A Bruxa de Praga – Ira Sedosa

Por: Natasha Morgan

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A chama da vela se acendeu com um sussurro, iluminando parcialmente a profusão de poeira do velho porão.

A madeira do assoalho e das paredes já não tinham o brilho de quando a casa era nova, o marrom lustroso deu lugar a uma cor opaca, enfeitada de teias de aranha. O chão rangia ao mínimo peso e exibia algumas fissuras.

Um lugar um tanto sombrio ao qual poucos naquela casa frequentavam. Em geral era mais um quartinho para abrigar entulho.

Mas velharia não era a única coisa preservada por aquele lugar.

Ao fundo do porão, depositado com majestade, repousava um altar.

A mesa redonda de carvalho era coberta por cetim cor de ferrugem. Sob o tecido fino repousava um castiçal de cobre que abrigava elegantemente três velas vermelhas, um caldeirão, alguns recipientes de vidro com ervas e poções, e um livro grosso de capa negra. Na parede, uma espada de cabo negro e lâmina fria.

A jovem ajoelhada em frente ao altar era a dona do sussurro aveludado que ordenou que a chama da vela se acendesse. O vestido longo e acetinado que usava era do mesmo tom ferruginoso do altar, expondo a pele sedosa dos ombros. Seus cabelos negros como o ébano caíam em cascatas elegantes pelas costas esguias, emoldurando um rosto sedutor e destacando os olhos cinzentos. Seus lábios sedutoramente cheios entoaram uma prece sussurrada e uma brisa gelada tocou seu rosto numa carícia sombria.

– Scatha, Senhora das Sombras, Deusa guerreira, Aquela que combate e semeia o medo. Mentora dos guerreiros, Rainha de Skye. Eu a saúdo esta noite.

A garota preencheu o cálice de estanho com uma bebida tinta e o depositou em cima do altar, junto ao castiçal com as velas vermelhas.

Antigamente era oferecido sangue de animais, mas Báirbre não ousava tanto e a Deusa nunca lhe pedira tal sacrifício.

A garota inspirou profundamente, sentindo as sombras se mexerem inquietas por dentro, como sempre acontecia quando saudava ou se aproximava da Deusa.

Scathach, Scath ou Scatha, a Deusa Irlandesa guerreira, Aquela cujo nome significa sombras, Aquela que combate ou semeia o medo. Deusa guerreira que habitava a ilha de Skye, na Escócia e treinava os mais potentes guerreiros de forma dura e impiedosa. Deusa em seu aspecto sombrio, guerreiro e ríspido.

Os agraciados por tal Deusa tinham as sombras, a coragem e a raiva espreitando pela alma.

Báirbre tivera a honra de ser regida e adorada por Scatha. Um presente que lhe aquecia a alma. Exceto pelas sombras furiosas e geladas que estavam sempre preparadas para irromper de seu ser. Isso a assustava mais do que qualquer coisa espreitando a noite, pois sabia o que podia advir se perdesse o controle.

O mais prudente a se fazer era mantê-las controladas. Especialmente quando vivia sob tão complicada situação.

Báirbre era uma bruxa. Herdara da mãe o lado especial da família. Por toda sua vida fora abençoada e protegida por uma Deusa de aspecto sombrio e sempre abraçou aquelas sombras com cautela e respeito. Em cada passo de sua vida podia sentir a presença Dela, orientando, guiando e repreendendo. A voz da Deusa era como um sussurro gelado em seu ouvido, sensação prazerosa que lhe causava um estranho formigamento pelo corpo.

Báirbre dedicou suas noites a honrar sua Deusa. E, naquela época era simples e adorável fazê-lo. Raramente era confrontada por situações em que suas sombras se exaltavam. Raras vezes era confrontada por acasos que lhe despertavam aquela fúria gélida que somente aqueles regidos por Scatha tinham de enfrentar.

Mas nos últimos três anos isso mudara completamente, jogando -a num redemoinho de raiva, covardia e submissão. Em questão de segundos sua vida mudou completamente, fazendo-a temer suas sombras e a própria voz exigente da Deusa.

Sua mãe a deixou. Sumiu numa noite fria, deixando nada além de um silêncio perturbador.

Ninguém sabia onde a bela Lora havia se metido. Conspirações giravam em torno de um amante misterioso que a teria convencido a fugir. Mas Báirbre jamais acreditou em tais rumores. Se Lora houvesse se apaixonado, com toda certeza teria deixado para trás uma carta reveladora para a filha.

Sem ter para onde ir, a jovem foi acolhida pelo tio paterno. Um homem impaciente, cristão, conservador e violento.

Suas práticas de bruxaria estavam terminantemente proibidas. Qualquer personalidade forte subjugada. Sua essência sufocada. Suas cores vibrantes e coloridas tingidas de cinza. E qualquer senso de liberdade enclausurado.

A garota jovem, sorridente e cheia de opiniões foi minguando para uma versão calada, séria e submissa.

Em sua nova casa era Howard quem mandava. Os outros apenas obedeciam e assentiam. Sem jamais ousar dar uma resposta contraria a que ele queria ouvir. A menos, é claro, que se quisesse fazer explodir o caos.

Em sua primeira semana naquela casa, Báirbre descobriu como as coisas funcionavam e a forma mais prudente de agir.

Suas sombras foram trancadas no fundo de sua alma. E embora ouvisse com frequência os sussurros gélidos de Scatha, temia deixar a Deusa tão perto. Não quando a violência imperava naquela casa quase a ponto de atingi-la.

Foi quando presenciou a cena horrorosa do tio virando um tapa no rosto da esposa que teve uma breve ideia do quanto suas sombras podiam ser perigosas.

Báirbre já vinha lutando com a indignação com as humilhações que Howard distribuía a mulher e ao filho, os gritos histéricos, a opressão contínua para com os que ali moravam e as regras absurdas que ele criava para sua família.

Suas sombras já se agitavam eufóricas, a indignação se apossava quase a sufocando.

Mas quando ele realmente cumpriu suas ameaças vagas, virando um tapa estalado no rosto da esposa e a fazendo cambalear, a raiva se intensificou dentro de Báirbre, quase a ponto de liberar suas sombras. Aquela sensação de formigamento surgiu em seus dedos dos pés, espalhando-se com lentidão pelo corpo até o couro cabeludo. Suas mãos se tornaram frias, assim como os pés. O gosto ferruginoso da ira se instalou em sua língua e suas pupilas dilataram, mesclando-se num cinza tempestivo. Quando tal sensação de descontrole se apossou dela, Báirbre soube que, se não controlasse suas sombras e aquela raiva, voaria para cima do tio e lhe fincaria as unhas, arrancando tudo o que havia de pútrido nele.

Assombrada com o que estava sentindo, a jovem bruxa optou pelo caminho prudente: Segurou as rédeas de suas sombras, engoliu a raiva e abraçou o silêncio.

Ás vezes tinha sorte e o dia transcorria sem muitos confrontos. Nesses dias se permitia respirar aliviada, sem aquela força exaustiva de se controlar. Fez do porão seu refúgio, onde ergueu seu altar ás escondias.

Aquela era só mais uma noite de lua negra em que reverenciava sua Deusa enquanto os outros estavam fora.

Mas suas preces não puderam se estender por muito tempo. Logo captou o barulho da garagem se abrindo e soube que estavam de volta.

Báirbre se levantou ás pressas, subiu as escadas curvadas, fechou a porta que dava acesso ao porão e correu para o quarto, livrando -se do vestido de cetim e o enfiando embaixo das outras roupas amontoadas no guarda-roupas. Vestiu algo confortável, guardou suas jóias preciosas de cobre e prata e se jogou na cama com um livro de poesia.

Assim que a porta se abriu lá embaixo, o som daquela voz alterada que tanto detestava se infiltrou pela casa.

Uma discussão envolvendo a esposa, que na concepção de Howard era uma burra inútil.

Báirbre tentou se desligar das vozes e se concentrar no poema que estava lendo. Mas a insistência do tio em humilhar a mulher pinicavam sua nuca, enchendo-a daquela indignação amarga.

A jovem abaixou o livro e fechou os olhos apartado, respirando lenta e profundamente.

A voz exigente do tio interrompeu sua concentração.

– Báirbre, venha cá!

Ele não podia deixa-la de fora de seus ataques histéricos, é claro. Mesmo vendo em seus olhos que ela odiava, mesmo sentindo aquela energia densa dominar o ambiente sem saber de onde vinha.

Ás vezes ela pensava que ele a chamava somente para que observasse quem mandava ali. E que era prudente ter medo dele.

Mas Báirbre nunca teve medo daquelas explosões de gritos e violência. Ela temia era sua própria reação caso sucumbisse ás sombras. Quando participava de um Coven, ouvira historias de bruxas que se perderam em meio ao ódio. E seu medo de se corromper como elas era sufocante, especialmente sendo ela uma devota de Scatha.

Báirbre suspirou e tocou o pingente de hematita pendurado delicadamente em seu pescoço antes de finalmente descer até a sala de estar.

A energia pegajosa a apanhou tão logo chegou ao hall. Sempre aquela vibração viscosa no ar quando Howard iniciava seus monólogos cruéis.

Ele não fazia ideia de quantas criaturas astrais e espirituais se aglomeravam perto dele quando estava nervoso. Criaturas essas que sentiam prazer em acompanhar homens violentos.

Ela evitou olhar nos olhos do tio quando passou por eles. Foi direto para a pia cheia de louça e começou a trabalhar nelas. Um breve olhar ao primo indicava que ele também estava sendo obrigado a presenciar o show.

O garoto estava sentado á mesa, encolhido com a cabeça baixa e em profundo silêncio. Seus cabelos eram cortados rente ao crânio, o rosto limpo e decente, assim como seus trajes. Nada do estilo que a molecada costumava adotar. Não, naquela casa esse tipo de coisa não era permitida.

Báirbre se lembrou de uma vez, logo no começo, que o garoto chegou do colégio usando um novo estilo de cabelo. Um corte moderno e estiloso. Howard praticamente voou em cima do garoto, gritando que estava parecendo um maloqueiro. Com uma tesoura cega, ele havia cortado o cabelo do filho desalinhadamente e depois lhe deu uma surra para que se lembrasse de quem ditava as regras naquela casa.

Báirbre nunca mais vira o garoto usar outro corte de cabelo.

– O que estava fazendo lá em cima? – Howard voltou sua atenção para ela.

– Poemas.

– Você e essas porcarias de livros! Deveria se ocupar em estudar coisas úteis.

– Livros são úteis.

– NÃO PARA A VIDA LÁ FORA! Ou será que não pretende trabalhar e construir uma vida.

– É claro. – ela se limitou a dizer.

Howard ergueu as mãos com indignação.

– Vocês todos são um bando de vagabundos que vivem ás minhas custas. E você – seu dedo esquelético apontou para o filho – Vai começar a trabalhar num escritório de um velho amigo. Seja pontual e decente, se não for tão burro como eu penso que é, pode ter um futuro.

Petter não disse absolutamente nada. Apenas assentiu em concordância.

Judith se apressou em arrumar a janta, ignorando os gritos do marido a pouco. Báirbre a ajudou em silêncio enquanto o tio se apossava de uma das cadeiras e se espalhava todo, muito sossessegado.

O silêncio imperou, vigiado pelo olhar crítico de Howard. Ele costumava ficar olhando tudo, procurando algo para implicar. O sorriso de escárnio no rosto era uma provocação.

– E então, Judith. Como vai a medíocre da sua mãe?

Judith enrijeceu, como sempre fazia quando o assunto era sua mãe.

– Bem. – disse ela a meia voz.

– Bem medíocre? – Howard riu, zombando.

Báirbre nunca entenderia como uma mulher bonita e culta como Judith aceitava as humilhações imposta pelo marido. Havia força naquela alma e uma alegria reprimida.

Howard disse algo e riu, recebendo em troca o olhar ressentido da mulher.

– O que foi? Não gosta que eu diga verdades sobre sua família nojenta?

Ela não respondeu.

Ele se exaltou, levantando-se de forma brusca.

– Eu te fiz uma pergunta!

Ele se aproximou dela daquela forma ameaçadora, inclinando-se sobre o corpo pequeno e forçando-a encarar aqueles olhos lunáticos.

Báirbre congelou, o coração batendo descompassado. Ia acontecer de novo. Ao se dar conta disso, ela sentiu o desespero invadir seu peito, precisa sair dali.

Judith encarou o marido com receio enquanto o filho olhava para aquela cena sem expressão alguma no rosto jovem.

– Eu disse que ela está bem.

– Você está de cara feia! Não gosto de cara feia. Não está satisfeita com a vida que lhe proporciono? Não vou tolerar o seu desprezo! Se não está contente, pegue suas coisas e vá embora! Não preciso de você!

Os olhos da mulher se encheram de lágrimas, mas ela continuou firme e forte, dando seguimento á janta.

Howard a fitava com ódio.

– Cale a boca! – ele soltou subitamente, fazendo todos pularem.

– Eu não disse nada. – Judith se defendeu, um pouco mais alto do que o permitido.

– Mas pensou! Conheço esse seu olhar superior. Achando que está certa…

– Eu não…

– Cale a boca!

– Mas eu só…

Howard avançou contra ela, enfiando um dedo na cara dela.

– Não. Brinque. Comigo. – disse ele entredentes. – Cale a maldita boca! Te dou uma surra se continuar me desafiando assim!

Báirbre sentiu o frio subir por suas pernas junto com o formigamento, seu coração batia acelerado. Ela tremia.

– Já chega. – sua voz saiu de algum lugar das profundezas de sua alma.

Howard a fitou com fúria.

– Não se meta nisso!

Aquele olhar dele a teria amedrontado antes.

– Eu me meto.

Báirbre não fazia ideia de onde surgira aquela repentina coragem. Há tanto tempo se mantendo em silencio, tanto tempo se controlando. Até que de repente ela se sentia saturada, sufocada. Precisava fazer alguma coisa, dar um grito de liberdade.

– ISSO NÃO É ASSUNTO SEU!

– Deixe-a ir.

Báirbre notou o olhar de surpresa de Judith e Petter.

– Não brinque comigo, garota impertinente. – ele enfiou o dedo na sua cara.

– Não brinque você comigo.

Howard estreitou os olhos, afrontado com a audácia da menina.

– Acha que estou brincando? Te dou uma surra para aprender a se comportar!

– Você não tocará num só fio do meu cabelo. Você, um homem perturbado que precisa oprimir e brutalizar as pessoas para se sentir melhor.

Howard avançou contra ela, agarrando-a pelos cabelos.

– Cale a boca! – ele praticamente grunhiu, o hálito fétido roçando o rosto dela.

Báirbre sentiu o gosto ferruginoso em sua língua e as sombras dentro dela simplesmente se libertaram, explodindo numa profusão fria de energia.

Ela empurrou o tio para longe, libertando-se de suas garras nojentas.

Podia sentir a presença de Scatha, ela fazia seu corpo tremer. Seus olhos toldaram-se naquele cinza tempestivo, dilatados.

– Não encoste em mim. – disse e sua voz assumiu um poder majestoso.

Howard a encarava com igual fúria.

– Acha que vai se defender com suas feitiçarias? Deus…

– Deus não fará nada. Seu Deus o observará cair em ruínas, sua alma minguar até não sobrar absolutamente nada e seu corpo definhar até a morte. Seu Deus poderoso não moverá um só dedo para interferir na sua desgraça porque Ele não se importa.

Howard hesitou, reconhecendo o poder sombrio na voz dela. Desde que seu irmão se relacionara com uma mulher estranha que se dizia bruxa, ele jamais acreditou naquela palhaçada. Nem mesmo quando o irmão morreu de uma doença misteriosa. Sempre acreditou que essas baboseiras não existissem. Mas ali estava a sobrinha, tão quieta e obediente, vibrando com um poder irreal.

Báirbre sentia as sombras eufóricas roçarem seu corpo, o gosto de ferrugem na boca, a presença da Deusa guerreira ao seu lado, comandando-a. Suas mãos geladas tremiam, formigando furiosamente.

Podia ver os espíritos se divertindo ao redor de Howard, eufóricos com aquela energia densa que partia de dentro dela.

Seus lábios se curvaram num sorriso maldoso.

Num sussurro quase ronronante, Báirbre entoou algumas palavras antigas, ouriçando ainda mais os três espíritos que vagavam por ali.

Howard arregalou os olhos, preparado para avançar contra a sobrinha com abrasadora fúria.

Báirbre estalou os dedos uma vez, fitando um dos espíritos dançantes. A criatura fez um gracejo, contente por ser alvo de atenção, e então pulou sobre os ombros de Howard.

O homem sentiu algo denso lhe roçar o corpo e um peso se alastrar em suas costas, automaticamente se curvou um pouco. Seu peito deu uma leve arfada e a respiração se tornou difícil.

– Maldita! O que está fazendo? Acha que suas palavras babacas e essa encenação toda vai te salvar da surra que lhe darei?

Ele avançou sobre ela, mais lento que desejava. Báirbre se esquivou, vendo o tio perder o equilíbrio e cair de cara no chão.

A raiva a consumia como o fogo consome a pira de madeira. Exceto que a ira dentro dela era gelada, sombria, nefasta… Sedosa. Suas sombras descontroladas rodopiavam por ela, eufóricas, loucas para sufocar algo. E aquele gosto de ferrugem na boca lhe lembrava sangue, cálido, aveludado.

Queria enfiar as unhas naquele homem, rasgar a carne e fazer verter o sangue. Ele precisava pagar por suas injúrias, pagar por seus pecados mais sombrios.

O Coração…

Finque as unhas em seu coração e o ofereça a Mim

O sussurro em seu ouvido era sedoso, um roçar suave de plumas. E não pertencia a sua Deusa.

Báirbre estremeceu com a Presença que se instalou ao seu lado, mas não ousou dar ouvidos á Ela.

Seus olhos tempestivos se voltaram para o tio que a fitava com assombro e seus lábios esboçaram outro daquele sorriso cruel.

Lá estava o homem, domado pelas garras nefastas daqueles espíritos sombrios, submetido contra sua vontade.

– Ele é de vocês. Um presente gentil a criaturas tão singulares. Atormentem-no dia e noite, suguem a energia até transformarem-no numa casca vazia. Preencham seus ouvidos com sussurros cruéis até que o único som em sua vida sejam vozes perturbadoras. Sufoquem-no de sombras até que seu mundo seja um completo escuro frio. Apaguem suas cores, se é que existem cores nessa alma cruel, até que tudo o que sobre seja o cinza triste. Apodreçam a doçura até que só reste amargura. Ceifem qualquer raiz alegre e que nesse jardim sombrio só floresça espinhos ríspidos que lhe dilacerem a alma.

Báirbre apanhou uma faca de cima da pia e fez um corte na palma da mão esquerda, deixando o sangue se empoçar para derramá-lo no chão.

– Essa oferta de sangue cela meu feitiço. Scatha, ouça minha verdade. Aquela que semeia o medo, faça valer a minha vontade. O preço pela alma tomada hei de pagar, quando a lua negra na noite voltar a brilhar. O sangue vermelho oferto com bondade para que possa se fazer minha vontade.

Báirbre sentiu a brisa fria tocar seu rosto numa carícia ríspida e soube que seu seu feitiço fora aceito.

Howard soltou um grito histérico, assombrado pelo que via. As vozes o atingiram quase que imediatamente, numa profusão de sons ensurdecedores que somente ele podia ouvir. Sentia roçares bruscos em seu ombro, pernas e rosto. E seus olhos conseguiam captar alguns vultos dançando ensandecidamente pela cozinha.

– Não! Faça isso parar! PARE!

Ele balançava a cabeça, tentando se livrar dos vultos que se aproximavam para abraça-lo numa aura gelada.

Judith observava o marido enlouquecer, encolhida com o filho do outro lado da larga cozinha. Ao olhar para a garota que comandava as sombras, sentiu um pouco de alívio misturado ao terror.

Báirbre fitava o tio, a satisfação brilhando no olhar maléfico. Ela se aproximou do homem encolhido no chão, encontrando os olhos enlouquecidos.

– É preciso haver punição por nossos atos. Ou tudo fica muito bagunçado, caótico. Para manter a ordem é preciso purificar a alma de pecados pútridos.

Howard gritou, tentando encontrar forças para atacar a garota. Mas os vultos não o deixaram se aproximar, avançaram para cima de seu corpo numa névoa escura. Dezenas de mãos fantasmagóricas tocando o rosto assustado, agarrando-se em seu pescoço em toques gélidos. Ele perdeu os sentidos.

Báirbre sentiu as sombras se aquietarem repentinamente, a ira cessou, dando lugar ao torpor. Seus olhos clarearam e o gosto excitante em sua língua se tornou amargo.

Ela respirou fundo, relaxando os músculos do corpo. A fúria havia acabado e  a Deusa se afastou respeitosamente.

A garota fitou o corpo desmaiado do tio, o sangue derramado no chão, os espíritos dançantes lhe sorrindo e o pavor nos olhos da tia e do primo.

Mas ao invés de se horrorizar com o que tinha feito, não sentiu absolutamente nada além de satisfação.

Havia abraçado suas sombras e nunca mais ousaria enclausurá-las novamente.

Ela virou as costas para a bagunça que se encontrava na cozinha, apanhou uma mochila no andar de cima e deixou para trás a casa que tanto lhe causara dissabores.

Não tinha ideia de para onde iria, mas sabia que Scatha a levaria para um caminho seguro.

Ao bater a porta de madeira entalhada, ouviu-se o gargalhar ronronante de uma Deusa.

A feiticeira saíra de sua alcova sofisticada e se aventurava pela noite chuvosa com o intento de resolver um sério problema.

Não fosse isso jamais ousaria trocar o calor agradável da lareira, o aroma requintado de seu caldeirão no fogo e a companhia estimada da familiar felina pela carícia gélida da chuva.

Suas lindas botinhas negras de veludo chapinavam nas pedras irregulares da calçada, evitando as poças escuras que ladeavam seu caminho.

A noite não apenas estava nublada e escura com a majestade da lua negra, como contava com a presença ríspida de um vento frio.

Por sorte sua manta cinza de zibelina a mantinha aquecida por cima do vestido justo.

Seus olhos objetivos estreitaram a avenida pouco movimentada na madrugada fria, focando-se na Igreja elegante do outro lado da rua.

Suas torres altas e pontudas davam um ar medieval na cidade antiga, as gárgulas observando no alto do parapeito ameaçador.

Ah, sim. Tinha assuntos sérios com aquele padre ousado e intrometido.

Seus lábios tingidos de rubi esboçaram um sorriso malicioso e Megara seguiu em frente, aproximando-se do santuário.

Diferente do que outras bruxas costumavam sentir, Megara não se incomodava em entrar em igrejas. Não havia aquele sentimento denso de tristeza que engolfava o coração, tampouco sentia  a impaciência ou desespero para voltar para as sombras seguras da noite. A única coisa que a assolava quando se encontrava sob o teto elegante de uma catedral era a afronta.

Como aquela congregação usurpadora e impostora ousava possuir tanta riqueza?

Para seu lado esnobe, as conquistas do catolicismo eram uma afronta.

Ela fitou a igreja adornada por luzes e estatuas de mármore, e o gosto amargo explodiu em sua boca.

Ela ignorou a perturbação e subiu a escadaria de pedra. Estava quase adentrando as portas pesadas de madeira quando sentiu a presença da outra.

Megara franziu o cenho e voltou os olhos para a jovem encolhida no banco poucos metros da porta.

Aquela aura com manchas violetas e energia cálida lhe provou o que sua intuição já havia soprado: Uma bruxa.

A garota estava encolhida, o mais distante que podia. Vestia uma calça simples, agasalho com toca e um sapato fechado. E carregava apenas uma mochila nas costas. Seus olhos tristes observavam o movimento, em silêncio.

Megara a fitou por meio segundo, os tons de cinza se encontrando majestosamente.

A garota se sentou ereta, encarando a outra de forma desconfiada.

Megara deu um longo suspiro e se aproximou.

– O que faz perdida por aqui, menina?

A garota balançou a cabeça lentamente.

– Não está perdida?

– Estou sozinha. – sua voz não passou de um sussurro fraco.

– Até mesmo para uma bruxa como você, estar sozinha nas ruas de Praga a essa hora pode ser perigoso.

– Eu não tenho medo. Não mais.

Megara a encarou com intensidade, enxergando as sombras espreitando dentro da menina.

Seus lábios se curvaram num sorriso malicioso.

– É claro que você não tem medo. Não honramos a mesma Deusa, menina. Mas entendo as sombras que te rodeiam.

A menina esboçou um sorriso petulante, assemelhando-se a outra de uma maneira impressionante.

– A Deusa que você honra é temida e respeitada. Assim como você.

– Você sabe quem sou eu? – havia humor na voz da feiticeira.

– Megara. Não há uma bruxa no mundo que não saiba seu nome ou que não tenha medo de você. Especialmente aqui em Praga.

– Medo de mim. – Megara riu, um som ronronante.

– A sua reputação é assombrosa.

– Você tem medo de mim?

– Não sinto mais medo. Não mais.

– Por que está sozinha, menina?

– Báirbre. Meu nome é Báirbre. E eu não tenho para onde ir.

– Não tem casa? Um coven?

– Não tenho mais uma casa. E não tenho um coven já bastante tempo.

Megara a avaliou por alguns segundos.

– Há uma aura sombria a rodeando, Báirbre. Como se as sombras estivessem eufóricas por estarem finalmente livres.

A garota deu um sorriso amargo.

– Por muito tempo eu as domei, impedi que elas me dominassem. Até que foi inevitável abraçá-las.

– Há sombras em todas nós, minha cara. Os tolos decidem domá-las. Os sábios são por elas abraçados.

A garota voltou os olhos cinzentos para a feiticeira.

– Todos dizem que você venera as trevas e trilha o caminho errado. Mas quando olho para você só consigo ver as mesmas sombras que me rodeiam. Isso quer dizer que eu sou má ou que seguimos apenas nosso instinto?

– Bruxas não são boas ou más. Somos como a natureza, os Deuses e a Magia, neutros. Nós somos aquilo que as pessoas decidem despertar em nós.

Báirbre ficou encarando-a no silêncio que se seguiu.

– Os Covens  me retratam como uma entidade demoníaca somente porque eu não tenho medo de revidar o mal que lançam no mundo. O mundo que habito é o meu jardim e o quero limpo das ervas daninhas, então eu as ceifo. Sem piedade ou qualquer escrúpulo. Não sou uma completa selvagem, mas ainda assim uma alma cheia de sombras. Diga, menina, seu Coven lhe virou as costas?

– Não. Eu me afastei. Onde morava não era permitido praticar bruxaria. A mente ignorante teme aquilo que não compreendem.

– Talvez seja sábio temer certas coisas. Se voltar para seu Coven agora, eles te aceitariam?

– Não quero voltar para meu antigo Coven. Ou para um novo. Como você mesmo disse, algumas bruxas não aceitam uma alma cheia de sombras.

– Desde que você mantenha suas sombras controladas, eles a aceitariam.

– Eu não quero ser mais controlada.

Megara abriu mais o sorriso malicioso.

– Venha, vou levar você comigo.

Báirbre franziu o cenho, desconfiada.

– Por que? Para onde?

– Somos semelhantes. Você não tem para onde ir. E eu não costumo recusar ajuda a outras bruxas. Compactuem elas com minhas ideias ou não.

– Eu não vou ceder ás trevas.

– Ora, menina. Acha mesmo que sirvo ao demônio cristão?

– Você serve a Nigahme. – a garota estremeceu ao pronunciar o nome daquela Deusa. – E dizem que você é imortal.

Megara ronronou uma risada suave.

– Não vou arrebata-la como um carneirinho e corromper sua alma, eu prometo.

– Não tem alma para corromper. Ela já foi corrompida esta noite.

– Então somos mais semelhantes do que imaginei. Venha.

Megara se levantou e estendeu a mão para a garota.

Báirbre encarou a pele sedosa, estendida numa oferta audaciosa.

– O que exatamente você quer comigo?

Durante toda sua vida, quando tinha um coven e uma mãe dedicada, fora alertada sobre uma bruxa perigosa e antiga. Alertada para jamais chegar perto ou dar ouvidos á poderosa Megara. A exilada da Arte, a banida dos Covens mais prestigiados. Pelas historias, a alma de Megara era manchada de ébano e escarlate. Ela tinha trevas na alma e sangue nas mãos.

E ali estava a tão temida e difamada bruxa, oferecendo-lhe ajuda.

Megara a fitou com impaciência.

– Eu te ofereço um teto elegante, comida sofisticada e a oportunidade de trilhar seu próprio caminho. Sabe que não vou lhe fazer mal, pode sentir pelas minhas vibrações. Não sou a megera diabólica que costumam pregar. Não com meus semelhantes. E não costumo abrir minha casa para estranhos, mas por algum motivo eu vejo em você algo semelhante a mim.

Báirbre hesitou, mas acabou dando um passo vacilante em direção á bruxa.

– Não estou interessada em ser sua discípula.

– Eu não fiz tal convite. Além do mais, ser minha discípula implica mais do que você foi educada para acreditar. – a feiticeira deu uma piscadinha e saiu andando pelas ruas brumosas, sentindo a menina seguir seus passos com igual elegância.

Ah, que afortunado aquele padre… Teriam que resolver seu impasse outro dia

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