Djinn

 

 

 

djiin-orig

Por  Lillithy Orleander

 

“Há muito tempo atrás, perto de um oásis de areias douradas, um rapaz se enamorou da bela odalisca Madiér.

Por ironia do destino ou pura sorte Madiér também se apaixonou pelo jovem mercador, que levava uma vida simples ao lado do pai, mas estava prometida ao harém do sultão, onde seria serva de suas esposas e concubinas, para o orgulho da família, que esperava que o soberano se agradasse da pobre moça e fizesse dela uma mulher de dinheiro, mas a sorte girou ao contrario e o mal se apoderou da pobre alma…”

 

– Syd! Syd¹! – gritava o servo estridente tropeçando nos próprios passos pelas dunas escaldantes. – Aí vem a caravana dos chefes do Sultão. Syd Zhayr, vieram buscar Madiér e as outras moças.

Zhayr largou o que estava fazendo e correu em direção á uma tenda distante, seu desespero crescia a cada passada que dava e caia.

– Você deveria, deixar – nos em paz Zayhr, minha irmã não é para seus olhos. Alá já escreveu o destino de Madiér e ela será soberana. – disse o rapaz corpulento de profundos olhos verdes empurrando Zhayr que corria como se sua vida dependesse disso.

– Nhaylé eu amo sua irmã, e você a vende como vende a seus camelos. Madiér merece ser amada.

– Madiér, merece o que eu achar ser melhor para ela e para a família. Você não pode dar uma vida melhor a ela. Não poderá lhe dar jóias e não estará perto para defender – lhe a honra. Você e seu pai são apenas dois andarilhos que não criam raízes, serão sempre como as areias do deserto ao vento.

A caravana chegou e com ela começaram – se as despedidas, algumas moças sorriam, outras choravam e havia Mádier que vinha imponente sem olhar para os lados, com os olhos cheio de lágrimas, mas seu orgulho não a deixava derramar uma se quer.

Agachou – se até o chão e tomou um punhado de areia soprou – a na direção do irmão e recitou o que pareceu uma pequena oração.

Ao longe uma velha sem dentes sorria estupefata, batendo palminhas.

O chão pareceu tremer por um ínfimo instante e a risada maléfica ecoou ao redor de todos ali, presa na areia que se levantava do chão ganhando forma e se desfazendo com o vento.

– Madiér, o que você fez? – perguntava o irmão horrorizado. As mãos cubriam olhos e bocas rapidamente e havia os que mais temiam, que se afastavam e voltavam para suas tendas.

A moça não respondeu, andou suavemente bailando o saiote de seda e lenços coloridos que vestia, enquanto a poeira se abaixava ao tilintar de suas moedas douradas pareciam acalmar a pequena tempestade que se formará.

– Sayidat, eudhra’ jamila². Qual é o teu desejo? – a voz retumbava feito um trovão. A mulher tinha a pele da cor de azeitonas, esverdeada e vestia uma coisa indefinida, era o que pareciam seus trapos de diferentes cores colados ao corpo, tinha os olhos puxados no canto e escuros como o breu.

Ao redor de seu pescoço se prendia uma corrente fina e dourada, que também estava presa em seu nariz. Parecia uma bela mulher, se não fosse os dentes pontiagudos e encardidos. Braceletes de bronze cobriam as tatuagens da orda a qual pertencia.

Nhaylé olhava desconfiado tentando ver o que era aquilo, mas ela parecia segui – lo com olhar.

– Quero esse homem para mim. – ela disse determinada e apontou na direção de Zhayr.

– Que seja feito saydat, mas há um preço a se pagar e…

– Eu sei… – respondeu Madiér ríspida. – Apenas, faça!

As areias que foram sopradas ao redor de Nhaylé subiram sobre ele, que apavorado olhou para a irmã e estendeu as mãos tentando fugir.

– Madiér, não! Si’la(¹) –  As lagrimas caiam copiosamente do olhos da moça, que agora arfava e segurava o peito como se ele estivesse em brasa. Os olhos sangravam e as pessoas começavam a se achegar a garota para saber o que estava acontecendo.

– Ela trouxe um Djinn, vendeu o corpo á ele, vai viver na eternidade carregando a maldição de ser a sombra dele.

A risada maléfica do ser ecoava nos ouvidos alheios como sentença de morte e sinal de mau agouro.

Madiér se retorcia no chão, enquanto Zhayr corria em sua direção para ajuda – lá, os olhos da moça estavam injetados, e seu corpo estava cheio de cortes, como se uma espada invisível fizesse os cortes com exatidão.

O Djinn sumirá e a moça ficará ali entre dor e agonia. O sofrimento de Madiér durou sete noites e sete dias, foram chamados magos e feiticeiros e de nada adiantava. a cura chegou e com ela o brilho no olhar de Madiér se foi.

A velha grotesca descia as dunas e sorria trazendo consigo uma lamparina dourada com filetes azuis e pedras esmeraldinas, a boca faltava dente e o cabelos brancos começavam a se esparsar no couro cabeludo, se vestia como mendiga e se arrastava, todos se afastavam para que ela passasse.

– Aqui se finda minha ganancia. – e entregou a lamparina para a moça.

– Aqui se finda minha vingança. –  e lhe entregou uma bengala. – Você está fadada a ver todos que ama morrerem e um dia passará essa maldição adiante assim como eu, fui obrigada a fazer. Tive riquezas, tive beleza e perdi minha compaixão.

A velha mal acabará de falar e desfaleceu ao solo, tornando – se parte da poeira que se erguia.

 

O anos passaram e como dito Madiér viu a todos morrerem, inclusive assistiu Zhayr ser transpassado por uma cimitarra e a deixar só no mundo com uma filha, Samira…

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” Jiid³ , o que aconteceu a Samira?

– Samira sucumbiu a ganancia tal qual a antecessora da maldição, e um dia quando sua mãe dormia, roubou a lamparina e a abriu. Queria ouro e queria ser eterna. Assim como Madiér sofreu por sete dias e setes noites, o corpo de Madiér foi exigido pela Djinn, era o preço que Madiér teve que pagar para ter seu amado.

Um tempo depois Samira casou – se e soube pelas mãos de uma maga que sua mãe não deveria ter feito tal acordo, pois o destino tinha reservado Zhayr para ela, e ela para Zhayr. 

Samira chorou e tentou reverter sua própria maldição, mas era tarde e a djinn já começara a cobrar sua parte da maldição…

– Que triste, Jiid. – disse a menininha de olhos verdes. 

– Por hoje chega de histórias Meliandre, está na hora de se deitar.

– Jiid? – chamou a garotinha olhando a lamparina na redoma de vidro sobre a penteadeira.

 Sim, ya eazizi.

– Você tem o mesmo nome da filha de Madiér. 

A velha senhora virou – se de costas e apertou o peito com tristeza, olhou na direção da redoma e sentiu como se algo a chamasse.

– Sim, eu tenho baladi qalilana*- Samira pegou a bengala e arrastou porta afora, ela já sabia o que iria acontecer e não iria ficar para ver.

A cimitarra que matou seu pai, agora era a mesma que derramava o sangue escarlate no solo. A lamparina enferrujou -se de imediato e a pequena Meliandre, nunca mais a viu…”

 

Fim?

 

 

 

 

 

NA: ¹ Senhor 

² Senhora, bela donzela

(¹)Si’la: espíritos traiçoeiros de forma invariável;

*Vovó

*minha querida

*minha pequena

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