O Erro

ZUZY.png

Por Zuleika Juliene

 

Éridh

 

De repente o trânsito parou.

Éridh tinha uma beleza fora do comum, por onde ela passava homens, mulheres e crianças paravam para olhar; sua estatura, seu porte físico, seu cabelo, o corpo, tudo parecia ter sido desenhado pelo mais competente artista.

Ela chegou a passos firmes no farol, ele estava fechado para pedestres, mas ela com os olhos fixos em um objetivo, atravessou, voando, liberta de um mundo pesado demais para que se pudesse suportar.

Todos nós temos nossos fantasmas, questões que não somos capazes de compreender ou de enfrentar, questões que nos tiram o sono, que nos enfraquecem e que fazem com que pensamentos obscuros não raro nos visitem, porém sempre temos algo mais valioso para nos apegar e evitar que façamos alguma besteira, pois esta sombra apesar de sempre nos acompanhar não tem sozinha força suficiente para nos derrubar, entretanto, naquele dia as lembranças, os afetos, as recordações carinhosas e tudo que Éridh estimava havia sido removido de sua mente.

Éridh sentia-se vazia, mas totalmente vulnerável para que sua sombra a preenchesse. E foi o que ocorreu, todas as desilusões, frustrações, todos os sentimentos de culpa, arrependimentos e rancores se misturaram em uma única energia roubando-lhe a identidade e a fazendo agir impensadamente.

De repente o trânsito parou… E no meio da avenida não havia mais beleza, não havia mais doçura, o artista havia derrubado todo o pote de tinta vermelha sobre a tela estragando uma promissora obra prima.

Um aglomerado formou rapidamente em torno da cena, havia curiosos, que era a maior parte, havia escandalosos, gente passando mal, pessoas desesperadas gritando ou chorando, outras tentando ligar para a emergência, havia pessoas registrando o momento para compartilharem com amigos e familiares, havia também pessoas, muitas pessoas quietas, apenas olhando, como que hipnotizadas com aquele quadro, algumas tentando compreender, outras imaginando o que teria levado àquilo.

A verdade é que nenhum dos presentes aquela figura, para todos, este era apenas mais um caso dentre tantos que ocorrem todos os dias, igual aos que são noticiados pelos jornais, era apenas mais um, era apenas mais um número na estatística.

Um dos curiosos aproximou-se do corpo e recolheu a bolsa de Éridh, a abriu e retirou a carteira. Não havia muita coisa, o RG: Éridh Maria da Silveira, dezenove anos; uma nota de vinte reais, um bilhete único de estudante, a carteirinha da faculdade: administração, 1º ano; um cartão do dentista. Enfiou a mão na bolsa novamente, pegou o celular, não conseguiu obter nenhum número por causa do bloqueio. Vasculhou mais um pouco a bolsa com a finalidade de encontrar alguma pista, um número para quem ligar, achou solto, perdido no fundo da bolsa apenas um cartão:

“Brechó Vitorino”

Jogou o cartão dentro da bolsa e a devolveu no lugar.

 

Continua

Gostou? Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s