Persecutore

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Persecutore

Escrito por: Lua Morgana

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O dia havia começado maravilhoso. Acordei bem cedo, tomei uma caneca de café gigante, pois hoje o dia seria longo. Era meu primeiro dia no novo estágio, no escritório de um professor muito inteligente e famoso com o qual tive o prazer de fazer parte de sua turma.

Meu nome é Lívia, sou estudante de direito, estou quase acabando a faculdade e preciso desse estágio para me qualificar e aprender a lidar com os clientes, juízes e etc. Seria maravilhoso para mim esta experiência, algo muito difícil de conseguir, porém, fui selecionada de primeira! Era inacreditável. Darei o meu melhor para me sair bem nessa nova fase da minha vida.

Fui a primeira a chegar no escritório, antes mesmo da secretária. Ela me olhou de cima a baixo, e, pelo meu entusiasmo aparente, ela logo notou que eu era estagiária. Apresentei-me a ela, percebi que ela era uma moça bacana, espero que me ajude quando eu precisar.

Passados uns 10 minutos, mais ou menos, o professor chegou. Cumprimentou eu e mais umas pessoas que já estavam no escritório, me chamou para a sala dele para passar alguns primeiros trabalhos. Conversamos, ele me auxiliou em algumas dúvidas que eu tinha, me deu uma enorme papelada de um caso para ler… Nunca fiquei tão empolgada com tanto papel! Era meu primeiro caso e eu teria que ter uma boa performance.

Fui para casa depois do expediente, botei os papéis na minha mesa de estudos e comecei a ler… Passaram-se algumas horas e acabei cochilando em cima da pilha, sem nem perceber. Acordei com o barulho da campainha. Levantei as pressas, olhei para ver se não tinha babado sobre os papéis, e estava tudo certo, graças a deus! Levantei e fui correndo para a porta, olhei pelo olho mágico e era um entregador com um buquê de rosas brancas nas mãos (só pode ser engano – pensei), sou do tipo de garota que só pensa em estudar e não tenho tempo para namoricos, meu futuro em primeiro lugar, depois penso em relacionamento. Então não faz o menor sentido eu receber rosas, se nem um paquera tenho… enfim, abri a porta curiosa, para saber quem era o louco que havia me mandado aquilo.

Cumprimentei o entregador e ele me entregou o buquê, assinei o papel e ele foi embora. Entrei, sentei na mesa e fiquei encarando aquelas rosas bobas. Depois de um tempo, percebi que tinha um bilhete. Corri e peguei para ler, estava curiosa demais, nunca havia recebido flores. Abri o bilhete, li e fiquei branca feito fantasma. Era do meu professor! Ele mandou as rosas me parabenizando pelo meu primeiro dia de trabalho e dizendo que eu era muito inteligente, o que era admirável. Fiquei feliz com os elogios e reconhecimento, logo no meu primeiro dia! Coloquei as rosas em um jarro de vidro que eu tinha, botei no centro da mesa de jantar, era maravilhoso receber flores, ainda mais sendo de uma pessoa que eu admirava! Isso me deu até ânimo para ler o caso.

Sentei-me em minha cadeira, estudei o caso e preparei a defesa. Parecia causa ganha, estava fácil demais! Para um primeiro caso, estava ótimo. Depois de tudo, ajeitei todas as coisas e fui dormir, feliz.

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Amanheceu, tomei meu banho e em seguida tomei um café reforçado, não queria passar mal diante de um juíz. O dia seria longo e inesquecível, espero que ganhemos o caso.

Fui correndo para o escritório, cheguei antes de todos como sempre, segundo a secretária, todos os estagiários costumavam fazer isso para impressionar o professor. Chegava ser engraçado. Assim que o professor chegou, mostrei a defesa que preparei a ele, para minha surpresa, ele concordou comigo e disse que eu teria que apresentá-la no tribunal esta tarde. Eu seria advogada principal! Nossa, eu gelei naquele momento, senti borboletas no meu estômago. Era tudo o que eu mais queria naquele momento, porém, não poderia demonstrar nervosismo ou qualquer outro tipo de reação negativa, para que nada desse errado nesse caso e muito menos no meu possível começo de carreira.

Passaram-se algumas horas e finalmente estava no momento de irmos para o tribunal, peguei minha pasta, ajeitei minhas roupas e fomos correndo para lá. O professor levou-nos em seu carro (e que carro!) e chegamos lá rapidinho. A audiência correu perfeita, o juiz deu o veredicto no mesmo dia, e nos ganhamos a causa! Era meu primeiro caso e havíamos ganhados! Meu sorriso transparecia minha felicidade naquele momento, era tudo o que precisava, era meu sonho se tornando realidade. Nada poderia arrancar meu sorriso, minha felicidade e satisfação.

O professor deu a ideia de o pessoal do escritório sair para jantar num restaurante chique, tudo por conta dele. Afinal, era sexta-feira, ganhamos um caso grande hoje, precisávamos de uma noite divertida – ainda por cima era por conta dele, em um restaurante top de linha, ficamos empolgados.

A noite foi perfeita, jantamos, nos divertimos demais, consegui fazer alguns amigos, eu não era de fazer amigos normalmente, mantinha alguns poucos, sou um pouco tímida para isso. Mas com o pessoal do escritório foi fácil, eles gostavam da mesma coisa que eu e tinham o mesmo objetivo.

Peguei um táxi e fui para casa, assim que subi para o meu andar, vi flores deixadas na minha porta. Eram rosas vermelhas. Peguei-as e levei para dentro. Tinha um bilhete, era novamente do professor. Ele tinha escrito no bilhete que era um presente pelo meu primeiro (de muitos) casos ganhos e que me admirava muito. Eu gostava dessa atenção toda, de uma pessoa que eu queria ser no futuro. Não estranhei muito. Coloquei no mesmo lugar onde estavam as rosas brancas e fui dormir, eram só flores, pensei.

Não seria nada estranho se fossem só dois dias recebendo flores, pelo motivo de chegada e primeiro caso ganho, achei que ele agisse assim com todas as pessoas do escritório. Até que comecei a receber todo tipo de presente, praticamente todo dia. Eram flores, bombons, até um colar de ouro recebi. Nos bilhetes sempre tinham elogios para mim, como “você estava bonita hoje”, “obrigado por ser gentil”, qualquer motivo eu ganhava presentes. Qualquer pessoa acharia legal ganhar presentes assim, mas eu comecei a ficar desconfiada. Ele era casado, mas parecia que estava me cantando, ou algo do tipo. Eu queria saber as intenções dele com todos aqueles presentes, porém, tinha medo de perguntar e parecer ofensiva, e perder aquela oportunidade única, que daria um UP na minha carreira. Comecei a ficar assustada e confusa, não sabia o que fazer com aquela situação.

Ele me mandava mensagens todos os dias com frases motivadoras, me mandava boa noite e bom dia. Parecia que ele sabia a hora exata que eu acordava, porque assim que eu levantava da cama e olhava o celular, lá estava ele, me mandando flores virtuais e um bom dia. Parecia que ele sabia o momento exato que eu chegava em casa e me mandava mensagem dizendo “boa noite, te espero amanhã, se cuida”. Comecei a desconfiar que ele estava me seguindo ou havia colocado câmeras em minha casa.

Cada dia que passava, eu ficava mais paranoica com isso, comecei a procurar em todos os presentes que ele me mandava, algum vestígio de câmera ou sei lá o que. Nem eu sabia mais o que estava procurando. Ele era tão doce nas mensagens e com os bilhetes! Mas eu me sentia invadida, em todos os lugares parecia que eu não estava só. Parecia que os olhos dele pairavam sobre mim até na hora do meu banho. Sonhava com ele todas as noites, todos os tipos de sonhos, que ele me matava, me perseguia, me estuprava.

Eu não tinha amigos confiáveis o suficiente para me abrir sobre essa loucura que estava vivendo. Meus pais eram idosos e eu não queria preocupá-los com algo assim. Eu não aguentava mais esses presentes que recebia, essas mensagens, esses elogios. Ele me perseguia. Mesmo quando eu não ia ao escritório, aos fins de semana, por exemplo, ele sabia a hora que saia ou chegava em casa. Ele falava algo do tipo “vá com deus, cuidado” “se cuida”, “boa noite, espero que tenha chegado segura”… O que ele estava pensando? Que só por que era meu professor/patrão podia tomar conta da minha vida assim? Me perseguir? Tomei uma decisão, no dia seguinte, eu iria confrontá-lo. Eu queria saber o que ele queria de mim e pedir para parar, pois não queria mais me sentir sufocada.

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Mal dormi a noite esperando aquele dia chegar, eu finalmente saberia o que aquele senhor queria comigo. Passaram-se meses depois que ele começou a me perseguir, eu não aguentava mais. Estava atormentada, parecia que estava sob efeito de alguma droga o tempo inteiro, não me sentia disposta para nada, era horrível. Eu precisava pôr um final naquele inferno, mesmo que custasse meu estágio, já estava saturada. Cheguei bem cedo, quase uma hora antes de todo mundo, estranhamente o meu perseguidor chegou atrasado (ele nunca chegava atrasado), parecia que ele sabia o que eu queria conversar aquele dia, pois assim que ele chegou, logo me chamou para sua sala. Fui com toda confiança, ia conseguir pôr um fim naquela bagunça. Ele fez menção para que eu sentasse, sentei e o encarei, logo indaguei:

O que o senhor quer de mim? Eu não aguento mais toda essa pressão! – Falei, firme. Apesar de desabar por dentro.

Estou apenas sendo cortês com você. Por que você acha que quero te fazer mal? – Ele me olhou curioso.

Sendo cortês? Você me manda mensagem dia e noite, sabe os horários que saio ou chego, me manda presentes quase todo santo dia! Como se eu fosse alguma coisa sua, eu não sou! Sou apenas uma estagiária em busca de um sonho. Eu quero que você me trate apenas como sua estagiária, não como namorada ou algo do tipo. Me deixa em paz! – Desabafei.

Nossa, isso é realmente novo pra mim. Geralmente as mulheres do seu tipo gostam desse tipo de atenção e presentes. Ainda mais vindo de uma pessoa como eu. – Ele desdenhou o tempo inteiro de mim enquanto falava.

Como assim mulher do meu tipo? Não quero nada de você não. Quero é distância. Peço demissão agora mesmo, não quero mais saber de homem do SEU tipo. E se continuar a me enviar presentes ou mensagens, vou te denunciar para a polícia e vou te processar por perseguição. – Falei, estava tremendo, mas falei.

Ele soltou uma risada alta, que me estremeceu.

– Você acha mesmo que uma pessoa do MEU tipo, com a minha reputação, será presa ou sofrerá algum tipo de punição por causa de um testemunho de uma estudante louca? Você acha mesmo que minha palavra contra a sua, você ganha alguma coisa? Olha quem sou eu e quem é você. Sou um homem rico, bem-sucedido, melhor advogado criminal do Estado, com boa reputação, casado e pai de 3 lindos filhos… Olha pra você – ele apontou para mim com desdém – uma estudante de direito, sem emprego, morando de aluguel, com pais velhos e aposentados, ridiculamente pobre, e quer tentar me amedrontar com processo e polícia? Se enxerga, sua vagabunda. – Ele mudou o tom de voz, falava baixo, porém a voz era dura e me causava medo, ele nunca havia falado assim antes – Antes que você pense em me destruir, eu destruo isso o que você chama de vida e ninguém encontrará seu corpo.

Naquele momento, eu realmente temi pela minha vida, como nunca havia temido antes. Ele me ameaçou e eu nada poderia fazer. O que eu faria contra um homem assim? Como ele disse, eu sou apenas uma estudante de direito e agora desempregada, sem ânimo para estudar e com medo. Sinto que minha vida está refém de um desconhecido, narcisista e que se acha um deus.

Pensei que depois daquela conversa, encontraria alguma paz para recomeçar, mas meu pesadelo só aumentou e agora a ameaça era real. Ele me mandava mensagens me ameaçando, me xingando de tudo quanto é nome, me mandava bilhetes dizendo coisas horríveis, jogava pedras na minha janela de madrugada (pagava alguém para isso). Eu não aguentava mais aquele inferno! Eu precisava pôr um fim naquilo, minha vida estava de cabeça para baixo, vivia com medo e chorando pelos cantos, em todos os lugares ele dava sinal de que estava ali, me observando, me seguindo, querendo me matar.

Não ia dar esse gostinho de vitória para ele, cheguei num ponto onde não estava aguentando mais, era ele ou minha liberdade. Peguei meu carro, fui a um morro que tinha perto da minha casa, subi no ponto mais alto, senti o vento tocar minha face e pulei de encontro com minha liberdade. Enfim, eu estava livre daquele inferno, meu corpo físico havia morrido, mas minha mente estava liberta para todo sempre.

“My wounds cry for the grave

My soul cries for deliverance

Will I be denied christ

Tourniquet

My suicide”

(Tourniquet – Evanescence)

theend

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