A Bruxa de Praga – O pedido Carmim

Escrito por: Natasha Morgan

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Merci estava eufórica, o coração batendo forte no peito, a língua inquieta na boca e as mãos levemente trêmulas.

Seus cabelos estavam arrepiados, um aglomerado de cachos loiros batendo na nuca pálida. Os olhos escuros tinham um brilho ensandecido.

Seus lábios pintados de negro murmuravam palavras atropeladas que ela lia de um livro grosso estendido majestosamente na relva macia.

Seu traje era um pouco sofisticado demais para a ocasião, mas ela o escolhera meticulosamente numa boutique de primeira. Estava orgulhosa do poder que ostentava.

Ao menos era o que pensava.

A lua cheia brilhava com soberania no céu pouco estrelado e iluminava a campina próxima á praia onde a mulher se ajoelhara em frente ao altar improvisado.

Em sua mão havia um boneco de cera negra, embalando cuidadosamente uma mecha de cabelos ruivos.

Sobre a relva estava disposta uma vela escura, um punhal, um caldeirão em chamas e a foto de uma jovem ruiva.

Merci entoava as palavras em latim, engasgando-se algumas vezes, enquanto atirava um punhado de ervas nas chamas agressivas do caldeirão. Parecia um tanto incerta sobre o que fazia, mas tentava se convencer de que tudo daria certo, afinal de contas se sentia uma bruxa experiente.

Ela encarou a foto da jovem ruiva, o ódio brilhando nos olhos. Seus lábios se enrugaram numa careta e ela cuspiu sua amargura no rosto retratado, jogando a fotografia nos braços impiedosos das salamandras.

Ela sorriu com arrogância, tinha visto esta cena num filme e estava contente em reproduzi-la com elegância.

Seus olhos se voltaram para o boneco de cera em sua mão e seu sorriso aumentou.

Ela respirou fundo, empinou a coluna e entoou:

– Nigahme, eu a invoco – sua voz oscilou, trêmula. – Deusa da cidade dos pecados nefastos.

Merci se calou por um momento, sentindo um vento frio roçar seus ombros nus.

– Nigahme, peço que ouça meu pedido e puna quem um dia me fez tanto mal. Que assim seja feito!

Merci apanhou a agulha brilhante presa em suas vestes e alfinetou o boneco de cera em suas mãos, treze vezes. E enquanto perfurava impunha seu ódio no receptáculo, clamando mentalmente que a Deusa lhe proporcionasse sua vingança.

Com uma risada histérica, ela jogou o boneco no caldeirão fervente. E aguardou alguns minutos em silêncio, esperando algum sinal da Deusa.

Mas não houve nada. O vento farfalhava as folhas das árvores ao longe, trazendo a maresia fresca de uma noite de verão. A lua continuava esplendorosa no céu de ébano. E o silêncio imperava, absoluto no bosque.

Merci franziu o cenho, confusa. Havia lido que haveria um sinal. E nos filmes as bruxas sempre recebiam um sinal depois de um feitiço poderoso.

Ela fechou os olhos com força, ergueu as mãos para o céu e convenceu a si mesma de que sentiu algo.

Quando abriu os olhos, a chama da vela preta se apagou repentinamente e as salamandras cessaram a dança sobre o caldeirão.

Ali estava seu sinal. E por mais que ferisse seu orgulho, Merci sabia que seu feitiço havia falhado.

Ela teria de achar a bruxa certa para fazer valer sua vingança. Porque não era justo o universo deixar impune o mal que lhe fizeram.

 

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A alcova da feiticeira se encontrava em estado de quietação. O aroma de incenso sobrepujando a poção sendo feita no caldeirão próximo á lareira, o som do borbulhar enchia a sala sofisticada.

Megara se encontrava em sua poltrona de veludo, lendo um livro antigo enquanto se ocupava em afagar a familiar deitada majestosamente em seu colo.

Crow, a gata de pelagem negra, era esperta, educada e carinhosa. Uma companhia agradável a qualquer momento do dia e uma guardiã sem precedentes. No entanto, ela não substituía a antiga malhada que lhe fora tirada de forma tão vil.

Toda vez que a feiticeira fitava os olhos verdes de Crow, lembrava-se daquela que amou intensamente e do dia em que sua alma se corrompeu ao experimentar o doce sabor da vingança.

Crow ronronou, exigente, queria sua inteira atenção. E como uma boa amiga, Megara a agradou, murmurando palavras carinhosas.

Em momentos assim, ela se parecia com a jovem que um dia fora: Serena, carinhosa e cheia de cores vibrantes. Quem a via recuar suas defesas e afagar a familiar em seu colo não ousaria dizer que aquela era uma bruxa que ostentava tanto poder.

A campainha tocou, uma melodia suave e refinada, fazendo o sorriso jovem em seu rosto endurecer numa linha rígida para depois se curvar em sensualidade.

Ora ora ora…

O que tinha em sua porta naquela agradável noite de lua cheia senão uma franguinha desesperada por algum feitiço potente?

E não era isso o que todos queriam ao bater em sua porta?

A feiticeira suspirou, colocando a gata no chão, gentilmente, e se dirigindo ao hall.

De certo uma franguinha.

Do lado de fora, abrigando-se sob o arco elegante de madressilvas estava uma garota de cabelos cacheados. Sua aura era uma confusão de cores, o que indicava que ela não se decidia sobre sua personalidade. Seus olhos espantados fitavam a casa com admiração. A energia que provinha dela era uma massa confusa, mas deixava claro o seu envolvimento com Magia.

Megara a encarou com as sobrancelhas erguidas.

– Oh!

A garota arregalou os olhos ao contemplar a beleza quase sobrenatural da mulher.

– O que quer, menina?

Merci se empertigou, decidida a soar como uma bruxa poderosa. O que era meio difícil uma vez que seu senso de poder havia mudado completamente depois de encarar aquela mulher extraordinária.

– Procuro pela Bruxa de Praga.

Megara a encarou, mergulhando na imensidão daqueles olhos escuros.

– Fez uma longa viagem para encontrar uma bruxa.

– A viagem vale a pena se a bruxa tiver os poderes que dizem que ela tem.

– E que poderes seriam esses?

– O de realizar desejos. Todos os tipos de desejos.

Megara riu.

– Ora, todas as bruxas tem o poder de fazer feitiços. Só não é certo que os desejos sejam aceitos pelos Deuses.

– Mas essa bruxa é diferente. Dizem que seus feitiços nunca falham.

– Quem a enviou á minha porta?

Merci torceu os lábios.

– Ouve-se historias sobre tal bruxa em todo lugar. E há boatos entre os bruxos que ela reside em Praga. Simplesmente segui minha intuição e ela me guiou até aqui.

– Mentira. – a feiticeira estreitou os olhos. – Você não tem uma intuição gritante. Quem lhe segredou onde me encontrar?

Merci parecia chateada.

– Já lhe disse, minha intuição me guiou.

– É mesmo? – o sorriso dela se tornou perigoso. – E sua intuição também lhe alertou que procurar uma criatura como eu pode ser perigoso?

– Bruxas não fazem mal umas às outras. – Merci disse com segurança.

– Isso é verdade. Mas você não é uma bruxa autentica, me parece o tipo fajuta.

Merci sentiu a raiva queimar, mas não enfrentou a feiticeira como já havia feito tantas vezes com as sacerdotisas e bruxas solitárias que conhecera pelas redondezas de onde vivia. Não era uma ideia inteligente afrontar aquela mulher, sabia disso só de olhar para o rosto majestoso dela. Ela era diferente das outras, diferente de qualquer uma que Merci já vira.

– Por favor, eu posso pagar! – pediu ela, os olhos suplicantes.

Megara esboçou um sorriso.

– A questão não é algumas moedas de prata. Quem lhe mandou aqui? O padre?

Merci se empertigou toda.

– Não me misturo com essa raça.

– A que raça se refere, menina? – Megara parecia se divertir.

– Cristãos nojentos.

– Entendo. Sua geração tem muito o que aprender. Especialmente aqueles que não carregam a magia no sangue.

A feiticeira a encarou por alguns segundos.

– Pois bem, se não foi o padre posso supor que haja mais pessoas espalhando minha fama pelas ruas da cidade. Não sei se me sinto lisonjeada ou irritada com tal comportamento. Uns me temem, me odeiam e me invejam. Outros me idolatram e querem meu poder. E você, menina, o quer de mim?

Merci esboçou um sorriso.

– Eu quero um feitiço. De vingança. Tentei fazer um, mas não obtive resposta.

– Quando não há resposta dos Deuses é porque o feitiço não teve força o suficiente.

– Mas fiz tudo certinho!

Megara soltou uma risada indulgente.

– É mesmo, criança? E de onde tirou seu feitiço? Se não tem herança de sangue, como posso ver, de certo não tem um Grimório.

– As bruxas hereditárias não são as únicas bruxas que existem. – Merci parecia chateada.

– De fato.

– Fiz meu Grimório  com base no que reuni em estudos sobre a Arte.

– Como muitas outras fazem. – Megara assentiu. – De fato, o caminho de uma bruxa sem mentora é áspero e solitário. No entanto, isso não diminui sua força, seus dons e poderes. A bruxaria está na alma muito antes de estar no sangue. No entanto, minha jovem, você me parece bastante equivocada quanto ao que quer, equivocada sobre quem realmente é.

– Eu sei o que sou. – Merci afirmou.

Megara a fitava com curiosidade e alguma coisa que viu a convenceu de que seria divertido ajudar aquela garota perdida.

– Pois bem, vamos ver o que posso fazer por você.

Merci foi convidada a entrar, os olhos varrendo a casa sofisticada, espantados e deleitosos.

De repente ela se sentiu mal vestida em seu vestido negro de contas.

– Não se preocupe com isso. Cada um se veste de acordo com seu gosto. Eu prefiro o luxo, a sofisticação. Mas isso não significa que eu seja melhor do que as grandes bruxas que se vestem em roupas hippies de segunda mão.

Merci tentou parecer mais segura. Mas é claro que se sentiu inferior. Seu problema não estava em preferir roupas simples, ela queria ser grandiosa, ostentar uma casa como aquela e deter poderes como os da feiticeira á sua frente.

Megara a guiou até a cozinha larga e rústica, o único cômodo da casa que ela fez questão de deixar parecido com uma velha cabana bruxesca.

A feiticeira se sentou numa das cadeiras de mogno, deixando seu vestido subir sensualmente até o meio das coxas torneadas.

– Sente-se, menina, e diga-me o que quer.

Merci se sentou um tanto acanhada. Por mais que se esforçasse em negar, aquela mulher lhe intimidava.

– Preciso de um feitiço de vingança.

– Você já disse isso.

Megara esperou pacientemente.

– Quero fazer essa pessoa sofrer, quero que ela pague por tudo o que me fez!

– E o que foi que ela te fez? Uma coisa que precisa entender é que não esbanjo minha energia com feitiços frívolos. Não sou como aquelas antigas camponesas interesseiras que invocavam a morte em troca de algumas moedas de prata. Se quer um feitiço terá que me oferecer um bom argumento para fazê-lo.

Merci assentiu, achando justo.

– Ela era minha amiga. Gostava muito dela e achava que o sentimento era recíproco. Frequentávamos a casa uma da outra, estudávamos juntas e até combinamos de fazer a mesma faculdade. Mas então ela ficou estranha, começou a se afastar e falar mal de mim para outros colegas. Hoje ela me vê na rua e não me dirige a palavra. E eu tenho sentido energias ruins me rodeando. Tenho certeza de que ela  está me mandando coisas.

– Que coisas?

– Feitiços ruins.

– Essa sua amiga é uma Bruxa?

– Ela estudava algumas coisas sobre a Wicca. E depois passou a estudar coisas como satanismo e companhia. Eu sei que ela tem me enviado coisas ruins! Eu sinto! A Deusa me contou!

– Interessante. – Megara a fitou com certo divertimento. – E a que Deusa você vem ouvindo, Menina?

– Perséfone. Á princípio, sempre ouvia e me comunicava com Perséfone. Até alguns dias atrás quando comecei a ouvir a voz doce de uma outra Deusa. A poderosa Nigahme.

Megara soltou uma gargalhada ronronante, repleta de sarcasmo.

– Oh, menina. Posso lhe garantir que o sussurro de Nigahme não tem nada de doce.

Merci se empertigou na cadeira.

– É verdade, não é? Você é uma serva Dela!

– Os Deuses não têm servos. O que somos para eles são filhos, amigos, almas para orientar. Não há essa submissão e servidão dentro da bruxaria. Deveria saber disso quando afirma que ser uma bruxa tão poderosa a ponto de querer ouvir Nigahme.

– Sinto muito, eu não quis…

– Não, eu entendo. A maioria dos humanos são desesperados para abraçar qualquer tipo de poder, qualquer força que os faça se sentir superiores aos outros. Chega a ser cômico observar vocês.

– Não se considera humana?

Megara deu um sorrisinho  malicioso.

– Então o que dizem a seu respeito é verdade! – Merci parecia encantada.

– Depende do que foi que ouviu. Pois então, você quer que sua antiga colega sofra. Que pague pelo mal que lhe fez, ou será que devo dizer afronta?

– O que quer dizer?

– O que quero dizer, adorável menina, é que a maioria das pessoas tem o ego frágil e ao menor sinal de desprezo acaba confundindo a afronta com maldade. Tem certeza de que esta garota lhe fez mal? Ou está apenas chateada porque ela não deseja mais sua amizade?

– Não estou inventando! Ela realmente tem me enviado coisas ruins!

– E sabe disso baseado no que sente?

– Sim. Bruxas confiam em sua intuição.

– De fato. No entanto, bruxas afrontadas podem agir influenciadas por seu próprio ego ferido.

– Então não vai me ajudar?

– Eu a deixei entrar, não é mesmo? Além do mais, quando se pede algo a Nigahme não se pode escapar da imparcialidade. A Deusa sempre faz valer a justiça, mesmo que ela se volte contra quem a está pedindo.

Megara se levantou, caminhando a passos largos até o fundo da cozinha.

Erguido sobre uma larga pedra de ônix estava o altar consagrado á Nigahme, enfeitado com crânios opacos, um punhal de lâmina fria, velas escuras e um cálice transbordando um líquido espesso.

A feiticeira se ajoelhou, invocando sua Deusa e quando Sua presença preencheu o ambiente, trouxe consigo o aroma de Dama da Noite. Uma brisa fria se esgueirou pela janela aberta, roçando as pernas das duas mulheres numa carícia sombria.

Merci arregalou os olhos e tentou acalmar seu coração que batia descompassado. Não podia enxergar a Deusa, mas podia realmente sentir Sua presença.

Estava certa sobre A Bruxa! Ela de fato era poderosa. E todo aquele poder talvez pudesse lhe ser ensinado. Talvez um dia pudesse ser consagrada sacerdotisa de Nigahme.

Megara voltou seus olhos luminosos para a garota, um sentimento de posse tomando suas feições.

– Não há sacerdotisas consagradas á Nigahme. A Deusa não costuma agraciar muitos.

Merci recuou.

– Pode ouvir os pensamentos das pessoas?

A feiticeira riu.

– Seus sentimentos são bastante perceptíveis.

– Então você não é Sacerdotisa de Nigahme? – Merci parecia um tanto decepcionada.

– Ser uma sacerdotisa é, de fato, uma vocação que eu não tenho. Pode me chamar de adoradora da Deusa Lúgubre, feiticeira das sombras de ébano, estriga das brumas lodosas. Ou, por que não, Cortesã de Lúcifer, como sei que muitos sussurram por aí.

– Não acredito que sirva ao diabo cristão.

– Esse foi o primeiro palpite correto que sua intuição lhe sussurra.

– Também não acredito que você honre as trevas. – Merci se aproximou dela, convidada.

– As trevas não são de todo mal. É apenas um lado sombrio do universo. Há Deuses em sua face trevosa, assim como há Deuses em sua face mais branda. Ambos devem ser respeitados. Essas velhas crenças de bem e mal são paradigmas que devem ser imediatamente quebrados quando se abraça a bruxaria.

– E quanto á lei do retorno? Não tem medo de que as coisas ruins que faz voltem a você?

– Que coisas ruins que faço? – Megara piscou.

– Eles dizem que você sacrifica seres vivos para suas magias mais sombrias. E dizem que, quando contrariada, lança feitiços malévolos.

Megara gargalhou.

– Nunca lancei um feitiço com base em meu ego ferido. Qualquer energia que eu tenha lançado no cosmo, para o bem ou para o mal, foi muito bem pensada e o sacrifício ofertado de boa vontade. Tudo tem um preço, adorável jovem. Com o feitiço lançado é a mesma coisa. Paga-se em energia e, às vezes, o preço cobrado pode ser exorbitante. No entanto tudo depende de quem está barganhando. Quando eu lanço um feitiço com intensões profanas, sei que o preço cobrado pode ser amargo, contudo, estou disposta a pagar. E, não. Não acredito que os Deuses se vingarão de mim quando uso minha magia para punir alguém que merece. Eu sou aquela que ceifa a escória que assombra o mundo.

– Como se fosse uma super-heroína.

– Você assiste filmes demais.

Merci ficou em silêncio, encantada demais com a feiticeira. Mas não era assim com todos? Por mais que sua reputação fosse destilada como um veneno amargo, era quase impossível detestar Megara quando se viam diante de sua beleza e poder. Seus ideais, por mais brutais que fossem, tinham um fundo de verdade amarga.

A bruxa apanhou seu caldeirão de ferro e o preencheu de água, acrescentando um cristal escuro. Ela o ofereceu á Merci.

– Jogue a foto que trouxe dentro da água e sussurre na superfície o que quer.

Merci apanhou a foto da garota ruiva e a mergulhou na água cristalina, equilibrando o caldeirão em suas mãos de forma que pudesse chegar os lábios escuros na superfície da água.

– Eu quero que ela sofra. Perca tudo o que mais ama, quero que encontre uma melhor amiga e que por ela seja traída, para experimentar o que eu senti. Quero que seu relacionamento mingue até não haver mais qualquer tipo de sentimento bom. Eu quero que ela se perca no mais profundo breu e que a única salvação dela sejam as minhas mãos. E então eu me negarei a ajuda-la se reerguer.

Merci destilou sua raiva e frustração e passou o caldeirão para as mãos de Megara.

A feiticeira o colocou delicadamente em cima do altar, dispondo as mãos em cima dele e entoando algumas palavras em outro idioma.

Seus olhos exibiam um brilho lunar e ela os fixou na garota ao seu lado.

– Deixemos que Nigahme avalie seu pedido. Como Maat, essa Deusa gosta de pesar a justiça.

Merci fitou o caldeirão com impaciência, esperando. A ideia de seu pedido ser avaliado não a agradou, achava que o feitiço seria feito imediatamente, sem questionamentos. Mas confiava que a Deusa seria justa.

De repente, a água se turvou dentro do caldeirão, tornando-se espessa e negra.

Megara mergulhou a mão dentro do recipiente e retirou a fotografia intacta. Seu sorriso era malicioso, como se houvesse confirmado algo que suspeitava.

– Hum. Como eu supunha. Não vou fazer o feitiço que quer. Tampouco Nigahme vai aceitá-lo.

– O quê?

– Essa sua amiga, Vivian, não tem a alma manchada.

– O que quer dizer com alma manchada? E como pode não me ajudar?

– Vou simplificar para você, menina: Sua colega não gastou energia, não acendeu uma vela , não moveu um único dedo para lhe fazer mal.

– Como pode ser? Eu sinto o mal vindo dela! Além do mais, sei que ela se volta contra as pessoas quando está irritada! Eu sei que ela fez mal para mim.

– Não é o que Nigahme sussurra.

Merci balançou a cabeça, indignada.

– O que você sente são suas próprias frustrações. Está irritada, zangada porque a amizade foi desfeita. Logo, isso lhe provoca amarguras. E então você sente a necessidade de querer fazer algo para que a suposta maldade retorne àquele que te magoou. Sua mente perturbada lhe manda suposições e seu ego ferido lhe faz querer acreditar nelas. Então, para se sentir melhor, para que o feitiço que quer fazer para aliviar sua frustração e magoa seja valido, você se convence que a outra pessoa está te fazendo mal. E essa própria energia amargurada, frustrada e ressentida assombra você mesma, fazendo as coisas ao seu redor darem errado.

Merci estreitou os olhos, furiosa.

– Isso não é verdade!

– Não? Não consegue olhar dentro de você, enxergar essas sombras e admitir que está errada?

Os olhos da garota se encheram de lágrimas.

– Ela me abandonou! Por que fez isso? Por que simplesmente esqueceu as coisas boas que tínhamos e decidiu ir embora?

Megara a fitou com intensidade, mergulhando nos olhos escuros e conflituosos. Lá no fundo, naquela imensidão confusa e dramática, ela encontrou a resposta.

– Por suas próprias atitudes. Você afastou sua colega. Suas atitudes mesquinhas, sua necessidade exorbitante de querer que o mundo gire em torno de você, o seu amor possessivo… Tudo isso contribuiu para a ruptura de uma amizade triste.

Megara se aproximou da garota, os olhos assumindo uma expressão paciente.

– Querida, mesmo que essas atitudes e características definam quem você é, não pode se culpar ou culpar aos outros por não quererem ficar perto. Não se pode obrigar as pessoas a nos amarem. Somos amados por aquilo que somos e odiados pelo mesmo motivo.

– Você não entende. – Merci desmoronou. – Ela me fez tanto mal. Só queria que ela pagasse por isso. Dói tanto!

Megara a observou sem emoção.

– Somos atingidos pelo desprezo direta ou indiretamente. Isso não significa que devemos usar a magia por despeito. Sinto muito, não posso ajudá-la como quer. O que posso lhe oferecer é uma poção para aliviar seus próprios sentimentos tristes.

– Eu não quero que ele se alivie! Eu quero que ela pague! – os olhos da garota se inflamaram.

– Quer que uma garota pague por não gostar de você?

Merci se aprumou, levantando-se com brusquidão.

– Esqueça! Eu mesmo farei isso. Sozinha, como sempre. Saberei me entender com meus Deuses. Eles vão me ouvir, entender minha dor e fazer pagar quem a causou.

– Pois bem.

Megara a observou com paciência, vendo-a sair e bater a porta com raiva.

Pobres mortais, sempre movidos por seu ego ferido. Quantos desses não havia visto na porta de outras bruxas, implorando por feitiços de vingança e amor. Quantos deles achavam que tinham uma intenção nobre, mas só queriam aliviar suas próprias frustrações ao procurar um culpado para suas desgraças? E quantos deles eram assombrados com a energia densa de suas próprias atitudes egoístas?

“Eles nunca aprendem”

A voz de Nigahme ronronou num riso sarcástico.

Megara lhe sorriu com igual cumplicidade e, num aceno respeitoso, despediu-se da Deusa.

Sim, ela também tinha seus impulsos egoístas. Mas sabia controla-los com maestria.

 

 

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