Medusa

 

 

 

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Escrito por Naiane Nara

Meu corpo dói. Água cai, incessantemente, em algum lugar deste inferno. Abro os olhos, mas só consigo divisar vultos. É tão escuro e frio. Meu corpo está pegajoso e ouço vozes a sibilarem algo…

Tento ver minhas mãos, mas elas não estão lá. Os vultos pertencem a garras pontiagudas e não a minhas pequenas e delicadas mãos. O cheiro é de carne deixada a apodrecer, não o doce aroma que sai da minha pele.

O que pode estar acontecendo? Como vim parar aqui?

Os sibilos aumentam e minha respiração ainda é difícil, a sensação é de estar me afogando. Inspirar dói, expirar queima. Por que estou sozinha, onde estão os guardas? Nunca deixam ninguém da realeza só, a menos quando vamos fazer as oferendas no Templo…

O Templo.

De repente, um reflexo de luz entra por uma fresta no teto e consigo olhar minhas mãos transformadas em garras de pesadelo. Flashes de memória da última vez em que a luz do dia alcançou-me doem até o fundo da alma.

Então, começo a gritar, usando as garras para destruir o que encontro. As vozes que sibilavam gritam comigo e fazem escorrer algo pelo meu pescoço, um líquido malcheiroso que queima…

Urro de dor e agonia ao lembrar daquelas mãos…

*****

O Sol brilhava de forma estonteante. Escolhi a melhor túnica branca para o dia de ritos. Como uma das sacerdotisas, deveria estar apresentável. Como princesa, deveria servir de modelo. A mais bela das diademas, presente de meu pai, foi posta em minha cabeça. As servas, pressurosas, haviam untado meu corpo com óleo e agora dispunham o colar e as pulseiras pelo meu corpo.

– Estou pronta! – Anunciei. Os guardas reais fizeram uma mesura para que eu me adiantasse. Pude perceber que estavam admirados e seus olhos brilhavam.

Um suspiro percorreu a todos os presentes quando me apresentei no Salão, seguidos do silêncio. Corei, inevitavelmente, e fui recebida por uma salva de palmas.

– Um brinde a mais bela de todas, à princesa mais velha! – A rainha já erguia a sua taça.

Corei ainda mais, e não tive coragem de erguer os olhos. Sussurrei devagar:

– Mãe, não.

Mas as pessoas já a acompanhavam e gritavam em uníssono:

– Um brinde à Medusa, à mais bela princesa, à mais piedosa sacerdotisa!

O rei meu pai não cabia em si de felicidade. Minhas irmãs mais novas correram até mim, mas não havia vestígios de inveja em seus olhares. Nos abraçamos e arrumamos nossas posturas para iniciar a caminhada até o templo de Athena, nossa Deusa.

Os servos e guardas jogavam pétalas de flores à nossa frente. Lá fora, até o Sol parecia brilhar com suavidade para não ofender nossas peles. As pessoas deliravam vendo as princesas tão próximas. Mas certamente o dia era reservado a mim. Jogavam até presentes, ouro e tecidos finos, gritando meu nome.

Senti um arrepio de advertência, e sem saber por que, procurei por um olhar gelado na multidão. Não encontrei ninguém, apenas rostos sorridentes. Porém eu sabia que aquele olhar estava sobre mim, a sensação era gelada demais.

Tentei ignorar enquanto dava adeuses à multidão que nos acompanhara e me preparava para entrar sozinha no Templo, seguida das minhas irmãs. Os guardas permaneceriam do lado de fora, não se perdoariam por ver os cultos femininos com seus próprios olhos, consideravam desrespeitoso.

Entramos, e a sensação gelada aumentou. Tentei não transparecer nada as minhas irmãs, certamente era engano, estávamos no lugar mais seguro do mundo. Beijei-as na testa, e cada uma pegou sua oferenda com cuidado, para não cair nem sujar as mãos.

Sorrimos umas as outras e nos afastamos, cada uma para um altar, cada altar localizado em um extremo do Templo.

Assim que fiquei só, acendi a pira, a sensação de medo aumentando ainda mais. Ofertei o que havia trazido e me coloquei na posição de prece.

Foi quando o pesadelo começou.

A respiração gelada no meu pescoço fez com que abrisse imediatamente os olhos. Uma mão poderosa puxou-me pelos longos cabelos e fez com que me deitasse de costas para o chão frio.

Lutei, é claro. Mas como uma princesa mimada e que nunca foi submetida a treinos vencer um guerreiro?

De qualquer forma, já chorava, antecipando a desolação que viria, sem deixar de estapear e chutar, tentar de alguma forma impedir.

Mas ele conseguiu prender os meus braços, levantar a túnica e abrir minhas pernas, mesmo que eu me esforçasse para mantê-las unidas.

Se gritei? Sim, até ficar rouca. Até que ele me batesse. Até que me sufocasse. Até que perdesse os sentidos.

Quando acordei, estava só. Com as vestes rasgadas e o corpo coberto de hematomas, com muito custo consegui sentar-me. A pira estava acesa ainda, então pedi ajuda divina, procurando consolo, sentindo-me suja…

Uma linda mulher apareceu. Muito alta e imponente, de beleza indescritível. Seus olhos cinzentos choravam e aparentavam decepção.

-Athena!

Não consegui encará-la, coberta de vergonha. Tentei rastejar até seus pés, mas ela se afastou e fez um sinal com as mãos, como quem diz: basta!

Ela ainda chorava, e seus longos cachos balançavam com o vento.

*****

Agora entendo. Fui punida por ela, a quem eu amava. Ela, com quem me sentia segura. Aquela que a tantos anos atendeu as minhas mais ingênuas preces.

Tudo por que aquele que destruiu-me é um dos seus. Ah, é claro que sei quem era, apesar de nunca tê-lo visto antes. O cheiro de maresia ainda estava em meu corpo. Seus olhos tinham a cor das tempestades.

O Rei dos Maremotos, Senhor dos Mares.

Nunca tive nenhuma chance.

A decepção e inevitabilidade do mundo real atingiram-me em cheio, fazendo murchar toda a esperança que eu havia tido no mundo.

Senti finalmente que aquilo que sibilava eram meus lindos cachos louros transformados em serpentes. Chorei ao perceber que seria para sempre um deserto seco e sem vida.

Minhas lágrimas me queimam e brilham na escuridão.

De repente, passos. Um jovem rapaz entrando, provavelmente por engano, nas ruínas onde me encontro.

Recuo por instinto, por medo do que ele possa me fazer. Ele se aproximou, perguntando se precisava de ajuda. Pude reconhecer a lascívia no rosto, a alegria da possibilidade de ter encontrado uma jovem perdida e indefesa.

Tudo que eu não era mais.

Deixei que ele se aproximasse, e me posicionei em uma réstia de Sol que chegava por outra fresta do teto.

– Olhe para mim.

Minha voz ainda era doce, então ele obedeceu. Seu rosto permaneceu imperturbável pela eternidade, petrificado para sempre em meu jardim agora repleto de estátuas novas.

****

Fim

Será?

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2 comentários em “Medusa

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