Tão Sombria a Traição dos Homens [+16]

* Título inspirado num dos enigmas do livro O Código Da Vince.

Escrito por: Natasha Morgan

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Os fogos de artifício iluminaram os olhos amendoados, corrompendo aquele brilho sereno e inocente, toldando-o em um cintilar malicioso. Os lábios carnudos se curvaram num sorriso laborioso, exibindo dentes perfeitos.

Ao seu redor, as pessoas gritavam, abraçando-se umas ás outras, jogando para cima seus chapéus de formatura enquanto os violinistas iniciavam uma melodia alegre para comemorar a turma de formandos na campina iluminada por lindos candelabros de estanho.

E lá vinha ele em meio à multidão, vestido em seu terno perfeitamente cortado, os músculos do corpo bem tratado se encaixando com elegância nas vestes sofisticadas. O sorriso naquele rosto era adequado para a situação e transformava sua face com uma beleza desejável. Trazia na mão esquerda uma taça de champanhe e acenava amistosamente ás pessoas.

Um perfeito cavalheiro, elegante em seus modos mais sutis.

Exceto, é claro, pelas sombras nefastas que espreitavam por dentro daquela bela e admirável casca.

Justine refreou o sorriso, transformando-o num simples sorrir inocente, e permitiu que o homem a abraçasse, dando um pequeno beijo em seu rosto. Por dentro, a euforia a contaminava, dançando desenfreada e instigando seu coração a bater descompassado.

Oh, ela iria curtir o que estava para acontecer.

O lado cruel que haviam despertado dentro daquela mulher inocente chacoalhava as correntes da civilidade, ansioso para se libertar e fartar-se em sangue pútrido e corrupto.

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Justine crescera numa casa simples numa periferia em New Orleans, ao lado de seus pais e cinco irmãos. Apesar das condições um tanto precárias em que vivia, sendo forçada a trabalhar desde criança para ajudar no sustento da casa, ela sempre fora uma jovem alegre e sonhadora. A relação de seus pais era estranha, nada parecida com os relacionamentos que via em novelas. Não eram tiranos loucos, mas não tinham uma relação amorosa. Era até cômico observá-los.

Justine sempre os respeitou e amou. Assim como sempre amou e protegeu seus irmãos, tanto os mais novos como os mais velhos. Abraçava qualquer oportunidade de emprego honesto, dedicando-se ao máximo, e gastava tudo o que ganhava ajudando os pais e mimando os irmãos. Se ela acreditava que subiria na vida e poderia oferecer um pouco mais de sofisticação á família? Sim, acreditava. Ao contrário do que pensavam os vizinhos e a maioria das pessoas naquele bairro, ela tinha total capacidade para isso e tinha ciência de tal fato.

As provas ofertadas pelo governo, todas as oportunidades de estudo, ela abraçava na esperança de que conseguiria uma bolsa integral. O curso não lhe importava, não naquela época. Arriscaria qualquer coisa pelo simples prazer do aprendizado. Era uma jovem inteligente embora não se vangloriasse disso.

Foi numa manhã nublada, quando Justine assistia a uma palestra sobre alcoolismo que o conheceu. Aquele homem atraente e bem vestido era um dos coordenadores do projeto e tinha uma fala fácil, contagiando o público e atraindo os olhos inocentes diretamente para ela.

Justine sempre fora cobiçada pelos homens, sua pele negra e delgada era um convite irresistível á sensualidade, os olhos amendoados denotavam serenidade, os cabelos curtos, cacheados e levemente acobreados, um sorriso tímido que lhe conferia um charme único.

No entanto, em sua vida, não tinha tempo para perder com os homens. Eles a atraíam, sim. Mas a jovem sempre daria preferencia aos estudos. Até aquele momento.

Quando o homem lá na frente gesticulava e expunha suas ideias, os olhos simpáticos vagavam em meio à plateia, fixando-se uma ou duas vezes na garota. Se ele fazia de propósito, ela nunca saberia. Mas algo dentro de si foi atraído por aquele estranho amistoso.

Quando a palestra terminou, ele a abordou com elogios amáveis, olhar atraente e uma proposta simpática. Contrariando seus costumes, Justine aceitou tomar um café com aquele homem. E assim ele adentrou sua vida, como uma névoa gelada.

Seus pais o achavam simpático e educado, um homem com um estilo de vida bem diferente ao qual estavam acostumados. Suas atitudes para com Justine eram impecáveis, era atencioso, divertido e sua polidez encantava.

Com sua simpatia e boa educação, ele admirou a família inteira, embora pouco ficasse em sua companhia. Edmund preferia levá-la a restaurantes sofisticados, jantares com seus amigos mais íntimos e a encontros privados em sua bela casa. Tudo era novo para Justine e ela se encantava, apaixonando-se pelo homem com mais facilidade. Não apenas ele era encantador, mas a vida que ele lhe oferecia. Ela jamais fora uma pessoa interesseira, sempre visou alcançar o sucesso por suas próprias mãos, então, todo o afeto que nutria por ele era sincero e de coração.

De certa forma, sua vida fora transformada. Passou a se vestir melhor, a comer melhor, a se portar melhor e frequentar lugares melhores. Suas viagens de metrô foram abolidas, agora só andava de carro, Edmund fazia questão de lhe conceder esses pequenos caprichos. E, embora a vizinhança comentasse exacerbadamente sobre sua relação com Edmund, Justine não se importava nem um pouco. Ela estava feliz e era tudo o que lhe importava.

Quando decidiu se arriscar a fazer faculdade, veio o primeiro dissabor. Edmund rira de sua escolha, alegando que uma simples professorinha não chegaria a lugar nenhum na vida. Justine ficara bastante chateada, tentando entender como um homem culto e educado como Edmund poderia ter um pensamento como aquele. Mas seu olhar triste não alterou qualquer expressão no rosto dele, que continuou rindo.

Justine não desistiu de sua ideia e prosseguiu com os estudos, conciliando o trabalho com a faculdade enquanto desfrutava de uma vida tranquila e sofisticada ao lado do namorado.

O segundo dissabor veio numa viagem ao litoral. Numa pequena confusão na estrada, Edmund soltou um comentário racista a respeito de um motorista. Justine ficara um tanto chocada, ela era negra, vinda de família negra e jamais ouvira Edmund dizer algo como aquilo. Confrontado por seu comportamento, ele sorriu e disse não ter nada contra belas mulheres morenas.

Justine não soube exatamente como lidar com tal situação, mas decidiu por ignorar. Ele certamente deveria estar tirando uma com a sua cara. No entanto, comentários como aquele prosseguiram com mais frequência, tornando-se comum ao dia a dia. Edmundo se sentia cada vez mais a vontade para expor suas ideias e seu verdadeiro eu.

A grosseria se tornou um hábito vil. Edmund passou a ser rude nos momentos mais inesperados, implicava com pequenas coisas, ao ser contrariado explodia em gritos bruscos e, sempre que surgia a oportunidade, gostava de ressaltar alguma coisa que faltava em Justine, pendendo para a humilhação.

Aqueles comportamentos a machucam profundamente, partindo seu coração de forma irreparável. Aos poucos, a relação que pensava ser amistosa e saudável foi se tornando algo abusivo, humilhante e doloroso.

Mas por amar demais aquele homem, ela suportava e simplesmente ignorava suas atitudes vis.

Sua alma cheia de flores, cores e alegria foi minguando até virar um cinza triste… Até o dia em que foi finalmente reduzida a um tom opaco e sombrio.

Foi algo tão pequeno, tão insignificante, mas que desencadeou sentimentos extremos e a escuridão de uma alma inocente.

Edmund estava nervoso com algo da empresa na qual trabalhava, andava agitado pela sala e gesticulando de forma aborrecida enquanto falava ao telefone. Logo despachou ordens para que Justine preparasse sua pasta de documentos, nos últimos anos ela era quem deveria organizar tudo naquela casa, desde os documentos do namorado/marido até as roupas dele nos armários. Às vezes, ela se considerava uma mistura de empregada e mãe. Mulher ela era apenas nos momentos de luxúria ou quando ele saía com os amigos, exibindo-a como um troféu delgado.

Justine preparava alguns trabalhos finais de seu curso e se levantou para procurar os tais documentos que o marido lhe pedira, no entanto percebeu que os arquivos procurados não estavam na pasta. De certo ele guardara em outro lugar e não se lembrava…

Uma distração tão simples. Um equívoco tão insignificante.

Aquilo lhe rendeu um tapa no rosto com violência.

Edmund lhe acusou de ser desorganizada, relaxada e que precisava daqueles documentos com urgência. Caso ela não os achasse, ele lhe daria uma surra para aprender a não badernar suas coisas tão perfeitamente organizadas. Exceto, é claro, que de organizado aquele homem nada tinha. E a responsabilidade pela perda dos arquivos fora dele mesmo.

Justine sentiu a humilhação destroçar seu ser, a dor daquele tapa irradiou por sua alma e, naquele dia, ela morreu um pouco.

Por motivos desconhecidos, ela também ignorou esse episódio. Principalmente porque, cinco minutos depois do ocorrido, Edmund se dirigira a ela como se nada houvesse acontecido. E ela se convencera de que aquilo não fora nada, mesmo. O marido estava apenas estressado e ela deveria compreender a situação e confortá-lo no que precisasse.

Mas esse estresse nefasto não se limitou apenas aquele dia. Outros dias vieram, cruéis e impiedosos.

Edmund se tornara cada vez mais violento, racista e eficaz na tarefa de humilhar a esposa. Seus olhos tão amistosos em público se preenchiam de um brilho maligno e cruel toda vez que olhava para a mulher em sua casa, como se enxergasse nela alguém para descontar a raiva. Seu olhar dizia claramente que ela estava ali para lhe servir da forma como quisesse.

E a cada dia que passava, mais a alma de Justine minguava, mais ela percebia o significadopútrido daquele olhar maldoso que o homem lhe lançava. Suas atitudes diabólicas lhe provavam com frequência que ali estava um ser que não poderia ser amado, alguém que era incapaz de amar ou oferecer bons sentimentos.

Por que ela não ia embora? Por que simplesmente não apanhava suas coisas no meio da noite e fugia daquela vida abusiva e cheia de ódio, dedicando-se a vida digna que sempre desejou?

Isso é uma incógnita amarga.

Justine permaneceu, aturando, suportando e absorvendo toda a violência e sadismo que emanava do homem cruel, constantemente questionando sua sanidade quanto a isso. Ela permaneceu, mas sua alma se deteriorou, perdendo a inocência e abraçando um lado sombrio nada comum a sua essência benevolente.

Aquele foi o corromper sedoso de uma alma.

Justine se empenhou em provar a si mesma que era capaz de tudo o que o marido se esforçava para dizer que ela não era, embora não precisasse realmente provar isso a si mesma. Ela sempre soube de sua capacidade e inteligência. E, por mais que as críticas libidinosas povoassem o silencio daquela casa, ela não se permitia acreditar nelas como tantas pessoas faziam. Agarrou-se á faculdade, concluindo seu curso e ingressando em uma nova especialização. Arrumou um emprego melhor, dedicando-se afetuosamente ás crianças a quem ensinava, elas não tinham culpa das sombras em sua alma e mereciam afeto e profissionalismo. E, com esse novo emprego, surgiu a chance de um novo ciclo de conhecimento.

Fora convidada a cursar Psicologia numa universidade renomada na região e não pensou duas vezes antes de abraçar á oportunidade. Sob críticas, humilhações, migalhas de afeto e tapas constantes, Justine se dedicou ao seu novo curso. E enquanto se perdia em meio a teorias de famosos psicólogos, antropólogos e sociólogos, ela começou a entender a mente sádica do marido.

E o odiou um pouco mais ao constatar que aquela mente não era uma mente apenas perturbada por traumas da infância. A mente de Edmund tinha pequenos, mas existentes lapsos de crueldade patente. Ele não se comportava de forma agressiva como resultado de sua infância, mas sim porque dentro de seu cerne havia uma boa dose ácida de maldade.

Ela perdoaria uma mente perturbada.

Ela perdoaria alguém que se prontificasse a aceitar tratamento.

O que ela jamais perdoaria era uma mente sádica e desejosa de provocar sofrimento.

Justine propôs á Edmund que fosse se tratar, amenizar a violência contínua que o possuía como um espírito nefasto de pegajoso. No entanto, a reação do marido não poderia ter sido outra se não a violência. Ele gritou, humilhou e a estapeou, indignado com a audácia da mulher em lhe sugerir que tinha algum problema.

A violência gratuita daquele dia foi a prova conclusiva para Justine de que Edmund era um louco de mente perturbada, sádica e maldosa.

E a partir daquele dia ela começou a planejar meticulosamente sua vingança.

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A garoa irrompeu pelo céu nebuloso no instante em que ela apanhou seu diploma, lançando a todos os colegas e ao marido seu sorriso mais esplendoroso. Sua expressão serena se transformava quando os lábios se repuxavam em sorrisos como aquele, tornando-a ainda mais bela.

Aquele diploma era um triunfo a se conquistar. E o sorriso em seu rosto deixava transparecer sua real alegria e satisfação.

Ela permitiu aos colegas uma dança, deslizando com elegância pela pista do baile. Seu vestido de gala adornava o corpo com elegância, a cauda amarela farfalhando conforme bailava junto ao seu tão adorável marido. Era um casal elegante e feliz celebrando um momento próspero.

Além da conquista do diploma, Justine, por sua inteligência e dedicação, foi convidada a uma vaga altamente cobiçada como psicóloga forense. O trabalho era de grande prestígio e conferia um salário afortunado.

Sua vida seguia um rumo próspero e cheio de possibilidades saborosas. E ela soube apreciar cada momento.

Já passava da meia noite quando Edmund a convenceu de que seria uma boa ideia irem embora, haveria uma comemoração mais particular, ele lhe garantiu com um sorriso malicioso. Justine concordou com efusiva satisfação… Estava tão perto de finalizar aquele ciclo de sua vida. Era preciso acabar. Para dar início a um novo ciclo, a roda precisava girar. E ela estava ansiosa por aquela transformação.

A casa estava silenciosa quando chegaram, o aroma excêntrico de sândalo emanando pelos corredores mal iluminados. Justine se desfez do vestido, largando-o no chão de teca e caminhou com suavidade pela escuridão fria, seus olhos voltando-se para trás uma única vez, apenas para lançar ao marido um olhar malicioso.

Engraçado Edmund não a ter seguido pelos corredores. Mas muito bem comedido. Ela o queria ali mesmo, na sala, desfazendo-se de seu sapato elegante de couro enquanto ela vestia um robe de cetim vermelho no quarto.

Quando o tecido sedoso tocou sua pele delgada, Justine emitiu um suspiro.

Estava na hora.

Ela fitou o relógio em cima da cabeceira da cama e sorriu com satisfação.

Houve um baque e gritos vindos da sala.

Inabalável, ela se ergueu da penteadeira e caminhou a passos lentos até onde provinha o som grotesco de luta. Espiou pela fresta da porta entreaberta e viu Edmund se batendo, distribuindo socos irregulares em seus captores sombrios.

Eram três homens, meticulosamente escolhidos. Tentavam dominar seu marido com brusquidão, escapando dos socos com habilidade e rindo no processo. Justine os observou em silencio até que a luta cessasse.

Edmund fora facilmente dominado, imobilizado em seu piso elegante de teca, o rosto esmagado contra o assoalho enquanto um dos homens lhe torcia os braços para trás.

Oh, ele estava tão furioso. A raiva brilhando, perigosa, naqueles olhos cruéis. Era difícil para um homem como Edmund ser dominado daquele jeito. Ele era quem dominava, não o contrário. E ver-se sob mãos tão cruéis e ríspidas deu a ele um motivo para cultivar a violência que o assombrava nos dias mais frios.

Justine não poderia pensar numa palavra para expressar sua satisfação em ver aquele sádico dominado daquela forma. O sorriso cruel se apossou de seus lábios vermelhos, corrompendo a aparência doce.

Os homens na sala riam da luta constante de Edmund para se libertar.

Justine deu dois passos á frente, saindo das sombras com suavidade. Rodeou a mesa, sob o olhar perplexo do marido, e se serviu de uma taça de vinho com tranquilidade. O líquido tinto preencheu o cristal com elegância, emanando um aroma suave.

Ela balançou sua taça uma vez, inspirando o aroma delicioso. Seus olhos eram baixos enquanto caminhava até o divã bordô no canto da sala, e foi lá que se sentou, por entre as almofadas de veludo.

Seus olhos se ergueram com lentidão e pousaram no marido, dominado no chão. Ela sorriu.

Edmund se remexeu, a fúria o dominando por completo. Aquela expressão no rosto da mulher… Ele soltou injurias, as piores que seu vocabulário conhecia, e se debateu nas mãos dos homens que o continham.

– Sua vagabunda ordinária! O que pretende com isso? Quando eu me libertar vou arrancar sua pele!

Sem se deixar abalar por tais palavras proferidas e sem deixar o sorriso de satisfação se apagar em seu rosto jovem, Justine se recostou na poltrona e acenou uma vez, olhando diretamente nos olhos de um dos homens altos.

O rapaz careca sorriu com maleficência e se debruçou sobre o corpo contido de Edmund, apanhando um dos braços com brusquidão e o puxando violentamente para o lado contrário. Houve um estalo grotesco e logo os gritos de Edmund corromperam o silêncio da noite. De seus olhos furiosos escapou uma única lágrima.

O canto dos lábios de Justine se repuxou num quase sorriso.

Os homens gargalharam, dando urras.

O careca tomou o outro braço de Edmund, ouvindo os gritos precipitados, e com outro puxão brusco, partiu o osso com violência.

Mais gritos se fizeram ouvir pela casa. Uma mistura histérica de súplica, dor e ódio.

Justine levou a taça de cristal aos lábios, saboreando o doce sabor do vinho enquanto ouvia os lamentos do marido ecoarem pelo teto abobadado. E quando ele teve as duas pernas quebradas violentamente, ela finalmente começou a sentir o gosto da vingança adocicar sua língua.

Edmund não passava de um saco de ossos profanados, jogado ao chão. A dor se transformou num torpor frio e o ódio adormeceu, perdido nas brumas sombrias de sua consciência. Sua garganta se encontrava em brasa, ressequida de seus gritos. E seus olhos estavam úmidos das lágrimas que ele foi incapaz de conter. Ele fitava a mulher sentada á sua frente, os pés suaves a alguns centímetros de seu rosto. O tecido sedoso do roupão dela tocava seus cabelos com suavidade e lhe custava acreditar que aquela mulher assistira a tudo aquilo de forma tão impassível.

Em sua mente perturbada, ele não conseguia entender os motivos que a levaram àquilo.

– Eu vou fazê-lo compreender.

A um pequeno sinal, os homens se aproximaram novamente do corpo inutilizado. O careca, que parecia ser o líder, lançou um olhar incerto para a mulher.

– Destrua as vértebras dele. – Justine ordenou, inexpressível.

Mas Edmund não se deu conta do terror que acontecia, ao ouvir aquelas palavras, perdeu-se na inconsciência.

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Ele acordou dois dias depois, num hospital.

Instantaneamente se lembrou de tudo o que aconteceu e seus olhos varreram o quarto mal iluminado. A mulher odiosa estava ali, sentada elegantemente numa das poltronas macias. Seu olhar exibia aquele brilho satisfeito e a crueldade impregnada nele era de congelar a alma.

Ela se aproximou da cama com suavidade.

– Que bom que acordou, adorável marido. Ficamos preocupados com você. Não se preocupe, acionei a polícia e o trouxe diretamente ao hospital. O assalto em nossa casa foi de extrema violência. Agora todos sabem o quão corajoso e honrado você é, atirando-se destemidamente em cima dos bandidos para salvar sua esposa amada.

Justine fez um biquinho.

– As consequências para você foram lastimáveis, infelizmente. O ataque brutal daqueles homens o deixou tetraplégico, Edmund, meu querido. Você está preso á uma cadeira de rodas para sempre.

Edmund sentiu o terror invadir sua alma. Acreditava que a ausência de movimento das pernas se devia aos ossos fraturados, mas diante daquelas palavras se deu conta que não tinha qualquer sensibilidade abaixo do pescoço. Sequer os dedos podia movimentar sob o gesso.

– Sua puta selvag…

– Oh, eu entendo sua raiva. – Justine o interrompeu. – Sua mente está altamente perturbada. O psiquiatra informou que crises de histeria e confusão seriam comuns em casos assim. Mas não se preocupe, não deixarei que ninguém o incomode em sua recuperação. Reservei passagens para Amsterdã, um pequeno castelo somente para nós.

– Não pense que vai se safar dessa! Sei muito bem o que fez. Vou contatar a polícia…

Justine soltou uma pequena gargalhada, sensual.

– Edmund, meu querido. Nenhuma mente sã acredita nas perturbações de uma mente pútrida. Mas entendo o seu receio. Teme que eu o abandone por sua invalidez. Mas não deve se preocupar.

Ela se aproximou de seu rosto assustado.

– Eu cuidarei de você, meu amor, com a mesma devoção e cuidados com os quais cuidou de mim nesses últimos anos. Eu cuidarei de você para todo o sempre, retribuindo tudo o que fez por mim.

Uma risada maligna escapou de seus lábios tingidos de rubi, profanando a noite tão bela.

Aquela era sua vingança, planejada com tanto afinco, executada com satisfação e saboreada com impiedade. O corromper de sua alma selou o fim daquele ciclo, transformando-a numa criatura vil e poderosa.

E sua vingança… Ah, ela estava apenas começando a apreciar.

 

O homem é bom por natureza. É a sociedade que o corrompe.

(Rousseau)

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