Solittude

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Solittude

Escrito por: Lua Morgana

Aquele dia estava sombrio, do jeito que eu gostava. Nublado, sem sol, apenas cinza. Era o dia perfeito para terminar o que havíamos começado. Digo havíamos, pois, além de mim, tinham mais duas garotas para fazer o “trabalho sujo”. Atraímos ela para aquela floresta e a idiota foi, sem nem perguntar para que. Ela confiava plenamente na gente, mais em mim. Pois eu era sua melhor amiga! Era. Aquele momento seria definitivo para uma de nós.

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Tudo começou quando mudei de colégio, fui obrigada a estudar em um lugar só para meninas. Depois que mudamos de casa, a única escola “de nome” era essa. Escola só para meninas, com ensino religioso, tudo que mais odiava. Mas eu tinha que me portar feito uma dama. Para todos que me conhecem, eu sou uma menina educada e gentil. Às vezes irrita ser assim, uma boneca, mas eu tenho que manter as aparências, ninguém pode desconfiar dos meus desejos mais insanos.

Conheci uma menina chamada Angelica. Ela era linda, meiga, gentil (de verdade). Ficamos amigas de cara… Nós duas não éramos as garotas mais populares do colégio, mas eu queria ser. Queria muito! Ao contrário de Angel. Ficar nas sombras não era pra mim. Eu queria ser notada, ser vista, ser desejada. Queria que as meninas brigassem para andar ao meu lado e que os meninos caíssem aos meus pés. Eu tinha que ficar popular, de algum jeito.

Angel era cobiçada pelos meninos do colégio que ficava ali perto. Ela era meio “periguete”, mas não era popular ainda em nossa escola. Usei esse charme dela com os meninos a meu favor. Fiz com que Angel conseguisse ficar com o garoto mais popular do outro colégio, atraindo atenção para ela no nosso colégio e, consequentemente, para mim. Eu não sou feia, me considero mais bonita que ela, porém, sou meio tímida, por incrível que pareça. E como ela é bem simpática e solta, isso torna mais fácil dela conseguir ser popular.

As meninas mais populares de nossa escola chamaram Angel para sentar na mesa delas na hora do almoço, ela disse que só iria se eu pudesse ir também. Eram duas meninas, Cloe e Rachel. Todas queriam ser como elas. Elas eram inseparáveis e igualmente lindas. Quando souberam que Angel estava ficando com Rick, o menino da outra escola, surtaram. Elas tentavam isso fazia tempos e não conseguiam… Queriam saber tudo que aconteceu quando ficaram e porque ele havia escolhido Angel e não uma delas.

Depois de muita conversa e risadas, logo elas perceberam que Angel era diferente. Era pura, angelical. Elas gostaram de mim também, para minha sorte.

Começamos a andar juntas todos os dias. Em pouco tempo todo mundo me respeitava, me idolatrava. Sempre pediam meu facebook, whatsapp. Eu consegui o que queria… era popular! E Angel… Ah, Angel… sempre atraia mais atenção para si.

Certa vez fomos convidadas para uma festa na casa de Liana, uma menina que era da faculdade já, era popular no bairro por suas festas loucas. Rolava de tudo nas festas, desde drogas a orgias. Era o ápice do sucesso ser convidado para participar de suas festas… E nós fomos! As meninas, Rachel e Cloe, já haviam participado. Foram elas que conseguiram convites para Angel e eu.

Era chegado o dia da festa, coloquei meu melhor vestido. Um tubinho vermelho e um salto alto, eu estava arrasando. Angel veio me buscar em seu carro, que havia ganhado faz pouco tempo de seu pai, e partimos para a festa.

Ao chegar lá, tínhamos que falar a palavra-chave para entrar na casa (era pecado) e conseguimos entrar. Entramos e nos deparamos com umas luzes vermelhas, várias pessoas dançando e bebendos. Alguns sofás nos cantos afastados e pessoas se beijando sentadas nele. Tinha até beijo triplo! Eu estava me sentindo no paraíso (dos pecadores)! Ninguém sabia dos meus desejos mais profundos… Eu tinha apenas 16 anos, mas minha alma almejava coisas bem além da minha idade.

Angel encontrou com Rick e foi ficar com ele. Rachel me chamou no canto e me mostrou uma carreirinha de coca. Perguntou se eu usaria… eu sem pestanejar peguei o cabo que estava na mão dela e cheirei. Fiquei muito louca! Logo peguei um copo de whisky e tomei também. Fui para a pista de dança e me acabei. Dancei com Cloe, Rachel e Liana… Eu estava no topo. Angel não estava entre nós, ficou feito uma ovelhinha encolhida no canto com Rick. Ela era muito careta.

Chegou em tal ponto da festa, que quando reparei, estava no quarto com Liana e mais uma menina. Estava ótimo! Em nenhum dos meus sonhos mais quentes pensei nessa possibilidade… Liana me beijava de tal forma, que tive vontade de saciar todos meus desejos sexuais com ela. A outra menina me puxou para ela e me beijou também, enquanto Liana acariciava minhas partes íntimas. Era minha primeira vez e foi com duas mulheres. Foi maravilhoso, nunca tive tanto prazer na minha vida, e acho que nenhum cara seria capaz de me proporcionar tamanha satisfação.

Depois que sai do quarto, estava meio chapada ainda e zonza, depois daqueles minutos de prazer… Angel estava sentada na mesa da cozinha e chorava. Fui até ela e perguntei o que havia acontecido, ela disse que havia terminado com Rick. E que aquela festa estava muito louca pra ela, que ela queria ir pra casa e mais um monte de reclamações… Como ela era chata! A festa mais legal que já fui! E ela ali sentada chorando? Simplesmente ridículo.

Bom, a festa já estava no fim mesmo. Peguei minha bolsa e a chamei para ir embora, como ela não havia bebido, estava bem para dirigir. Dormi na casa dela, havia avisado meus pais que ia passar a noite lá. Ela passou a noite inteira reclamando do Rick, falando do Rick. Eu só queria dormir, estava muito cansada. Acabei dormindo no meio das lamentações dela e ela nem percebeu, pois eu tava dormindo no chão do quarto dela.

No dia seguinte, fomos direto para a escola. Eu estava acabada… De ressaca e tudo mais. Angel, como não havia feito nada demais, apenas brigado, estava normal. No colégio, as meninas ignoraram Angel, não sei porque. Sentamos na mesma mesa, mas elas não estavam conversando com Angel, só comigo. Contei tudo o que havia acontecido comigo naquela noite e elas ficaram loucas! Eu peguei duas mulheres… e Rachel, acabou soltando, que Rick, havia ficado com ela.

Angel surtou!

Jogou a comida dela em Rachel e depois a atacou. De Angel não tinha nada mais… Eu não consegui fazer nada a não ser chorar (fingir). Angel bateu bastante em Rachel e a deixou furiosa. Foi muito bom ver aquela explosão! Aquilo ali era a ruína de Angel.

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No dia seguinte, haviam espalhados um monte de fotos de Angel nua. Rachel havia pego do celular de Rick e espalhou fotos pela escola inteira! Foi a coisa mais maldosa que vi naquele colégio… Angel estava arrasada. Eu não andava mais com ela, óbvio que não, andava com as populares, EU era popular.

Angel foi chamada na diretoria para explicar as fotos e contou tudo que havia acontecido, inclusive as festas loucas que participávamos! Como ela pôde? Nós, as populares, ficamos putas! Pois a diretora contou para nossos pais o que andávamos fazendo… Angel começou a se mostrar a mais maldosa do grupo. Dedurou todas nós! Ela precisava pagar. Precisávamos dar um susto nela!

Passaram-se algumas semanas, estávamos “andando na linha”, nossos pais estavam menos no nosso pé. Eu tive uma ideia genial. Iríamos atrair Angel para a floresta e dar um corretivo nela… Mandei uma mensagem para o whatsapp dela e pedi para que me encontrasse na clareira da floresta, onde as pessoas acampavam sempre. Disse que precisava conversar com ela, que não podia ser perto de ninguém, que ninguém poderia nos ver juntas e que éramos amigas e sentia sua falta. Ela respondeu que iria, mas só ficaria 5 minutos. PERFEITO!

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Cheguei mais ou menos meia-hora antes do combinado para ter certeza que não teria ninguém ali. Não havia ninguém, “maravilha”, pensei. Logo depois chegaram Rachel e Cloe. Ficamos sentadas falando sobre nada de importante, apenas conversa fiada, esperando por Angel. Ela demorou mais do que deveria… Chegou 30 minutos atrasada e deu milhares de desculpas.

Falamos um monte de coisas para ela, que ela era falsa isso e aquilo. Deixamos ela no meio e começamos a empurrá-la. Riamos loucamente, enquanto ela tentava se desvencilhar de nós. Até que teve uma hora que estávamos empurrando tão forte, que ela caiu de joelhos e começou a chorar. Aquele choro dela me irritou de uma tal maneira, que a única vontade que me deu era de matá-la ali mesmo.

Peguei – a pelos cabelos e arrastei até no meio das árvores. As meninas estavam rindo de nervoso, Cloe pediu para eu soltá-la que já tinha ido longe demais e ela já tinha tomado o tal susto. Mas não! Aquilo não era nada… Aquela garota me irritava, eu tinha que pôr um fim naquele ar de superioridade que ela tinha. Peguei uma faca que estava escondida na minha meia preta e golpeei a primeira vez no rosto, ela gritou, parecia um porco indo pro abate. Aquilo me excitou. As meninas ficaram paradas, feito duas estátuas incrédulas, enquanto eu a golpeava mais e mais, nem lembro quantas vezes, mas o sangue dela voava para todos os lados. Cloe desmaiou e Rachel começou a chorar. Eu só conseguia rir, enquanto o corpo desfigurado de Angel morria embaixo de mim.

Levantei cada uma das meninas e olhei nos olhos delas, disse que se abrissem o bico, elas seriam as próximas. Que iríamos nos limpar e queimar todas aquelas roupas, e esconderíamos a faca que matei Angel. Ninguém saberia que fomos nós. A não ser que uma delas abrisse o bico.

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No dia seguinte, acordei com minha mãe desesperada dizendo que haviam policiais ali na porta, pois eu era acusada de assassinar Angel! Alguma daquelas vadias abrirá o bico… Eu jurei de pé junto para minha mãe que não havia feito nada, que estava no shopping com as meninas. Minha mãe sempre ficava do meu lado, nem pestanejou.

Meu pai chamou o melhor advogado da cidade para me defender, contei toda a história para ele, do meu jeito, claro. Chorei horrores, e todo mundo acreditou em mim… Os policiais só haviam ido a minha casa devido a mensagem que mandei para Angel, para nos encontrar lá na clareira, mas não tinham prova que eu havia matado.

Passaram-se algumas semanas e chegou o dia do julgamento… Eu não poderia ser acusada sem provas legais… Estava sentada esperando, até que, durante o julgamento, apareceu uma testemunha que não estava na lista, mas era de suma importância: era Rachel. Eu fiquei roxa de raiva quando a vi sentada lá para prestar o depoimento.

Ela começou a falar que eu era muito instável, que praticava bullying, usava drogas… Cada coisa que ela falava sobre mim eu ficava com mais raiva, aquela puta tinha que calar a boca! Até que, soltaram um vídeo que eu havia feito com as meninas, uns minutos após o assassinato, onde eu ria da forma como Angel havia gritado. Todo mundo se chocou e, como eu estava suja de sangue, todos tiveram certeza que a culpa era minha, eu havia assassinado Angel.

Por culpa daquela cadela da Rachel! Levantei da minha cadeira no tribunal e xinguei Rachel de tudo quanto é nome e disse que a próxima seria ela! Eu estava furiosa. Os policiais logo me contiveram e me levaram embora… Como fui burra, eu assinei minha própria culpa. Meus pais choravam e eu disse que os odiava! A culpa era deles!

Fui levada para o reformatório e depois iria para a prisão, quando completasse a maior idade. Se eu me arrependia? Nem um pouco. Meu desejo de vingança era maior que qualquer coisa, queria acabar com a vida de Rachel assim como acabei com a de Angel. Única coisa que me consumia, dia após dia, dentro daquele reformatório nojento, era a solidão. A solidão é um sentimento que não tem como arrancar de dentro de você. O vazio me consumia dia após dia. Eu não tinha amigos, as detentas me odiavam por eu ser “riquinha”.

Em um belo dia, resolvi acabar com aquilo. Achei giletes de se depilar que minha mãe havia me mandado e cortei meus pulsos. Fui encontrada sem vida dentro da minha cela, aquilo que eles chamavam de quarto. Finalmente saí daquele lugar. Não sentiria mais o vazio, não sentiria mais nada. Apenas deixaria de existir. E lembrariam de mim como a “psicopata que matou a melhor amiga”. Era uma boa forma de morrer e ser lembrada.

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