Seven Sins – Gula

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Estamos caminhando entre vós…

Vivos entre vós…

Amaldiçoados sejam vós,

que se rendem aos nossos desejos

e morrem como meros vassalos…”

As correntes balançavam na altura da cabeleira alourada, enquanto os pulsos era afivelados em uma cinta de couro cru.

O corpo nu refletido nos espelhos ao redor, esboçavam os diversos tubos amarelados que desciam fincados nas veias azuladas de mãos, braços e pés, enquanto o liquido viscoso gotejava suavemente.

A frente de tal cena, se encontrava uma cadeira com o encosto virado para a vítima.Os olhos infantis assistiam a cena com curiosidade, balançando de um lado á outro, sucessivamente, os lacinhos cor – de – rosa que prendiam as marias – chiquinhas do cabelo negro.

O homem parecia um tanto tonto e começou a se mexer aos poucos, incomodado pela forte luz, apertou os olhos e ainda sem forças jogou a cabeça para trás.

Ela levantou a cabeça do encosto da cadeira eufórica e bateu palminhas.

O sapato vermelho de verniz estilo boneca contrastava com o vestido rosa de babados em renda e lhe conferia um ar de meiguice. Os olhos verdes brilhavam de satisfação, e os pés pareciam fazer menção de saltar a qualquer momento.

– Acalme – se! – disse a voz que saiu das sombras, esticando a mão pálida e esguia sobre os ombro da moça. Não havia rosto ou sombra do que estava ali naquele momento.

A moça aquietou – se e por um instante pareceu entrar em transe, o semblante antes infantil ganhara agora uma face sisuda e madura, ela voltou – se para a cadeira e virou – a de modo que a cadeira ficasse de frente para o homem. Sentou – se  e cruzou as pernas diante do homem  e das paredes espelhadas atrás dele

– On… Onde eu estou?- peguntou ele já constatando sua situação e se mexendo inquieto.

Duas vozes reverberaram no recinto em uníssono.

– Olá Arthur? Como foi a vida até aqui?

Um novo holofote se acendeu em direção aos espelhos fazendo com que o rapaz apertasse os olhos na esperança de fugir da claridade excessiva, enquanto o animal de pele fria deslizava sinuosamente até os pés do homem, entrelaçando – se neles.

– Quem são vocês? – perguntou ele espantado.

– Estamos aqui para assisti – lo, meu caro.

–  O que está acontecendo aqui? – perguntou ele – Me deixem sair daqui!

Ele gritou e a moça apenas sorriu com o canto da boca, os lábios vermelhos como carmim, entreabertos mostrava dentes perfeitamente brancos, ela suspirou de contentamento, se deliciando com mo terror que agora ele passava a sentir e demonstrar.

– Diga – me Arthur, á quanto tempo você sente sua fome?

– Não sei do que você está falando. – respondeu ele apreensivo.

– Vou reformular minha pergunta. Desde quando você rouba o hospital em que trabalha?

Ela levantou – se delicadamente de seu lugar e se dirigiu a uma pequena mesinha de que havia no recinto. Frascos e seringas se encontravam sobre ela com cores variadas, uma por uma etiquetada com o que pareciam ser fórmulas de antidepressivos, venenos e calmantes.

– Você sabe o que é isso descendo diretamente pra dentro de você?

Ele olhou por alguns minutos o liquido e se preocupou, aquilo não lhe parecia com nenhum remédio que ele já havia visto.

– Não se preocupe é apenas um cházinho, preparado especialmente pra você. Nos princípios ativos da Atropa belladonna.

– Veneno… – disse Arthur olhando com assombro para a moça agora.

– Olha. – disse ela virando – se para trás. – ele sabe do que estou falando.

Ela sorriu satisfeita, como quem ganhasse o melhor prêmio do ano.

–  Isso vai nos poupar o trabalho de explicar. Agora me diga
Arthur, qual é a sua fome?

O rapaz pareceu ficar estático por alguns instantes enquanto assistia o veneno descer por seu sangue e corroer suas veias de forma exacerbada, a dor dentro de si começava a se propagar em pequenos espasmos, como se pequenas agulhas o alfinetassem vez por outra.

O sangue começava a escorrer pelos furos causados pelos escalpes, o movimento de Arthur havia feito com que as veias começassem a estourar ou escapar dos lugares certos. A moça pegou o primeiro de muitos frascos e olhou meticulosamente para a agulha que agora atravessava o involucro.

– Prozac… Você sabia que remedinho é  quase inofensivo em doses controladas? Ele não cura a pessoa e nem a ansiedade, mas se você usar adequadamente você pode ter a melhor viagem da sua vida. Já vi pessoas esmagarem – no com pó e olha, a morte foi bem rápida, mas a diversão foi única. Você ficaria surpreso com o que as pessoas fazem pra  alimentar seus vícios…

– Quem é você? – perguntou ele com a face transmutada em dor, encolhendo – se sem sucesso, enquanto a cobra de cor amarela apertava agora, a altura do joelho.

– Sou o desejo do mundo. – disse ela aplicando nova seringa no soro que agora descia com mais rapidez. – Vamos analisar o que você está tomando.

Ela colocou o dedo no queixo como quem pensava no que estava fazendo.

 – Valeriana officinalis… Atropa beladona… Prozac… Fisiostigmina… Mas parece que está faltando algo.

O rapaz já estava com os olhos saltando das órbitas, a pele arroxeada estava suja pelo sangue que começava a secar e coagular pelos furos dos quais saiam. Ele sentia a boca seca e áspera como se um punhado de areia fosse enfiado em sua boca minuto a minuto. Os pulsos dormentes, cediam ferimentos as correntes que agora estavam manchadas de rubro. O animal continuava sua subida lentamente, apertando os membros inferiores com grande força.

Arthur sentia que logo eles se partiriam, seu corpo estava entregue a uma morte lenta e dolorosa. Ele se quer se lembrava o que ocorrerá ou que mal fizera para estar naquele lugar. As feições da moça não lhe eram se quer familiar.

E o sorriso macabro atrás dela, sem rosto, sem forma, sem voz…

– A sua hipocondria te fez roubar para alimentar seu vicio… Pessoas tem fome, Arthur. De formas invariáveis e para estes cá estou eu, disposta a dar a cada um de vocês mais um pedacinho, mais um copo… Que mal pode fazer não é mesmo? Afinal de contas não haveria necessidade não é? Nunca é suficiente… Mas você foi um achado. E que belo achado, a humanidade sempre me surpreende.

– Você fala como se sentisse prazer. – sussurrou ele quase sem voz.

– Não. Eu não falo como se sentisse prazer. Eu sou uma desbravadora. Olhe para si, a sua fome, o seu vicio eram os remédios, para uma cura que você nunca encontrava. Ou seria uma desculpa para sua…

– Gula… – ele respondeu rendido.

– Viu, meu querido Arthur, você finalmente se lembrou de mim…

A face diabólica pegou os últimos frascos e o olhou admirando o seu interior, furou a tampa com a ponta da agulha, passando assim para os próximos vidrinhos reluzentes à luz do holofote e o reflexo dos espelhos.

– Suas últimas palavras…

O rapaz já não tinha mais forças para suportar a dor, abriu a boca para dar um último grito, mas o sangue rubro saiu jorrando de sua boca.

– Pancurônio e Potássio, vai acabar com seu sofrimento, meu caro. Foi muito bom te conhecer…

Ela aplicou e sorrindo soltou uma a uma as correntes, os olhos abertos do rapaz tiveram por último vislumbre os sapatos de verniz vermelho, e a pele fria e amarela da cobra enrolando – se em seu pescoço, seus membros pararam de funcionar gradativamente e suas últimas lufadas de ar foram roubadas pelo sufocamento…

Arthur pagara por seu pecado…

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O silêncio nas sombras escureceu o sorriso antes visto e pra dentro das trevas ele revolveu.

Gula mostrou a sua fome sem se ater a carne e sem sorver o sangue.

Quem mais caminharia a favor desse desejo? Quem de nós não se rendeu a Gula pecaminosa de querer alimentar um pouco mais o seu pior vicio?

Eles caminham entre nós… Ele caminham entre nós…

CONTINUA…

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