In the Dephts of Her Soul (Pt. 6) – O Minguar da Lua

Escrito por Natasha Morgan.

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Rachel estacionou o carro na garagem improvisada, do lado de dentro de suas cerquinhas graciosas, e franziu o cenho.

Havia uma perua funerária parada há alguns metros de sua casa.

Rachel saiu do carro e seguiu até lá, os olhos semicerrados. À medida que ia se aproximando pôde ouvir o reggae baixinho tocando no toca fitas da velha perua. Os vidros estavam fechados, embaçados por uma névoa branca.

Rachel bateu de leve uma vez na janela. Houve um movimento dentro da perua, como se alguém estivesse se movendo, e então o vidro baixou. Uma onda de fumaça foi sugada para fora e a garota tossiu, afastando a névoa com a mão.

Um rapaz cambaleou para fora da perua, esboçando um sorriso torto e letárgico. Vestia uma calça com rasgos propositais, camiseta de banda e tênis desleixados. O cabelo ondulado batia nos ombros e tinha o mesmo tom castanho que a barba adornada de miçangas.

– Ah, desculpe, princesa.

Rachel ocultou um sorriso.

– O que você está fazendo aqui num carro de funerária? Houve algum acidente? – seus olhos vagaram pela paisagem silenciosa.

O rapaz pareceu encabulado e tentou esconder o baseado.

– Nenhum acidente, Princesa. Eu estava aqui curtindo um som. – sua voz era arrastada, como caramelo derretido. – Não queria incomodar os vizinhos.

Rachel olhou o cascalho que rodeava o rio silencioso ao longe.

– Não há muitos vizinhos por aqui.

– Por isso mesmo que venho curtir a paz do rio por essas bandas. – os olhos do rapaz a fitaram, atenciosos. – Tinham mesmo comentado sobre uma garota morando pelas redondezas do rio. Só não disseram que era tão bonita.

Rachel foi incapaz de conter o sorriso.

– Rachel Bones – ela estendeu a mão.

O rapaz a cumprimentou formalmente, com um sorrisinho de canto de boca.

– Soren.

– Então, Soren, você sempre encosta perto da casa dos outros para fumar maconha?

Ele riu, um tanto encabulado.

– Na verdade eu prefiro lugares mais reservados. Quer um trago? – ele ofereceu o baseado.

– Não, obrigada. Gosto de me manter sóbria.

– Isso é uma escolha muito sábia. – o jovem tocou a têmpora com um dedo enquanto tragava a fumaça alucinógena.

– Considerando seu trabalho não te culpo por precisar relaxar um pouco – Rachel disse, fitando o emblema funerário colado a perua. – Você parece lidar bem com isso.

– O que, os mortos? – Soren deu uma risadinha. – Os mortos não me apavoram nem um pouco. Eu tenho medo é dos vivos. Daqueles que assombram a noite.

– É, os vivos me apavoram também.

– Ninguém deveria apavorar uma moça tão bonita.

– Você é muito gentil, Soren.

– Gentil é meu segundo nome – ele fez um gracejo desajeitado. – Ouvi dizer que você está ajudando nas investigações sobre o monstro da floresta.

– Estou. E não há monstro nenhum. É só a força da natureza.

– Com todo respeito, espero que essa força da natureza se mantenha bem longe de mim. – Soren estremeceu e jogou fora o que restou de seu baseado. – Eu vi o que fizeram com aqueles rapazes. Apavorante, não? – deu uma piscadinha para Rachel.

Ela sorriu, divertindo-se com o charme do rapaz.

– Não se preocupe, vamos cuidar para que esse predador não cruze os limites da cidade novamente.

– Se é você quem vai nos salvar posso dormir tranquilo essa noite. – Soren sorriu para ela, dirigindo-se para sua perua. – Foi um prazer conhece-la, Rachel. Prometo não estacionar novamente tão próximo de sua casa.

– Por favor, sinta-se a vontade.

– Não lhe soa apavorante um rapaz estranho te observando dentro de um carro de funerária?

– Eu tenho um dom para atrair pessoas estranhas. E nem sempre estranho vem acompanhado de ruim. Você tem uma energia boa.

Soren franziu o cenho.

– Você não é uma daquelas sensitivas que acendem velas e fazem vodu, né?

Rachel caiu na risada.

– Não, não tenho vocação para feitiços e afins.

– Uma pena. Ia apresenta-la a um conciliábulo fantástico aqui da cidade.

– Se eu fosse você tomaria cuidado, as pessoas dessa cidade não gostam muito daqueles que não mantém a fé católica.

Soren balançou a cabeça.

– Não deixe mamãe assustá-la com o fanatismo dela.

– Sua mãe?

– A adorável Charlott adora arrebatar novos carneirinhos.

– Você é filho da Charlott? – Rachel estava espantada.

– Infelizmente. – Soren alisou a barba com pesar.

Rachel riu, com vontade.

– Essa é uma coisa que eu realmente jamais suporia.

– É o que todos dizem. Se sente mais segura agora? Sabendo que o estranho da perua funerária é filho da boa alma da cidade?

– Não. – Rachel riu. – Eu deveria correr para dentro de casa e trancar as portas agora mesmo.

– Minha querida, sou quase inofensivo. O ato mais falho que cometi na vida foi deixar minha mãe me arrastar para um chá com as amigas dela numa noite de quinta feira.

– Me lembre de nunca aceitar um dos chás dela.

– Querida Rachel, eu vou insistir para que ela a convide, assim não será uma tarefa tão monótona fazer companhia aquele monte de velhinhas.

Rachel riu novamente.

Soren a analisou com atenção.

– Você não me parece uma ovelhinha esperando para ser arrebatada.

– Não sou.

– Claro que não. Está mais para aquelas mulheres extraordinária que honram a lua e o sol. – Soren soou poético. – Embora eu deva admitir que ouvi algo a respeito de dinossauros.

Rachel cobriu o rosto com as mãos, escondendo o sorriso encantador.

– Acho que deixei sua mãe irritada.

– Não se preocupe, a irritação dela passada ao primeiro gole de Brandy. Talvez você queira me convidar para honrar esse deus dinossauro qualquer dia desses.

– Eu prometo que se eu for me embrenhar na floresta para honrar alguma coisa, chamo você.

– Rachel, seja para o que for fazer, não se embrenhe na floresta sozinha. – Soren deu uma piscadinha. – A gente se vê por aí.

Rachel acenou e a perua se afastou aos solavancos.

 

Flook a esperava na sala, próximo á lareira. O focinho rosado se remexeu tão logo ela entrou, e o porquinho saiu correndo e saltitando pelo piso de madeira. Rachel o ergueu do chão com carinho e beijou aquele focinho gelado. Ela ainda sorria abobalhada, os resquícios da boa energia de Soren iluminava sua alma.

Mas tão logo seus olhos pousaram na pasta marrom em cima do sofá, o sorriso morreu em seus lábios e a força abrasadora da tristeza se apossou dela.

Rachel tinha negócios a resolver. E precisava agir de pressa antes que aquela incerteza dolorosa despedaçasse sua alma mais uma vez. Logo agora que ela estava conseguindo juntar seus pedaços…

Ela apanhou a pasta marrom e tocou o couro com carinho.

Tantos anos de procura para nada. Toda aquela dor e sofrimento, tantos anos perdidos. E quando ela finalmente decide se mudar e dar uma chance a vida surge uma fagulha distorcida de esperança.

Rachel soltou Flook no chão e saiu novamente. Precisava bater um papo com o xerife.

 

A delegacia estava abarrotada de gente quando ela chegou, os oficiais se mexendo com rapidez de um lado para o outro. Estavam agitados e nervosos. Rachel pediu para falar com o xerife e um dos policiais foi gentil em leva-la até ele.

Garrett estava sentado em sua mesa, falando calorosamente ao telefone. Ele gesticulava nervosamente enquanto tentava explicar algo sobre um acidente e ossos fraturados. Estava tão nervoso que a veia em seu pescoço saltou.

Rachel se sentou em silencio e esperou pacientemente.

O xerife lhe lançou um olhar sério e optou por transferir a ligação para seu pessoal.

-Péssimo momento, senhorita Bones.

– Sinto muito. – Rachel engoliu em seco. – Vocês estão bastante atarefados hoje. Não quero tomar muito do seu tempo, mas é realmente importante.

– É algo relacionado ao animal selvagem?

– Não. É sobre as cavernas. O senhor concluiu a investigação que eu pedi?

Garrett respirou fundo, recostando-se em sua cadeira.

– Por que acha que estamos atarefados? – ele gesticulou seus homens em movimento do lado de fora do escritório. – Não há nada naquelas malditas cavernas a não ser a altura e os perigos malditos. Mandei três de meus homens até lá e o que obtive? Três homens debilitados! Um com a bacia fraturada, outro com duas pernas quebradas e um terceiro preso na UTI.

– Eles caíram? – Rachel estava chocada.

– Aquelas montanhas são conhecidas como mortais. E é exatamente por isso que as escaladas foram terminantemente proibidas cinco anos atrás.

– Eu subi e desci sem equipamento, Xerife. – Rachel estendeu as mãos – Sem muitos arranhões.

– O que está querendo dizer? Que meus homens não sabem escalar uma montanha?

– Não. Alguém pode tê-los empurrado. Você conversou com eles depois da queda? O que eles disseram?

– Disseram que estava ventando muito e que isso ocasionou a queda. Um deles ficou pendurado e acabou puxando os outros, como acontece tantas vezes em escaladas. Meus homens não são alpinistas, são oficiais da polícia local.

– Xerife, eu estive em Cross Velk hoje com a Detetive Dawson e fiz umas pesquisas sobre a penitenciária. Alguns presos que conseguem escapar atravessam o rio para se esconderem nessas montanhas. Uma caverna como aquela é o tipo de esconderijo perfeito.

– Esconderijo perfeito? – Garrett a interrompeu – Isso se o fugitivo conseguir escalar aquelas rochas, o que é pouco provável considerando a exaustão e fome até chegar as nossas montanhas. Um prisioneiro cansado, faminto e desesperado não conseguiria sequer se apoiar naquelas rochas.

– E quanto ao homem que eu vi? Como ele conseguiu chegar até lá? Ele parecia bastante a vontade naquela caverna, como se passasse muito tempo por lá. Esse homem estranho bem pode ser um dos fugitivos de Cross Velk. Há quanto tempo ele está vivendo naquelas montanhas sem que ninguém tenha percebido? Pode ter sido o responsável pela queda de seus homens.

– Senhorita Bones, meus homens não foram empurrados. Acha que eles não perceberiam isso? Não há nada naquelas cavernas além de escuridão, umidade e morcegos. Nem mesmo seu predador.

Rachel cruzou os braços numa expressão contrariada.

– Pegue o senhor mesmo os relatórios. – ela passou a pasta marrom para as mãos do Xerife.

– Já li esses relatórios inúmeras vezes. E até poderia acreditar neles se meus homens não tivessem checado a caverna.

– Todas elas?

– Você não disse que viu o homem na primeira cadeia de montanhas? É onde investigamos. Além do mais, aquelas cavernas tem uma sucessão de labirintos e túneis. Nenhum ser humano se encontraria naquela escuridão. Se houvesse prisioneiros naquela caverna, eles estariam próximos à luz, na superfície.

– Eu não estou louca, Xerife.

– Eu jamais pensaria isso de você, senhorita Bones.

Rachel suspirou, cansada.

– Isso não é tudo o que posso fazer por você hoje. – o Xerife se levantou, abriu uma das gavetas do gaveteiro de mogno no canto da sala e entregou um envelope pardo a garota. – Eu fiz algumas pesquisas sobre Dominic Kemp. Não há nenhum registro dele em penitenciárias, hospitais ou internatos. O rastro continua perdido, senhorita Bones. Ele simplesmente deixou de existir. Não há base para reabrir o caso.

Rachel fitou o envelope sem emoção.

– Alguma chance dele ter sido sequestrado? Não se pode parar uma investigação assim. Deixar por isso mesmo. E se ele estiver vivo?

– Não há mais uma investigação. O caso foi arquivado.

– Mas eu o vi… – sua voz saiu num sussurro.

– Eu sinto muito. Você pode ter se confundido.

– Como diabos uma pessoa pode achar ter visto um homem nu na floresta?

– Creio que seu homem nu seja apenas um estranho vagabundeando na floresta, como muitos por aí. Deus sabe como existem hippies por essas bandas, garotos vestidos em trapos honrando a natureza. Isso sem contar as bruxas…

Rachel se levantou num rompante.

– Espero que não se importe se eu iniciar minha própria investigação.

– Senhorita…

– Não. Eu sei o que vi, Xerife. Na floresta e naquela caverna! Eu não vou desistir de Dominic. Muito menos de descobrir o que está acontecendo naquelas montanhas.

– Eu vou ter problemas com você? – os olhos de Garrett assumiram uma expressão de alerta.

– Nenhum, Xerife. Estou aqui para ajudar. – ela o encarou.

– Por favor, senhorita Bones, não se meta em nenhuma confusão.

Rachel recolheu sua pasta de cima da mesa e bateu a porta quando saiu.

O vento frio açoitou seu rosto quando ela atravessou a rua e, por um momento, ela tentou justificar que fora isso o motivo das lágrimas borbulharem em seus olhos e despencar numa cascata triste.

O coração apertou em seu peito e ela precisou reduzir os passos para conseguir respirar. Aquela dor devastadora ameaçava irromper em seu peito novamente e foi preciso muito esforço para mantê-la adormecida. Não permitiria mais aquilo. Não mais.’

Rachel mordeu os lábios, evitando chorar. As lembranças vieram frescas e dolorosas: ela correndo pela grama verde, sendo perseguida por alguém que fazia seus dias se preencher de cores. Ele a agarrando no ar e apertando-a de encontro a seu peitoral protetor, depositando um beijo afetuoso em sua testa. Os risos suaves nas noites de verão, a alegria habitual que se instalava em seu peito só por estar com ele. Os planos que faziam juntos, as brigas que tinham e as aventuras que viviam.

Aquelas lembranças eram tão contentes que lhe tiravam o folego. Saber que não tinha mais Dominic ao seu lado fazia com que sua alma se afundasse em um mar escuro de tristeza e desespero.

Ela fechou os olhos, tentando não lembrar.

Mas para onde olhasse podia recordar do marrom de suas roupas de escalada, o chão terroso do Grand Canyon e as montanhas rochosas. Ela correndo por entre as paredes sólidas e ele correndo atrás, ansiosos por explorar cada pedacinho daquele lugar fantástico. Até que se desencontraram por alguns minutos. E tudo ficou silencioso demais, vazio demais.

Uma mão pousou em seu ombro, tirando-a de seus devaneios. Rachel recuou assustada.

Hugh a fitava com um sorriso hesitante, vestia uma calça jeans decorada de purpurina, uma blusinha justa que deixava transparecer o piercing no umbigo e botas marrom claro.

– Você anda um tanto assustada, queridinha.

– Sinto muito, eu estava distraída. – Rachel tentou um sorriso, limpando os rastros de lágrimas discretamente.

– Você não me parece bem. – as sobrancelhas de Hugh se uniram numa expressão preocupada.

Rachel teve que reunir forças para não desmoronar ali mesmo.

– Tudo bem, por que não vamos até Erin tomar um cappuccino e comer uns Muffins fresquinhos? – Hugh colocou o braço gentilmente nos ombros dela, como se fossem velhos amigos. – Eu estava indo para lá agora mesmo.

– Parece uma boa ideia. – Rachel assentiu, deixando-se ser conduzida.

Eles atravessaram a rua pouco movimentada, ouvindo o sino da igreja soar. A avenida se encheu de gente de repente, os cristãos devotos saindo de mais uma tarde agradável com seus companheiros.

Rachel fitou a porta da igreja salmão e avistou uma senhora gorducha conversando com o padre, animadamente.

Ela fez um muxoxo, escondendo o rosto no ombro de Hugh.

O rapaz riu, varrendo os olhos para onde ela olhava.

– Andou arrumando problema com os devotos da igreja?

– Não. Mas Charlott Blanc quer que eu conheça a congregação.

– Hum – os lábios de Hugh se fecharam em linha reta. – Ela está nos observando agora. E comentando com o bom padre como é absurdo que uma jovem tão bonita aceite se misturar com viados extravagantes como eu.

Rachel voltou seus olhos para o colega, deixando claro sua desaprovação ao comentário.

– Charlott Blanc é uma mulher cheia de preconceitos e faz questão de espalha-los pela cidade. – Hugh comentou.

– Fico feliz de não ter feito amizade com ela, então. – Rachel resmungou e continuou andando.

Hugh sorriu sinceramente.

Separador 4

Erin os esperava no bar, com uma caneca fumegante de cappuccino e Muffins fresquinhos, como prometido. Hugh foi repreendido por seu atraso de cinco minutos e Rachel ficou feliz em defender o colega.

Moon estava lá, limpando o balcão e lançou um de seus olhares misteriosos quando Rachel se sentou.

– Olá.

– Oi. – Moon varreu os olhos sobre o rosto corado da garota.

– Eu disse que viria.

– Erin fica feliz.

Rachel abaixou os olhos para seu café, alisando o vapor com os dedos delicados.

Erin puxou um banquinho de madeira e sentou ao lado dela no balcão, acompanhando-a com uma taça de vinho.

– Experimente os de cenoura – Erin apontou para a cestinha de Muffins. – Hugh esteve se gabando o dia todo por eles.

Hugh reapareceu pela portinhola da cozinha, sentando-se junto às moças, já de posse de seu avental bege.

– É porque eles ficaram realmente deliciosos. – ele deu uma piscadinha, apanhando um Muffim ao qual mordiscou sem muito entusiasmo.

– Você não tem serviço na cozinha hoje? – Erin o fitou com as sobrancelhas erguidas.

Hugh lhe mostrou a língua e voltou-se para Rachel.

– Estávamos aqui nos perguntando onde se meteu o dia todo.

– Espero que não na floresta. – Moon disse, com um olhar intenso.

Rachel sorriu e mordiscou seu Muffim. Estava mesmo uma delícia e ela se permitiu apreciar o sabor enquanto eles a observavam em silencio.

– Acho que ela arrumou um namorado secreto e não quer que saibamos. – Hugh conjecturou, bem humorado. – Foi ele quem te fez ficar tristinha assim?

– Eu não tenho um namorado.

– E deseja um?

– Shiu! – Erin repreendeu o rapaz. – Deixe-a em paz, Hugh! Você é uma vadia. Quer que as pessoas arrumem um namorado para você ficar de olho nele.

– Isso não é verdade. – Hugh balançou a cabeça de um lado para o outro. – Eu sempre respeitei os namorados das amigas.

Rachel riu.

– Hugh, eu não tenho um namorado. Mas se eu topar com alguém bonitão, prometo apresentar a você.

De repente ela se lembrou de Soren e se perguntou se ele gostaria de conhecer Hugh. Soren não lhe pareceu gay, mas ela não sabia com certeza.

– Querida, homens em minha cama é o que não falta. – Hugh deu uma piscadinha e um sorriso malicioso brilhou em seus olhos. – Como diz a minha amiga aqui, sou uma vadia mesmo, adepto a libertinagem. Mas respeito os amigos.

Erin riu, bebericando seu vinho cheiroso.

Rachel considerou pedir uma taça para ela, considerando os eventos daquele dia.

Moon a fitou com atenção e depois de um momento apareceu com uma taça pela metade, depositando-a no balcão.

– Você não parece ter tido um dia agradável. – explicou.

– Como pode saber? – Rachel correspondeu a intensidade de seu olhar.

– Posso ser intuitiva às vezes.

Rachel sorriu, agradecendo a taça de vinho.

– Houve alguma novidade no caso? – Erin perguntou.

– Não. – Rachel suspirou. – Estão coletando mais informações.

– A essa altura, esse animal deve ter voltado para seu território. As florestas estão tão tranquilas. – Hugh disse, distraído.

– Estive em Cross Velk hoje. – Rachel disse e os olhares se voltaram para ela.

– Você foi sozinha? – Moon perguntou.

– A Detetive Dawson foi comigo.

Erin e Moon trocaram um olhar silencioso.

– Aquele lugar não é agradável. – o comentário de Hugh foi seco.

– É o lugar mais assustador em que já estive. – Rachel concordou.

– Então espero que nunca mais pise lá. – Moon disse e soou um tanto ríspida.

Rachel voltou os olhos para ela, confusa.

– Os prisioneiros que estão detentos naquele lugar são perigosos. – disse Moon. – Ouve-se história sobre Cross Velk por todo município.

– Há algo muito estranho com aquele lugar.

– O que foi fazer lá? – Erin perguntou, tentando não soar muito invasiva.

– O polegar encontrado na floresta pertencia a Tobias Hawke, prisioneiro desaparecido de Cross Velk.

Erin, Moon e Hugh se entreolharam e desta vez Rachel notou.

– O que vocês sabem?

– Tobias Hawke foi um problema para essa cidade. – Erin disse, bebendo de um só gole o resto de seu vinho. – Era um bêbado violento com a esposa e o filho. Agradecemos intensamente quando foi finalmente preso.

– O relatório diz que ele foi preso por furto.

– Hawke roubou uma loja de conveniência perto da estrada. Ele nunca foi muito normal.

– E quando ele fugiu a família não se preocupou em acha-lo?

– A esposa e o filho foram embora para Atlanta logo que ele foi preso. – Erin explicou. – O Xerife estava tão cansado de Hawke que mexeu os pauzinhos para que ele fosse condenado a cumprir pena em Cross Velk.

– E agora sabemos que ele conseguiu fugir, atravessou o rio e tentou se esconder nas montanhas. – Rachel bebeu um gole de sua taça. – Até se deparar com o nosso predador e ser estraçalhado. O que nos prova que ou esse predador tem seu território de caça na floresta ao redor de Cross Velk ou alguma coisa o atraiu para lá.

– Por que acha isso? – Moon se manifestou. – Hawke pode ter trombado ocasionalmente com isso no meio da floresta. Deste lado do rio.

– Poderia ser. Algo fácil de se resolver. Mas não acha estranho haver tantas fugas e os rastros simplesmente se perderem no ar? Milhares de desaparecidos.

– Prisioneiros fugidos somem no mapa. Isso é normal.

– Absolutamente nada nos relatórios de Cross Velk é normal. E considerando o que eu vi ontem…

– O que foi que você viu? – os olhos de Moon assumiram um brilho enigmático.

– Um cara bem estranho no alto das montanhas, na caverna.

– Você subiu até a caverna? – Hugh não pode conter o gritinho que escapou de sua garganta. Ele parecia horrorizado e fitou Moon, que não demonstrou surpresa.

– Não é tão aterrorizante assim escalar montanhas.

– Aquelas montanhas e cavernas são proibidas. – disse Erin.

– Eu sei. Mas precisava ver…

– Ver o que? – Moon estreitou os olhos. – Por que subiu lá?

– Eu vi alguém na floresta… Alguém que eu conhecia. E quando vi a caverna pensei que talvez ele pudesse ter subido. Pensando agora, eu sei que foi estupidez. Mas eu tinha que ver.

– Você escalou uma montanha perigosa, sem equipamento, porque achou ter visto alguém que conhecia? – Erin tentava entender e não era a única.

– É complicado. – Rachel bebeu mais.

– O que achou lá dentro? – Hugh quis saber.

– Nada. Só pedras, morcegos e um cara estranho. – Rachel estremeceu. – O que me faz pensar que os detentos de Cross Velk vêm se escondendo nessas montanhas. Pedi ao Xerife para mandar investigarem, mas não encontraram nada. Os policiais encarregados se acidentaram.

– O que aconteceu?

– Caíram. Garrett está louco da vida.

– E não é para menos. – Moon parecia irritada. – Não há nada acontecendo naquelas cavernas. Elas são proibidas por um bom motivo: por ocasionarem graves acidentes. Desde que vivo aqui vi turistas e profissionais se machucando. Até que a polícia florestal decidiu proibir qualquer tipo de escalada nas montanhas.

– Eu sou uma bióloga, sei me embrenhar na natureza. – Rachel disse, na defensiva.

– Disse que sabia se virar bem na floresta também. E acabou quase virando lanche de urso.

– Sinto muito se minhas aventuras a aborrecem.

– Não me aborrecem. – Moon forçou um sorriso. – Só é cansativo ver você se metendo em confusão.

Rachel cruzou os braços de mau humor.

– Então vocês acham perfeitamente normal um homem esquisito residir no alto das montanhas, numa caverna aparentemente proibida?

– Vai ver ele só estava de passagem. – Hugh tentou controlar a situação. – Um forasteiro teimoso como você.

– Ele não parecia um forasteiro.

– Você falou com ele? – Erin perguntou, preocupada.

– Não tivemos uma conversa muito amigável. Ele parecia aborrecido por eu ter invadido a caverna. Como se a caverna fosse dele.

– Como ele era?

Rachel se recostou no banquinho, tomando mais um gole de vinho. Ela pareceu refletir um pouco, puxando na memória o rosto daquele estranho arrogante.

– Forte, bonito. Cabelos e barba clara, olhos misteriosos.

– O que aconteceu lá em cima? – a pergunta de Moon foi objetiva.

– Ele me salvou. – Rachel disse, de má vontade. – Eu me assustei e quase caí do penhasco. Ele me segurou e me puxou de volta. Depois foi curto e grosso dizendo que eu não deveria mais subir até ali.

– Não deveria mesmo. – Moon concordou.

– É só o que tem para me dizer? Não acha estranho?

– Como Hugh mesmo disse, era só um forasteiro. O que ele fazia ali não é da nossa conta. Coisas estranhas acontecem nessas florestas.

– Você não me parece o tipo provinciana que aceita tudo sem questionar. – Rachel alfinetou.

– Eu questiono o que é questionável e suspeito. Um forasteiro numa caverna não é algo suspeito. Ainda mais quando ele foi generoso por salvar sua vida, não? Além do mais, se fosse algo tão esquisito, não acha que os policiais teriam encontrado alguma coisa nas cavernas?

Rachel ficou em silencio. Ainda não engolira aquela história de que não encontraram nada.

– Acho que você precisa de mais algumas taças, queridinha. – Hugh mudou o humor da conversa.

– Concordo. – Moon se levantou. – Vou buscar mais vinho e tirar a ultima leva de Muffins do forno. Erin, vou precisar de sua ajuda.

– Claro. Preciso de mais vinho também. – Erin sorriu, estendendo a taça vazia.

Elas desapareceram pela portinhola da cozinha.

 

Moon puxou Erin pelo braço, a expressão tensa.

– Era Ragnar. Ele está furioso!

Erin só sabia balançar a cabeça de um lado para o outro, pasma.

– Temos que levar Rachel para sua casa hoje. Ele vai mandar alguém atrás dela, tenho certeza!

– Mas ele a salvou. Não deixou que caísse do penhasco. Se ele a quisesse morta teria terminado isso na caverna.

– Eu falei com ele noite passada, acredite, ele se conteve muito para não destroça-la. Mas não é a isso que me refiro! Rachel foi até Cross Velk fuxicar. A essas horas Reynolds deve ter alertado o clã. Ragnar não vai suportar mais essa intromissão.

– Então parece que vou ter que ter uma séria conversa com Elvira.

– Erin, não se meta nessa briga.

– Ora, Moon! Estão dizendo em matar uma garota inocente!

– Somos Lycans, Erin! Quando a lua cheia surge no céu, muitas garotas inocentes morrem.

– Então por que se dar ao trabalho? – Erin foi rude.

– Porque estou fazendo o que eu posso para manter essa menina longe de problemas! Vamos celebrar o minguar da lua hoje a noite. Vamos levar a Rachel junto. É mais seguro para ela.

– E se por acaso Ragnar aparecer na porta da minha casa? Acha que você e Hugh dão conta dele? Não seja estúpida.

– Ragnar vai mandar alguém para caçá-la. Se Rachel estiver conosco, não virão pegá-la.

Erin suspirou, enchendo sua taça de vinho até a boca.

– Ótimo! Eu estava a fim de me embebedar hoje mesmo.

Moon esboçou um sorriso, mas ele não chegou a seus olhos.

 

Erin voltou com a taça de Rachel e a depositou sobre o balcão, dando uma piscadinha para a jovem.

– Beba, querida. Vamos deixar as preocupações e investigações de lado essa noite, certo? Permita-se relaxar um pouco. É o que fazemos por aqui.

Hugh se levantou e puxou a taça de Erin, dando um gole no líquido tinto.

– Beba, dance e sorria, querida. Porque hoje à noite você vai a uma festa.

Rachel se permitiu sorrir.

– Festa?

– Uma pequena celebração da lua minguante. – Erin lhe deu uma piscadinha.

Rachel se lembrou de Soren.

– É algum tipo de ritual pagão?

Hugh gargalhou.

– Você é engraçada.

– Nós não sacrificamos ninguém, não se preocupe. – Erin assegurou, com humor.

– Tampouco há uma fogueira. – disse Moon, surgindo com outra taça de vinho.

– A gente apenas se reúne para beber e conversar. – Hugh disse. – De vez em quando aparece uns corpos gostosos para eu me aproveitar. Mas hoje não é o caso. Hoje é noite apenas das meninas.

Rachel sorriu, permitindo-se ficar a vontade.

– Sendo assim, eu aceito.

Separador 4

A Detetive Dawson encerrou seu expediente tarde naquela noite. Seu relógio na parede do escritório marcava 00h:30. Desligou o notebook, vestiu o blazer, apanhou a bolsa de couro pendurada no encosto da poltrona e apagou as luzes. O corredor estava vazio e silencioso quando ela saiu, o cheiro de formol espreitando pela porta fechada das salas de necrotério.

Como sempre foi a última a sair do prédio, deixando para trás o rastro adocicado de seu perfume. Estava ansiosa por chegar em casa, abrir um garrafa de vinho e degustar o jantar solitário.

Dawson sempre levou seu trabalho a sério demais e era exatamente por isso que era tão boa no que fazia. Foi sempre a melhor na escola e na faculdade alcançava as maiores notas. Quando decidiu se mudar para Montana, sua família achou um total desperdício, mas não tentaram dissuadi-la da ideia. Para ela, trabalhar com os renomados detetives em Washington nunca esteve em seus planos. Contentava-se com seu emprego em Montana, sendo respeitada por todo o estado. Ela se orgulhava de seu trabalho.

Dawson estranhou o silencio na rua, era sexta feira à noite. Onde estavam os jovens baladeiros? Seus olhos focaram o bar de Erin há alguns metros, do outro lado da avenida. As luzes estavam apagadas. Tão cedo…

Nada de Chopp para a moçada aquela noite.

Dawson lamentou, talvez fosse uma boa ideia tomar uma taça de vinho num lugar público, socializar um pouco. Sempre fora tão solitária… Mas seus planos se viram frustrados com as luzes apagadas do bar. Teria que ficar para outra noite.

Ela destravou o Ronda Civic prateado, e jogou sua bolsa lá dentro, aproveitando o ar fresco da noite antes de entrar no carro e dar partida. Tinha planos de chegar em casa antes de cair a chuva que avizinhava.

Por sorte a estrada estava tranquila, as árvores se agitando com o uivar do vento cercando a floresta. Dawson ligou o som e a música melodiosa preencheu o silencio da noite, relaxando os músculos tensos da detetive. Ela se remexeu no banco, balançando ao ritmo da canção enquanto acompanhava a letra com sussurros.

Estava pensando nos relatórios que tivera que assinar naquela tarde quando alguma coisa se chocou contra o carro. Num minuto ela olhava para a estrada vazia e no outro algo surgiu no meio do caminho e atropelou o carro.

Dawson pisou no freio, batendo a testa violentamente no volante. Um zumbido agudo se instalou em seu ouvido quase que imediatamente e ela levantou a cabeça meio zonza. Horrorizada, viu o para-brisa destruído. Franziu o cenho. Aquilo era uma pegada? Como se algo houvesse pisado no para-brisa de seu carro?

Ela estremeceu, pensando no animal selvagem que espreitava as florestas. Alguma coisa realmente atropelou seu carro, não o contrário como ela supôs. Sem perder qualquer minuto, girou a chave na ignição e pisou no acelerador, ouvindo o motor rugir.

Dawson tremia, mas segurou bem o volante com as mãos. Seus olhos se atreveram a olhar pelo retrovisor, mas não havia nada lá atrás a não ser a escuridão da noite. Ela estava quase alcançando a curva logo a frente quando foi atingida novamente, desta vez pela lateral.

A Detetive não teve tempo de olhar o que era, seu carro foi arremessado do outro lado da estrada, capotando duas três vezes até ser engolido pela floresta que cercava a estrada.

O silencio imperou na noite escura, corrompido pelo ofegar de algum animal.

O predador se aproximou da beira da estrada, o corpo musculoso era coberto por uma camada de pelos escuros e espessos, a bocarra de dentes afiados estava suja de sangue, o focinho deformado exibia uma cicatriz ardilosa e as orelhas eram pontudas e curtas. A criatura farejou o ar e emitiu um som aterrorizante que lembrava um uivo, firmou-se nas quatro patas de garras afiadas e se pôs a correr pela noite adentro, desaparecendo na outra extremidade da floresta.

Separador 4

Continua

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