Seven Sins – Preguiça

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Sou filha do mormaço e da tarde fria e gélida

Me alimento do teu ócio

Sou senhora da tal paz de Domingo

Vinde pois vós á meus braços

Que conforto – lhe o corpo

E arranco – lhe a alma…

A banheira borbulhava o perfume suave de lavanda e outras especiarias, enquanto o cabelo negro boiava seguindo as bolhas, o corpo amarrado a cordas grossas que deixavam marcas arroxeadas em determinadas partes, estava imóvel.

Pequenas chaves bailavam em cores variadas, reluzindo ao sabor da luz das lâmpadas amareladas no fundo da banheira.

A moça roliça de vestido de cetim vermelho observava com tédio, mordiscando uvas, deitada no divã branco.

A cabeça apoiada na margem da banheira começava a se mexer, os olhos se abriam para ver sobre si, aquários dispostos ao redor da parede contendo o que pareciam ser pequenas moreias, enguias, sanguessugas, e uma especie de bolinhas saltitantes que moviam – se frenéticas.

A tranquilidade do ambiente e a música clássica soando ao fundo davam a sensação de letargia na moça, como se estivesse sobre o efeito de algum alucinógeno bizarro.

Peguei pesado dessa vez, que droga!” – pensou ela.

– Bem vinda a realidade Luciana.

Ela forçou – se para frente e viu a imagem embaçada da mulher.

-Ótimo, uma gorda, o que faz aqui e por que eu não…

Somente agora ela notara a situação em que se encontrava, os olhos marejaram, mas os gritos foi o que ecoaram com força.

-ME TIRA DAQUI!!!

-Não! – respondeu a outra engolindo a última uva que havia na baixela.

A mão pálida sobre o ombro da mulher, era fantasmagórica e enrugada como a de um idoso.

Fale com ela…” – sussurrou a voz na escuridão que apareceu não sabia-se de onde , como uma nuvem negra que subia do chão, escondendo o restante do corpo.

A mulher entrou em transe, levantou-se do divã e seguiu para perto da banheira, acariciando o vidro de cada aquário, vez ou outra, batendo com a ponta da unha dos mesmos para mexer com um ou outro animal que ali se encontrava.

-Como é a vida de glamour, meu bem? Acordar ao meio dia, mandar e desmandar naquela empregada caquética, é assim que você á chama, não? Usar aquele vestido Prada uma vez e colocar fogo quando está “alta” e correr pela rua de calcinha e sutiã da Victoria’s Secret, ou comprar bolsas Louis Vuitton que jamais irá usar, simplesmente para gastar, sem saber o valor. Nenhum esforço lhe foi cobrado, afinal você era a princesa do papai.

A moça olhou para a que estava de pé e começou a rir, como se nada daquilo fosse de grande importância.

-Ok, meus pais. Te mandaram fazer isso, não é mesmo? Pra me ensinar uma lição importante sobre ter uma vida mais ativa e menos ociosa, acertei?

-Oras vivas! Me poupou um bom tempo explicando a importância de minha existência para pessoas como você. Você só errou uma coisa.

-Errei? – perguntou a moça

-Sim, não foram seus pais que me enviaram, foi você que me atraiu. Para cada chave nessa banheira há um dia que você poderia ter vivido com mais intensidade. Essa corda, não vai se soltar, ela está aí para apertar e segurar até seu sangue, coagular, sabe. Meus amiguinhos gostam de sangue e liberam uma substância que vai forçar ele a correr, com isso esses nós vão parar de causar dormência e causarão dores.

O primeiro aquário veio abaixo, no corpo nu as pequenas larvas negras procuravam ávidas o sangue.

-São sanguessugas, acho esses seres formidáveis, eles gostam de lugares quentes e bebem literalmente até 500 vezes mais de seu tamanho o sangue de sua vítima.

A moça começou a se debater dentro da água em desespero, enquanto os pequenos bichinhos agarravam-se as seu corpo, com as mandíbulas agudas em busca do alimento vital, as chaves estavam em rebuliço correndo de um lado a outro.

O perfume de lavanda antes calmante, agora era substituído pelo de ferrugem do sangue que larvas deixavam escapar.

-Meus próximos amiguinhos vem de um lugar muito longe. Parecem tão inofensivos e, acredite-me, não tem cura seu doce veneno. Essa é minha homenagem às praias que você deixou de visitar por que eram distantes demais ou por que você estava muito cansada de não fazer nada.

O segundo aquário desceu para dentro da banheira, como se fossem pequena agulhas, Luciana sentia as bolinhas saltitantes se moverem em direção a ela e suas primeiras companheiras.

-Chamam elas Irukandji, águas vivas do tamanho de uma unha. Vêm da Austrália, matam em poucos minutos, ou seja vamos antecipar meu terceiro presente.

Ela deu uma leve corridinha até o outro lado e brincou com a moreia de azul cintilante e pegou o terceiro aquário.

Electrophorus electricus ou peixe-elétrico, eu amo essas criaturas marinhas, sabe. Sou muito ociosa. – disse ela olhando ao redor com deslumbramento. – Infundo esse mal nas pessoas como você.

-O que foi que eu fiz? – disse a moça ensanguentada, respirando com dificuldade. – Eu realmente merecia essa aula de Biologia toda, pra morrer? – disse ela ainda em tom sarcástico.

– Por que todo preguiçoso é desse jeito? – perguntou a outra revirando os olhos e jogando o longo peixe na água que caiu fazendo estardalhaço.

A carga elétrica fez com que todo ser dentro da banheira parasse e apenas boiasse. Outra descarga e a moça de longos cabelos negros espumava pela boca.

-Hora de partir, minha cara. – disse a voz na escuridão.

-Ainda não. – disse a moça de vestido vermelho. – estou cansada e quero assistir ao último espasmo que ela dará, é prazeroso ver o corpo parar e no caso dela, todo sangue sairá. Gosto do cheiro misturado a lavanda…

E quem de nós nunca ouviu falar 

Que o ocioso trabalha duas vezes.

Cuidado com teu vício em deixar pra mais tarde

Cuidado com a dama de vermelho, que age tão silenciosa

Tão vagarosa…

Eles caminham entre nós… Eles caminham entre nós

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