Renascida

lilith

“Não havia motivos para toda aquela encenação patética, ou havia?

De cem em cem anos, como uma maldição vil, minha essência era obrigada a retornar, e eles repetiam o mesmo ritual para me expurgarem desse mundo.

Eu volto bela, impecável e frágil, ironias a parte é pra facilitar que me matem com mais eficacia, mas ainda anseio por receber minha parte no mundo, afinal de contas nada mais justo.

Eu era uma de suas criações e o homem em si tinha sua parte na hierarquia celeste, por que eu não deveria ter? Ele era meu igual, Adão. Eu era a primeira mulher. Aquela que todos queriam esconder. Por que?

Por que eu não quis ser subjugada. E assim como a que veio a seguir, pagaria com dor e sangue, eu pagaria com opressão e sangue pelo ser criado com tanto amor de meu Pai, ainda acho que em algum canto recôndito ele se arrepende de ter nos criado.

Eles poderiam ferir – me a pele, o corpo. Mas, uma coisa era certa, eu voltaria sempre, e cada vez mais forte, até que nada do que eles fizessem me afetasse mais  e esse tempo não demoraria chegar.

Não nasci para ser inferior. Nasci para ser igual, mas algo me pegou no meio do caminho e me tornei superior…”

As mãos ainda estava cruzadas sobre o peito nu, formando um X enquanto o corpo voltava de um esquife de gelo pingando as gotículas da água gelada. A pele pálida e roxa dava mostras do frio que sentia.

Nos pulsos braceletes grossos e enferrujados pelo tempo, manchavam – se de sangue, cortando os frágeis pulsos.

As feições de seu rosto pareciam incrustadas no mármore, não exibiam qualquer tipo de reação, fria, sem vida… Nem de seus lábios saia se quer um gemido de dor.

A moça era empurrada desnuda pelo caminho de pedra da torre, enquanto sacerdotes ao seu redor faziam alguma prece em latim, até que um dos guardas misteriosamente perdeu o controle sobre si e derrubou a prisioneira, subindo em cima dela e tentando sufoca – lá. A risada de escárnio e a força a qual empregava na tarefa, parecia não surtir efeito sobre a moça, que apenas batia os pés no chão.

O soldado foi arrastado para longe, em seus olhos via – se nitidamente, a loucura. Loucura essa que o fez arremessar – se da janela, o grito varava a noite e causava pânico aos que viam o corpo caindo, o baque oco no chão deixou a vista de passantes perplexa.

A cabeça estourada no chão, o sangue se esvaindo do corpo em correntes cada vez maiores, a armadura amassada, e o corpo feito boneco de trapo em uma silhueta esquisita e desconexa.

A caminhada até o alto da torre continuava, no pórtico abobadado haviam mesas e mais mesas encostadas a paredes, grilhões se prendiam á colunas, a sala por mais que tivesse tal forma, parecia não ter fim.

Os braços dela foram presos em algum gancho suspenso, enquanto o carrasco, vestindo roupas vermelhas e tendo o rosto coberto por um capuz, cruzou a sala e gritou para um senhor muito idoso que aquecesse a fornalha, a noite seria longa…

O chicote com pontas de aço, cortava – lhe a carne  e ela continuava muda. Ele caminhou até sua frente e olhou nos olhos da moça.

A frieza o apavorou e o ódio tomou conta dele, buscou as aranhas espanholas que haviam sido aquecidas e estavam incandescentes e mostrou para a moça sorrindo de modo diabólico, como quem sente prazer em torturar.

O sangue pingava de seu corpo, quando as garras de metal das aranhas entranharam – se em seus seios. O grito dela finalmente invadia o recinto, ferramentas ainda estavam esquentando para arrancar sua  língua, e outro sacerdote marcava a pele clara, entre a coluna e as nádegas, ela fez menção de ajoelhar – se, mas as correntes presas ao gancho deixaram o corpo apenas pendurado.

A voz em sua mente a convidava, chamava, gritava pedindo passagem. Alucinações em meio a dor.

Mas o que ela tinha feito para merecer tais castigos?

– Você deve ser forte. – ouviu alguém dizer quando era jovem

O corpo ainda tinha cortes profundos e hora ou outra vinha a cera de vela liquida, quente, abrindo cada vez mais os ferimentos, que permaneciam sangrando. Ela foi solta e deitou – se no chão pedindo a morte.

– Qualquer outra pessoa já teria morrido. – ela ouviu alguém sussurrar espantado.

– Ela é diferente. E assim que acordar você saberá por que.

O rapaz de olhos cor de céu olhou de soslaio e escondeu o rosto sobre o capuz, colocou a mão no punho da espada e beijou o terço que tinha enrolado no pulso, olhando na direção dela.

O corpo foi solto no centro da sala, ela pedia a morte, a dor começava a se tornar insuportável e nem mesmo ela entendia como resistirá tanto. Os lampejos de memórias antigas começavam a fustigar sua mente. Piscava os olhos com maior rapidez, ela voltava…

Cem anos se passaram… O sino de alguma igreja ao longe soou alto a primeira badalada.

– Meu corpo… – disse ela mais para si do que para os outros.

As correntes a circundavam, prendendo braços, pernas e pescoço. Ao redor de cada pilar havia um homem munido de espada, foice, lança e arco, totalizando doze.

O primeiro grito, fez com que todos tampassem seus ouvidos com as mãos, o estalo fez com que todos dessem um passo atrás.

O grilhão antes no pescoço caia no chão, retinindo em eco pela sala, o riso sombrio corrompeu a face antes sem expressão.

“Eles desembainham espadas? É horrendo assistir essa cena.” – pensou ela

Os olhos antes castanhos claros escureciam gradativamente, enquanto estalavam – se os ossos, parecendo se realocar dentro da carne pálida que iniciava seu processo de cura imediata.

A pele manchada e ferida era arrancada com agilidade, junto ao restante dos grilhões que lhe prendiam.

Das mãos as pernas, das pernas aos pés, ela havia tirado a pele, lambendo vez por outra os dedos prazerosamente, enquanto seus olhos observavam as reações na sala.

O cabelo negro escorreu limpo sobre o seio desnudo, ela movia os membros que estiveram preso analisando a restituição.

– Estou completa. Finalmente! – a lufada de ar que invadiu a sala fez com que eles piscassem assombrados, estiveram paralisados durante tal processo, como era possível? Eles haviam feito tudo de acordo com o que seus ancestrais ensinaram, o que saiu errado?

– Doze? Tão irônico, não? – O corpo esbelto levantou – se do solo frio e colocou – se em pé, girou minuciosamente para eles e decidiu seguir até a direção da porta. Sairia sem danos, estava pronta, estendeu a mão em direção a porta e no mesmo instante chegou até ela um dos mantos presos a parede.

– Veludo? Quanto bom gosto, e numa cor tão forte… – ela mordeu o canto da boca e olhou desejosa para o rapaz de olhos azuis, jogou o capuz sobre a cabeça e começou sua caminhada até a saída.

O primeiro sacerdote a sair do torpor correu em seu encalço e á atacou, a lança perpassou suas veste e ela olhou assombrada.

– Como ousas ferir – me? A caso não sou criada do mesmo pó que você? A caso não sou eu filha do mesmo Pai?

– Você. É. Um. Demônio! – ele gritou, cuspindo em seu rosto.

– Então é á isso que fui rebaixada? Que assim seja…

O ódio habitou naquelas palavras, a lança foi arrancada de seu ventre e quebrada na palma de sua mão, ela aproximou – se do homem, sussurrando algo em seu ouvido que o fez arregalar os olhos  e atravessou o peito dele, arrancando – lhe o coração.

Ele caiu de joelhos, enquanto ela apertava com veemência o ser quente e pulsante até vê – lo transformar – se em pó.

Ela praticava com um á um, as atrocidades que eles praticariam com ela se resistisse a primeira noite encarnada, alguns de uma forma bem pior.

Eram empalamentos, onde as vísceras saiam pelas bocas das vítimas, que agonizavam. O ferro quente queimando a retina dos olhos tornando – os cegos, ossos quebrados com marretas em lugares estratégicos, com a precisão de um médico para que o sofrimento se prolongasse. Línguas arrancadas com o alicate recém saído da fornalha, marcados com o ferro que a marcaram.

O sangue enchia o recinto com o cheiro de ferrugem, misturado ao odor de braços e pernas queimando na fornalha.

– Falta você, não é mesmo? – ela se dirigiu ao rapaz de olhos azuis.

Apoiou – se na perna quebrada e apertou, enquanto ele gritava ainda segurando o punho da espada, ela o olhava de cima a baixo ele se esforçou e levantou a espada, enrolada ao terço e apontou para seu pescoço.

– Eu espero realmente que você sobreviva, meu querido. Vou precisar de um companheiro leal.

A espada passou direto pelo pescoço dela, cortando apenas alguns fios de seu cabelo, ela rasgou as vestes ensanguentadas e enfiou a mão no peito do rapaz, segurando seu coração ali.

Ele gritava, e seus ossos se partiam, a pele ardia como se pegasse fogo.

– Pater, in manus tuas commendo spiritum meum¹ – era o último suspiro.

– Não! – ela disse com ira. – Você agora ME pertence.

O silêncio se instaurou no lugar, enquanto ela se erguia do chão olhando ao redor.

– Oras vivas! Estava em tempo de retornar para viver a eternidade – a voz grave a fez virar – se com ódio.

– Estrela da Manhã… – ela cuspiu as palavras

– Tivemos um péssimo começo e… – disse ele cheio de lisonjas.

– Suma! – ela balançou a mão de um lado a outro e virou – lhe as costas.

– Não há lugar para você no mundo, venha comigo.

– Eu farei o meu lugar. – ela saiu porta a fora sem olhar para trás, deixando – o sozinho na sala de torturas.

Desceu as escadas de pedra e olhou para o alto vendo a Lua Cheia tomar posse do céu, era ela naquele instante. A força, a liberdade, o seu quinhão. Ela existia… Ela sobreviverá…

– Senhora? – chamou a voz atrás de si.

– Meu querido! – respondeu ela sorrindo.- Venha, dê – me seu braço.

O rapaz amparou – a como um cavalheiro. A barba por fazer e os cabelos cor de cobre encaracolados lhe conferiam um ar jovem, um rapaz com pouco mais de 25 anos. O corpo másculo por baixo das vestes rasgadas e a pele bronzeada lhe davam a aparência cobiçosa, condizente ao pecado…

– Para onde iremos Mi Lady? – perguntou ele com delicadeza

– Para o futuro, meu querido. Para o futuro. – respondeu ela sorrindo…

 

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Tempos Atuais…

– Posso lhe pagar uma bebida? – perguntou o rapaz tímido

– Claro, que mal há, não é mesmo? – sorriu ela, mostrando os dentes perfeitamente brancos, enquanto os olhos corriam pelo corpo do rapaz.

– Você vem sempre aqui? – disse ele passando as mãos pelo cabelo nervoso.

– Só quando quero me divertir. – disse ela olhando profundamente para aqueles olhos castanhos, que agora se deixavam hipnotizar e aproximavam – se dos lábios dela.

– Senhora? – perguntou outro rapaz de feições joviais atrás dela. – Precisa de ajuda? – olhando para o rapaz com cara de abobado.

– Não, meu querido Henri, apenas divirta – se. Olhe ao seu redor, meu querido, aproveite os prazeres da carne.

O rapaz sorriu e fez uma reverência olhando para uma loira escultural no meio da pista de dança.

– A propósito Henri. – ele parou no meio do caminho. – Volte para mim, meu querido, sim.

Ele fez o caminho de volta e sorriu olhando nos olhos dela, que entrelaçou as unhas pintadas de negro nos anéis de cobre de seu cabelo e o beijou fervorosa, enquanto a mão dele subia seu vestido e arrancava- lhe a calcinha…

– Sempre voltarei, minha senhora. – disse ele sussurrando em seu ouvido.

Eles trocaram um olhar de cumplicidade e o tempo voltou a correr. O rapaz a frente dela balançou a cabeça de um lado á outro e sorriu desajeitado.

– Não perguntei seu nome.

– Lilith. – ela sorriu, sorvendo o Martini com sutileza.

– Nome peculiar. – disse ele

– Eu diria… Apropriado. – ela sorriu e puxou o rapaz beijando – o.

O som alto da balada cheia de “filhinhos de papai” era ensurdecedor e emanava luxúria, ela agora era deusa, traçará sua escalada e seu caminho. Fez o próprio mundo e conquistou inimigos de dois lados poderosos, não se curvaria jamais…

Não nasci para ser inferior…”

 

“Please allow me to introduce myself
I’m a woman of wealth and taste
I’ve been around for a long, long year
Stole many a man’s soul to waste…”²

FIM?

  • ¹Pai, em tuas mãos entrego meu espirito.
  • ²Sympathy for the devil – Rolling Stones

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