A Corte [Parte 8] – O Grito da Banshee

Escrito por: A.J. Perez

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Capítulo 8 – “O Grito da Banshee”

Mark caminhava pela rua noturna deserta, seus únicos companheiros eram o vento e o som de seus passos contra a pedra fria e úmida da calçada. Caminhar durante a noite indo para casa era um dos hábitos que ele havia adquirido nos últimos meses. Sempre que voltava do hospital após um longo dia na companhia de Elena, ele o fazia a pé. O ajudava a pensar nas coisas, clarear as ideias em sua mente nebulosa.

Durante aquele período em que sua irmã estava entre a vida e morte, todos os dias ele seguia o mesmo ritual; acordava cedo, tomava um banho morno, que era seguido de um café da manhã insosso, para pegar um ônibus e gastar o resto do dia no hospital. A noite ele saía de lá cansado, frustrado e com ódio do mundo. Os médicos haviam sido francos com ele, a garota deveria estar morta, era um milagre ainda estar entre eles. Era quase como se a morte tivesse escolhido não levá-la. Naqueles dias a única coisa que ele podia fazer era caminhar de volta pra casa sem sentindo completamente impotente. Pensava em sua irmã quebrada e desacordada em uma cama, em seus pais mortos e lógico, pensava nele, sem um arranhão se quer.

Mas os pensamentos sombrios lentamente foram se esvaindo dele, conforme Elena acordou e começou a se recuperar, sua avó havia conseguido uma licença estendida do serviço e em vez de passar apenas as noites no hospital também ficava durante o dia revezando com ele. Porém hábitos adquiridos se tornam vícios pessoais, e ali estava ele, andando para casa novamente.

Antes disso ao mencionar que gostaria de caminhar Laura não se opôs.

— Tudo bem querido, você é novo na cidade, e nada acontece em Santa Anna. Será legal dar uma volta e ver como as coisas mudaram nesses últimos anos.

Ele apenas deu um sorriso contido entregando as chaves para ela, e se sentou no Bar. Tomou mais duas doses de Johnnie Walker e após pagar a conta foi desfrutar de seu habito.

A noite estava tranquila, todas as noites ali deveriam ser assim. O silêncio incomodou no início, mas com o passar dos minutos ele foi se acostumando a quietude embora volta e meia a sensação de olhos sobre ele aumentassem. Repetidamente ele olhava para trás, a sensação era irritante, como se alguém estivesse andando logo atrás dele. Óbvio cada vez que ele se virava encontrava apenas a rua deserta, sabia que não tinha ninguém ali atrás, mas a sensação era um incomoda crescente ele não podia se segurar, então repentinamente ele se virou e por instinto olhou alguns metros acima da rua, e então encontrou os olhos negros que o observavam nas sombras.

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— Ele pode nos ver? — Questionou Natalia, titubeante diante do grande espelho d’água.

— Não, criança. Ele não pode nos ver. Que tipo de korrigan eu seria se permitisse tal ato? Tudo que nosso amigo vê é o que eu permito que ele veja.

— Que no caso é? — ela jogou seus olhos negros e curiosos para a mulher de túnica negra que estendia as mãos em direção ao espelho d’água na parede.

— Um corvo…

— Ah, sim. Então basicamente ele pode ver o corvo mas não tem como saber quem o enviou. Nem se alguém o enviou, é necessário muito poder de percepção para diferenciar um animal comum de um observador, nós as korrigans treinamos anos para isso.

— Ele conseguiu tocar Amattha… — sentenciou a gótica alisando as mechas verde turquesa do cabelo, olhando novamente para o espelho feito de água que ficava suspenso magicamente na parede — isso não é uma percepção alta?

— Ele tomou uma fantasma? — o tom de voz da mulher vacilava entre o espanto e a admiração, talvez bem no fundo um pouco de medo.

— Ninguém toca um fantasma. Ninguém físico pelo menos.

— Já disse que todas nós vimos. E o grande problema é não é só o fato dele poder tocar ela.

— É o fato de não podermos ver o que ele é. O Conselho me colocou a par dos assuntos criança. Estamos aqui pra vigiar ele, então…

Subitamente a korrigan parou de falar quando seus olhos se fixaram no espelho, Natalia se virou de imediato para ele e viu Mark parado olhando diretamente nos olhos do corvo.

— Ele não pode mesmo nos ver, não é?

— Não… ele não pode. — sentenciou a mulher com cautela.

Ambas se aproximaram do espelho para ver mais de perto a cena.

— Isso é normal? — Natalia apontou para ele.

— O animal é físico, ele pode ver ele.

— Não o corvo a água! — disse Natalia apontou com mais ênfase.

Foi quando a korrigan notou as manchas negras surgindo no espelho líquido. Como óleo negro se espalhando pela superfície de um lago, bem como bolhas de ar esparsas que arrebentavam no centro delas.

— Não isso não é normal, algo está turvando nossa visão! Ele está nos bloqueando!

— Você disse que leva anos pra se aprender isso! Esse cara não parecia nem saber o que era uma Corte a menos de uma hora!

Antes que a mulher pudesse responder ambas congelaram ao ouvir uma voz masculina encher a lugar.

“— Olá!”

Elas se entreolharam e então olharam para Mark no espelho.

“— Sabe é feio seguir as pessoas e ficar observando elas, isso não se faz, não é legal.”

— Ele esta… — Natalia estava assustada. A korrigan pôs a mão no ombro dela enquanto manteve a outra apontando na direção do espelho.

“— Desculpa cara, mas eu não tenho nenhuma semente ou pão pra você.”

Natalia soltou o ar dos pulmões e com uma risada baixa de alivio se curvou apoiando as mãos nos joelhos.

— Ah, graças a deusa, ele tava falando com o corvo. — resfolegou a jovem — achei que ele tinha nos pego.

— Ele voltou a andar… — disse a mulher mais velha.

— O que? — a garota se recompôs e voltou a observar.

— Ele voltou a andar mas a obstrução no espelho ainda está aumentando.

As manchas negras borbulhavam e se espalhavam mais rapidamente agora.

— Então não é ele que está nos obstruindo?

— Não sei. Pode ser que ele esteja próximo a alguém que está se ocultando, ou o tal Marcus possui um sentido automático de defesa mágica.

— Da mesma forma que o sistema imunológico se adapta a uma doença…

— Ele está se adaptando a nossa magia e bloqueando ela. — cogitou a mulher — ele não faz ideia do que ocorre ao seu redor e ainda assim ele fica protegido. Se essa habilidade for dele, isso é algo…

— Aterrorizante? — arriscou Natalia.

— Fascinante eu diria! — concluiu.

Um estrondo alto encheu a sala, e ambas se fixaram no espelho.

Marcus olhava para um beco a direita de onde um som alto havia vindo, mas antes que algo mais ocorresse, o grito de uma mulher no beco chegou até ele, e até as feiticeiras através do espelho.

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Esther havia começado a tirar seu vestido azul-celeste quando uma dor lancinante lhe atingiu a cabeça. Ela se desequilibrou e tropegamente derrubou um abajur de porcelana no chão do quarto o despedaçando.

A respiração dela se acelerou junto com a pulsação, ela sabia o que estava acontecendo.

— Não, não, não, não… Quem? Onde?

O som como o de uma explosão ensurdecedora vibrou dentro da mente dela. E então havia sangue, sangue em toda a parte, sangue chovia sobre a cidade inteira.

Uma jovem andava por um beco escuro, essa jovem agora era ela. Ela via pelos olhos de outra pessoa. A noite dava lugar a uma claridade cinzenta e anormal, chuva carmesim despencava dos firmamento fazendo tudo abaixo do céu ficar rubro. Outro flash a cegou ela viu uma silhueta surgir atrás dela, mas ela não podia se virar, aquele não era seu corpo, aquilo ainda não estava acontecendo, mas estava prestes a acontecer. O desespero tomou conta dela quando ela sentiu uma mão tampar sua boca segundos antes de uma lâmina fria penetrar em sua medula, lançando uma dor pungente sobre toda a sua existência. Esther desabou atingindo uma lata de lixo no beco a derrubando com estardalhaço contra as outras, a garota movia os braços olhando em desalento para o misterioso algoz que usavam um moletom preto e capuz, ao invés de um rosto ela só via a escuridão e uma voz chegou até ela.

—Axurk.daqti.Oqfgh.iferdgth.Uz.Tacur.legadoriath.Hastur.cthu.lereru.at

A boca dela se abriu sem o seu comando, e uma voz que não era a de Esther emergiu.

— Não, por favor, não faça isso!

Lágrimas escorriam pela face da jovem, Esther sabia que não era apenas a jovem no beco que chorava. Ela também estava chorando.

— Uturak.uzu — o homem pegou a jovem pelos cabelos — Zathur.mefhur.at

—Não! — o grito da jovem se misturou ao de Esther quando a lâmina se enterrou em sua garganta rompendo carne e músculos quanto a faca deslizou para o lado abrindo-a de um lado ao outro quando uma torrente quente de gosto metálico lhe encheu a boca e lavou seu corpo.

— Que venha a nós… — o assassino pôs as mãos nas orelhas como se algum som muito alto o tivesse atingido e então olhou para o lado antes de poder terminar de dizer a frase ritualística. Aparentemente assustado ele correu para as sombras quando alguém surgiu e se debruçou sobre ela, dessa vez ela não teve medo, ele estava ali para ajudar, mas ela sabia que era tarde de mais… e nesse momento seu coração parou.

A cabeça da jovem foi lançada para trás com força suficiente para quebrar o pescoço de um mortal, sua boca se abriu em um reflexo quando o corpo foi suspenso a centímetros do chão por uma força invisível e o som estridente de seu grito sobrenatural encheu a mansão, atravessando paredes e andares se expandindo para além da casa e da propriedade, adentrando a cidade. Era a potência como se algo tivesse rompido a barreira do som.

Um som torturante e agoniante, o grito da Bashee era o lamurio da Corte, era acima de tudo um aviso. Um sobrenatural estava prestes a morrer.

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Natalia e a korrigan apertaram as mãos contra os ouvidos para não ficarem tontas com o grito de Esther que retumbava nas paredes do subsolo da mansão.

— Alguém está morrendo! — Natalia gritou para a mulher de túnica negra.

— Fique de olho nele, eu vou ver o que está acontecendo!

Na mansão acima delas, as portas dos quartos se abriam e os moradores corriam para o hall de entrada tampando os ouvidos.

Trinity e Sophie abriram as portas quase que ao mesmo tempo e se olharam entre as pessoas que avançavam pelo corredor.

— Pode me ajudar a ver onde está a Esther? — gritou ela com as mãos nos ouvidos.

— Claro — respondeu Sophie indo na direção dela. Diferente dos demais ela não parecia afetada pelo grito.

— Como você aguenta isso? — indagou a ruiva.

— Banshees não me afetam… — foi a única resposta que Sophie deu a ela.

Alguns quilômetros ao norte o grito chegou com a mesma potencia que ecoava pela corte.

— Algum problema Lucian? — indagou Elena ao vê-lo se levantar de surpresa olhando pela janela, como se estivesse ouvindo algo.

— Não, tudo está… perfeito. — disse ele se virando e sorrindo para ela com dentes perfeitos — achei que tinha ouvido algo.

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O som de algo caindo chamou a atenção de Mark, ele olhou para um beco e viu um vulto se debruçando sobre alguma coisa e então o grito de uma mulher.

— Não!

O corpo de Marcus se moveu automaticamente na direção do beco, alguém estava atacando uma mulher, ele não podia simplesmente deixar algo assim passar. Ele correu adentrando o beco quando um som violento o atingiu como se viesse de todos os lados e também de dentro da mente dele. Ela um grito estridente e agoniado, mas ainda assim seguiu correndo em direção ao que acreditava ser um homem debruçado sobre uma jovem.

Então o vulto correu sumindo nas sombras, instantes antes dele alcançar o lugar onde eles estavam, ao olhar para jovem, o coração de Mark acelerou como nunca.

A garota se afogava em sangue o olhando com uma súplica desesperada e silenciosa.

Ele se debruçou sobre ela sem saber ao certo o que fazer, o sangue jorrava na garganta dela, a jovem instintivamente segurou no casaco dele com as mãos sujas se sangue. Sem pensar direito, sem tempo para pensar ele pôs as mãos na garganta dela tentando estancar o sangramento.

— Você vai ficar bem, pode ficar calma, tudo vai ficar bem…

Ele olhou nos olhos dela, e percebeu o exato instante quando a vida a deixou e seguiu parado por algum tempo a olhando, em choque. Então ele organizou em sua mente, o que ele havia presenciado e olhou pra si mesmo.

As manchas de sangue das mãos da moça estavam em seu casaco, olhou suas mãos coberta no líquido vermelho que já tinha escorrido pelos lados do corpo dela a alcançado seus joelhos no chão. Nenhuma câmera, nenhuma testemunha, só ele coberto de sangue e uma garota morta.

E então se lembrou da frase de sua avó.

“ — você é novo na cidade e ninguém te conhece, nada acontece em Santa Anna.”

“ — você é novo na cidade e ninguém te conhece”

Acima de uma calha um corvo grasnou.

——————————————————————————

Continua…

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2 comentários em “A Corte [Parte 8] – O Grito da Banshee

  1. E A Corte retorna cheia de novos mistérios, com requintes de detalhes e a mesma escrita impecável que nos fascina… É incrível, e á cada novo capitulo, nos apaixonamos mais, queremos mais e reclamamos de ter que esperar tanto tempo para nos encontrar com essa galera novamente. Magnifico! É a palavra adequada para A Corte ❤

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