Tentar

 

 

 

download

 

Escrito por Naiane Nara

 

Eles haviam se stalkeado até a quarta geração. Sabiam os passos um do outro, a rotina, os prazeres. Fizeram o mesmo com ela: conheciam os detalhes do dia-a-dia da moça que acabava de se tornar mulher e provava a liberdade e o mundo.

É por isso que estavam ali afinal. Ela gostava particularmente daquele shopping e aparecia com certa frequência – sozinha ou não – e eles queriam ver a reação dela ao encontrar os dois juntos. Queriam ardentemente um choque de realidade que mostrasse que ela também podia ser dissimulada e falsa, aguardavam a prova de que ninguém poderia ser assim tão perfeita.

O rapaz louro tomava uma caneca de tamanho grande de chopp; o moreno preferiu whisky. Olhavam absortos para as garotas jovens que passavam, ansiosas para se mostrarem, mas não encontraram nada que lhes prendesse a atenção – ninguém tinha o brilho dela naquele lugar.

Estavam sentados a uma mesa de distância e virados um de frente para o outro. Resolveram parar de fingir que não se viam. O louro estalou os lábios com prazer:

– Sabe que ela prefere a mim, não?

O outro arqueou a sombrancelha.

– Em primeiro lugar, boa tarde. Meu nome é Ricardo. Não gosto de me referir a ela dessa maneira. E não, não te prefere.

– Eu sei seu nome babaca. Sei tudo sobre você.

Ricardo saboreou o whisky lentamente antes de responder:

– Você não é o que hasteia a bandeira da liberdade? O que está te incomodando a ponto de saber quem sou?

O louro quedou-se de boca aberta, sem saber o que replicar. Gostava dela muito, mas muito mais do que aparentava. Orgulhoso, queria continuar sua vida de solteiro, mas não desejava que ela fizesse o mesmo. Todas o preferiam, se arrastavam, se humilhavam por ele, por que ela era a única tão indiferente?

– Não gosto de mulheres promíscuas. E é isso que ela é; nós dois somos a prova. Com quantos mais você acha que ela sai?

Ricardo acariciou o copo.

– E o que temos a ver com isso?

O louro bufou.

– Não é possível que você seja esse poço de educação, cara! Não sente ciúme não? É sangue de gente ou de barata que corre aí?

Suspirando, Ricardo sussurrou:

– Claro que eu sinto. Me mordo de ciúme todo dia. Sei quando ela está contigo, os olhos dela brilham ao responder uma mensagem sua. Mas o que posso fazer?

– Ser um homem. Obrigá-la a escolher!

– Você não percebeu que ela ama mais a liberdade do que a qualquer coisa? Estou começando a achar que pessoas louras são realmente idiotas. Se pressionar, ela vai embora. Não quero isso.

O louro bebeu metade da caneca antes de responder.

– Tá, daí você prefere dividir ela com outros caras. É como qualquer uma. Aposto que vai fingir que nem nos viu aqui para não perder os dois esquemas. Não é o tipo de garota pra namorar, você sabe. Só curtir.

Ricardo revirou os olhos.

– Você é muito idiota, Roberto.

– Beto, faz favor. Ninguém me chama pelo meu nome certo.

– Você é um idiota, Beto. Não posso reclamar: assim vai perder o privilégio de estar com ela mais facilmente.

– Idiota não, só inteligente. Tenho 3 por hora pra escolher. Só mandar mensagem e elas vêm. Tô preocupado não.

Ricardo passou a língua pelos lábios para capturar o gosto da bebida por mais um momento e riu ruidosamente:

– Dá pra perceber.

Beto corou. Naquela pele branca, o destaque foi intenso; metade da praça de alimentação percebeu e ele ficou ainda mais constrangido.

– Ela é gente boa. Pelo menos tem assunto, não é só um corpo bonito.

– Admite, é mais que bonito.

– Tá, ela é razoável.

Os olhares dos dois se encontraram e admitiram enfim. Mas nunca diriam em voz alta o quanto ela era preciosa pra eles e como morriam de medo dela se cansar deles e nunca mais terem oportunidade de vê-la. As novas regras de boa convivência em sociedade exigem que você nunca se renda, que nunca demonstre. Isso é fraqueza, e todos sabem o que acontece a pessoas fracas. São devoradas, fumadas como a um cigarro barato e a guimba é jogada no lixo.

Sem misericórdia.

Isso não é bom nem ruim, só a vida. E a vida que essas pessoas deixam de viver por esse orgulho de nunca demonstrar o que sente. Como um rio que abandona uma bela paisagem, como a primavera que alguém nunca verá.

Solitário.

O motivo dos dois se reunirem apareceu em seguida. Diga-se de passagem, deslumbrante em um vestidinho curto e simples. Cabelos soltos, pouca maquiagem. Sacolas e milk shake nas mãos. Procurava um lugar para sentar quando os viu. Não houve nervosismo em seu olhar, apenas serenidade e genuína alegria.

Parou próxima a eles e os cumprimentou separadamente. Sua voz musical os deixou sem palavras.

– Que coisa boa encontrar pessoas queridas! Fiquem bem, viu? Não posso fazer companhia para ninguém, hoje o dia é meu, tenho que me curtir. Beijos!

E assim, tão simples, ela se foi rodopiando o vestido em um efeito encantador. Os dois rapazes se olharam um pouco surpresos e certos de que não conheciam ninguém tão sincera e leve como ela.

Ricardo rompeu o silêncio.

– Eu vou tentar. Fica aí com o seu orgulho. Prefiro tentar.

Beto encarou o copo vazio a sua frente sem nenhuma idéia do que dizer. Se sentia envergonhado pelo que disse, mas não sabia agir de outra maneira. Se não tentasse, nunca saberia. Mas como lidar com a dor? Um pessoa tão independente como ela, era assustador. No íntimo, Ricardo estava certo e ele sabia. Levantou e apertou as mãos dele.

– Espero nunca mais te ver.

Saiu andando tranquilamente, com o coração doendo de vontade de tentar ser diferente. Mas seria capaz de encarar a possibilidade da dor?

 

*****

Fim

Será?

Um comentário em “Tentar

Gostou? Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s