In The Depths of her Soul (Pt. 7) – Minguante [+16]

Por: Natasha Morgan

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Hugh morava num apartamento no centro, a duas quadras do bar de Erin, e foi lá que eles acabaram depois do expediente.

O edifício era um tanto desleixado, a faixada precisava urgentemente de uma pintura e as paredes que davam acesso às escadas estavam pixadas. O elevador não funcionava então o único acesso era o lance de escadas largas e manchadas. Era o tipo de prédio que jovens solteiros escolhiam para viver, como uma república de faculdade.

Rachel procurou não se deixar impressionar. Afinal, já morara em uma república cheia de jovens relaxados e baderneiros. O cheiro de cerveja velha e comida azeda eram predominantes nos corredores, assim como vozes e risadas vindas dos outros apartamentos. Alguém fritava batatas e em outro andar uma criança chorava.

Hugh parou no quarto andar e indicou para que eles adentrassem o corredor estreito. Quando abriu a porta de seu apartamento revelou um show de cores que fez Rachel descontruir qualquer preconceito contra o colega.

A cozinha era o primeiro cômodo visível, os azulejos alaranjados. Um balcão americano separava a sala com suas paredes roxas e os puffs verdes organizados delicadamente um ao lado do outro. Havia um corredor ao fundo, de cores neutras, que levava a suíte. Tudo graciosamente decorado com muitas cores e purpurina.

Erin a arrastou para um dos banquinhos que ladeavam o balcão americano enquanto Hugh se despia do casaco colorido e se lançava a promessas de bebidas deliciosas. Moon se jogou em um dos puffs, bastante a vontade, enquanto fuxicava nos CDs do amigo.

Rachel observava a decoração com entusiasmo.

– Apreciando? – Hugh sorriu, enquanto separava algumas garrafas na cozinha.

– Sua casa é linda. Tão cheia de cores.

– Cores são fundamentais. Fico feliz que tenha gostado.

A garota sorriu, aceitando a taça de vinho que Erin ofereceu.

– Vamos continuar no vinho até que o barman aí ajeite nossas bebidas.

Elas sorriram e brindaram.

Há muito tempo Rachel não se sentia tão à vontade no meio de pessoas então procurou abraçar aquela sensação gostosa e o divertimento que vinha com ela. Ela também sabia que aquela onda anestesiante que se apossava de seu corpo junto com o sorriso lento no canto dos lábios tinha a ver com o vinho. E a possibilidade de estar ficando bêbada depois de tantos anos fez aquela alegria crescer dentro dela.

– Você está feliz. – Hugh disse, observando-a enquanto jogava gelo num liquidificador transparente.

Ele e Erin estavam rindo de alguma coisa.

– E meio bêbada. – ele acrescentou.

– Verdades incontestáveis. – Rachel sorriu, bebericando o vinho.

Eles riram.

– Sabe o que está faltando? Uma música alegre para mexer o esqueleto! – Hugh correu para a sala, atravessando a cortina de miçangas colorida pendurada onde seria a porta da cozinha.

Ele ligou o rádio e quando o som alegre de ABBA preencheu a sala o ambiente imediatamente se tornou ainda mais agradável.

– Ui, eu amo essa música! – Hugh deu uma rodopiada graciosa.

– Dancing Queen! – Rachel pulou do banquinho.

Hugh puxou-a pela mão e eles bailaram no ritmo da música, rindo e acompanhando a letra desafinadamente. Erin os acompanhou na palma, rindo enquanto Moon observava em seu silencio.

Rachel acompanhou os passos inventados de seu colega e eles realmente brilharam em seu pequeno show. Hugh sorria para ela com sinceridade e parecia compartilhar a alegria. Se ela pudesse descrevê-lo em poucas palavras diria que ele era como o sol: luminoso, alegre e cheio de energia.

Ela se sentiu a vontade com ele e se permitiu abraçar a alegria reprimida por tanto tempo. Por um momento quase chorou ao se lembrar de como era sentir aquela alegria, o som de uma de suas musicas favoritas a fez se lembrar de uma época perdida de felicidade. Mas ela apertou os olhos com força e prometeu esquecer, só por aquela noite, de qualquer passado, tristeza ou problemas.

Quando a musica acabou, ela estava ofegante e corada.

Hugh sorriu para ela.

– Veja só você. Corada e sorridente! Se eu não amasse os corpos masculinos diria que está deliciosa.

Rachel corou ainda mais e voltou para seu banquinho, apanhando a taça de vinho pela metade.

Outra musica começou e ela se balançou no ritmo das batidas.

Hugh assumiu seu posto na cozinha e ligou o liquidificador, batendo todos os ingredientes misteriosos. Ele despejou o conteúdo levemente leitoso em taças especiais com as bordas cobertas de açúcar. E como toque final acrescentou uma folhinha de hortelã em cada taça.

Ele bateu palmas, apreciando sua obra de arte.

Deu a volta com as taças na mão, rebolando ao passar pela cortina de miçangas e ofereceu uma taça para Rachel.

– Beba e prepare-se para uma explosão de sabores e verdadeira alegria.

Erin revirou os olhos e apanhou a outra taça, bebericando o líquido saboroso.

Rachel a imitou, apreciando verdadeiramente.

– A última vez que tomei margarita foi na faculdade. Eu tomei um porre. – ela riu.

– A minha é especial. – Hugh piscou, voltando para a cozinha.

Ele retornou com mais uma taça. E uma garrafa de tequila.

– Essa, querida, é só para você. – ele balançou a garrafa para Moon.

– Venha. – Rachel a chamou. – Junte-se a nós, Forasteira.

Moon esboçou um sorriso e se serviu de uma dose. Quando virou o copinho médio, fechou os olhos apreciando o sabor ardente. O silencio da fera levemente adormecida dentro de si era um alívio. Ela sorriu.

– Como se sente? – Hugh a encarava com expectativa.

– Maravilhosamente bem.

Erin sorriu discretamente.

– Sei bem o que quer dizer. – Hugh concordou, rodopiando animadamente pela sala.

– Às vezes, uma bebida boa é o que basta para que o estresse e os problemas fiquem para trás. – Rachel disse com um sorriso bobo no rosto.

– Você bebe? – Moon perguntou, balançando a garrafa em sua direção.

– Oh, não. A tequila e eu somos inimigas de longa data.

– Que pena. Reza a lenda que só os fortes aguentam a força dessa belezinha.

– Está me chamando de franguinha?

– Nem em um milhão de anos eu acharia que é uma franguinha.

Algo no rosto de Moon soou malicioso.

Rachel tomou a garrafa das mãos dela e serviu uma dose no copinho decorado.

Amaldiçoando baixinho, ela virou de uma fez. E quase engasgou no processo.

Moon riu e Rachel achou aquele sorriso encantador e cheio de mistérios insondáveis. Elas se encararam por um momento. Havia uma discreta aprovação naquele olhar cinzento. Erin apareceu, enlaçando Rachel pela cintura e puxando-a para o meio da sala onde Hugh bailava de olhos fechados, entretido no ritmo da música.

Rachel conhecia a música, mais uma de suas favoritas, e se permitiu fechar os olhos e dançar junto com os colegas enquanto bebericava sua bebida deliciosa. E conforme bailava ao lado de pessoas tão alegres e divertidas, ela se permitiu se perder no tempo.

Moon a observava de longe, apreciando a companhia da garrafa de tequila. Seus olhos penetrantes e atentos não perdiam um só detalhe, desde os cabelos acobreados balançando suavemente conforme a garota dançava até as bochechas coradas. Ainda bem que sua fera estava quase totalmente adormecida ou ela a teria achado deliciosa.

De repente Rachel abriu os olhos e encontrou os dela observando-a. Ela sorriu, um tanto envergonhada em ser flagrada enquanto dançava tão livremente e suas bochechas coraram um pouco mais, deixando-a ainda mais linda. Hugh a puxou, fazendo-a rodopiar duas vezes antes de soltá-la e voltar-se novamente para Erin.

Rachel sorriu, lançando um olhar furtivo para sua observadora. Afastou-se dos colegas dançantes e se jogou em um dos puffs ao lado de Moon.

Seus olhos se encontraram silenciosamente.

– Você é sempre tão séria? – Rachel perguntou.

– Nem sempre. E você, é sempre tão alegre?

– Nem sempre.

Moon esboçou um princípio de sorriso.

– A lua lá no céu atingiu sua fase de declínio. Ela mingua agora, fraca e suave. – ela se espreguiçou confortavelmente. – Então não há motivos para seriedade, não é mesmo?

– Qual é o lance de vocês com a lua? – os olhos de Rachel repassaram para Hugh e Erin que dançavam completamente à vontade na sala.

– Os antigos acreditavam que a lua tinha uma influencia absoluta nas pessoas. – o olhar de Moon estava com aquele brilho misterioso que a deixava ainda mais bonita.

– Isso soa muito pagão. – Rachel sorriu para ela. – E se for para comemorar as fases da lua, não deveriam ficar mais felizes com a lua cheia? Ela é a mais adorada e esperada pelos antigos, repleta de seu poder selvagem.

Moon a observou com atenção.

– Você parece ter bastante conhecimento sobre.

– Meus pais eram hippies.

Moon riu.

– Posso imaginar você crescendo numa perua colorida, viajando pelo mundo em vestidos longos e coloridos. Talvez alguns dreads no cabelo e colares de conchas adornando o pescoço.

– Não havia uma perua. Na verdade, costumávamos nos reunir na casa dos vizinhos e dançar ao redor de uma fogueira nas noites de lua cheia.

– Parece divertido.

– Costumava ser.

– E você veio para cá para fugir de tudo isso? Não sente saudades?

– O tempo todo. – os olhos de Rachel se encheram de tristeza, mas ela soube disfarçar.

– Também sinto saudades de meus pais.

– Onde eles estão?

– Mortos.

– Sinto muito. – Rachel baixou a cabeça.

– Faz muito tempo. A dor é quase um fantasma.

– Eu também perdi alguém importante.

Moon voltou os olhos para ela.

– O rapaz que pensou ter visto na floresta?

– Como sabe disso?

– Sinto muito, não quis ser intrometida. Ouvi sua conversa com o Xerife.

– Algumas perdas se tornam fantasmas. Outras permanecem bem vivas dentro de nós. – a voz dela se tornou um sussurro triste.

– Quem era ele?

Rachel fitou Moon com intensidade.

Mas Hugh as interrompeu. Ele puxou Rachel pela mão, obrigando-a a se levantar e dar uma rodopiada.

– Nada de tristeza! – disse ele, envolvendo-a com o ritmo da música. – Hoje é dia de comemorar, lembra?

E então ele a levou, para longe de Moon novamente.

Rachel saiu rodopiando pela sala ao lado do colega e se jogou mais uma vez ao som de uma canção animada ao lado de seus novos colegas não pagãos.

Hugh incorporava muito bem o estereótipo gay, seu modo de se vestir era excêntrico: cheio de cores e brilho. E sua alegria era contagiante. Impossível ficar perto dele sem sorrir e abraçar aquela alegria calorosa.

Rachel nunca se sentiu tão a vontade desde a época de sua infância ao lado dos amigos hippies de seus pais. Há tanto tempo que não se divertia daquele jeito que, quando se sentiu alegre novamente, desejou que aquela noite fosse eterna.

E então aquela música preencheu o ambiente. Sua música favorita, a que mais amava e lembrava um passado de harmonia e felicidade. Ela se viu abraçada a Hugh, balançando-se nas batidas suaves e cantando a plenos pulmões a letra tão conhecida e adorada.

Erin embalou na brincadeira, divertindo-se com eles enquanto Moon os observava, distante, com certo fascínio.

Três coisas aconteceram quando a música acabou: Rachel soltou uma risada de pura alegria, a porta se abriu com rudez e o som de palmas preencheu o ambiente, contaminando a alegria com deboche.

Eles se viraram na direção do intruso com as expressões confusas.

Erin enrijeceu, Moon suspirou e Hugh fechou a cara numa carranca.

Rachel espiou o estranho visitante com curiosidade. Ele se vestida de preto, calçava botas pesadas e tinha no rosto bonito um sorriso maliciosamente cruel. Seus cabelos eram escuros e propositalmente desajeitados, o cavanhaque perfeitamente desenhado e os olhos eram profundos. Em seu nariz longo havia uma pequena e grotesca cicatriz, como se alguém houvesse arrancado um naco de sua carne. Ela estava levemente rosada – o que significava que era recente.

O estranho deu alguns passos a diante, examinando o grupo no meio da sala com o olhar perspicaz. Quando o peso abrasador de seus olhos recaiu sobre Rachel, ela sentiu um pinicar estranho em sua nuca.

– Companhia interessante. – disse o estranho. – E eu que pensava que não poderia se afundar mais.

– O que quer aqui, Vex? – Hugh rosnou.

– Estou de passagem. – ele deu mais alguns passos. – Estava resolvendo alguns dissabores para Ragnar. – ele limpou os dentes coma língua numa clara provocação. – E pensei em lhe fazer uma visita uma vez que anda tão afastado dos seus. Qual não foi minha surpresa vê-lo em companhia tão… – seus olhos se focaram em Erin e Rachel – Deliciosamente patéticas.

Rachel ergueu as sobrancelhas.

– Mas já era de se esperar, não é mesmo? Você é incrivelmente ligado a essa gente.

– Cale a maldita boca, Vex! – Hugh parecia a beira da fúria.

Vex riu, divertindo-se imensamente.

– Cuidado, Hugh. Você parece nervoso. Não queremos nenhum incidente, não é mesmo? – a risada dele era inacreditavelmente linda.

Moon se moveu até eles e pousou a mão no ombro do colega, voltando os olhos frios para o outro.

– Vá embora, Vex, não é bem vindo aqui.

– Engraçado. Antigamente eu costumava ser muito bem vindo.

– Isso foi antes de você se tornar tão babaca. – Hugh praticamente cuspiu.

– Você quer dizer antes de você resolver se misturar a essa gente.

– Essa gente que já fez tanto por você. – Erin disse num aparte silencioso.

Os olhos do estranho se voltaram para ela em fúria.

– Eu mandei você dar o fora! – Hugh empurrou o estranho pelos ombros.

Vex voltou os olhos para ele, intensos.

– Vai me expulsar? Tem certeza disso? – ele abriu um sorriso. – Eu só queria apreciar a diversão. Estão comemorando o minguar da lua? – seus olhos varreram as garrafas de bebidas e as taças cheias.

– Veio se juntar a comemoração? – Moon foi sarcástica.

– Para alguns de nós a lua nunca foi um problema.

– Para alguns de nós sorrir e se divertir também não. – Hugh cruzou os braços.

– Eu não vim arrumar confusão. Vim como mensageiro. – seus olhos assumiram um brilho sombrio. – Ragnar mandou avisar que sua paciência se esgotou. Um peão foi derrubado. Se o outro quiser se manter de pé é bom parar de pisar em linhas tortas.

– Diga a Ragnar para ele mesmo vir dar seus recados. – Moon parecia aborrecida.

– Ele faria isso se não estivesse tão ocupado lidando com visitas inesperadas.

Moon entendeu o recado nos olhos dele, assim como Hugh.

– Retire-se, por favor. – disse o dono da casa.

Vex pareceu contrariado.

– Quando quiser se divertir de verdade sabe onde me achar.

Hugh virou a cara, cruzando os braços.

Vex lançou mais um daqueles seus sorrisos ordinários, olhou uma última vez para as duas garotas no centro da sala e saiu, batendo a porta atrás de si.

Quando o silencio voltou a reinar, Rachel soltou o ar que prendia.

– Uau! O que foi isso?

Erin desabou num dos puffs, soltando um palavrão. Moon permaneceu em silêncio enquanto Hugh se acalmava, esvaziando sua taça de margarita num só gole.

– Sinto muito por isso. – desculpou-se ele.

– Ex-namorado? – Rachel perguntou.

– Alguém de quem não consigo me livrar. – Hugh suspirou.

– Lindo e ordinário.

– Vex é um total imbecil. – Erin disse. –Já cansei de falar que você merece alguém melhor.

– Por favor, não me diga que você é desses que basta estalar os dedos e já corre para ele!

– Minha relação com Vex é… Complicada.

– Se com complicado você quer dizer que ele é sempre assim detestável, por favor, desapegue. Relacionamentos abusivos não são nem um pouco saudáveis. E com toda essa alegria eu duvido muito que você vá ser feliz com alguém carrancudo como aquele cara.

Erin riu.

– Já disse o quanto gosto de você, Rachel Bones?

Rachel sorriu para ela.

– Não vamos deixar que isso atrapalhe a nossa festa! – Hugh respirou fundo e abriu um sorriso. – A comemoração está longe de acabar.

Ele aumentou o volume do som e voltou a rodopiar, chamando as outras com os braços se agitando no ar.

Sem pensar duas vezes, Rachel grudou o braço no de Erin e elas voltaram para a festa enquanto Moon permaneceu sentada com sua garrafa de tequila, o olhar preocupado.

Apesar da visita desagradável, eles conseguiram retomar a harmonia da festa.

 

Rachel não fazia ideia de como havia chegado nos limites do rio. Hugh a trouxera? Erin? Moon?

Ela não sabia.

Na verdade, não sabia muitas coisas naquele momento.

Seus pés dançavam desajeitadamente sobre os cascalhos brutos enquanto ela cambaleava pela costa do rio, um sorriso vago curvava o canto dos lábios. Sua mente era uma confusão, como se seu cérebro estivesse nadando numa piscina de águas cálidas ou flutuasse em nuvens felpudas.

Rachel estava bêbada. Não o suficiente para que enxergasse desfocado e atropelasse as palavras, mas sentia seu corpo inteiro flutuar. Aquela sensação lhe parecia boa, podia ouvir e cantarolar músicas que ecoavam em sua mente e seus pés bailavam desengonçados, fazendo-a rir.

Era uma pobre alma afundada no torpor.

Ela observava a paisagem ao longe, as montanhas refletidas nas águas tranquilas do rio, a aurora ameaçando irromper no céu, o vento suave que lhe roçava o rosto numa carícia gentil. Não estava uma noite particularmente fria, mas ela se apertou na parca marrom que lhe cobria os ombros. Seus olhos foram atraídos por um brilho ao longe.

Era uma fogueira, montada a alguns metros das margens do rio.  As labaredas alaranjadas estalavam com volúpia, emanando um calor gostoso. Havia um grupo reunido ao redor do fogo.

Rachel se aproximou, observando o grupo distinto. As roupas coloridas estilo anos 60 chamou sua atenção. A mais espalhafatosa era a jovem negra sentada num pedaço velho de tronco, ela usava o que parecia ser um vestido longo estampado de flores coloridas, brincos enormes de pena enfeitavam suas orelhas e o cabelo Chanel que emoldurava o rosto redondo e carismático era verde. Ela ostentava um pentagrama no pescoço e trazia numa das mãos um livro de alguma filósofa conhecida. Ao seu lado, aconchegada em seu abraço, havia uma garota visivelmente andrógina de sorriso suave. Elas tinham as mãos entrelaçadas e ocasionalmente sorriam uma para a outra.

Ao lado do casal, um jovem barbudo e de aspecto sonhador enrolava um cigarro artesanal, cantarolando alguma música da Stevie Nicks. Ele vestia uma camiseta indiana com o desenho de Ganesha, calças jeans puídas e os pés estavam descalços.

Hippies despreocupados curtindo as manifestações da natureza.

Exceto por um.

Afastado dos outros, um jovem incorporava a imagem do rebelde anarquista. Era totalmente o oposto de seus colegas. Vestia calças escuras e rasgadas, coturnos pesados e uma camiseta cavada que trazia na estampa uma mancha vermelha formando o símbolo do anarquismo. Seu cabelo cor de areia era raspado nos lados da cabeça e espesso no centro de modo que ele podia jogá-lo despreocupadamente num penteado desleixado. Ele tinha um piercing no canto da boca e uma tatuagem tribal no pescoço que desaparecia por dentro da camiseta. No dedo indicador, um anel em forma de garra.

E o último integrante, sentado próximo aos colegas com uma garrafa de vodka na mão, ela reconheceu imediatamente.

Soren se levantou tão logo a viu, abrindo um sorriso radiante e correu em sua direção.

– Rachel – ele a abraçou, fazendo-a cambalear uma vez.

– Olá, estranho. – disse ela rindo.

– Opa. Olhe só para você. Parece um pouco alta.

– Não é só você que sabe se divertir. – ela deu uma piscadinha.

– Você disse que eu podia estacionar perto da sua casa. Espero que não se importe por eu ter trazido alguns amigos.

Rachel fitou o grupo que agora a encarava com curiosidade.

– Amigos hippies. – ela deu um sorrisinho. – Bem que o xerife me disse que estavam cheios de adoradores da natureza por aí.

– A mãe natureza merece ser venerada. – o barbudo disse, sem interromper o que estava fazendo.

– Eles são legais. Venha, vou lhe apresentar. – Soren a puxou para perto da fogueira. – Este é Folk, nosso cultivador de ervas. – apontou para o barbudo.

Folk acenou uma vez, amistoso, enquanto enrolava o cigarro artesanal.

– Stephanie e Summer. – ele apontou para o casal sentado próximo ao fogo. As duas acenaram com um sorriso. – E Rudolf.

Rachel encarou o rapaz com ar rebelde e o olhar escuro dele queimou seu rosto. Ele não acenou, observou-a em silencio por alguns minutos. Aquele mesmo olhar penetrante que Moon costumava fita-la. Rachel sentiu um frio se espalhar em sua espinha. Mas o rapaz esboçou um sorriso malicioso.

– Você é a bióloga.

Não havia sido uma pergunta, mas uma constatação.

– Eu sou. – ela sorriu para ele, incapaz de fazer qualquer outra coisa. O álcool em seu sangue a fazia flutuar numa névoa de alegria.

Ele pareceu achar sua reação divertida.

– Aceita uma bebida, Rachel Bones? – Rudolf ofereceu a própria garrafa.

– Eu não devo beber mais. – ela balançou a cabeça.

– Ou talvez se ache especial demais para se juntar a reles mortais. – Stephanie, a garota do cabelo verde, disse com um sorriso e tomou a garrafa das mãos de Rudolf, tomando um bom gole. Ofereceu para a namorada que aceitou prontamente.

Rachel sorriu, sentando-se ao lado delas e aceitando um gole. A bebida quente queimou sua garganta, fazendo-a tossir. Eles riram.

– O que tem aqui? – ela balançou a garrafa misteriosa.

– Um pouco de tudo. – Rudolf pegou a garrafa de volta. – E alguns ingredientes secretos.

Rachel deve ter feito uma cara espantada porque eles riram dela novamente e Soren se prontificou a explicar.

– São apenas algumas ervas que costumamos misturar.

– E cogumelos. – alguém disse.

– Vocês misturam cogumelos na bebida? – Rachel parecia chocada.

Folk e Summer riram a valer.

– Eles estão brincando. – Soren garantiu, sentando-se ao lado dela.

Rachel encarou cada um deles. Ao sentir o torpor aumentar, ela duvidou muito que não havia ingredientes secretos naquela garrafa. Mas não ligou nem um pouco para aquilo. Ela fechou os olhos, apreciando a dormência suave que se instalava em sua língua. Seu corpo pareceu relaxar instantaneamente, o ar se tornou mais doce e fácil de respirar e os dedos de seus pés começaram a formigar.

– Seja lá o que for isso, eu gostei. – ela murmurou, balançando-se ao som da música que Folk cantarolava.

– Você se mistura bem. – a voz de Soren estava próxima de seu ouvido.

– Quer dizer com vocês loucos? – ela sorriu. – Tenho o dom de atrair pessoas assim.

– Assim como? – Stephanie perguntou – Estranhas? Gays? Adoradores da Mãe-Terra?

Rachel abriu os olhos, fitando a garota.

– Isso. – ela sorriu. – Um pouco de tudo. Eu fui criada numa acampamento alternativo, tinha gente de todo tipo lá e vivíamos migrando de cidade em cidade. Depois disso, meus pais residiram ao lado de uma comunidade cigana. Eles não eram muito receptivos no começo, mas depois compartilhávamos histórias e uma boa refeição. Quando terminei minha faculdade, iniciei uma jornada pelos lugares mais inusitados do país, comunidades de todos os tipos. Então, é… Acho que me misturo bem. E me sinto especialmente atraída por pessoas diferentes.

– Você é uma aventureira nata. – Soren sorriu, aprovando.

– E o que a trouxe para Montana? Especialmente para essas montanhas? – Rudolf perguntou com sincero interesse.

– Eu não faço ideia. – Rachel balançou os ombros. – Eu estava meio perdida. E então vim parar aqui, no meio de uma cadeia de montanhas maravilhosas e pessoas esquisitas.

– Esquisito é legal. – Folk se manifestou. – Ok, minha obra de arte está pronta. E como temos uma convidada de honra, ela será a primeira a dar um trago. – ele ofereceu o cigarro artesanal.

– Oh, eu não devo.

– Rachel gosta de se manter sóbria. – disse Soren.

– Depois de beber com a gente isso não é mais possível. – Rudolf deu um sorrisinho.

Stephanie tomou o cigarro das mãos de Folk e acendeu, dando um bom trago. Seus olhos se fecharam com lentidão, as pálpebras tremeram e os lábios se abriram sensualmente para liberar a fumaça.

Summer a beijou na boca e seguiu seu exemplo, jogando o corpo para trás enquanto absorvia a onda das ervas.

Rachel observou enquanto eles dividiam o cigarro entre si. Rudolf era o único que parecia mais centrado, como se a fumaça não o atingisse como aos outros. Ele tinha no olhar aquela sombra selvagem que costumava ver em Moon, algo que seduzia e instigava sentimentos irracionais dentro das pessoas. Aquele olhar penetrante era envolto de véus misteriosos e era quase impossível resistir aquele tipo de sensualidade.

Rachel desviou os olhos, concentrando-se em Soren.

– Então é assim que se diverte?

– De vez em quando corremos nus pela floresta. – Folk sorriu para ela.

Rachel se retesou, lembrando-se de Dominic.

– Ele está curtindo com a sua cara. – Soren lançou um olhar divertido ao amigo.

– Eu vi um homem nu na floresta. – disse Rachel. – Há alguns dias.

Folk gargalhou.

– Cara, seu tarado! Achei que tivesse parado com isso. – Soren quase cuspiu o gole de vodka que acabara de tomar.

– Não fui eu! – Folk ergueu as mãos como quem se rende.

– De certo algum engraçadinho que amanheceu sem roupas por aí. – Rudolf encarava a garota com atenção.

– Achei que fosse alguém que eu conhecia. – Rachel apanhou a garrafa de vodka das mãos de Soren e deu um bom gole. – Mas ao que parece estava errada.

– Você parece chateada. – Summer observou.

Rachel sorriu para ela, mas seus olhos se encheram de lágrimas.

– Oh, o que é isso? – Soren secou o canto de seu olho com gentileza.

– O peso do passado. – Rachel fechou os olhos e tomou mais um gole.

– Todos aqui são atormentados pelo peso do passado. – Folk lançou um olhar triste para ela.

– Ou pelo presente. – disse Summer, abraçando a namorada.

– Ou seremos atormentados pelo futuro. – Rudolf tomou mais um gole de sua bebida misteriosa.

– O que posso dizer, somos todos atormentados aqui. – Soren sorriu. – Bem vinda ao grupo.

Rachel sorriu para ele.

– Você é muito gentil. – ela lhe deu um beijo na bochecha.

– Não vou levar a sério porque está bêbada. Mas se quiser me dizer isso amanhã, aceito.

Rachel suspirou.

– Sim, estou bêbada. E deveria ir dormir. Acho que por hoje tive muitas aventuras.

– Oh, por favor, doce Rachel, não nos deixe. – Soren murchou.

– Vou deixar vocês continuarem suas celebrações de lua minguante. Acabo de voltar de uma, mas não tinha uma fogueira tão legal.

– Não posso te deixar sozinha por algumas horas e você já se envolve com esses pagãos malucos.

– Ah, eles não eram pagãos. Vocês são pagãos malucos!

Stephanie deu um sorrisinho.

– Somos adoradores da natureza. – Folk disse. – E foi um prazer conhecer você, Rachel.

– Foi um prazer conhecer todos vocês. Fiquem a vontade para se reunir perto da minha casa, estacionar vans funerárias e fumar um baseado. – ela riu.

Soren se levantou.

– Precisa de ajuda para chegar em casa? – ele olhou para a casinha de madeira a poucos metros dali.

– Não estou tão ruim assim, Soren. Mas eu agradeço a gentileza.

Ela acenou para todos e saiu andando.

Rudolf a acompanhou com os olhos até ela desaparecer dentro da casinha de madeira ao longe.

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