Não há diferenças

 

 

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Escrito por Naiane Nara 

 

Um dia a mulher de cabelos cor de terra viu um menino anjo. Seus olhos eram escuros e entediados, transmitindo uma frieza indescritível. Aquele semblante havia lhe chamado atenção – observar o despertar de um anjo de perto era algo cobiçado e belíssimo – mas a princípio a mulher tinha muitas obrigações com que ocupar seu tempo e acabou esquecendo dele.

A vida para ela não era vazia, haviam seus amigos, seu trabalho remunerado e o voluntário do qual ela gostava muito, seus animais, seus livros, as brincadeiras em sua pequena família. Dir-se-ia que havia nascido para a solidão, porém apenas se moldara a ela de modo que se tornasse uma casca confortável.

Não tinha do que reclamar, e era grata. Preferia que seu mundo continuasse na mais simples normalidade, sem seres angelicais e demoníacos.

Porém, um outro anjo já desabrochado, uma das sacerdotisas celestes, havia se tornado muito sua amiga. Ela lhe apontara o menino e lhe dera um empurrãozinho para que se conhecessem, pensara que ambos podiam se fazer bem. A sacerdotisa sorrira indulgente, mas quem olhasse de perto suas belas plumas brancas podia notar muitas cicatrizes ocultas pela linda penugem – e foi isso que a uniu à mulher dos cabelos cor de terra.

O olhar mais atento não deixaria esse detalhe escapar, e um poeta os viu e quis proteger a sacerdotisa de quaisquer outras coisas que pudessem lhe ocorrer – mas isso já é uma outra história.

Tanto a mulher terrena como o ser angélico pagaram um preço alto por laços anteriores e carregavam destroços do que um dia fora chamado de coração. Estavam o mais próximo possível da felicidade agora (se isso for possível nesse vale de lágrimas, onde a dor é uma lição constante) depois que deixaram tudo aquilo para trás.

Mas o poeta e o menino anjo voltaram seus olhos para elas, e cada uma teve que travar uma pequena batalha particular.

A mulher terrena, que havia tornado seu coração tão fechado e distante, o abriu ao menino anjo com uma facilidade que a irritou sobremaneira. Estava encantada que sua amiga anjo, a sacerdotisa, estivesse cultivando algo com o poeta – tinha suas dúvidas mas acreditava que aquilo poderia dar certo, tinha fé neles, não sabia explicar exatamente o por quê, mas tinha.

Em seu próprio caso, permitiu-se voltar a respirar, e permitiu que o menino anjo se conectasse a ela.

Um erro, depois ela perceberia.

O começo, como todos os começos, foi de uma beleza admirável. Nuvens, músicas, aprender a voar, escrever com os dedos na tinta fresca, amar como se não houvesse amanhã.

Mas o Tempo, um dos mais belos Deuses, voltou a correr, e a rotina mostrou-lhes que aquele frágil enlace não resistiria às diferenças.O menino anjo não se preocupava mais em agradar a mulher terrena, nem elogiar seus cabelos ou cantar-lhe canções. A mulher notara o afastamento e magoada, deixara de cuidar das belas penas negras, não gastava mais os dedos doloridos em desembaraçar os nós da penugem abundante.

O menino já não era mais tão triste, conseguia bater um pouco as asas até planar – e cada vez mais se afastava da mulher terrena. O amor e preocupação venceram o orgulho, e ela chamou-o algumas vezes, enchendo-o de carinho e motivando seu entusiasmo. Mas isso não resistia ao dia seguinte, em que ele se afastava tanto a ponto de se encantar com as mulheres e o mundo.

A mulher dos cabelos cor de terra jamais o prenderia, sabia que ele murcharia e perderia seu brilho. O menino anjo havia nascido para voar livre pelos céus, enquanto ela se deitava na lama para ouvir seus Deuses. Nunca daria certo, e a mulher resolveu ser grata pela beleza que haviam desfrutado juntos.

Sua dor, naquele momento, não importava. Já lidara com ela antes, saberia lidar com ela depois. Arrumou suas coisas cuidadosamente, já resistira a tempestades piores. Chorou um pouco, respirou fundo, pegou suas malas e partiu em direção aos seus sonhos e o mundo.

Quanto ao menino, nem percebera sua ausência.

 

*****

Fim

 

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