Castigarum

castigarum
“Please, forgive me, Father
I didn’t mean to bother you
The devil’s in me, Father
He’s inside of everything I do”
“Going To Hell” The Pretty Reckless

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As gotas de chuva se chocavam contra o telhado do colégio com certa violência, enquanto os alunos corriam de um lado ao outro, com as mochilas ou pastas sobre as cabeças à procura de suas respectivas salas. Os pés patinhavam nas poças d’água, o que acabava sujando o chão impecável dos corredores da instituição.

Do segundo andar, observando o pátio, padre Jonah esperava a chuva abrandar para que então pudesse retornar à capela. Seria só mais um dia de aula como qualquer outro, caso não tivesse recebido uma notícia perturbadora da direção sobre uma antiga aluna. Três anos antes, ela era sua aluna favorita; muito educada e sempre respeitosa com os professores. As notas altas eram motivo de elogios constantes, sem se tornar soberba graças aos próprios feitos intelectuais.

Por isso mesmo ele não compreendeu quando, certo dia, a menina não apareceu em uma de suas aulas. De imediato pediu que entrassem em contato com a família, a fim de averiguar se a aluna estava doente, mas as chamadas ao telefone foram infrutíferas, já que ninguém atendia. Padre Jonah ficava cada vez mais aflito por respostas, até que — quase um mês depois — os pais comunicaram que a retiraram da escola por motivos pessoais e nada mais.

Poucos foram os dias em que Ava não se arrastou até seus pensamentos de maneira sútil e, quando via, já estava acomodada entre os deveres como docente e clérigo. Ela era uma ruptura em suas obrigações, tirando-lhe o foco com intensidade crescente no decorrer do tempo. E então os pensamentos não eram mais o suficiente para comportá-la, sendo também visitado em sonhos. A menina recatada aos poucos se tornava uma versão desvirtuada, atormentando-o ao âmago, queimando sua carne de dentro para fora.

Padre Jonah respirou fundo, segurando-se à borda do parapeito balaustrado enquanto olhava para o céu cinzento, pensativo. Ao desviar o olhar em direção ao pátio mais uma vez, avistou os cabelos loiros grudados à face molhada de chuva; rosto erguido na sua direção. A área se encontrava vazia após o almoço, e os alunos já estavam dentro de sala à exceção de uma. Ava parecia a mesma de sempre, apesar dos anos que ficara sem vê-la.

Ele a chamou uma vez, intencionando perguntar o que estava fazendo ali, na chuva, quando deveria voltar para a sala, mas poderia atrapalhar as aulas. Caminhando a passos rápidos pelos corredores, mal notando os degraus que descia, logo estava sob um dos arcos que davam para o pátio, contudo, Ava não estava mais lá. Com a boca seca, foi até a sala onde a menina deveria estar e olhou pela pequena janela envidraçada na porta. Sentada na última cadeira do canto, parecia compenetrada na aula, e com as roupas completamente secas.

Por um instante, enquanto a observava, seus olhares se cruzaram e Ava sorriu de maneira tímida como costumava fazer. Jonah se afastou da porta, passando as mãos pelos cabelos grisalhos antes de começar a correr para longe. Loucura foi a primeira palavra que apareceu em sua mente, como justificativa para o que estava acontecendo. “Um teste de Deus, talvez”, pensou, fazendo seu caminho até a capela.

Ao abrir as portas, ele correu até o altar e sob os pés da imagem de Cristo, ajoelhou-se. Depois de tantos testes de fé, aquele era só mais um. As mãos unidas em frente ao rosto, olhos fechados com firmeza e uma sorte de orações em seus lábios, implorando por auxílio divino. Jonah parou ao ouvir o ranger das portas da igreja sendo abertas.

— Não me abençoe, padre, porque eu pequei. — A voz de Ava chegou até ele pouco antes das portas se fecharem com um baque estrondoso.

Sobressaltado, virou-se em direção à entrada da capela e a viu sorridente, caminhando até ele com as mãos atrás das costas. Cada passada dela parecia calculadamente lenta, cozinhando-o em fogo lento. O som de seus sapatos de encontro ao chão se misturaram ao do trovão do lado de fora, fazendo a estrutura do lugar estremecer.

Jonah sentou no chão de madeira enquanto seus olhos lhe pregavam peças; em alguns momentos era como se a igreja se transformasse em um ambiente cavernoso, cujo solo era formado por corpos pegajosos se contorcendo na terra escura e úmida. Ava pisava em todos ao se aproximar dele, com uma serpente enroscada em seu corpo voluptuosamente desnudo.

— Sentiu minha falta, padre? — perguntou ela e, em um piscar de olhos, tudo voltou ao normal.

Ava voltara a ser uma jovem aluna do colégio, com o uniforme bem alinhado e semblante casto. A expressão atabalhoada do padre a fez parar a alguns centímetros de distância, parecendo preocupada.

— O senhor está um pouco pálido — comentou a menina, chegando um pouco mais perto. — Quer que eu chame alguém?

— Onde… — Jonah engoliu em seco, sentindo a garganta apertar. — Onde você esteve?

— Ah, bem — Ava meneou a cabeça, desviando o olhar —, meus pais acharam que eu estava doente e me trancaram em um hospital — falou despreocupada, como se conversasse sobre o tempo.

— Mas isso é absurdo — murmurou, sem conseguir acreditar no que ouvira. — Como assim doente?

Ela se abaixou em frente ao padre e então tudo mudou mais uma vez. A candura de antes foi substituída por um olhar repleto de lascívia. O cheiro pútrido lhe feria as narinas enquanto os dedos afundavam no solo escorregadio. Jonah olhou para uma das mãos, sujas de terra e sangue, e um grito de horror ficou preso na garganta.

— Eles me viram fazer algo que eu não devia. — Ava sussurrou em seu ouvido após puxá-lo pela nuca de maneira abrupta, passando a língua áspera pela sua bochecha úmida de suor e chuva. — Eles viram meu desejo pelo senhor, padre, assim como eu via seu desejo por mim durante as aulas.

— Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum… — Jonah começou a recitar o versículo 4 do salmo 23, mas Ava colou sua boca a dele com urgência.

Beijá-la era como cair em um abismo sem nunca encontrar o chão, enquanto sua alma o abandonava aos poucos, atraída pelos lábios de Ava. Ele sentiu o gosto salso do sangue, fumaça e dos próprios pecados.

— Eles condenaram as palavras que disse, os beijos que dei, as mãos que tocaram cada parte do meu corpo. — A mão dela desceu até seu pescoço e puxou o colarinho clerical, jogando-o no chão. — Julgam-me pelo desejo desconcertante que causo em mentes conturbadas como a sua. Mulheres são sempre as culpadas, não? Os homens pecam e nós somos os demônios do seu inferno.

— Ava, não faça isso. — Sua voz saiu tremida, incerto se desejava realmente que ela parasse. — Essa não é você.

— Não? Tem certeza? — A menina sentou em seu colo, desabotoando o sobretudo preto. — O senhor diz isso pela menina recatada que fui há três anos? Sabe o que é mais engraçado disso tudo? Apesar dos crucifixos e doutrinas que tentam transmitir aqui, encontrei o demônio entre paredes religiosas. Enquanto era educada para sucumbir como Eva, foi-me oferecido a liberdade de Lilith.

As palavras de Ava se misturavam aos gemidos e gritos vindos dos corpos ao redor, enquanto o prazer e a dor cresciam dentro de Jonah, castigando-o como as chamas do inferno. A menina ria ao observar as paredes da paróquia tremendo, e as rachaduras que abriam no chão à medida que o padre se aproximava do arrebatamento do próprio clímax.

— Acredito que não foi só eu quem encontrou o demônio, afinal — murmurou ela pouco antes do padre atingir o ápice, agarrando-se a Ava e escondendo o rosto entre seus seios recém florescidos.

Jonah sentia o corpo quente contra o seu, certo de que em algum momento se queimaria, mas sem se importar com o que aconteceria consigo daquele momento em diante. Mas a pele da menina se tornou fria e menos densa, de forma que, aos poucos, suas mãos encontraram apenas o vazio e os olhos se depararam com paredes brancas acolchoadas. As vestes clericais foram substituídas por uma camisa de força. Ao se dar conta de onde estava, sozinho, gritou até não aguentar mais. Imagens de Ava continuaram a surgir em sua mente, mas ela não estava lá. Ninguém estava.

Do lado de fora da cela, duas enfermeiras do manicômio observavam o padre.

— Como pode um homem de Deus ter parado aqui, Joan? — perguntou a mais nova, arriscando um olhar de soslaio para colega.

— Homem de Deus o cacete — rebateu Joan, soltando um muxoxo. — Ele matou uma menina faz uns três anos, quando dava aula em um colégio católico. Encontraram-no todo sujo de sangue em frente ao altar da capela. Se existe um inferno, eu espero que esse daí morra e queime até o fim dos tempos.

— Qual era o nome da garota?

— Eu sei lá! Não lembro nem o que comi ontem. — A enfermeira mais velha seguiu seu caminho pelo corredor, enquanto a outra permaneceu ali, vendo-a se afastar.

— Pra que esperar até que morra? — perguntou para o vazio, voltando a olhar para o padre dentro da cela, que se esgoelava.

— Anda, Ava! Não perca seu tempo com esses daí, não! — gritou Joan de longe.

— Tem razão. A gente se vê depois, padre — disse Ava, antes de abandoná-lo na escuridão de seu inferno particular.

F I M

3 comentários em “Castigarum

  1. Muito bom!! Mas sou suspeito pra falar, adoro rolos com padres , nas histórias kkkkk
    Quotando as partes que mais gostei:
    “Beijá-la era como cair em um abismo sem nunca encontrar o chão, enquanto sua alma o abandonava aos poucos, atraída pelos lábios de Ava. Ele sentiu o gosto salso do sangue, fumaça e dos próprios pecados.”
    “Enquanto era educada para sucumbir como Eva, foi-me oferecido a liberdade de Lilith.”
    “— Homem de Deus o cacete” lol
    Você sabe descrever muito bem, consegue passar todo um clima pro leitor. Curti muito, de verdade .
    E esse fim foi muito bem pensado! Parabéns

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