante destemido, a postura firme como a de um militar. Seu rosto era duro, os olhos escuros como a noite fria. Os cabelos castanhos eram bem curtos e ele ostentava cicatrizes grotescas no pescoço, como se houvessem arrancado nacos da carne próximo á orelha esquerda. Cortesia de seus perseguidores bastardos. Seus lábios eram levemente curvados numa carranca.

Ele vestia uma calça jeans surrada e suja, o peito musculoso á mostra, açoitado pelo vento fustigante que assombrava as árvores.

Suas mãos másculas estavam fechadas em punho, onde exibia mais daquelas cicatrizes grotescas.

Um ruído suave se fez ouvir nas profundezas da floresta, interrompendo seus passos duros. Ele farejou o ar uma vez, varrendo os olhos pela imensidão de árvores. Ergueu os lábios sobre os dentes numa clara demonstração de aborrecimento e continuou seu caminho em silêncio.

Alguns metros á frente a mata fechada deu espaço á luz suave da lua em sua fase minguante. A cadeia de montanhas se revelou, imponente e perigosamente selvagem.

O estranho se aproximou de suas rochas e ergueu o rosto sério para cima, fitando a bifurcação no alto da montanha.

Suas mãos se cravaram na rocha com habilidade e ele içou o corpo para cima, encaixando os pés nas pequenas bifurcações espalhadas.

O homem escalou até encontrar a entrada da caverna e ele adentrou a bocarra selvagem. Seus olhos se chocaram com a escuridão fria, assumindo um brilho dourado.

Ele avançou os passos, penetrando a bruma fria que umedecia o ar. O espaço rochoso se estreitava num corredor comprido e disforme que se estendia até as profundezas escuras da caverna.

O estranho mergulhou na imensidão sombria e estreita, ignorando os morcegos assustados que passavam roçando seu rosto. Alguns metros a frente pôde ver a claridade surgindo.

A caverna era dividida em túneis, cada caminho levando a um suposto cômodo. Era uma residência selvagem para os amaldiçoados e também sua base militar.

O primeiro espaço aberto depois do corredor estreito era um escritório improvisado, com certo charme. Uma mesa de mogno, uma estante com livros velhos e um candelabro de estanho com gravuras de lobos ancestrais.

O homem por trás da mesa de mogno estava compenetrado com algo que examinava. Mas não o suficiente para não notar o visitante inesperado.

O estranho fez um esgar cheio de escárnio ao receber o olhar gélido do outro.

– O que faz em minhas cavernas? – inquiriu Ragnar.

– Vim solicitar uma audiência com Elvira.

–  A Matriarca não tem assuntos com você. E ela não reside nessas cavernas, como bem sabe. Você não é bem vindo aqui, Desgarrado.

– Ora, se não me dissesse eu não saberia. – a voz grossa transbordava sarcasmo.

Ragnar grunhiu, erguendo-se da mesa com os punhos fechados.

– Não vai querer me enfrentar agora.

– Eu sempre tenho disposição para enfrentá-lo, Filhote.

Ragnar avançou a passos firmes, colocando-se frente a frente com o rival. Seus narizes quase se tocaram, separados por apenas alguns centímetros enquanto se encaravam com agressividade.

– Recolha esse seu complexo de rei e retire-se de minha presença, Cão vira-lata. Ou chamarei alguém que o faça de bom gosto! – Ragnar cuspiu entredentes.

– Sabe que posso enfiar as unhas em seu rosto e o esfolar sem dó, filhote indisciplinado!

– Kieran – Vex suspirou, surgindo das sombras da caverna.

Dois pares de olhos furiosos se fixaram no recente integrante da briga.

– Sabe, você precisa parar de aparecer assim. – Vex disse com sentimentalismo forçado e se aproximou dos dois, interpondo-se entre eles. – Especialmente quando não é bem vindo ao Clã.

O visitante arreganhou os dentes.

– Estou pouco me lixando se apreciam ou não minha presença. Eu vim falar com Elvira e não sairei daqui sem uma audiência.

– Eu já lhe disse: Minha mãe não está interessada em negócios com você.

– Fala por Elvira agora?

– Talvez fosse sábio de sua parte ir diretamente ao Casarão. Já que sua intenção é falar com Elvira. – Vex o fitou com atenção.

– Acreditei que em tempos de guerra vocês seriam mais sensatos.

– Somos Lycans. Nada temos de sensatos. Especialmente com alguém como você.

O visitante lançou um olhar de escárnio a Ragnar.

– Ah, eu entendo. Ser obrigado a obedecer as regras e andar na coleira deve ser difícil para seu espírito selvagem. Logo, ao ser confrontado com alguém que quebra todas essas convenções estúpidas deve ser um gosto amargo de engolir.

– Tais regras existem por um bom motivo: Para preservar o Clã. Você, um desgarrado rebelde e impertinente se orgulha de sua anarquia, mas se esquece de que é por isso que seu Clã foi massacrado. Ou as cicatrizes em seu corpo não o fazem lembrar de sua desgraça?

– Você nada sabe sobre meu Clã.

– Óbvio. Ele não mais existe.

– Assim como o seu, em breve. A menos que pare de bancar o garoto estúpido e me ouça!

– O que quer com Elvira, Kieran? – Vex se manifestou. – Duvido muito que tenha atravessado o país por suas curvas sedutoras.

Ragnar lançou um olhar severo ao outro, mas ele ignorou e continuou fitando o visitante.

– O Clã em Montrrey foi destruído. As cabeças foram espalhadas diante da casa queimada, como um alerta para os outros.

– E a polícia? – Vex parecia perplexo.

– Devidamente silenciada.

– O que quer dizer com isso? – Ragnar se exaltou.

– O que eu quero dizer é que esses bastardos não estão se importando em encobrir seus rastros.

– O que esses pulhas estão querendo? Nos expor? – revoltou-se Vex.

– Já tentaram uma vez. E pelo que me lembro foi uma lambança.

– Convoque uma audiência. Agora. – disse Vex. – Vou alertar Snow.

– Ah, então os dois mercenários estão de volta – Kieran retorceu os lábios no que parecia um sorriso sarcástico. – Eu deveria saber que quando se depara com um o outro está á espreita.

– Você terá sua audiência, Kieran. – Ragnar assentiu, visivelmente perturbado. – Espero que não desperdice o tempo ofertado com suas gracinhas.

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O Casarão, que antes estava em momentos de quietude, imediatamente se transformou num poço agitado de pessoas eufóricas.

O grande salão onde aconteciam as reuniões importantes fora preenchido com os membros do clã, sentados confortavelmente em suas poltronas de couro, outros perdidos pela escadaria de mármore, espiando enquanto Elvira se ajeitava em seu trono de estanho ao lado de seu herdeiro.

Vex e Snow se posicionaram atrás da matriarca, em sua habitual postura militar.

Ao visitante foi permitido ficar em pé diante da soberana do Clã. Seus olhos se encontraram brevemente, com aquela intensidade comum aos dois. Mas não trocaram nenhuma palavra amistosa. Elvira manteve-se elegantemente firme, sua postura impecável.

– O Clã da Meia Noite lhe dá o direito á palavra. – disse ela, com certa majestade.

– Clã da Meia Noite. – Kieran citou com deboche. – Não seria mais apropriado Clã da Lua? Clã do Sangue Escarlate? Clã das garras de aço? Ou quem sabe Clã das orelhas pontudas? Honestamente, não acredito que ainda perdem tempo com toda essa babaquice medieval.

Houve um murmurio de indignação por parte dos presentes.

– Você deveria saber que esses Clãs já existem, Velho. – a voz do garoto preencheu o salão enquanto ele caminhava despreocupadamente até o indesejado visitante. – Sendo assim, não podemos usurpar tais títulos.

Os lábios duros de Kieran se torceram num sorriso sincero.

– Velho? Ora, seu garoto insolente. Diz isso porque mal saiu das fraldas!

Eles se cumprimentaram com camaradagem.

Elvira lançou um olhar significante para o garoto. As roupas rasgadas, o cabelo desleixado e aqueles aros de metal no rosto dele não a agradavam. Assim como a proximidade com o indesejado.

– Devo lembra-lo, Kieran, que o tempo concedido a você é escasso e precioso. Então sugiro que não o ocupe com suas gracinhas. Rudolf – a voz de Ragnar se tingiu com  rispidez – Sente-se. Seu lugar não é aí.

O garoto encarou o olhar possesso do irmão e sentiu a raiva ferver em suas veias. Mas a mão de Kieran em seu ombro o refreou um pouco. Com leve assentir ao seu velho amigo, ele se voltou para a poltrona ao lado da matriarca, juntando-se a eles.

Elvira fechou os olhos com impaciência e soltou um suspiro longo antes de começar.

– Como estava dizendo antes de ser rudemente interrompida, o Clã da Meia Noite lhe dá o direito á palavra, Desgarrado. Clã esse que conta com costumes ancestrais e regras necessárias para a preservação da espécie. Porque caso não tenha notado, somos caçados para que entremos em extinção.

– Peço desculpas por meu comportamento selvagem. Embora cada um aqui saiba a imensidão de sua própria selvageria. Mas você tem razão, belíssima Elvira. Se estou aqui hoje é para falar exatamente sobre a nossa extinção.

Fez-se uma pausa antes de Kieran mergulhasse em seu relato.

– O Clã de Montrrey foi destruído três noites atrás.

– Meara? – a voz de Elvira se tingiu de tristeza.

– Morta. Sua cabeça foi espalhada junto a do restante do Clã nas redondezas da casa queimada.

– Cabeças espalhadas? – Snow avançou um passo.

– Eles não se importam em limpar os rastros. Não mais.

– Nós nos importamos. – Snow lançou um olhar aborrecido para o visitante. – Como sabe que as cabeças foram espalhadas?

– Eu as vi.

– E se ocupou em limpar a bagunça?

– Não costumo encobrir rastros que não são meus.

– Você sequer limpa a sua bagunça.

– Engraçado você dizer isso. Afinal não é atrás do meu rabo que esses bastardos estão. Não foi o seu Clã excelentíssimo que deixou pistas para trás? Não há uma bióloga investigando um massacre na cidade?

– Pode deixar que a tarefa de punir os transgressores é incumbida ao Clã.

– Oh, sim! Posso ouvir os gritos de misericórdia nas cavernas.

– Deixe de ser parvo! Porte-se civilizadamente! Já disse tudo o que queria? – Snow nunca tivera paciência com tipos como aquele.

– Civilizar-me não está nos planos. Sou um Lycan! Vocês é quem querem vestir roupas finas, beber em taças de cristais e viver em mansões sofisticadas! Onde está sua selvageria? Enclausurada por trás de uma coleira?

– E o que sugere, Desgarrado? Que vivamos nas cavernas, andemos nus e estraçalhemos tudo o que se mexer na floresta? – a voz de Elvira se elevou, mantendo a elegância.

– Como é de nossa natureza.

– E chama a nós de medievais. Ora quem se porta como um rancheiro ignorante? – Vex alfinetou.

– Muitos de nós tem esse pensamento. De que deveríamos abraçar nossa selvageria.

– Abraçar a selvageria, sim. Tudo se torna mais fácil quando aceitamos o que somos… – Ragnar se pronunciou, lançando um olhar para a intrusa que chegara atrasada. – Mas não portar-se como um carniceiro.

Elvira seguiu o olhar de seu herdeiro.

– Que bom que se juntou a nossa reunião, Red Velvet – a voz da matriarca reverberou pelo salão.

Moon a encarou, do outro lado do amplo salão e se curvou respeitosamente, exibindo o o pescoço numa mesura comum entre eles.

Os olhos do visitante se voltaram para a garota, intensos.

– Red Velvet – ele praticamente cuspiu, retorcendo os lábios numa careta aborrecida. – Por falar em nos expor… Aí está a herdeira do sangue traidor!

Um grunhido se fez ouvir e logo Moon estava avançando contra ele.

Vex a segurou no meio do caminho.

– Calma aí, Lobanil.

Moon rosnou para ele.

– Quem é você para falar em traição? – a voz de Ragnar preencheu o salão. – Você, que arrastou seu Clã para a desgraça!

Kieran deu um sorrisinho.

– É, parece que eu e ela temos algo em comum.

– Não tenho nada a ver com você! – Moon se apressou em dizer, revoltada.

Kieran a fitou por alguns momentos.

– A julgar por sua fraqueza, sou obrigado a lhe dar razão. Você é uma vergonha para a raça, Moon Red Velvet.

– E você é um desgarrado, pobre e miserável, Kieran De Logrone!

O visitante riu.

– Você tem toda razão.

– Já chega! – Elvira se exaltou. – Veio para nos alertar, não para ofender os membros desse Clã.

– Os membros desse Clã – ele satirizou. – Como podem aceita-la depois dos dissabores que causou?

– Da mesma forma que Lugh o aceitou depois de todas as suas falhas.

–  De fato. E o velho pagou por sua tolice. Nenhum outro Clã me aceitou depois que causei a destruição do meu.

– Talvez pelo fato de você ser um idiota! – Moon cuspiu.

Kieran a ignorou, fitando a assembleia a sua frente.

– Vocês se agarram a toda essa burocracia, á suas tão preciosas regras. Mas aqui está, diante de vocês, uma traidora da raça em amplo sentido e vocês nada fizeram para puni-la. Um deslize. Um único maldito deslize fez meu Clã ser destruído e seus olhos inquisidores se voltarem para mim… E quanto a ela?

– Moon não massacrou um Clã inteiro.

– Não. Ela só levou os Caçadores até sua família de sangue. Ao menos eu não tive inteira participação no massacre dos meus.

Snow soltou um riso que mais pareceu um rosnado.

– Não foram suas pegadas e rastro de sangue que levou os caçadores até sua tribo? Não foram seus crimes despretensiosos que atraíram os Adoradores de prata? Não procure alguém para dividir a própria culpa!

Moon fitou o rosto rude de Snow, sentindo-se grata. Aquela era a primeira vez que ele se referia ao massacre de sua família sem olha-la daquela forma inquisidora.

Snow assumiu prontamente a audiência, dando alguns passos a frente para encarar o visitante.

– Então, caso não tenha mais informações para nós, sugiro que encontre seu caminho.

Kieran fez uma careta.

– Ainda não terminei aqui.

Snow fez um gesto amplo, convidando-o a continuar.

– Eu segui o rastro deles. Estão seguindo até a fronteira. Aproximando-se do Texas. E pelo que encontrei pelo caminho, vão continuar deixando sangue exposto.

– Quem são? – Ragnar quis saber.

Existiam grupos intermináveis de Caçadores, cada um movido por seus próprios motivos. Todos seguindo um mesmo código.

– É Calisto.

O clima se tornou tenso.

Calisto era uma exímia Caçadora, conhecida por colecionar cabeças de suas vítimas e exibir seus dentes num colar perolado. Sua fama era atroz, assim como sua sede de caçar.

– É claro que é. – Snow fez um esgar que parecia um sorriso horrendo.

– Eu sei que não sou bem vindo aqui. – Kieran continuou, soando um tanto sensato. – E que tenho essa reputação emporcalhada. Eu não precisava ter me movido até aqui para alerta-los, não é minha obrigação. Mas mesmo assim o fiz. Precisam saber o que vão enfrentar e o quão perto estão.

– Os outros Clãs… – Elvira começou.

– Foram avisados. No entanto, eu não me preocuparia com os outros Clãs. Alguma coisa os está atraindo diretamente para cá.

Ragnar franziu o cenho.

– O assassinato de delinquentes num bar não é motivo para tanto alarde.

– Pedaços humanos espalhados pela floresta, fugas consecutivas de uma prisão de segurança máxima e o desaparecimento de corpos é motivo para alarde.

Seus olhos se voltaram para a garota, ainda contida por Vex.

– Aposto como seu focinho está metido nisso.

Moon rosnou para ele novamente.

– Quando há uma sujeira dessa magnitude, sempre há um Red Velvet no meio. – Kieran não escondeu seu desgosto.

– De fato. – Vex concordou.

– Já chega! – Elvira se ergueu de seu assento, apontando um dedo em direção ao visitante. – Se não pretende se comportar, é melhor ir embora! O que acontece em meu Clã não lhe diz respeito!

– Diz quando isso nos expõe. Você, mercenário, diga que concorda com isso. – Kieran se dirigiu á Snow.

Os olhos do russo voltaram-se para Moon e depois para Elvira. E então se fixaram no desgarrado.

– A situação está sendo cuidadosamente analisada. E as medidas tomadas.

– O que aconteceu há algumas semanas não alertou os caçadores. – Ragnar disse. – Calisto já estava na estrada antes disso. Snow nos avisou da aproximação deles. Isso não tem nada a ver com Moon.

– Por enquanto.

– As investigações sequer vazaram. – a voz de Moon soou fraca.

– Investigações feitas por humanos.

– Temos humanos trabalhando para nós.

– O que não é o caso no momento, certo? Caso contrário não estariam tão preocupados!

– Meta-se com a sua própria vida de merda!

Vex gargalhou, segurando mais forte o braço da garota.

Elvira lhe lançou um olhar de alerta e o mercenário imediatamente recompôs a postura séria.

– A questão é – Kieran continuou. – Quanto tempo para essa notícia vazar e chegar até os ouvidos dos Caçadores? Quanto tempo até acharem seu Clã? Quanto tempo até massacrarem tudo?

– Isso não vai chegar a um massacre. – Ragnar imediatamente disse. – Estamos andando na linha, sem muitos incidentes.

– Você deveria saber que eles não se importam. Um pequeno acidente é motivo para destruírem um Clã inteiro. Especialmente nos dias de hoje. Calisto não quer saber! Nenhum deles quer! Não há paz, Ragnar. Não há acordos ou tratados. Eles querem destruir, nos levar á extinção. Sabe disso tão bem quanto eu.

– E o que sugere?

– Eu sugiro lutar. Somos fortes, poderosos! Me chamem de grande medieval, se quiserem. De selvagem. Mas houve um tempo em que revidávamos.

– Esses tempos chegaram ao fim com a evolução humana.

– Ainda com sua evolução, eles não são páreos para nós. Nem mesmo os Caçadores. Se eles nos alcançam e conseguem nos destruir é porque vivemos escondidos e com medo.

– Ouçam o que ele diz. – Rudolf disse, pela primeira vez se metendo.

– Ora, você compactuando com as ideias extremistas dele? Não é você quem anda com os humanos?

– Kieran não falou em iniciar uma guerra contra humanos, não é mesmo, Kieran?

O visitante assentiu.

– Ele está apenas dizendo que, se chegar a um confronto, que lutemos. Porque somos mais fortes. Não devemos ficar encolhidos e com medo. Não quando podemos mais.

– O garoto tem razão. – Moon deixou escapar.

– Calada. – Ragnar a olhou feio.

– Não, deixe-a falar. – Kieran lançou um olhar surpreso para a garota.

– Todos aqui perderam algo para os Caçadores. – Moon continuou, erguendo a voz – Uns mais que outros. Não há uma noite que eu não lute contra o que eu sou, no entanto ergo minha voz para dizer que não podemos ficar parados enquanto eles destroem Clã por Clã. Temos força para lutar. Para nos proteger. A ideia de paz ou tratado com um deles não passa de um equívoco.

– E que força você tem, Moon Red Velvet, se recusa-se a abraçar o poder do sangue? – Ragnar a confrontou. – Como pode falar em lutar quando você seria a primeira a perecer?

– Ele tem razão, queridinha. – disse Vex, em seu ouvido. – Lindo discurso, mas infundado quando sequer tem forças para se transformar fora da lua cheia.

Moon se esquivou, aborrecida.

– Não importa se ela não tem força agora. – Kieran interviu. – Cedo ou tarde ela abraçará a selvageria que a ronda. Acontece com todos nós. Eu não vou me demorar num discurso apaixonado sobre a guerra, apenas despertei a ideia em suas mentes. Vocês me perguntam o que eu sugiro e eu lhes respondo: Lutem. Por suas vidas e pela preservação da espécie.

– Você quer dizer pela preservação da maldição. – Leola o corrigiu, de longe.

Kieran sorriu, exibindo os dentes numa careta de desgosto.

– Vocês que crêem isso ser uma maldição são uma vergonha para a raça. Fomos abençoados com um poder magnífico!

– Nem todos acreditam nisso, Kieran. – Elvira disse, desviando os olhos.

– Vocês são tolos miseráveis.

– Já chega! – Ragnar se levantou. – Já nos insultou o bastante. E teve sua audiência. Agora basta. Não sou obrigado a aturar sua presença nem mais um minuto nesta sala.

– Ah, vai querer me aturar mais alguns segundos, Ragnar. Tenho mais uma coisa a alertar.

Elvira acenou para que o desgarrado continuasse.

– Há um desgarrado rondando as florestas do Canadá, próximo á  Calgary. Encontrei pegadas e carcaças de animais espalhados. Algumas pessoas desaparecidas nas montanhas, mas nenhum alarde.

– Isso de certo pode estar atraindo os caçadores. – Vex disse. – Eles tem um bom faro, mesmo que não haja tanto alarde.

– Ora, e porque não nos disse isso antes de pular de acusações a acusações dentre os nossos? – Snow ralhou.

– Porque é sempre bom lembra-los de suas falhas. Os Caçadores podem estar atrás desse desgarrado, mas se ouvirem nas redondezas sobre as mortes por aqui não vai hesitar em fazer uma visita.

– Como sabe que é um desgarrado? – Snow inquiriu.

– Um lycan membro de um Clã não faria tanta sujeira. A menos que tivesse descontrolado, mas não acredito que seja o caso. Seja quem for, está sozinho, é novo, faminto e não tem ideia do que é.

– Completamente fora de controle. – Snow compreendeu.

– Seria sábio descobrir quem ele é e  limpar a bagunça.

– Você quer dizer matá-lo. – Vex cogitou.

– Façam como preferirem. – Kieran acenou uma vez. – Só vim alertá-los dos perigos que rondam lá fora. Boa sorte.

– Devo lembrá-lo, Desgarrado, de que não é bem vindo nas redondezas. – Ragnar alertou com um erguer de sobrancelhas.

– De fato. Não estou esperando uma recepção amistosa e compartilhamento de carne.

Seu olhar se demorou em Elvira. Ele acenou mais uma vez e foi embora, deixando para trás uma multidão alvoroçada.

Vex finalmente soltou Moon e se encaminhou para o centro do salão onde o grupo iniciava a discussão

– Se os Caçadores visam nos expor… – Leola começou, aproximando -se.

– Não vamos deixar chegar a tanto. – Vex garantiu.

– Isso é novo. Eles eram os mais preocupados em manter o anonimato. – Snow comentou.

– Pelo jeito esse pensamento caiu por terra.

– Não está certo. – o russo balançou a cabeça. – O que pretendem? Reviver a Inquisição?

– Querem incitar um expurgo. – Ragnar disse entredentes.

– Nesse caso deveríamos reconsiderar a ideia de nos revelar pacificamente aos humanos. – Rudolf disse.

– Nada disso! – Ragnar esbravejou. – Somos Lycans. Não se pode abraçar a selvageria e ser aceito por humanos! Onde acha que vive? Em um romance para adolescentes?

– Fale por si mesmo. – Moon o fitou com aborrecimento. – Erin nos aceita muito bem.

– Erin é uma exceção e nem sempre consegue compreender nossa selvageria. Mas qual é a sua? Concorda com essa ideia absurda?

– Não. Sou a favor do anonimato. É mais seguro. Sabemos como os humanos temem aquilo que não compreendem. No entanto, se vai usar argumentos contra seu irmão, que tais argumentos sejam válidos. Quantos humanos sabem de nossa existência? Alguns nos temem, outros cobiçam o poder da lua. É um ponto a se observar e tomar cuidado.

– E o que nos aconselha a fazer? – os olhos frios de Snow sondaram a garota.

– Esperar e observar. Os outros não vão deixar isso ir a diante. Roman jamais deixaria vir a tona um expurgo.

– Por que não? Isso seria bom para eles.

– Porque se houver um expurgo o mundo virará um caos. Humanos não são páreos para nossa força abrasadora. Por mais que suas armas sejam poderosas. Incitar um expurgo é o mesmo que mergulhar o mundo na idade das trevas. Roman segue um código. Não vai permitir isso.

– Ela tem razão – Elvira concordou. – Nós vamos aguardar e observar, vamos nos preparar para o que está por vir e ficar de olho nesse desgarrado. Não vamos mais aturar qualquer tipo de exposição ou deslize, o que significa que o destino da bióloga está traçado.

– Mas… – Moon começou.

– Não vamos tolerar que nos exponham ou fiquem cavoucando rastros! É perigoso demais. Cuide disso ou eu mesma o farei. Esta reunião se dá por encerrada.

Elvira se levantou do trono de estanho e desapareceu pelas portas amplas do salão, a cauda do vestido de cetim farfalhando em seu andar sensual.

A multidão se dispersou, restando poucos ansiosos.

– Onde está Hugh, aquele cretino irresponsável? – Vex sussurrou,  próximo á Moon.

– Vá se ferrar!

Vex soltou uma risadinha.

– Você ouviu a ordem, Lobanil. Hora de caçar.

Moon voltou os olhos para Ragnar e o que encontrou naquela imensidão escura era a resposta perturbadora que ela esperava.

Assombrada, ela virou as costas e saiu correndo, deixando para trás os olhares curiosos e reprovadores.

A lua no céu era apenas uma sombra, dando lugar á aurora esplendorosa.

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