A Deusa da Chama Vermelha (Pt.1) – O toque do fogo

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Por Mille Meiffield

Não me lembro muito bem da minha infância. Sei apenas que passei necessidade de alimentos, de carinho e de atenção. Fui jogada de orfanato em orfanato, de lar adotivo em lar adotivo e nunca me deram a menor chance de ter uma família de verdade. Hoje, por mérito próprio começo meu primeiro dia de aula em Albie Hall, a melhor escola de ensino médio de Albany – Óregon.       Eu era a bolsista, não que isso me importasse, mas ser novata e ainda mais, bolsista, fazia com que eu fosse a excluída. O que eu sempre fora. Eu havia chegado mais
cedo do que os outros alunos, não queria ter que encarar um bando de riquinhos me olhando torto antes mesmo de ter me instalado no meu quarto. Ah, eu não mencionei? Albie Hall é um internato onde só os alunos mais ricos do país estudam. Como bolsista a escola me oferecia uma mesada generosa para gastar como eu quisesse e fiquei muito grata por isso, assim não teria que trabalhar à noite para bancar meu material escolar, já que as aulas iam das nove da manhã às seis da tarde.

                Meu quarto ficava no terceiro andar. Não havia essa distinção entre dormitório de meninos e meninas. Eram dois alunos por quarto e agradeci silenciosamente – a quem estivesse ouvindo minhas preces – o fato de que minha colega de quarto ainda não havia chegado.

                Desfiz minha única mala metodicamente. Organizei meus poucos livros e meus únicos dois CD’s em uma prateleira na estante ao lado da cama que ficava perto da janela que tinha vista para um lindo jardim florido.

                Peguei minha escova de dente, meu shampoo e meu condicionador e levei para o banheiro. Assim como o quarto, o banheiro também era grande e tinha um piso claro e lustroso. Fazia bastante calor para essa época do ano, então resolvi tomar um banho já que estava sozinha mesmo. Então voltei para o quarto e peguei minha toalha. Entrei de novo no banheiro, pendurei a toalha no gancho ao lado do box e liguei a água quente. Precisava relaxar e nada melhor do que um banho quente para isso.

                Depois de alguns minutos, ouvi uns burburinhos vindos do quarto e resolvi me apressar no banho. Desliguei o chuveiro e peguei minha toalha. Me sequei e me enrolei nela. Abri a porta do banheiro tentando não fazer barulho e vi do outro lado do quarto uma garota mais ou menos da minha altura, cabelos negros e lisos, pele pálida com o corpo esguio. Ela estava virada para o outro lado, falando ao telefone. Não entendi muito bem sobre o que foi a ligação, mas parecia que era uma questão financeira. Ela se virou e ao me ver, imediatamente desligou o telefone.

                – Anh, oi. – ela disse.

                – Oi. – dei um meio sorriso a ela.

                – Então você é minha nova colega de quarto? – perguntou. – Prazer, sou Andy Mills.

                – Rubi Campbell. – apertamos as mãos. Ela parecia ser simpática, então acho que ganhei a colega de quarto certa.

                – De onde você vem Rubi. – indagou Andy.

                – Minnesota.

                – Uau! – Andy gritou. – Sabe, eu sou daqui mesmo do Óregon. Mas soube que nosso próximo semestre vai ser no Campus de Bar Harbor no Maine.

                – Maine? – indaguei confusa.

                – Não foi informada que a escola muda de Campus a cada semestre? – indagou Andy. – No semestre anterior estávamos na Flórida. Parece que isso faz com que nossa cultura fique atualizada ou qualquer dessas bobagens. Estou ansiosa pelo semestre em Nova Iorque.

                – Não sei se eu poderei ir para outro estado.

                – A escola libera tudo com seus pais. E com dezesseis anos eles emancipam você.

                – Eu não tenho pais. – eu disse sem pensar. – É que…. eles faleceram quando eu era pequena. Eu morava com um tutor quando conheci o programa da escola e me inscrevi.

                – Então provavelmente os líderes já a emanciparam. – disse Andy. – Você vai amar o Instituto. Aqui em Albie Hall sempre temos algo de interessante para fazer.

                – Eu já estou adorando. – eu disse –  Só de sair da casa de uma pessoa que literalmente me odeia, já faz com que eu me sinta bem.

                Andy sorriu e começou a remexer suas bagagens. Pegou uma pequena valise e tirou um colar prateado com um pingente em forma de pêndulo de cor vermelho sangue.

                – Andy. – chamei. – Esse pingente tem algum significado? Vi duas garotas conversando mais cedo e ambas usavam pingentes parecidos com o seu, mas de cores diferentes.

                – Quais as cores? – indagou

                – Um vermelho um pouco mais claro que o seu e um azul claro.

                – Baby e Lirya. – Andy parecia estar ponderando para saber exatamente o que podia e o que não podia me contar. –  Temos um Conselho especial que só alunos em destaque entram. Alguns alunos passam a vida toda tentando fazer parte do conselho em vão. Não precisamos nos destacar apenas nas matérias do colégio. Precisamos nos destacar para…

                – Andy Mills? – perguntou uma garota   loira que usava um óculos estranho depois de bater na porta e a abrir em seguida. – Zayn pediu que eu a avisasse que hoje teremos uma reunião importante de inicio de semestre.

                – Obrigada Faye. – Andy me olhou pelo canto do olho e vi que percebeu minha animação como se a noticia fosse para mim e não para ela. – Faye Krammer, essa é Rubi Campbell,  minha nova colega de quarto.

                – Olá! – desse Faye.

                Eu apenas acenei para ela.

                Não queria me intrometer na conversa das duas, então pedi licença e fui dar umas voltas por aquele lugar gigantesco.

                Desci a enorme escadaria que dava para o salão principal. Tudo parecia quieto demais. Se fosse uma escola normal esses corredores estariam um verdadeiro pandemônio.             Aqui, os corredores eram desertos quase o tempo todo. As aulas começariam no dia seguinte, então resolvi aproveitar meu tempo livre fazendo o que eu fazia melhor   , espreitar nas sombras.

                O campus não era tão grande como numa escola comum. Pelo que eu havia sondado não mais que cem alunos frequentavam as aulas.

                O instituto constituía em dois prédios. O prédio principal, onde moravam os professores e onde eram ministradas as aulas. E o prédio adjacente, onde era o dormitório dos alunos.

                Ambos eram envoltos por uma floresta de árvores altas e segundo alguns parcos textos sobre o instituto, que encontrei na internet, no interior da floresta havia um lago magico. A curiosidade sempre me fazia arrumar encrenca, mas a vontade de desvendar mistérios me deixava ávida por respostas.

                Olhei ao redor para ter certeza de que ninguém estava me olhando e corri até a entrada da floresta. Dois grandes abetos ladeavam uma trilha de terra e folhas secas. Após uns cinquenta metros floresta adentro parei de correr e comecei a apreciar a vista. Tinha que procurar paisagens distintas para não me perder ali. Caminhei por cerca de quarenta minutos até que comecei a ouvir barulho de água. Resolvi apressar o passo em direção ao barulho até que saí em uma clareira e um lago de água cristalina surgiu a minha frente. Realmente parecia mágico. O lugar em si tinha um toque mágico e lúgubre ao mesmo tempo. Dobrei a calça jeans até a metade da canela, tirei os tênis e mergulhei os pés na agua fria.

                – Eu adoro fazer isso. – quase gritei de susto quando ouvi aquela voz grave e assustadora. – Não se assuste, sou um dos seus colegas de classe, Jaden Hunt. Ouvi alguém vindo e pensei que fosse a Kristy tentando me seduzir de novo.

                – Não me assustou. – eu disse pateticamente. – Quero dizer, não me assustou muito. – Ele começou a rir. Jaden tinha a pele bronzeada, cabelos negros espessos, olhos cor de mel e um sorrisinho metido encantador.

                – E você é ?

                – Rubi Campbell.

                – Campbell? – ele parecia meio temeroso. – Você é neta de Willa Campbell?

                – Nunca ouvi esse nome, então… creio que não. – eu disse meio confusa. – Meus pais morreram quando eu era bem pequena, então não posso perguntar a eles.

                – Mas você sabe que não chegou aqui por acaso né?

                – Como assim? Eu estudava quase vinte e quatro horas por dia para conseguir a bolsa integral para o instituto. – disse irritada.

                – Não foi isso que eu quis dizer. Não quis dizer o instituto, quis dizer aqui. A clareira.

                – Na verdade…Ai! – minha pele parecia ter sido tocada por alguma coisa quente, muito quente.

                – Foi isso que eu quis dizer.

                – Anh? – eu parecia uma retardada, mas realmente não fazia ideia do que estava acontecendo.

                – Pessoas comuns não encontram a clareira, e se por acaso encontram, não enxergam o lago. Elas veem um buraco grotesco e lamacento e acabam indo embora, mas no geral não encontram.

                – E o que isso tem a ver comigo?

                – Rubi, você deveria tentar pesquisar mais sobre sua família. Tenho minhas suspeitas quanto a sua linhagem.

                – Eu não faço a menor ideia do que você está falando.

                – Isso que aconteceu com sua pele vai acontecer de novo e de novo até você conseguir controlar e entender melhor seu dom.

                – Dom?

                – Sim, acho que você deveria fazer parte dos Diletos.

                – O que seriam Diletos?

                – Em breve você vai saber.

                – Por que você não me…. Ahhh! – arfei com a dor que me afligiu. Minha pele começou a crepitar com uma luz vermelha.

                – Entre no lago. – gritou Jaden.

                – Porquê? – gritei.

                – É o único jeito de apagar a chama vermelha.

                Mergulhei no lago e minha pele foi coberta por um frescor ardente. Minha pele não estava mais crepitando, mas ainda estava avermelhada e formigava em alguns pontos. Senti um puxão em meu braço e fui tirada do lago. Tossi com força para tentar expelir a água dos meus pulmões. Jaden tirou a camisa e secou meu rosto.

                – Você está bem?

                – O que aconteceu? O que era aquilo.

                – Você é uma de nós. Eu sabia. Você é a Dileta que carrega a Chama Vermelha.

                E como se Jaden tivesse acionado uma bomba nuclear, tudo a nossa volta explodiu.

***

Continua

 

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