Memórias

 

 

dia_dos_avos

Escrito por Naiane Nara

O entardecer traz o manto da noite mais uma vez, sem dar trégua ao calor. O tempo abafado me faz ansiar por chuva. A garganta seca anseia por falar, mas não tenho quem me ouça, então quedo-me a observar o horizonte em transe, tentando não pensar em nada. Não pedirei água, ainda não. Quero evitar os olhares de compaixão e pena dirigidos as minhas rugas, minha idade deveria inspirar respeito e não dó, mas por causa do abandono, o que me resta? Apenas engolir a saliva amargamente e me ater ao ferro da minha alma a fim de que não me permita chorar. Basta de lágrimas, elas não mudarão nada.

Tudo começou em uma manhã cinzenta, quando ela veio com o folheto explicativo. Disse que era um lugar encantador e que seria bem tratada. Frisou que me visitaria quase todos os dias. Disse – sorrindo, como pôde! –  que eu merecia lazer e descanso, coisas diferentes das que ela poderia me oferecer no momento. Eu vi a falsidade em seus olhos, uma mãe sempre sabe, mas pensei que uns dias fora não fariam diferença. Ela sentiria a minha falta e ficaríamos bem. Nos desentendíamos sempre, você tinha um gênio difícil desde criança, que nunca achei a maneira certa de suprimir, mas jamais passamos muito tempo brigadas.

Pensei que um dia voltaria para casa. Estava muito enganada, claro. Como voltaria a sua casa sendo que você, querida filha, nunca veio ao menos visitar-me?

Tão velha e abandonada em um mundo novo, um mundo no qual eu era apenas mais um estorvo que deveria aguardar morrer silenciosamente. Os primeiros meses foram os piores. Uma vida de manias e jeitos para serem desconstruídos, a dor do abandono flagelando o peito. Ninguém ligava para as meias que gostava de colocar embaixo do travesseiro. Não havia espaço para cozinhar meus biscoitos. A comida passou a ser tolerada, mas sempre descia-me com gosto estranho de saudade.

Ainda procuro um lugar para chorar sozinha as vezes. Ainda faço sujeira na cama para chamar atenção. Tão instável, tão sem controle. Quero carinho, quero ser notada, mas quando os funcionários desse lugar horrendo vem me atender – alguns com pena no olhar, outro com o mais puro enfado – desejo que eles vão embora e me deixem só.

Que me deixem morrer, ninguém sentirá falta. Tenho força para suportar o ódio e a dor, vivi uma vida inteira lutando contra eles, mas o desprezo é grande demais para ser combatido, pois ataca nas mais íntimas defesas. Não suporto me olhar no espelho, muito menos folhear as fotografias da minha filha, do meu bebê. Como posso não significar nada para ela?

Será que pensa em mim a noite? Se estou comendo, dormindo bem? Pode ser que ela ligue para se inteirar da minha situação. Sim, por isso não vem, ela liga todos os dias e como sabe que estou bem não vem me ver.

Oh, esse tipo de pensamento ainda me acomete. O ser humano gosta de se enganar.

Por quantas noites eu segurei sua mão, enquanto se revolvia em seus pesadelos? Quantas manhãs fiz seu chá preferido, colocando todas as energias positivas que podia nele?

Quantas dores seu coração sofreu que eu daria para sofrer em seu lugar?

Quando me deu meus belos netos, pensei que entenderia. Mas nunca notei que seu coração era assim tão frio. Foi assim desde que saiu das minhas entranhas, filha minha, ou te tornaste assim com o passar dos anos, com as decepções?

Não se preocupe, venha me buscar, vamos dar um passeio, tudo ficará bem…

Depois do divórcio minha menina nunca mais foi a mesma. Se tornou dura de enregelar, distante. Mas que força pode se basear na fraqueza de se abandonar um ente querido?

Que você ficasse com todas as minhas coisas de valor e o dinheiro do banco, não me importo. Já tive raiva, mas não a possuo mais. Você terá maior uso para essas coisas do que eu, sempre foi tão inteligente!

Mas venha me ver, filha minha. Você não sabe como é… O abrigo sobrevive de doações, temos sorte de temos biscoitos e chá ralo algumas vezes a tarde. A crise econômica afetou muito o estilo de vida de quem vive aqui, e já vivíamos muito simplesmente. Poucos de nós recebem visitas, então é passar grande parte do tempo sem fazer absolutamente nada, apenas a pensar, a lembrar de nossos entes queridos. Os voluntários batalham muito para que tenhamos o necessário, para que nada nos falte. Alguns trazem comida de casa e tentam entrar aqui escondido, sem que vejamos. Mas nós vemos. Vemos e nos entristecemos ao perceber que estranhos lutam por nós e os do nosso sangue não dedicam um minuto do dia a fazê-lo.

Me pergunto onde errei, se alguma vez magoei-te de maneira tão grave que só agora o pudesses manifestar. Fui mãe, filha. Tentei ser o mais forte possível, por mim e por ti. O mundo é implacável com as mulheres, especialmente as que vivem sozinhas. Sei que tive minha cota de erros, mas quando os cometi, tentava acertar. Um dia talvez entendas.

Ainda assim não sinto ódio de ti… Não penso que atrapalhaste a minha vida, como muitas vezes te disse. Também não acredito que me odiavas, como cuspias na minha cara.

É apenas um mal entendido. Um dia verá; correrá para aqui e me levarás para a nossa casa, entre lágrimas e sorrisos. Jantaremos com meus belos netos e passearemos de carro pela cidade, apenas para ver o movimento, como você gostava quando era criança.

No outro dia, faremos massinha caseira e todos brincaremos. Você vai tirar muitas fotos, sei que vai. Pedirá por minha comida e farei seus biscoitos preferidos de sobremesa. Então, esparramados no tapete da sala, assistiremos desenhos até as crianças dormirem.

Sim, esse dia chegará. Me movo lentamente e aperto a campainha, para pedir água. Mas demora, e me aconchego na cadeirinha para fechar os olhos por um momento, cerrando as lágrimas.

Ainda temos uma vida juntas filha. Ainda dá tempo. Não deixe para gritar que me amava no meu funeral. Já não ouvirei sua maviosa voz.

 

*****

Fim

Será?

Um comentário em “Memórias

  1. Delicado… Sutil… Emocionante, e cada vez que leio seus textos, eles me carregam para um lugar bem longe de mim, no mais profundo da minha mente e me faz assistir e pensar no “E se fosse eu?” ou ” E se fosse comigo?” Nos refletimos em cada palavra sua e sentimos a dor no peito do abandono. Ficou lindo, triste e real… Parabéns!!! ❤

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