No Bosque da Solidão (Pt.2)

no-bosque-da-solidao-p2

“Memórias. Não são só memórias
São fantasmas que me sopram aos ouvidos
coisas que eu nem quero saber”
“Memórias”, da Pitty

untitled-1

O carro estava trancado embora Mel não acreditasse que alguém fosse tentar roubá-lo, assim como duvidava que aquela era uma área movimentada, como um canto esquecido da ilha. Com cautela, aproximou-se do portão de ferro e tentou ver alguma coisa do outro lado que indicasse do que se tratava aquele lugar. Não havia porteiro eletrônico e uma corrente grossa, fechada com cadeado, impedia a passagem.

O portão estava enferrujado, e a jovem ficou um pouco receosa em tocá-lo para tentar forçar a passagem. Não sabia por que queria entrar ali, mas sentia que devia. Ela ainda segurou o cadeado antes de dar uma última olhada para o interior do terreno e caminhar de volta para o carro. Chegou a pegar o celular para verificar o endereço de sua avó pelo aparelho, quando um rangido lento e agourento a fez se virar.

A corrente, como uma serpente, escorregou até o chão com o cadeado caindo ao seu lado enquanto o portão se abria. Mel olhou ao redor, aproximando-se uma vez mais e atravessando o limiar entre a propriedade e a calçada. O caminho à frente era estreito e de terra batida; um pouco úmida, afundando sob as pisadas da jovem. E assim foi por cerca de cinquenta metros até fazer uma curva para a esquerda, e o chão mudar de maneira repentina — como uma obra inacabada — para ladrilho.

As árvores começaram a ficar mais afastadas umas das outras ao passo que os arbustos foram ocupando mais espaço, e no meio do matagal, uma escultura de mármore; um anjo de formas femininas, cujas asas quase o envolviam em um abraço. O rosto delicado olhava para baixo, com olhos semicerrados como se estivesse sonolento. Os lábios pequenos, entreabertos, pareciam murmurar algo.

Curiosa, Mel se aproximou com cautela até ficar em frente à estrutura que se erguia mais de um metro acima de sua cabeça. Na posição em que estava, era como se o anjo a observasse com candura. Descendo o olhar, notou algumas palavras escritas na base, precisando afastar os arbustos para conseguir ler:

“So, hush, — I will give you this leaf to keep:
See, I shut it inside the sweet cold hand!
There, that is our secret: go to sleep!
You will wake, and remember, and understand”

— Então se apresse, dar-lhe-ei essa folha para que a mantenha: veja, guardei-a dentro da doce mão fria — murmurou ela, traduzindo com seu pobre conhecimento em inglês. — Aí está, esse é o nosso segredo: vá dormir! Você irá acordar e lembrar e entender.

E embaixo dessas palavras, “Virginia McKenna”. Sabia que a avó tivera uma irmã que morrera muito jovem e acreditava que aquele era o seu nome. Tirando o celular do bolso da calça, acionou a câmera, apontando para as palavras a fim de descobrir o seu significado mais tarde, quando tivesse acesso a uma internet decente.

— O que ‘cê tá fazendo aqui, minina?! — No susto, a foto acabou saindo tremida enquanto Mel se virava.

A alguns centímetros de distância, uma mulher idosa a encarava com suspeita. Levando a mão ao coração, que batia acelerado graças ao espanto em encontrar outra pessoa por ali, Mel começou a rir de nervoso. A senhora permaneceu onde estava, esperando por uma resposta que só veio quando a outra reencontrou sua voz.

— Desculpa, é que eu tô na ilha pra visitar a minha avó e acabei passando aqui em frente, então…

— Resolveu invadí? — completou a idosa com seus olhos semicerrados.

Seus cabelos brancos estavam trançados de maneira displicente. As roupas pareciam apenas um amontoado de panos que deixariam qualquer outro suando em bicas. E apesar dos fios grisalhos e algumas rugas, a jovem não conseguia vê-la como uma pessoa muito velha, ainda que seus olhos escuros transmitissem sabedoria. O perfume súbito de rosas quase a deixou inebriada e poderia jurar que vinha da mulher.

— Não, longe disso! Até pensei que estivesse fechado, mas o cadeado ‘tava aberto. As correntes, inclusive, devem estar caídas no chão lá na entrada. — Mel falou tão rápido que duvidava que a mulher tivesse compreendido alguma coisa. — Meu nome é Amélia McKenna — disse, estendendo a mão na direção da desconhecida.

— Eu sei quem tu é. — A outra respondeu, ignorando a tentativa de cumprimento. — Tua vó não vai gostá nada de saber que tu teve aqui.

— Por quê? E esse nome aqui, quem foi Virginia?

— Acho que é melhor ‘cê imbora, mocinha — falou a senhora, como se não tivesse ouvido as perguntas. — Vá pra casa da tua vó e esqueça o bosque da solidão.

Dito isso, começou a caminhar em direção à saída, e por mais que Mel tentasse alcançá-la, os arbustos dificultavam suas passadas. Ela pediu para que a outra parasse, perdendo-a de vista, mas, sem deixar de sentir o perfume de rosas, correu até parar em frente ao portão de entrada mais uma vez. O único vestígio de sua presença era a fragrância floral que permanecia no ar.

— Eu juro que não queria invadir! — gritou, torcendo para que a mulher a ouvisse, mesmo que não fosse inteiramente verdade.

Deixando o bosque para trás, sem se esquecer de fechar o portão, entrou no carro e ali ficou por um tempo, pensando no que tinha acontecido. Mel ainda olhou para o portão de ferro mais uma vez antes de ligar o carro, assim como o GPS e o mp3-player, que funcionaram sem apresentar problema algum. “Ótimo”, pensou, observando a rota e seguindo seu caminho.

A casa de Josephine McKenna, por coincidência ou não, ficava a quinhentos metros do bosque, afastado de todo o resto. Pouco mais de cem metros marcavam a distância entre a estrada e o casarão ao estilo colonial, muito bem conservado, de sua avó. Mel passou por um corredor de árvores, com um lago à sua direita. A residência, de paredes muito brancas, estava apinhada de janelas com floreiras em um tom de mostarda. Não conseguia imaginar a mãe, tão humilde, vivendo naquele lugar.

Ao estacionar o carro, viu uma movimentação dentro da casa; algumas sombras atrás das cortinas que começaram a andar em direção à porta de entrada. Não duvidava que um local tão grande quanto aquele exigisse uma demanda considerável de empregados, já que tudo parecia impecável por fora. Enquanto desligava o carro, a porta se abriu e apenas uma mulher — branca como papel — surgiu. Os cabelos ruivos estavam presos de maneira firme à nuca, e o uniforme de empregada parecia muito bem alinhado.

— Boa tarde, Srta. McKenna. — A mulher aparentava ter, no máximo, trinta anos. — Seja muito bem-vinda. Meu nome é Darina.

— Ah, valeu, Darina — respondeu Mel, surpresa com a polidez dela.

— A Sra. McKenna pediu que deixasse a mala do carro aberta, para que levássemos seus pertences para o quarto.

— Sem problema, mas você não vai carregar sozinha, né? — perguntou, duvidando que uma moça de aparência tão franzina fosse aguentar o peso de suas bolsas. — Eu posso levá-las e…

— Ah, não, não precisa — cortou-a, sorrindo. — A senhorita já fez uma viagem muito longa e precisa descansar. Os outros empregados e eu daremos um jeito.

— Tá bom, então. ‘Brigada, Da… Desculpa, não sou muito boa com nomes — admitiu um pouco envergonhada.

— Darina — respondeu a empregada, sem se importar. — A Sra. McKenna a aguarda na sala de estar. É só entrar por aqui e virar à direita duas vezes. A porta está aberta.

Mel agradeceu mais uma vez, um pouco receosa em entrar na casa, sem saber ao certo o motivo. O terreno, de maneira geral, transmitia-lhe muita serenidade e era isso o que estava procurando, mas o interior da residência não possuía a mesma atmosfera convidativa; a temperatura pareceu cair alguns graus, fazendo a jovem enterrar as mãos nos bolsos do casaco. O lugar parecia preservar a essência da metade do século XIX e era como estar visitando um museu.

A sala de estar não foi difícil de encontrar, e a primeira coisa que notou foi sua avó parada a alguns metros de distância, em frente a uma das janelas, observando a paisagem. Mel chegou a erguer a mão para bater na porta de madeira, mas a mulher se virou antes, encarando-a. Josephine a estudou dos pés à cabeça antes de voltar a olhá-la nos olhos e abrir um sorriso.

— Que tolice da minha parte em pensar que encontraria uma menininha de cinco anos à minha porta — disse ela, caminhando na direção de Mel. — Achei o cabelo bem… divertido. Josephine levou a mão às madeixas da neta, segurando alguns fios entre seus dedos. — Seja bem-vinda, Amélia.

— ‘Brigada. — Foi a única coisa que conseguiu responder antes de receber um abraço terno da senhora.

Também não se lembrava dela com cabelos tão brancos, nem com tantas rugas, mas preservara a beleza da juventude apesar de tudo. O vestido preto que usava parecia um pouco formal para a ocasião, longo o suficiente para lhe tampar os pés, mas esse parecia ser o estilo dela.

— Venha, venha — falou, animada. — Temos muito o que conversar.

Gostou? Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s