De Porcelana e Sangue

 

Branca de Neve 01.jpg
Todos à espera da luz
Tenham medo, não tenham medo
O sol brilha fora dos meus olhos
Ela não irá cair esta noite
“Sonne”, Rammstein

Ainda lembro do sumo doce em meus lábios, quando cravei os dentes na maçã que me foi ofertada com tanta gentileza, por mãos tão enrugadas e calejadas pelo tempo. Em um tempo de inocência, onde acreditei na beleza de um gesto tão amável. Mas o veneno também pode ser agradável ao paladar no início, belo em sua sutileza enquanto corre pelas veias da vítima, inflamando-a de dentro para fora.

Em meus poucos anos vividos, até então, tive a oportunidade de experimentar essas chamas duas vezes. A primeira quando envenenada pela minha madrasta, tomada por um furor desastroso causado pela inveja, e a segunda, bem… Quando a maçã escapou por entre meus dedos delicados e o mundo escureceu ao redor, não parecia restar mais nada que pudesse me salvar. A princípio, pensei ter sido engolida pela própria morte, presa ao vazio do não existir, restando-me apenas a consciência de que não havia saída.

Foi então que o veneno voltou, irradiando pelo meu ser como se o despertasse de um sono longo e perturbador; revivendo cada célula, preenchendo minhas veias com uma essência agridoce que caminhava entre o belo e o bestial, entre o profano e o sacro, entre a vida e a morte. Quando meus olhos se abriram mais uma vez, observei um novo mundo se revelar, cheio de sensações nunca antes experimentadas e possibilidades infinitas.

O jorro de informações novas prendeu minha atenção por longos minutos, mostrando-me como apreciar cada folha seca caída na grama baixa, o assobiar do vento contra as asas dos pássaros que voavam acima da copa das árvores, os passos cuidadosos dos animais selvagens da floresta. O mundo entoava sua canção, dando-me boas-vindas após o exílio na penumbra.

Quando capturei a presença das sete crianças ao meu redor, senti meus lábios ressecados pela primeira vez. Para qualquer um que não prestasse atenção, elas poderiam se passar por anões; pequenos, magros e deformados após tanto tempo trabalhando nas minas, arrastando-se pelos buracos e túneis estreitos do subsolo. Eles me acolheram em sua pequena cabana torta, construída apenas abrigar suas cabeças quando não se encontravam nas minas venéficas onde trabalhavam. Minhas crianças, com seu odor amargo causado pelo sofrimento.

Contudo, eles não eram os únicos a me olhar, pois ao meu lado, parado tal qual uma bela estátua de mármore, um homem de pele tão pálida quanto a minha, e os cabelos cor de ébano como os meus. Seus lábios estavam rubros, mas não de maneira natural. Entre a admiração e o medo, levei minha mão até os lábios mornos, sentindo a consistência do sangue que correra de sua boca até a chemise branca.

Levantando-me do leito e parando de frente para o desconhecido, fui tomada pela urgência que aquele líquido escarlate causava dentro de mim, queimando minha garganta. Os mesmos dedos que tocaram seus lábios tocaram os meus e, na ponta da língua, provei do gosto metálico que possuía, fechando os olhos enquanto o apreciava.

Então senti mãos gentis sobre minhas bochechas, puxando-me à frente. Seus lábios eram firmes, mas sem perder a delicadeza do gesto em si, dando-me de beber do meu próprio sangue; o que restara dele, pelo menos. Aquilo não seria o suficiente para apaziguar a sede que fustigava minhas entranhas. Ele notou minha voracidade, roçando seus lábios aos meus e fazendo o caminho até minha orelha.

— Bebamos da realeza, princesa — disse, despertando toda minha fúria ao me fazer lembrar da rainha.

Naquele momento, pouco me importei com quem ele era e os motivos que o levaram a me transformar em uma criatura da noite, apenas agradecida pelo dom sombrio que me dera e que seria o trunfo contra minha madrasta.

A rainha tinha um cálice de vinho em mãos enquanto observava seu reflexo no espelho mágico; sua imagem desnuda iluminada apenas pelas chamas da lareira. Tão próxima do fogo, gotículas de suor começaram a se formar em sua pele alva. Nos lábios, o suposto gosto dos rins e fígado da enteada, Branca de Neve.

— Para o inferno com sua maldita beleza — murmurou para o quarto vazio, sorrindo antes de levar o cálice aos lábios.

Ganhara o controle sobre o reino mais uma vez, bem como o título de mais bela. A certeza da vitória lhe parecia incontestável até as chamas da lareira se apagarem de maneira brusca, com a lufada de vento que escancarou a janela. Na escuridão do cômodo, olhou ao redor em busca da presença que sentia, causando-lhe um arrepio na espinha.

— Espelho, espelho meu… — A voz melodiosa chegou até ela como água fria, sem conseguir identificar de qual ponto do quarto surgira.

— Você não deveria estar aqui! — gritou a rainha, olhando ao redor e encontrando apenas sombras.

— Existe alguém — a silhueta se formou próxima ao espelho, caminhando em direção à mulher — mais bela do que eu?

A figura de Branca de Neve surgindo da penumbra era, no mínimo, chocante para a rainha, que experimentou a sensação de choque se tornar medo, ao notar como a aparência da menina mudara. A pele de porcelana ganhara um tom perolado, e o rosto, envolto pelos cabelos negros, possuíam uma expressão sombria que não combinava com a imagem que tinha da enteada.

— Imagino quão decepcionada deve estar. — Branca de Neve tinha as mãos às costas, sorrindo de maneira a mostrar as presas afiadas.

— O que você fez? — perguntou, engolindo em seco o temor que sentia.

— Eu? Nada. Ele fez — disse, pouco antes da rainha sentir duas mãos se fecharem em seus braços como algemas. — E admito que foi a melhor coisa que poderia ter acontecido, após sua falha tentativa de me matar.

— Minha querida, por favor, não faça isso. Você não é assim! Há bondade no seu coração! — A rainha se debatia, mas, para o homem que a segurava, mal fazia esforço para mantê-la no lugar.

— Houve, um dia, bondade no meu coração, mas não podemos viver do passado, não acha? — As velas começaram a se apagar uma a uma. — Por isso é chegada a hora para uma nova rainha, mais bela, mais jovem e mais forte reinar.

Quando a última vela se apagou, todo o reino pôde ouvir o último grito da rainha.

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