A Garota com a alma do Diabo [Parte 3] – Pistas [+18]

Por: Natasha Morgan

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Zipper a deixou numa vila a poucos quilômetros de Moscou, pousando o avião com maestria numa campina abandonada.

Cherry apanhou as duas mochilas que tinha levado, agasalhou-se com uma manta de zibelina, checou as armas no coldre e despediu-se do piloto. Seus passos deixaram pegadas na grama congelada conforme ela seguia pela trilha gélida.

A vila não era amistosa, os rostos rudes observando enquanto ela passava. Cherry fechou a cara e seguiu seu caminho por entre as casas rusticas, uma das mãos pousada estrategicamente dentro do casaco. Não era sábio dar bobeira com essa gente estranha.

Um homem de capuz marrom a olhou feio quando ela passou em frente uma taverna e, mais a frente, duas mulheres cuspiram no chão numa clara manifestação de repulsa. Forasteiros não eram bem vindos.

Não que Cherry quisesse ficar para o jantar. Ela desistira da ideia de tomar uma dose de vodka cinco minutos atrás. Apertou o passo, puxando o capuz da blusa para proteger as orelhas da geada causticante.

A vila ficou para trás logo que ela chegou à estrada cercada pela mata densa e salpicada de neve. Cherry ajeitou as malas no ombro e seguiu em frente, o caminho seria longo até chegar em moscou. E então daria início a busca. Sem nenhuma pista específica para seguir. Fridda não havia contado aonde ia e seus rastros, àquela hora, teriam se perdido na neve fria.

A estrada se estendia solitária pela frente, o asfalto coberto por uma fina e perigosa camada de gelo. Ocasionalmente um ou dois caminhões passaram por ali, os motoristas olhando de forma ressabiada para a jovem sozinha naquelas bandas.

Quando o vento aumentou de intensidade, uivando e ricocheteando em seu rosto, Cherry alcançou os limites da cidade. Seu treinamento rígido não deixou que sua respiração se alterasse na longa caminhada, tampouco se sentia cansada. Mas a garganta ansiava por alguma bebida quente.

Ela parou num dos rústicos bares de beira de estrada. Ao abrir as portas duplas de madeira, ela sentiu o calor a acolher. E o peso dos olhos curiosos das pessoas. Sentou-se numa mesa afastada nos fundos e pediu uma dose generosa de vodka enquanto apoiava delicadamente sua bagagem na cadeira ao seu lado.

Cherry ignorou os olhares, varrendo os olhos ao redor das paredes de madeira mofada. Não havia nenhuma novidade ali. Só a velha e detestável Rússia com sua neve sombria, pessoas hostis e um armazenamento abundante de vodka boa.

A garçonete baixinha depositou um copo americano na mesa em que ocupava e saiu de mansinho, especulando quem seria a forasteira de olhar duro.

Cherry tomou um bom gole da bebida, sentindo o líquido descer fervendo. Seus olhos pousaram na TV de tela plana, presa a parede do bar. O noticiário local mostrava os perigos das estradas naquela madrugada, as possibilidades de acidentes. A repórter apontou com o dedo ossudo a paisagem destruída devido a um acidente grave naquela madrugada. As imagens de um carro destruído tomaram conta da tela enquanto um morador de uma das vilas próximo a estrada contava como tinha encontrado a cena do acidente. Não havia sinais da suposta vítima a não ser sangue misturado ao vidro quebrado das janelas.

Cherry tomou o restante da vodka numa talagada só, anotando mentalmente o endereço disponível no noticiário. Levantou-se com lentidão, deixando duas moedas prateadas em cima do balcão antes de sair.

 

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Ela alugou um quarto no Lote Hotel Moscow, uma suíte discreta com vista extraordinária. Uma pena que não estivesse ali para aproveitar a paisagem. Ela trancou a porta assim que adentrou o quarto, jogando as malas em cima da king size. Dispôs sobre o lençol fino as armas que havia levado, organizando-as meticulosamente. Carregou cada uma delas, organizou os explosivos, passaportes e tudo o mais que pudesse precisar em sua estadia ali.

Uma Sig Sauer foi depositada na gaveta do criado mudo. No banheiro, presa com silver tape, uma adaga de cabo negro foi encaixada debaixo da pia. E na porta de entrada, ela se certificou de despejar pequenas bolinhas de plástico – ativadas para disparar um alarme conectado ao seu celular. Caso alguém tentasse invadir seu quarto enquanto dormia, ela estaria preparada. Caso alguém entrasse em seu quarto quando ela não estivesse, saberia que alguém a estava bisbilhotando.

Quando se é uma assassina fria, todo o cuidado é pouco. E Cherry definitivamente não confiava naqueles russos.

Ela guardou o restante das armas dentro das malas e as chutou para debaixo da cama. Foi até a varanda larga onde se estendia a paisagem de Moscou e se certificou de trancar bem as portas de vidro, fechando as cortinas pesadas. Antes de sair, moveu o tapete com as bolinhas plásticas, tomando o cuidado de não pisar em nenhuma delas.

Cherry alugou um carro na recepção do hotel e partiu imediatamente para o endereço que viu no noticiário.

 

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A estradinha erma onde aconteceu o acidente naquela madrugada ficava nas proximidades da Villa Rombersky, um tanto distante do centro urbano de Moscou. Cherry dirigiu pela estrada principal durante umas duas horas até chegar à bifurcação que unia a estrada boa com a estradinha solitária próxima a Rombersky.

Ela ficava pensando o que levaria sua Bestemor até ali. Fridda não teria negócios importantes a tratar com moradores de uma vila tão pobre – o que a fez pensar que a armadilha para a matriarca Von Kern já estava armada antes mesmo de ela chegar a Moscou.

Logo ali na frente, a estrada se encontrava barrada por aquelas horríveis faixas amarelas.

Cherry deixou o carro no acostamento, apanhou algo no porta-luvas e desceu.

Havia dois policiais ao redor do Pagani destruído, as expressões nada amistosas quando a estranha se aproximou. Cherry disfarçou o horror ao ver aquela lataria toda retorcida levemente encoberta pela neve daquela madrugada.

O policial fez um gesto negativo com as mãos quando Cherry se aproximou da faixa amarela que cercava o local do acidente. Ao longe pode ouvir o barulho do guincho se aproximando. Parece que tinha mesmo chegado na hora certa.

Ela ignorou o alerta do policial e passou por baixo da faixa, fitando o asfalto coberto de resquícios da neve.

O policial se aproximou com hostilidade, despejando palavras grossas.

Cherry voltou seus olhos para ele com tranquilidade e mostrou o documento preto que trazia nas mãos. Um distintivo reluzente da polícia interna Russa. Falso, é claro. Mas o que a Família não conseguia falsificar em seus esquemas clandestinos e corruptos?

O policial examinou o distintivo, olhando para ela com a carranca fria. Parecia desconfiado. O outro se manteve afastado, apenas observando a cena.

– Mandaram que eu viesse verificar a cena. – Cherry disse num russo límpido. – Meu pessoal entrará em contato com vocês para mais informações no fim da tarde.

Isso pareceu satisfazer o policial, pois ele assentiu uma vez e deu espaço para ela passar. No entanto, aquela carranca desconfiada e hostil continuou ali, observando enquanto ela rondava a cena do acidente.

Cherry ignorou o outro policial e se aproximou da lataria do Pagani. Ele estava virado com o capo chafurdando nos resquícios de neve, as janelas estouradas e o para-brisa detonado. A lataria estava completamente amassada, como se um jipe houvesse colidido em alta velocidade contra ele.

Cherry agachou na altura do que antes fora um carro esporte, analisando o interior. O airbeg estava pendurado no volante, como uma bola de chiclete murcha. Não havia nada de Fridda lá dentro, nem bolsa, nem armas, documentos ou qualquer sinal de sua presença. Quem quer que a tivesse levado foi esperto o suficiente para recolher suas coisas, não queriam deixar pistas plausíveis para trás.

Houve um singelo ranger quando suas botas pesadas esmagaram os vestígios de vidro sob a neve. Ela reverberou a camada macia com os pés, revelando os estilhaços transparentes. Nem tão incolor assim.

Cherry notou manchas cor de ferrugem no meio do vidro. Sangue envelhecido.

Em sua mente habilidosa de caçadora, ela podia reconstituir a cena do acidente. Fridda dirigindo tranquilamente por aquela estrada esburacada e erma, alguma coisa colidindo com o carro e o fazendo capotar duas ou três vezes até aquela curva na beira da floresta pelada. Fridda soltando-se do cinto e içando-se para fora, esmagando o vidro das janelas com o próprio peso.

O policial carrancudo se aproximou.

– Encontramos isso jogado dentro do carro. – ele estendeu um saco plástico de evidencia onde se encontrava um pedaço de lata retorcida e tingida de sangue. – Um pedaço da lataria feriu a vítima, temos certeza.

Cherry analisou o objeto dentro do saco plástico.

– Pelo que vimos na estrada, algo grande o atingiu há alguns metros – o policial apontou a estrada atrás de Cherry. – O carro veio deslizando e capotou até parar aqui. As marcas de pneu se perderam com a neve, mas aposto que foi um Ranger Rover. Uma caminhonete simples não teria colidido com tanta força.

Cherry continuou fitando o Pagani destruído.

– Até agora não identificamos nenhuma ligação para a emergência. Tampouco algum registro nos hospitais que se encaixe com o que houve nessa estrada.

– Vocês acharam mais alguma coisa? Algo que identifique a vítima? Algo pessoal?

– Não. O que se torna bem estranho. Vítimas assim costumam deixar alguma coisa no carro, agasalhos, latas de refrigerante, qualquer coisa comum dentro de um carro. Esse aí estava bem limpo.

– Ele pode ser alugado. – Cherry se levantou, varrendo os olhos pela estrada novamente.

O guincho estava se aproximando do acostamento.

– Verificamos a placa. – disse o policial – O carro não é alugado. Pertence a Edward Lenox.

Cherry não reconheceu o nome, mas tinha certeza de que era um dos homens da Família. Fridda não dirigiria nenhum carro que não fosse de seu gosto e ela costumava ter muitos a sua disposição devido aos vários contatos que tinha pelo mundo.

Menos mal. Lenox saberia dar um jeito na situação e dispensar o olhar curioso da polícia.

Cherry não queria ninguém procurando pela vítima daquele acidente. Ela era a caçadora naquela empreitada e seria ela a devorar a carne de quem ousou por as mãos em sua Bestemor.

– Obrigada. – Cherry olhou para o policial. – Peguei tudo o que preciso.

O guincho deu uma buzinada e fez menção de se aproximar das faixas. Cherry aproveitou aquele momento para escapulir daquela cena e voltar para seu carro. Através do vidro fechado, observou enquanto o Pagani era içado, tremendo toda a lataria amassada.

Ela voltou seus olhos para suas próprias mãos no volante, sentindo a raiva crescer como se uma leoa adormecida despertasse dentro dela. Quem quer que houvesse levado sua Bestemor, planejou tudo muito bem. Desde atraí-la para aquela estradinha de merda em Moscou até a parte da emboscada.

Ela sacou o envelope que trazia numa pasta escura e retirou dele uma folha de papel. Escrito meticulosamente e com certo capricho estava ali o endereço de Ludwing Thorvaldsen.

Cherry fitou a continuação da estrada e um esboço de sorriso cruel se formou em seus lábios.

Ludwing residia próximo a Villa Rombersky. Por isso Fridda se encontrava naquela estrada erma cercada por uma floresta esbranquiçada de neve. O que um membro sofisticado e em alta posição da Família fazia morando num município tão pobre, ela não sabia. Mas pelo que ouvira dizer do Austríaco, ele preferia lugares solitários.

Cherry deu partida no carro e seguiu adiante, lançando um olhar mórbido para o Pagani sendo levado pelo guincho. Os dois policiais russos a olharam com curiosidade quando o carro passou por eles, desaparecendo na estrada deserta e levemente coberta de neve.

 

Continua…

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