Aiyra

aiyra

Quem não tiver debaixo dos pés da alma
a areia de sua terra, não resiste aos atritos da sua viagem da vida;
acaba incolor, inodoro e insípido, parecido com todos
Luís da Câmara Cascudo

 

A manhã nascia enquanto o avião cruzava o Brasil em direção ao Amazonas. Para Alice, a viagem era longa e cansativa, mas, felizmente, não teria conexão na ida. Era uma viagem cara, mas valia a pena por tudo o que representava como valor emocional. Dentro do avião, observando a aurora pela minúscula janela, sentia o estômago embrulhar em ansiedade. Viajar sozinha sempre fora um problema, e não seria diferente dessa vez.

“Talvez essa tenha sido má ideia”, pensou com seus botões, “Não devia ter deixado todos para trás essa semana”. Porém, apenas cogitar o fato de passar a véspera de Natal em casa era doloroso para a mulher, que segurava o cordão feito com tiras de couro — que ganhara da filha — com forte apego. Cada olhar comiserado que recebia era uma facada, cada condolência ouvida era torturante. Não queria pena, e sim sua menininha de volta, e se isso não era possível, tentaria lembrar dela da maneira mais doce e recente possível.

Presidente Figueiredo fora o último lugar para onde ambas viajaram, antes do desventurado acidente que tirou a vida de sua filha Aiyra. A jovem amava viajar, assim como sua mãe, e as duas sempre se reservaram ao direito de fazerem, pelo menos, dois passeios ao ano. As duas viviam sozinhas — desde que Alice se separou do marido, pouco depois de menina completar cinco anos — em uma casa simples no subúrbio do Rio de Janeiro. A mulher era professora de português do município, além de dar aulas em escolas particulares, e a filha estava estudando para tentar, pela segunda vez, ingressar na faculdade de Medicina da UFRJ. Ela nunca chegou a fazer a prova, pois fora atingida por um carro desgovernado, cujo motorista bêbado dormiu ao volante. O culpado não foi encontrado, e o caso caiu no esquecimento para aqueles que tinham o dever de prendê-lo.

Entre um cochilo e outro, acordou com a voz da comissária de bordo pedindo que voltasse o banco para a posição inicial, pois logo iriam pousar. Depois de fazer o que fora pedido, fechou os olhos pouco antes de ouvir os trens de pouso descerem. Nesse instante, quase sentiu a mão delicada de Aiyra na sua, e a voz baixa tentando acalmá-la.

— Ei, a pior parte já passou — dizia ela, segurando forte a mão da mãe, quando o avião começava a descer.

O impacto contra o solo foi suave, para o alívio de Alice, que respirou fundo antes de abrir os olhos e ver o banco vazio ao seu lado. Um bolo se formou em sua garganta, e ela precisou desviar o olhar, umedecendo os lábios e pressionando forte um contra o outro na tentativa de evitar o choro. Mas os céus lhe pouparam o trabalho, ao derramarem gotas grossas de chuva durante a aterrissagem na janela do avião.

O desembarque foi no automático; ainda se lembrava da estrutura do aeroporto, e seus pés seguiram o trajeto necessário, depois de pegar a única mala na esteira de bagagens, até a rodoviária. O local ficava a pouco mais de 100Km de distância, o que significava boas duas horas de viagem, com direito a belas paisagens que incluíam as florestas, lagos e igarapés. Precisou esperar alguns minutos antes de embarcar no veículo, e aproveitou esse meio tempo para ajustar seu relógio para o fuso-horário do estado, além de passar repelente para evitar ser devorada pelos mosquitos. Ainda se lembrava das diversas picadas nas pernas da filha e como ela se contorcia para não coçá-las.

— Culpa desse seu sangue doce — dissera Alice, enquanto a jovem passava um creme para aliviar a coceira.

Assim que chegasse na cidade, reservaria sua excursão para o dia seguinte, passando pelo mesmo trajeto que fizera com Aiyra. No caminho, lembrou da insistência de seus pais para que não fizesse isso; que permanecesse no Rio e passasse o Natal ao lado da família, mas como podia? A filha fora sua família, o que tivera de mais precioso em sua vida. Por quase catorze anos foram só as duas morando na mesma casa, enquanto Alice se desdobrava para ser mãe e pai ao mesmo tempo, recebendo uma miséria de pensão do ex-marido a fim de suprir as necessidades da menina. Sofrera preconceito dentro e fora da família, sendo culpada pelo término do casamento. A única que nunca a abandonou foi Aiyra, dizendo todos os dias o quanto a amava e que sempre ficariam juntas apesar dos pesares.

No ônibus, Alice puxou o cordão para fora da blusa e observou o pingente com formato de arco e flecha, feito de madeira. A filha comprara às escondidas em uma loja de artesanato cuja atendente, com certeza, fazia parte de alguma tribo Tupi. A jovem só o entregara no último dia de viagem, pouco antes de deixarem o hotel em direção ao aeroporto. Não fazia nem um pouco seu estilo, mas o usava com orgulho e saudade.

Quando Alice finalmente chegou na cidade, sua primeira parada foi no Centro de Atendimento ao Turista, onde pegou um novo mapa com os pontos mais importantes de Presidente Figueiredo, e pagou pela excursão na Caverna Refúgio do Maroaga e a Gruta da Judéia; os locais preferidos de Aiyra. Seriam apenas duas horas de passeio, mas tinha certeza que valeria mais do que passar toda uma noite com uma taça de vinho e lembranças melancólicas.

Ao programar tudo, sua próxima parada foi o hotel, onde pretendia descansar até o dia seguinte e sonhar com o reencontro, ainda que simbólico, com a filha.

A noite fora conturbada e recheada de sonhos confusos, com vozes que formavam apenas palavras desconexas, à exceção de um. Alice poderia jurar que estava do lado de fora da Caverna do Maroaga, ouvindo o chamado alto e claro de Aiyra, de tão real que o sonho era. Seus pais estavam lá e pediam que não entrasse no lugar; que parasse de sofrer e seguisse em frente, contudo, ela tinha certeza que a filha ainda estava viva e precisava de sua ajuda.

Por isso mesmo corria por entre os túneis e galerias à procura da jovem, ouvindo sua risada de quando ainda era uma criança. Pela visão periférica, obtinha breves vislumbres de vultos, e sua audição captava um cântico que vinha de todos os lados, ao som de tambores, chocalhos, e uma flauta. Em sua busca, parecia sempre estar alguns metros atrás, sem nunca conseguir alcançá-la. Acordou suada e ofegante, olhando ao redor enquanto ainda ouvia o fantasma da risada de Aiyra.

Com a visão turva, tentou enxergar a hora no relógio e se assustou quando viu que dormira por mais de dez horas, e a data indicada era 24 de dezembro. Precisou se sentar um instante, ainda surpresa com a vivacidade dos momentos oníricos, antes de levantar. Mesmo um pouco tonta, caminhou até o banheiro e deixou a água do chuveiro cair, umedecendo a nuca e o rosto antes de tirar as roupas e entrar por completo. A água gelada a fez despertar, e logo estava se arrumando para o passeio que começaria em breve.

Uma van sairia do centro de atendimento ao turista, com — no máximo — dez pessoas, incluindo o guia. Alice preferia fazer a visita sozinha, mas não era possível adentrar a caverna e a gruta sem uma pessoa responsável, por se tratar de uma área de proteção ambiental. Dessa maneira, desembolsou o preço ínfimo de R$50 no dia anterior, para poder usufruir da beleza dos locais.

Felizmente, ao chegar no lugar marcado, constatou que não iriam com o número máximo. O grupo consistia de um casal estadunidense — que se coçavam e pareciam reclamar imensamente dos mosquitos —, três rapazes que mal pareciam ter deixado a adolescência para trás, e o guia. Este conversava com um dos garotos, que tinha sotaque paulistano e parecia aflito com os perigos que poderia encontrar durante a trilha. Ele coçava a nuca, e ajeitava os óculos sobre o nariz suado e oleoso, perguntando sobre os perigos de encontrarem uma onça pintada ou quaisquer animais peçonhentos na mata.

Depois de garantir que os riscos eram mínimos, o guia apressou todos para que o passeio, enfim, começasse. Alice permaneceu em silêncio no seu canto, fingindo prestar atenção nas instruções que já conhecia muito bem, enquanto os rapazes conversavam animados e o casal apontava para uma outra coisa na paisagem da rodovia BR-174.

A entrada da trilha da Caverna Refúgio do Maroaga, um grande outdoor como sinalização. Seriam trinta minutos de caminhada até chegar ao local e, antes mesmo de começar, Alice sentiu as gotas de suor brotarem na sua face. O caminho era complexo, repleto de aclives e declives formando cenários parecidos com bosques, e a mulher não estava mais acostumada com algo tão intenso. Felizmente, os outros também não, e o guia — que parecia levemente disperso — precisou fazer algumas paradas para que todos respirassem e tomassem um pouco d’água.

O céu estava nublado, e o mormaço era intenso. Logo a toalhinha de Alice estava úmida com o suor, com a face rosada do esforço físico. Quando finalmente ouviram o som da água caindo, uma forte onda de alívio tomou o grupo, animando-o. A entrada da caverna era regada por uma cachoeira, e a vegetação ao redor era de um verde vivo. O interior era igualmente magnífico, com amplas galerias que o sol mal iluminava. As outras pessoas do grupo aproveitaram para se banhar, mas Alice preferiu sentar em uma rocha, sozinha com seus pensamentos.

Quando o tempo ali terminou, foram mais trinta minutos até chegarem à gruta. Enquanto caminhava beirando o paredão rochoso, ela sentiu um forte mal estar. Involuntariamente, Alice pousou a mão sobre o pescoço e não sentiu o cordão. Tateou em vão enquanto seu desespero aumentava ao não encontrar o presente de sua falecida filha. No mesmo instante começou a fazer o caminho inverso do grupo; os olhos perscrutavam o solo em busca do objeto, mas não tinha nem sinal dele. Cada vez mais se afastava dos outros sem ao menos dar-se conta, com a atenção única e exclusivamente voltada à procura do adorno. Não podia perdê-lo de forma alguma, e refaria todo o caminho se necessário.

Suas passadas eram automáticas, enquanto mantinha o olhar atento aos mínimos detalhes. Contudo, tudo o que via eram folhas e galhos, aumentando sua agonia. Por um instante, precisou parar e respirar, apoiando as mãos no joelho enquanto tentava recuperar o fôlego. Começava a achar que tinha se perdido e andava em círculos. Não queria dar-se vencida pelo cansaço, mas temia não conseguir voltar sozinha ou ser encontrada pelo guia.

Seu relógio marcava pouco mais de 17h, e em menos de uma hora começaria a anoitecer, porém sabia que, ao desistir, estaria deixando sua filha para trás. As lágrimas escorreram de seus olhos pela face suada, e Alice tratou de secá-las antes de continuar. Tinha esperanças de chegar até a caverna, onde não só poderia achar o cordão como também estaria a salvo.

Então ela andou até que seus pés doessem e criassem bolhas, enquanto o crepúsculo foi substituído pelo véu da noite. Sua água tinha acabado e a sede era intensa, mesmo assim continuou cambaleante até os joelhos cederem. Permaneceu caída, tentando pensar no que poderia fazer, mas o cansaço nublava sua mente. E como se já não bastasse, gotas grossas de chuva começaram a cair.

Ainda ajoelhada, ergueu a cabeça e deixou que a água caísse em seus lábios rachados.

— Ajude-me, Aiyra — pronunciou sem ao menos notar que o fizera em voz alta.

Assim permaneceu até que um relâmpago talhou o firmamento enegrecido como uma rachadura luminescente, cortando seu caminho até o solo. Comedida, começou a se levantar, mas a gravidade pareceu puxá-la para o lado. Sua mão foi em direção à terra úmida, mas encontrou apenas o vazio. Totalmente desequilibrada, acabou desabando mais uma vez, rolando por um declive que não conseguira enxergar antes por causa da escuridão.

A queda parecia durar uma eternidade, e Alice mal sentia os cortes em sua pele enquanto caía. Quando terminou, a terra cobria o seu corpo e, pelo o que pareceram alguns minutos, perdeu a consciência. Ao recobrar a lucidez, manteve os olhos fechados, atenta aos sons ao seu redor e à própria respiração; ouviu e sentiu o vento e a chuva, o cheiro da terra molhada, galhos de árvores quebrando sob a pisada de algum animal. Mediante o perigo, abriu os olhos, e sua boca abriu lentamente em surpresa.

A mulher, com dificuldade, ergueu o corpo até se sentar. Partículas de poeira dançavam ao seu redor, iluminadas pelos raios de sol peneirados pela folhagem das árvores. Não havia mais chuva, apenas o céu limpo de qualquer nuvem. Alice começou a levantar, tão absorta na paisagem ao seu redor que, por um instante, esqueceu como chegara até ali. Foi então que ouviu o som de água caindo e, com extrema cautela, caminhou na direção dele.

Não demorou muito para encontrar-se em frente à Caverna Maroaga. Aliviada, sorriu enquanto passava pela cachoeira e adentrava a formação rochosa. Destacando-se da infinidade de sons, a melodia de uma flauta chegou até ela. Hipnotizada pela ária, seguiu pelas galerias até encontrar sua fonte. Na interseção de dois túneis, um mapatizeiro que passava de dez metros de altura, atravessando o teto. Sob a árvore, uma mulher de pele acobreada e longos e lisas madeixas negras que chegavam aos quadris, cobrindo os seios. Sua face, braços e torso estavam pintados com urucum. Em seus lábios a flauta, mas parou sob o olhar deslumbrado de Alice.

— Passou por um longo caminho até chegar aqui, não? — Sua voz era aveludada, e a forma como pronunciava as palavras em português deixava claro que não era sua primeira língua.

Uma aura etérea a envolvia, iluminando tudo ao seu redor. A índia levantou o olhar, fixando-o ao de Alice e, com um gesto delicado, pediu que ela se aproximasse. Assim o fez, até ficar a alguns centímetros de distância, tentada a perguntar seu nome e o que estava fazendo ali.

— Belo lugar, esse aqui. Não posso visitá-lo com frequência, mas ainda assim vale a pena todas as raras vezes.

— E quem é você? — perguntou a outra, temendo soar rude, mas incapaz de conter sua curiosidade. Acabou recebendo um sorriso de volta.

— Ah, eu diria que é uma pena que não saiba, mas isso soaria… Como é mesmo a palavra? — Ela parou por alguns segundos, pensativa. — Narcisista. Sim, narcisista, mas acredite, não é minha intenção. Hoje mesmo algumas famílias estão se reunindo para comemorar a véspera do nascimento de certa criança, mas não sabem o meu nome ou o do meu filho. Sou Ceuci, mãe de Jurupari, o filho do Sol.

Seu parco conhecimento sobre a mitologia Tupi indicava que a mulher à sua frente era a mãe de um deus. Ela o concebera miraculosamente, engravidando graças ao sumo do fruto que comera, da árvore Pücã, que escorrera de seus lábios até a fenda entre suas coxas. Alice observou o mapatizeiro, os frutos roxo-escuros parecidos com uvas, e seu olhar correu de volta para a índia.

— Isso não é possível — murmurou, incapaz de acreditar no que ouvira. — Só pode ser alguma brincadeira.

— Não é possível? — repetiu Ceuci, divertindo-se com a confusão da mulher. — Preciso relembrá-la do aniversário que todos comemoram no dia 25? Por que então é tão difícil assim acreditar em mim quando estou aqui, parada na sua frente?

Alice permaneceu calada, refletindo sobre aquelas palavras e o impacto que possuíam sobre suas crenças.

— Mas não pense que isso anula o que acredita ou deixa de acreditar. Em um mundo tão vasto, seria egoísmo da minha parte acreditar que somos os únicos seres divinos, não acha?

— Honestamente, não sei mais em que acreditar — respondeu, lembrando o que a levara a viajar naquela data.

Ceuci deu alguns tapinhas no chão ao seu lado, e Alice se sentou no local indicado.

— Sabe, criança, perder um filho é o mesmo que ter boa parte do nosso ser arrancado à força — A deusa tomou a mão da outra nas suas, transmitindo compaixão. — Uma parte que não crescerá novamente, deixando um buraco que não pode ser tampado por nada nem ninguém. Uma falta insubstituível e, ainda assim, precisa continuar vivendo.

— Não quero viver sem ela — replicou, sentindo os olhos arderem, e a lágrimas mornas escorrerem pela sua face.

Ceuci a abraçou, e Alice escondeu o rosto em seu ombro, sentindo-se como uma criança chorando nos braços da mãe. A deusa acariciou seus cabelos, e deixou que as lágrimas molhassem sua pele.

— Eu sei, minha filha, mas nem sempre as coisas são do jeito que desejamos. Aiyra sofre ao vê-la dessa forma. — Ela segurou o rosto da mulher com carinho. — Pessoas morrem todos os dias, independentemente de idade, sexo, e todo o resto. Faz parte do ciclo da vida. Cada um de vocês nasce predestinado a algo e, às vezes, essa missão é cumprida antes do que consideram aceitável. Sua filha esteve presente em momentos difíceis da sua vida, ajudando-a a seguir em frente quando não tinha mais esperanças, estou errada? — Alice aquiesceu — Missões diferentes, mas interligadas, então por qual motivo não segue com o que aprendeu com ela? Entenda que seguir em frente não significa esquecê-la, e sim valorizar o amor e aprendizado que foram oferecidos nesse ínterim. Não é fácil, mas vale a pena tentar.

— Nunca tive a chance de me despedir — desabafou a outra e, afastando-se da deusa, passou as mãos pelos cabelos bagunçados.

Ceuci inspirou fundo e soltou o ar lentamente, terminando em um suspiro. Com gentileza, segurou Alice pelos ombros e a levantou.

— Veja isso como o meu presente pessoal — disse, antes de virá-la na direção de onde viera.

No início do túnel, uma figura feminina observava ambas. Os cabelos castanhos cacheados caíam sobre seus ombros, emoldurando o rosto redondo. Alice parecia incapaz de se mexer, pois a jovem que a fitava tinha quase os mesmos traços que os seus. Ceuci pigarreou, chamando a atenção da mulher.

— Aproveite, Alice, não posso fazer com que dure para sempre.

A passos incertos, ela caminhou em direção à filha, que sorria de volta e, sem dar-se conta, correu até que seus braços estavam perto o bastante para puxá-la em um forte abraço. Era Aiyra sem tirar nem pôr.

— Só a senhora para se meter no meio de uma selva na véspera de natal — murmurou a menina, enquanto abraçava a mãe.

Alice riu ao ouvir sua voz, e afastou-se o suficiente para olhá-la nos olhos. Ela não sabia como aquilo era possível, mas não se importava nem um pouco. Aiyra parecia tão real que todo o resto — toda a desgraça que se abateu sobre sua família — poderia ser uma ilusão.

— Seus avós não queriam que eu viesse.

— Eles não querem ver a senhora sofrendo, assim como eu. Não permita que a tragédia defina o resto da sua vida, e vivê-la não significará que me abandonou, pelo contrário. Sei que me ama, acredite, e por isso mesmo quero que seja forte como sempre foi.

Alice assentiu, secando as lágrimas, pouco antes de Ceuci se aproximar de ambas e pousar a mão sobre o ombro de Aiyra.

— Está na hora — anunciou a deusa. — Precisamos ir.

A jovem aquiesceu, antes de enfiar a mão no bolso da calça e retirar um cordão feito com tiras de couro. O pingente de arco e flecha pendia, lascado infimamente perto da seta. Ela pegou a mão da mãe e o depositou ali, beijando-a em seguida.

— Tome mais cuidado, dona Alice — disse, abraçando-a uma última vez.

A mulher retribuiu o gesto de carinho com igual intensidade, e murmurou um “obrigada” para Ceuci, que assentiu em resposta em um breve menear de cabeça. Alice fechou os olhos, aproveitando aqueles últimos segundos, incapaz de sentir raiva ou tristeza por tudo o que acontecera. Sua filha estava bem, afinal.

— Lembre-se que a pior parte já passou — ouviu Aiyra dizer, e logo a sensação de tê-la em seus braços se esvaiu.

Ela engoliu a seco, enquanto o vazio ficava cada vez mais real. Ao abrir os olhos, deparou-se com o céu noturno. A chuva ainda caía, e as dores dos cortes voltaram. Alice respirou fundo e tentou se mexer, pouco antes de ouvir alguém chamar seu nome e ver a iluminação causada pelo o que pareciam ser diversas lanternas.

— Aqui. — tentou gritar, mas sua voz saiu como um sussurro.

Juntando suas forças, ela ergueu um dos braços e só então notou algo em sua mão. Com cuidado a abriu e viu o colar que perdera na mata. O colar que ganhara de Aiyra. Seus lábios se repuxaram em um sorriso, antes que um facho de luz iluminasse o seu rosto.

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