Farol das Almas…

mine2

 

Por Lillithy Orleander

O lugar cheirava a charuto, whisky e tocava alto algum rock da década de 80…

Ao redor dela, muitos riam e outros mantinham seus olhos vidrados nas cartas de baralho um tanto velhas que ela embaralhava com maestria.

A bota de couro falso e a mini  saia de látex preto contrastavam com a ele pálida e o batom carmim, os cabelos da cor do fogo lhe conferiam um ar desafiador e sensual que fazia com que eles se sentissem atraídos pela moça.

A voz maviosa era como sinos agudos tilintando ao sabor do vento, o cheiro de rosas no ar ao seu redor e o hálito quente que ouriçava cada pelo que havia no corpo de quem se aproximava, eram convidativos, um tipico veneno para desavisados, fossem homens ou mulheres, ela mexia com todos naquele recinto e ninguém sabia o motivo do deslumbramento.

O lugar ficava misteriosamente silencioso quando alguém sentava diante daquela criatura para jogar, os olhos, marcados por tons tão escuros quanto sua maquiagem, pareciam reluzir como um braseiro e hipnotizava á ponto das pessoas não respirarem nem se quer por um instante.

Tocou – se a primeira carta e vi – me diante de um farol, a cena parecia toda em preto e branco, como nos filmes antigos e os gritos ensurdecedores me fizeram tampar os ouvidos em desespero. Não adiantou, os gritos estavam dentro de minha mente, torturando – me, enlouquecendo – me.

O liquido viscoso escorreu por minha clavícula, quente e cheirando a ferrugem, salivei como se sentisse sede e não tive se quer uma bebida mais forte para me tirar da alucinação que agora estendia suas garras sobre mim.

Ela sorriu e cruzou as mãos sobre as pernas, enquanto o suor frio desceu por minha fronte.

– Sua vez. Escolha outra carta… – o silêncio invadia o ar e parecia que só havíamos nós no local, a música agora parecia distante e as pessoas que nos olhavam antes vidradas agora pareciam paradas no tempo, como estatuas vivas de algum museu macabro.

Toquei novamente o baralho e senti meus pulsos atarem – se em uma mesa cirúrgica rústica. Mãos habilidosas, rasgavam – me a carne e arrancavam vértebra por vértebra, costela por costela, eu queria gritar e minha boca estava amordaçada, o sangue escarlate caia ao chão e risadas macabras alegravam – se festejando minha dor lancinante. O cheiro de vinagre e sal chegou até minhas narinas e percebi tarde demais que a mistura morna seria derramada em meus pulmões como uma especie de castigo medieval.

A mordaça foi arrancada de minha boca e meu arfar violento tentava tragar o ar para dentro de mim, mas ele não tinha para onde ir, o sufocamento imediato, meus olhos saltavam das órbitas em pedidos de ajuda que não viriam.

O ferro em brasa aproximou – se de minha iris e atravessou – a com ardor incandescente, minhas lágrimas eram secas e eu me sentia desvanecer.

Apoiado sobre a mesa eu vomitava, enquanto ela mantinha o sorriso calmo e resoluto, bebi um gole de meu copo e olhei em direção ao espelho do bar atrás de nós, caveiras nos espreitavam através dele, raspando o vidro do mesmo, como quem pede socorro.

Esfreguei os olhos e a luz do bar diminuirá, a música estava cada vez mais pastosa, as pessoas ao redor pareciam mecanizadas, eu soltava o nó da gravata em agonia sentindo ainda a falta de ar. Ela fez sua jogada e bateu palminhas como uma criança que acaba de ganhar um presente, eufórica, alegre eu diria. O olhar travesso revolvia algo dentro de mim que me fazia temer, continuar aquele jogo até o fim. Mas que mal havia, era apenas um carteado não?

O que ela pedia mesmo como prêmio? A vida, minha vida… Ela me daria uma noite, a melhor de minha vida, ela dissera.

Como dizer não a uma mulher tão bela.

– Ora, vamos não seja medroso, mais uma jogada apenas. Somente mais uma. – ela fez um beicinho sutil e levantou o dedo indicador, trazendo o corpo mais pra frente e encostando – se na mesa.

Os seios fartos, saltavam para fora do espartilho vermelho, enquanto ela se esquivava da jaqueta de couro e deixava os ombros amostra.

Outra carta…

O pântano escuro ganhou visão diante de mim, minhas roupas havia sumido e apenas a lama pútrida parecia me cercar, meus pés estavam presos e eu não conseguia me mover.

A névoa ganhava formas indistintas e seus vapores o cheiro de enxofre, mais longe eu avistava o farol, que bruxuleava com sua luz amarelada, me chamando, me seduzindo.

Minhas pernas, que até então não me obedeciam, pareceram ganhar vida própria e caminhavam, arrastando – me por aquele negrume apodrecido, ferindo meus pés em coisas pontiagudas que causavam a dor de mil agulhas sobre as unhas.

Meu corpo afundava aos poucos enquanto uma cantiga de ninar sinistra se ouvia no meio da noite, braços e mãos se prendiam ao meu corpo, arrancando pedaços que não lhe pertenciam, dilacerando, dissecando.

Minhas lágrimas não cessavam e o ar ao me redor se tornará corrosivo, queimava minhas narinas, minhas mão estavam em carne viva, e sanguessugas bebiam o que parecia ser o pouco sangue que me sobrará. Era um pesadelo.

Deveria ser um delírio, tinha algo na bebida…

– Querido, você está bem? – perguntou – me ela olhando para baixo, eu estava deitado no chão em posição fetal, enquanto meu sangue e o de outras pessoas lavavam o chão do bar.

Eram pedaços indistintos, faces sendo bicadas e degustadas por aves de rapina, o cheiro de carniça, meu estomago todo para o lado de fora, sendo arrancado por homenzinhos com tapa olhos ensanguentados e roupas rasgadas, cabeças jogadas aos pés da mesa, corpos com gargantas cortadas e os gritos… Eles eram incessantes, meus gritos…

– Quem é você? – perguntei agoniado.

– Bem vindo ao Farol das Almas, Phil… Daqui em diante nós seremos bons amigos e isso é o suficiente pra você saber agora. A propósito, você já está morto.

Ela sorriu e me virou as costas, enquanto outras criaturas tratavam de se aproximar com seus dentes a mostra para devorar de meu corpo o que ainda sobrará…

 

Fim?

 

 

Um comentário em “Farol das Almas…

Gostou? Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s