Sansão

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Escrito por Naiane Nara

 

Esse som contínuo não vai parar até que eu enlouqueça?

Nunca para, trazendo maior suplício aos meus membros já doloridos. Quando beirando a exaustão caio no chão, eles voltam para me torturar mais um pouco.

Apanho com tantos tipos de arma, e enfiam os dedos nas minhas órbitas vazias com tanta frequência, que realmente não compreendo como ainda estou vivo.

Meus olhos, ou o que restou do lugar em que eles ficavam, sangram e ardem dia e noite, como se houvessem sido queimados. Meu coração ainda chora, a alma clamando por vingança.

Mas até isso me foi tirado, e por mãos que eu amava. Que sou hoje, senão um homem envelhecido precocemente, cego, que continuamente gira um moinho em seu cárcere?

Como poderia ter minha vingança?

Mesmo que eu a matasse com minhas próprias mãos – isso seria ridiculamente fácil naqueles tempos – jamais poderia esquecer.

O amor foi gravado em minha carne como flagelo e em minha alma como grito incessante. Não há nada nesse lugar com que eu possa me matar e enfim colocar fim a esse suplício.

Não temo a morte, mesmo tendo sido abandonado por Javé. Continuar a assombrar o bom nome de meu pai respirando tem sido uma vergonha tremenda. Não, não posso morrer, ainda não, preciso de uma ocasião – grande ou pequena, não importa – para me vingar dos meus inimigos e tentar salvar meu legado. Morrer assim apenas me desgraçaria mais quando fosse recebido pelas mãos graciosas da Morte.

Sempre quando a imagino vindo me buscar, tem as mesmas mãos daquela que amei…

A porta da cela se abrindo me faz recuar por instinto. Minha decadência é assim comprovada, já que esse simples som faz recuar o homem que matou um filhote de leão com as mãos nuas, aquele que matou mil homens com uma queixada de jumento.

O Héracles hebreu, era como me chamavam.

Sou arrastado para longe do moinho, e após ser derrubado e chutado repetidamente – cento e trinta e quatro vezes, eu contei, o tempo passa mais rápido se eu contar –  um deles me segura para que o outro possa enfiar os dedos por onde um dia enxerguei.

Com a dor e a ardência sendo multiplicadas milhares de vezes, com a voz ficando rouca de tanto gritar, o guarda gira a mão, fazendo com que eu me urine como uma criança.

Após isto, finalmente param e me jogam de volta ao moinho.

O sangue corre pelo meu rosto, posso sentir, quente e espesso. Sussurro ao meu Deus a prece de todos os dias, com o coração despedaçado: “Peço-te que se lembre de mim, e só dessa vez, fortalece-me para que me vingue dos filisteus, pelos meus dois olhos.”

E nada, como sempre, nenhum sinal, nenhuma voz, nenhuma resposta. Só o maldito som do moinho, a dor, e as lembranças…

*****

Ela não fora a primeira mulher que me quebrara o coração. Me encantei antes com uma das filhas dos filisteus. Eu não era importante (ainda), mas era jovem e forte, então o desejo do sangue fez com que pedisse ao meu pai para que procurasse a família daquela mulher, certamente eu não a desapontaria como esposo. Ele instou comigo para que escolhesse alguém entre as filhas de meus irmãos ou de nosso povo. Mas eu a queria,era imaturo o suficiente para estragar a minha vida por uma paixão inconsequente.

A caminho do primeiro dia das minhas bodas, um filhote de leão surgiu contra mim no deserto. Estava desesperado e faminto, longe da mãe, o pobre viu em mim uma presa fácil. Mas a minha força assombrosa – que me tornaria lenda e seria a causa da minha queda – fez com que eu o matasse apenas com as minhas mãos.

Dias depois, fazendo o mesmo caminho, vi que abelhas faziam mel no cadáver que eu havia deixado. Isso era considerado imundo pelo meu povo, mas não resisti a pegar alguns favos, comer e levar para meus pais e minha então esposa. Apesar de não haver dito a ninguém, sentia aquele mel como um trunfo secreto, saboroso a ponto de alucinar.

Acabei propondo um enigma antes que as festas das bodas terminassem, aos convidados:

“Do comedor saiu comida, do forte saiu doçura.”

O que eu estava pensando?

Minha esposa mudara. Se tornara chorosa e insistente, implorando para que lhe contasse a resposta. Eu tornava a dizer que não, mas ela chorava a ponto de partir meu coração e se tornara fria, distanciando-se de mim.

Busquei o conselho de minha mãe, que me disse que essa não era uma boa maneira de começar um casamento. Contei pois, a ela, esperando que a harmonia voltasse a reinar em nosso lar.

Seu sorriso foi de alívio sincero. Mesmo hoje ao relembrar, tenho certeza de que foi verdadeiro, mesmo que todo o resto não tenha sido.

No último dia de prazo, os convidados de minha festa de casamento, parentes de minha esposa – agora meus também – me deram a seguinte resposta:

“ Que coisa há mais doce que o mel? Que coisa há mais forte que o leão?”

Emudeci por completo, minhas feições se fechando em uma máscara congelada. Dirigi meu olhar imediatamente à ela, minha querida esposa, que se encolheu de medo.

Com razão, pois se permanecesse ali, certamente mataria a todos os presentes.

Saí, e desci a um vilarejo próximo, de ascalonitas, matando trinta homens e arrancando suas belas roupas de festa – o prêmio que eu estipulara para quem tivesse a resposta certa do enigma.

As entreguei sujas de sangue, para que servisse de aviso. E pelo mesmo motivo, voltei a casa de meu pai.

Depois de alguns dias, soube através de alguns companheiros que minha esposa havia sido forçada a me pedir o segredo. Jovem e assustadiça, ficou deveras impressionada com a ameaça de queimar seu pai e a ela, a casa e as lavouras.

Minha novilha estava com medo, ela não me traíra.

Peguei um cabrito, o maior e mais forte, para levar-lhe de presente. Agora minha vida de casado realmente iria começar, pensei. Protegê-la-ei de todos, minha formosa jóia, tão jovem e tão viçosa.

Mas quando cheguei a casa de meu sogro, fui recebido pressurosamente. Percebi que ninguém me olhava nos olhos e senti um aperto no coração, como se estivera as portas do Submundo.

E claro, estava a dois passos dele, sem saber.

Ele falava e falava, sorrindo de maneira sem graça, como um mercador apanhado fazendo uma armadilha para um cliente, mas eu ouvia apenas a sua voz, sem entender as palavras que proferia.

– Pensei que de todo a aborrecias pela traição que lhe fez, meu filho. Por isso a surrei até que a sangrasse e a dei a teu companheiro.

Silêncio, só a minha respiração profunda e pesada enchendo o ambiente. Ele chamara uma das servas, que voltou momentos depois, com uma moça muito mais jovem.

– Porém olhes isto. Não sei se te lembras, é irmã dela. Não é muito mais formosa? Tome-a, seu lugar. Tu és da família, e sempre será.

Só consegui murmurar por entre os lábios cerrados:

– Sou inocente dessa vez, pelo mal que causar aos filisteus. Lembra-te disso, velho.

Ao sair daquele lugar, dessa vez para sempre, promovi uma verdadeira chacina. Queimei lavouras e inutilizei colheitas, e quando vieram me procurar, minha força assombrosa fora suficiente para matar muitos. Era como se eu fosse o próprio Javé, com sua armadura de guerreiro… Nunca me cansava, nunca me rendia, jamais recuava, atacava de frente, uma verdadeira máquina de guerra.

O meu povo acolheu minha liderança. Já que não tínhamos reis e o último Juiz havia morrido, tomei seu lugar. Os anos aumentavam minha força, a medida em que meus logos cabelos cresciam ainda mais, devido ao voto de meus pais. Eu já descumprira um dos votos de nazireu do meu Deus, ao tomar aqueles favos de mel. Jamais tocaria em meus cabelos, mesmo meus pais tendo morrido a muito.

Os filisteus recuaram e perdiam o controle sobre nós. A vitória final – e a liberdade concreta – estavam a poucos passos de distância.

Se passaram vinte anos no total, e meu coração, cansado de prostitutas e cicatrizado completamente, se afeiçoou por uma mulher do vale do Soreque.

Seu nome era Dalila, uma beldade indescritível, e ao contrário das outras mulheres, inteligente e fascinante.

Ela havia nascido para ser só minha.

Os meses que passamos juntos foram doces e felizes. Jamais havia experimentado tamanha alegria no colo de uma mulher. Cheguei a pensar em casamento novamente, os meus filhos que Dalila teria não seriam bastardos.

Mas houve uma época em que ela ficou pensativa. A dúvida era clara em seu olhar, e eu não sabia o que fazer para reconquistar sua estima e trazer de volta seu sorriso. Sem ele, sem sua risada fascinante, era como se meus dias fossem sempre nublados e com uma melancolia interminável.

Isso precisava acabar.

– Oh querido, não é nada, não se preocupe.

Era o que ela dizia, mas por quê não mais sorria? Por quê deixara de cantar, por quê seu rosto não se iluminava mais quando eu chegava?

Mais dias assim e eu enlouqueceria. Instei para que ela me dissesse o que havia de errado.

Ela suspirou, e as mãozinhas se juntaram em forma de prece:

– Pensei que estava esperando um filho do meu amado. Mas estava enganada, e minhas regras vieram. – Seus lábios tremeram. – Talvez tenha sido melhor assim. Seria apenas mais um bastardo no mundo. Mas me alegrava que deixasses um pedaço teu quando partisses.

A abracei com cuidado e minha mão pousou em seu queixo:

– Mas minha querida, minha vida, quem disse que vou embora? Queres que nos casemos, é isso? Sabes que isso não prova que fico, meu amor por ti sim.

Ela baixou os olhos com tristeza infinita e levantou-os novamente, sustentando meu olhar com fraqueza:

– Mas tu me amas? Nunca demonstraste que me amas, nunca falaste de tua vida. Tudo que sei de ti é o que ouvi dos outros, da lenda viva que tu te tornaste.

Ela tinha razão. Nos próximos dias, contei os pormenores da minha história, e ela chorou a menção de meu casamento passado. Pediu com o olhar suplicante:

– Oh, pelos Deuses, pare. Nunca nos casaremos. Nosso amor é mais forte que isso, sempre será.

Ela deitou-se na grama e o Sol do entardecer tocou-lhe o rosto delicado.

– Como podes ser tão forte? És filho de um Deus, como aquele que chamam de Héracles?

– Não, meu Deus não se mistura com mortais. Um de seus guerreiros celestes procurou minha mãe. Ela não podia ter filhos e disse quem eu seria e o que ela deveria fazer.

Dalila bateu palmas e sorriu deslumbrantemente:

– És um predestinado?

Beijei sua boca tão doce levemente e meus dedos passearam pelo seu rosto.

– Tu e essa fé estranha!

Rimos juntos e ela franziu o cenho delicadamente:

– Se és forte pela natureza que te foste dada ao nascer, existe algo no mundo com que pudesses ser amarrado?

Sorri pela sua ingenuidade. Respondi baixinho, tirando suas vestes e beijando seu corpo:

– Se eu fosse amarrado com sete vergas de vimes frescos, mas frescos, sem estarem secos, eu perderia minha força e seria como qualquer homem.

As mãos dela no meu cabelo me trouxeram para seu beijo e dali, prisioneiro, não pude mais sair até que estivéssemos cansados e satisfeitos.

Dias depois, tive eu retornar a meu país, que demandava decisões importantes a serem tomadas. Logo não precisaria mais viajar tanto. Levaria minha Dalila comigo e estaríamos sempre juntos, mesmo quando sua beleza desvanecesse e sei que ainda assim a amaria.

Quando retornei, haviam feito uma emboscada na casa dela. Alguns servos mortos, e quando entrei em seus aposentos e a vi sendo puxada por outro homem com uma adaga apontada para o pescoço, perdi o controle.

Matei tudo que se mexia, com agilidade, apesar de não ser mais tão jovem. Outros homens – filisteus, pude notar pelas vestes – surgiram de fora e tentaram me amarrar enquanto lutávamos. Conseguiram dar uma volta em um dos meus pulsos, mas meu instinto assassino não parou até que restasse somente eu e Dalila respirando naquele lugar.

Corri até ela e a abracei, mas quando meus longos braços a envolveram, vi que o que estava no meu pulso eram sete vergas de vime frescas.

Um frio de gelo envolveu-me o coração.

Ela chorava convulsivamente e tremia, gritando para que eu fosse embora, que meu amor trazia desgraça e todo tipo de coisas. O medo de perdê-la de forma imediata não me deixou raciocinar.

Saí, me lavei e deixei servos de confiança a vigiando. Se houvesse algo errado, eu saberia em breve.

Passado algum tempo, ela enviou-me uma carta cheia de sentimento pedindo o meu retorno. Deixei meus afazeres em meu país imediatamente e fui recebido com amor inigualável e alegria. Nossos dias se encheram de luz e harmonia como antes.

Até um dos servos de confiança que eu havia deixado anteriormente informou-me que Dalila recebera um visitante estranho algumas vezes pela manhã. Aparentava ser alguém de alto status no palácio filisteu.

Ao ouvir isso, quebrei o copo de barro que estava em minha mão direita. Esperei que ela viesse a minha cama à noite, belíssima e cheirosa como sempre. A tomei com violência, sem carinho, sentindo prazer com sua dor. Percebi o medo nos seus olhos, mas não mudei, até que desabasse sobre ela.

Dalila se virou e saiu da cama, caindo no chão em seguida. Chorava copiosamente, repetindo de forma infindável “ tu não me amas, não me amas, não me amas…”

A segurei pelos ombros e encarei com franqueza:

– Quem é esse homem?

Ela respondeu com os lábios tremendo:

– Um enviado de minha família. Chegou até a Filístia a notícia de que sou tua concubina. Nunca mais estarei segura por tua causa. E quando o amor vence a razão e te convido de volta aos meus braços, tratas-me pior do que uma das prostitutas de que te serviste nesses vinte anos.

Estapeei-a imediatamente, dos dois lados de rosto:

– Nunca mais fale comigo nesse tom.

Suas bochechas se avermelharam na hora e me arrependi imediatamente, podia ter quebrado seu maxilar com minha força.

– Isso, me batas. Não sou nada para ti. Ainda assim, fico feliz por que mentiste para mim naquele dia. Se houvera dito a verdade, estaria morto agora, e prefiro que tal nunca aconteça. Use-me da maneira como quiser até se cansar de mim, mas fique vivo, pelos meus Deuses…

Cheguei a conclusão de que Dalila era louca, mas eu a amava e desejava como o ar que respirava. Precisava dela. Então fizemos as pazes de forma memorável e delicada.

Porém a qualquer gesto de desagrado, ela sempre dizia que eu não a amava, e chorava copiosamente. Aquilo estava fazendo com que uma impaciência se apoderasse da minha alma a ponto de matá-la, e eu temia isso, pois para mim seria muito fácil, era só perder o controle…

Em uma dessas ocasiões em que chorava, apenas disse:

– Cordas novas.

Ela olhou-me sem entender.

– O quê?

– Viu como te amo? Estou te contando, e a você, somente a você em todo mundo, o segredo da minha força. Se eu for amarrado com cordas novas, ela se vai embora e poderiam fazer o que quisessem comigo: afligir-me, torturar-me.

Ela abriu a boca espantada.

– Tendes certeza de que queres contar a mim, que não sou nada em tua vida?

– Pare, pare! Não torne nossos dias, antes tão belos, miseráveis como está fazendo. Eu a amo e vou protegê-la, se acalme.

Nos abraçamos e ela parou de chorar, como eu mandara. Ordenou música, cantou para mim e preparou uma refeição esplêndida. Estivemos juntos, meu corpo no dela, com intensidade e delícia. Dormi profundamente naquela noite, com o cheiro de Dalila invadindo as minhas narinas.

Acordei, horas mais tarde, com seus gritos de fora da câmara:

– Os filisteus vem sobre ti, Sansão!

Meus olhos se abriram rapidamente, estava amarrado com as mãos para trás. Arrebentei as cordas como se fossem sobras de algo queimado, e quebrei os corpos dos homens que ali estavam, a fim de tentar descobrir algo sobre quem os enviara. Mas os malditos morrera em silêncio.

Dalila veio pressurosa a cuidar de mim, chorando, soluçando, procurando machucados em meu corpo. Quando ela me abraçou, pude ver pelas suas costas o resto das cordas que arrebentei: eram cordas novas, como eu havia dito.

Retornei a Israel na manhã seguinte. Por meses, ela me escrevera cartas longas e apaixonadas, mas não respondi a nenhuma delas. A amava profundamente, mas não era tão tolo como poderia supor.

Será que eu conseguiria lidar com mais uma traição? Conseguiria sobreviver a mais um coração quebrado? Eu seria capaz de matá-la dessa vez. O que estou dizendo? Não suportaria a vida sem ela.

Estou caminhando para a morte? Se é verdade, como vejo, por quê não consigo parar?

É preciso que a vida seja um completo deserto sem nenhuma esperança de oásis para que alguém arrisque uma vida sem amor. Posso ter a mulher que quiser, mas é somente ela que amo.

Seu sorriso, sua maviosa voz, a maneira como me tocava, seus supiros, amava tudo nela, queria me casar com ela, queria que fosse a mãe dos meus filhos.

Dessa vez eu sabia claramente, tinha chance de escapar de mais uma desilusão.

Mas eu queria?

Se todos vamos morrer, por que não posso aproveitar o tempo que posso com Dalila?

Dessa vez a ameaçaram ou ela simplesmente se cansou de mim? Ou pior, foi-lhe oferecido ouro pela minha cabeça?

Se é assim por quê ela não me mata com suas próprias mãos? Tem-me da maneira mais vulnerável como uma mulher pode ter um homem. Por quê tudo isso?

Enquanto me torturava em minhas dúvidas, as cartas pararam de chegar. Não suportei as semanas seguintes de silêncio e me preparei para viajar.

*****

Quando cheguei, ela tentou ser fria, mas seus olhos brilharam. Fui recebido com muito carinho, como se houvera saído no dia anterior. Estive preparado para qualquer nova armadilha, mas decorreram meses até que ela tocasse no assunto “amor” novamente mas não da maneira com que eu esperava.

Ela havia pego as minhas mãos e colocado sobre seu ventre:

– Serei a mãe de teu bastardo. – Seus olhos estavam cheios de lágrimas. – Mas não importa, quando fores para sempre, terei uma parte tua comigo.

Eu não podia acreditar no que ela estava dizendo. Todos aqueles anos, nunca tive um filho, alguém para continuar o nome do meu pai quando eu já não estivesse nesse mundo.

– Amada minha, deixe-me beijar teu ventre fecundo.

Fizemos amor com intensidade, estava completamente entregue, até ouvir seu sussurro:

– Quem sabe agora confies em mim, já que nunca me amaste a ponto de contar teu segredo.

– Não seja tola.

– Tudo bem, tudo bem. Nosso filho saberá que o pai era uma lenda e nada mais.

– Não o faças assim, querida.

A expressão se tornou fechada e chorosa. A ignorei e me entreguei ao sono.

Nas próximas semanas, muitos choros escondidos, lamúrias pela casa, enjôos e vontades. Novamente a impaciência se apoderava de mim até um ponto onde não haveria volta, e contei, abrindo o coração para ela, o motivo da minha força:

– Sou nazireu de meu Deus, desde o ventre de minha mãe, e meu cabelo nunca foi cortado, em gratidão e obediência àquele voto. Se um dia meu cabelo fosse cortado perderia toda a minha força, e seria como um homem qualquer.

Nos demos as mãos. Ela sorriu alegre:

– Doeu confiar na mãe de teu filho?

– Como não podes perceber?

Fiz-lhe cócegas até que se contorcesse de rir. Dormi em seu colo, feliz como uma criança, sentindo seus dedos se entrançando no meu cabelo.

Acordei horas mais tarde, com um sussurro suave, ainda no colo dela:

– Os filisteus vem sobre ti, Sansão.

Abri os olhos, mas não com tanta agilidade. Sentia-me embriagado, com o corpo pesado, e a cabeça leve. Só então notei meus longos cabelos no chão, tentei me levantar para lutar, mas caí de joelhos.

Mais soldados entraram nos aposentos de Dalila. Me amarraram e antes de vazarem meus olhos, pude guardar na memória o olhar dela indecifrável, enquanto transportavam barras de prata para outro aposento, e seu meio sorriso.

Foi assim que me tornei esse trapo humano, por arriscar amar, e perdi tudo que me era mais precioso.

Agora estão me levando para zombarem de mim em uma importante festa, com toda a nobreza filistéia, o Rei, os príncipes e a causadora da minha queda, considerada salvadora dos filisteus por entregar seu pior inimigo.

As risadas queimam meu coração, invadindo minha mente e meus sentidos. O sangue seco em meu rosto me dá vontade de fazer o sangue deles todos escorrer. Se fosse nos velhos tempos…

Me largam apoiado em uma coluna enquanto atiram-me toda sorte de frutas podres. Ninguém, nem entre os escravos, está por perto para que eu ao menos me apoie. Encostei-me então à coluna e tateei até sentir outra mais próxima. Fiz novamente a minha prece de todos os dias:

“Peço-te que se lembre de mim, e só dessa vez, fortalece-me para que me vingue dos filisteus, pelos meus dois olhos.”

Senti a energia da guerra, do sangue e da astúcia. Soube que finalmente fui considerado digno e Javé me respondera. Me curvei para a frente e afastei as colunas…

Agora elas estão caindo, é chegada a hora. Vou morrer, e levarei todos eles comigo. Ela também…

*****

Fim 

Será?

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