Ilusório[+12]

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Annita chegou esbaforida, batendo a porta do pequeno apartamento com uma força exagerada. O eco se fez ouvir pelo corredor comprido e foi abafado pelos cômodos pequenos. As emoções eram um emaranhado confuso dentro de seu peito, conflituosos e gritantes. As lágrimas empossavam seus olhos, derramando-se pelas bochechas rosadas e deixando para trás um rastro de tristeza profunda.

Em sua garganta havia aquele bolo dolorido, instigando-a a chorar convulsivamente sem que tivesse controle de suas próprias emoções.

As paredes claras e janelas fechadas acolheram seus soluços na semiescuridão da sala.

Como ele podia ter feito uma coisa dessas com ela? Como?

Como uma pessoa conseguia esmagar um coração cruelmente como ele fizera e não esboçar nenhum remorso?

Ela não sabia responder. Tudo o que sentia era aquela desilusão corroer seu ser e a tristeza afogá-la naquele mar de sentimentos dilacerados.

Ele fora cruel. Enganou-a com suas mentiras, com sua dissimulação desleal a atraiu para a beira daquele precipício e a empurrou com mãos nada gentis.

E ela caiu, vendo sua vida desmoronar.

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Ela era uma garota alegre, cheia de sonhos e vontade quando embarcou na faculdade. Tinha certeza das matas que queria cumprir e se jogava nos estudos como parte de um plano promissor para o futuro. Seus pais maravilhosos a incentivavam e se orgulhavam dela.

Annita o conheceu no corredor da faculdade. Um jovem alto, musculoso e de cabelos emaranhados e sorriso debochado, tudo o que as meninas desejavam com ardor na deliciosa fase dos vinte anos.

Ela se lembrava bem daqueles olhos azuis a acompanhando pelo corredor enquanto o rapaz bebia água no bebedouro metálico. Ela também se lembrava do sorrisinho que se espalhou por seus lábios tímidos ao passar por ele.

Dois dias depois, ele a abordou no estacionamento se apresentando, fazendo um doce elogio e a convidando para sair.

Annita o achara de extrema elegância, bonito e divertido. Acabaram ficando aquela noite e ela se viu traindo suas próprias regras ao ir para a cama com ele no primeiro encontro.

Eles se divertiram durante uma semana até que ele começou a se afastar, andando sempre com seus colegas.

Annita procurou entender aquele distanciamento, sempre questionando o rapaz. Mas ele parecia não se importar, achar certa graça em seu desespero.

Três dias depois, lá estava ele, andando para cima e para baixo com outra garota.

Annita se despedaçou, constatando que ele não queria mais saber dela. Seu coração se partiu dolorosamente e ela teria deixado pra lá se não estivesse tão apaixonada.

O que tiveram fora significativo. Ela dissera que o amava e ele lhe pareceu compartilhar de tal sentimento. Era tão maravilhoso com ela!

A história não podia acabar daquela forma. Não quando ela sentia no fundo do peito o quanto eles se davam bem e pareciam combinar. O rapaz só estava confuso, perdido em meio aos desejos dos jovens. Ela sabia como poderia mudá-lo, salvar aquele coração selvagem que nunca havia se deparado com o amor verdadeiro.

Annita estava convencida disso e tomou uma decisão importante.

Depois da aula, naquela tarde, ela o abordou no estacionamento. Com palavras doces, confessou que o amava e que estava disposta a lhe mostrar como o relacionamento dele faria bem para ambos. Disse que o que eles tinham era algo belo e que ele não precisava se esquivar daquele jeito por medo. Ela sabia que ele não estava acostumado a sentimentos como aquele, mas que era saudável e belo para ambas as partes. Quanta besteira se esquivar do amor por medo. Ela já tinha lido sobre isso em seus romances favoritos.

No entanto, a resposta que obteve fitando os olhos dele foi dolorosa. Ele não apenas escarneceu de seus sentimentos sinceros comoa destruiu por dentro.

Anitta achou que fosse se esvanecer em meio a tanta dor.

Demorou algumas semanas para que voltasse ás aulas, recuperando sua dignidade.

Ele sequer a olhava quando passava pelo corredor. Cada dia estava com uma menina diferente. A cada dia se divertia mais com seus amigos cafajestes.

E ela ia minguando a cada dia, tentando se reerguer e recuperar os pedaços do coração partido. Sempre remoendo os dias felizes que teve ao lado dele e se perguntando como ele podia ser tão cruel.

De tão desesperada, chegou a ir em uma cartomante. E viu nas cartas que seu amor ainda tinha esperanças. A mulher lhe cobrou algumas moedas de prata e lhe garantiu que o amor estava próximo de se estender em um bom relacionamento.

Isso pareceu dar forças á Annita para que se declarasse novamente. Dessa vez, seria ainda mais sincera. Seu amado estava, enfim, percebendo que a recusa em confessar seu amor por ela era uma idiotice.

Ela esperou até a festa de comemoração de fim de ano. Todos estariam lá, inclusive ela. Anitta se aprontou com esmero, escolhendo seu melhor vestido e deixando os cabelos negros solto em ondulações sensuais.

Ao adentrar a festa, numa república popular, ela se deparou com ele em meio aos amigos, divertindo-se num jogo de baralho. Ela se aproximou, vendo os olhares repreendedores dos amigos dele, e pediu para conversarem a sós.

Ele parecia relutante e tentou recusar, mas ela o pegou pelas mãos e o afastou daquela multidão onde poderiam ter privacidade.

Annita se declarou novamente, iniciando um monólogo sofisticado, uma declaração de amor bem elaborada que poderia emocionar um homem apaixonado.

Exceto que não despertou nada nele além de impaciência. Ele tentou dar meia volta e seguir com os amigos, mas ela insistiu, dizendo que precisavam conversar.

Foi aí que ele se tornou agressivo, despejando uma imensidão de palavras cortantes que lhe partiram o coração novamente. Ele começou a gritar, rechaçando-a. As pessoas se aproximaram para assistir a humilhação. E somente quando as lágrimas empoçaram seus olhos foi que ela se deixou sair correndo, odiando aquele canalha por tão cruel desumanidade.

Se pudesse teria lhe socado o rosto!

Jamais amara tanto. Jamais tivera o coração tão partido.

E naquele silêncio nebuloso, ela se perdeu em sua tristeza gélida.

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Alvin era um rapaz descolado, divertido e alegre. Alguém que sentia prazer em curtir a vida. Cursava arquitetura na universidade local e nas horas vagas gostava de jogar sinuca com os amigos nos barzinho das redondezas. De vez em quando uma partida de basquete e raramente frequentava a academia.

Alvin esbanjava simpatia, era algo natural. E com isso conquistava muitos amigos ocasionais. Assim como as meninas mais lindas da universidade.

Mas não ligava muito para isso. Não queria se apegar a ninguém, especialmente porque era um sujeito autossuficiente que curtia sua liberdade.

Isso não o impedia de ficar com as meninas, é claro. Todos conheciam seu sorriso metidinho e o frescor de seus lábios.

Naquele dia, no corredor da faculdade, depois de uma partida de basquete no ginásio, ele se deparou com mais uma garota bonita.

Ela alta, cabelos negros e ondulados, rosto juvenil e olhos incrivelmente amendoados.

Seus olhos se encontraram numa fração de segundos e ele se interessou por ela. Passou dois dias procurando pela garota até abordá-la com um convite para sair. Totalmente casual e despreocupado. A paquera era algo para se curtir.

O encontro foi divertido. Alvin gostou muito dela e do papo que tiveram, uma garota inteligente e bacana. A tarde agradável terminou em seu quarto na república onde morava e ambos curtiram a companhia um do outro.

Alvin a deixou na porta de casa, como um sujeito bem educado e depois disso rumou para o bar atrás dos amigos, a partida de sinuca iria começar.

A garota o procurou no dia seguinte e, como havia gostado muito dela, continuaram juntos. Cinema, uma passada no Starbucks, uma volta pela livraria -ela gostava muito de ler -, e algumas passadas na sorveteria.

Nada romântico. Apenas o curtir casual da vida.

No entanto, os olhos dela o fitaram com um quê de apaixonado.

– Annita, você sabe que eu não me apego ás pessoas, certo?

– Claro, claro – ela sorriu, continuando a fitá-lo daquela forma apaixonada.

– Como eu te disse logo que nos conhecemos, eu não sou o tipo de pessoa que busca um relacionamento. – prosseguiu ele. – Estamos apenas nos divertindo, curtindo a vida. Não espere nada sério de mim. Não porque sou um cara ruim, mas porque não está nos planos da minha vida, entende?

Annita sorriu.

– Nem sempre os planos da vida seguem como desejamos. Você não precisa se esquivar dos sentimentos só porque tem aversão a isso. Já te machucaram uma vez, não significa que vai ser sempre assim.

– Muita pretensão a sua achar que não quero compromisso porque alguém feriu meus sentimentos no passado. Simplesmente sou uma pessoa que não quer se envolver. Curtir a vida. O que há de mal nisso?

Annita ficou em silêncio.

Depois daquele dia, Alvin começou a notar que ela se aproximava cada vez mais, fazendo planos para uma suposta relação.

Imediatamente decidiu se afastar dela, deixando bem claro que ela estava se apegando e isso não seria bom para nenhum dos dois.

Annita pareceu não compreender e nos dias que se seguiram, ela pareceu extremamente chateada e injustiçada.

Alvin seguiu a vida. Evitou manter a amizade para que ela não misturasse as coisas ou se iludisse.

Acabou conhecendo Samantha, uma garota bacana que entendeu perfeitamente que ele queria curtir a vida e embarcou com ele na curtição, não exigindo o que ele não poderia lhe oferecer.

Alvin acreditou que tudo estava certo e normal novamente. Até descobrir que Annita estava dizendo a todos da universidade que Samantha era uma vagabunda e ele um cafajeste dos piores.

O ultraje o dominou, fazendo-o ficar cheio de raiva. Annita estava se comportando de forma infantil, ofendendo uma garota legal que só queria curtir a vida como ele.

Foi tirar satisfação, procurando controlar sua raiva. E lá estava Annita, fitando-o com aquele enervante olhar apaixonado, dizendo que compreendia que Samantha estava se oferecendo a ele.

– Annita, muito me admira esse comportamento em você. Achei que fosse uma garota inteligente e de bem com a vida. Pelo jeito me equivoquei. Está ofendendo alguém que nunca lhe fez mal e novamente imaginando coisas.

Ela o acusou de ser cruel e esmigalhar seus sentimentos.

Alvin deixou passar essa, afastando-se de Samantha para que ela fosse deixada em paz por sua perseguidora.

Algumas semanas se passaram, ele seguiu com a vida. E novamente Annita se interpôs em seu caminho, abordando-o com juras de amor no estacionamento da faculdade.

– Por Deus, Annita. Não sou um príncipe encantado que se renderá ao doce amor de uma donzela. Tampouco um mal compreendido e ferido no amor que está apenas esperando a garota certa aparecer. Não enxergue coisa onde não tem. Não somos alma gêmeas. Não estou apaixonado por você. O que tivemos foi bacana, mas acabou. Eu lhe disse, desde o começo, que não estava procurando nada sério.

– Mas eu me apaixonei por você! – ela o acusou.

– E por acaso isso me obriga a lhe corresponder? Eu sinto muito se isso lhe soa cruel, mas não posso me obrigar a ficar com você por pena. Seria lamentável.

Annita derramou suas lágrimas sentidas e o acusou de despedaçar seu coração mais uma vez.

Alvin não conseguia se sentir mal por ela. Não achava que fosse um canalha. Ela precisava aprender que as pessoas não eram obrigadas a amar ninguém, tampouco ceder a um relacionamento por dó. Ele deixara claro, desde o começo, que não queria nada sério. Não entendia a insistência da menina em teimar que ele lhe fez promessas. O olhar dela o acusava de tê-la enganado cruelmente e ele se perguntou quando diabos deu a entender que queria namorar com ela e viver um Felizes Para Sempre.

As semanas se passaram e ela continuava o mirando com ódio, fofocando por todos os cantos sobre como ele era uma pessoa ruim.

Alvin revirava os olhos e seguia em frente. Ignorava as ligações dela diariamente, precisou bloqueá-la de todas as redes sociais e quase se mudou de quarto na república em que morava. Aquela menina alegre e bonita se transformou num ser obsessivo e virulento.

De repente, tudo cessou. As perseguições, as falas maldosas e os olhares acusatórios.

Até aquela fatídica noite em que ela apareceu na festa da república. Com seu vestido elegante e os cabelos ao vento, ela veio se aproximando e pedindo um minuto de sua atenção.

Alvin hesitou. Não queria mais confusão. Não quando tudo parecera se resolver.

-Hã, Annita. Não acho uma boa ideia. – ele coçou o alto da cabeça, confuso.

– Só quero conversar. Prometo.

Ele permaneceu cauteloso então ela o enganchou pelo braço e saiu andando, puxando-o junto até um canto afastado.

– Não consigo parar de pensar em você. Te amo tanto! – ela começou. – Sinto sua falta todos os dias. E acho que você também sente a minha, impossível os momentos que vivemos não significarem nada para você quando para mim significaram tanto! Parecia que você me amava na mesma proporção que eu te amava. Como pode tudo isso ter mudado tanto? Eu…

– Annita, não há amor nenhum. – Alvin foi se irritando. – Algumas semanas não são suficiente para que as pessoas se amem.

– Foi o suficiente para mim. Essas coisas acontecem. O amor é imprevisível.

– Eu até posso acreditar nisso. No entanto, nunca houve amor da minha parte. Eu adorava você, nos divertimos juntos. Aí você começou a ver coisa onde não tinha. Por isso me afastei. Nunca gostei de iludir as pessoas, sempre fui sincero com você. Não entendo como pode estar tão obcecada.

– Eu te amo!

-Não, não ama. Você está vivendo uma ilusão e quer que eu viva em seu castelinho de areia com você. Eu sinto muito, mas não vai dar!

– Você não precisa ser grosso.

Alvin atirou as mãos para cima.

– Não estou sendo grosso. Estou apenas tentando explicar uma coisa que você se recusa a ver. Se sou um canalha por isso, sinto muito.

As pessoas ao redor começaram a prestar atenção neles, especialmente porque Annita começou a soluçar.

Ele pensou em ampará-la e dizer que tudo ficaria bem. No entanto, sabia que se fizesse aquilo ela teria uma ideia errada sobre eles, então simplesmente se dissuadiu da ideia.

– Olha, sinto muito que as coisas não sejam da forma como você quer. Mas não posso fingir ser o seu príncipe encantado. É uma garota muito bonita, tenho certeza que vai conhecer alguém que queira ficar com você. No mais, por favor, pare de me perseguir.

Ele se afastou, julgando que uma ruptura brusca e com uma boa dose de realidade seria o melhor para ela.

E para ele também.

Se ele era ruim, como ela dizia a si mesma e aos outros, por ter se afastado e se recusado a namorá-la,  ele não achava.

Afinal de contas, não se obriga ninguém a amar ninguém. E ficar com raiva da pessoa por não lhe sentir amor é um equívoco viscoso.

 

 

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