A Garota com a Alma do Diabo [Parte 2] – De volta à Estrada para o Inferno [+18]

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Escrito por Natasha Morgan

Cherry deixou Halle adormecido e saiu de sua cobertura no edifício Orn.

Aquela ligação inesperada a deixou perturbada demais para pensar com alguma clareza. Não fazia nem 24 horas que havia deixado a mansão Von Kern, sua Bestemor estava sentada elegantemente no sofá da sala de recepção tomando uma taça de vinho Bordeaux e conversando com Willa. Sander e Klaus entretidos numa conversa séria, próximo a varanda. King havia ficado em sua boate gótica e Meera se perdeu pela estrada, de volta a seu país.

E agora Fridda estava perdida. Levada dos braços de sua família.

Uma única coisa incomodava Cherry: Qual das vadias inimigas de sua família havia raptado a Bestemor?

Fridda havia dito “a vadia me emboscou…”.

E Cherry ficava pensando em quem teria tal ousadia.

Ela mal estacionou a Harley no pátio de cascalho próximo ao arco da mansão, adentrou as portas de madeira maciça sem sequer acenar para os seguranças carrancudos que ladeavam a varanda.

A casa estava silenciosa, como uma lápide que repousa o silencio eterno de um cadáver. Cherry não gostou disso. Seus passos ecoaram pelo piso conforme ela procurava por alguém. O Lobby estava vazio, assim como o salão de jogos e a imensa varanda dos fundos.

Ela subiu a escadaria de mármore. As salas de visita, lazer e estar estavam vazias e perfeitamente arrumadas. Como se a reunião daquela noite não houvesse acontecido. Seu peito se apertou ainda mais, como se aquele pesadelo constante em que vivia não houvesse terminado.

Cherry ia se dirigindo para os corredores que levavam as suítes quando seus pés se detiveram na porta do escritório de Klaus.

Ali estava ele, o patriarca da família, sentado em sua poltrona de couro, entretido com os documentos que se acumulavam em sua mesa de mogno. Ao ouvir os passos da sobrinha no corredor, ergueu os olhos para a porta entreaberta.

Cherry adentrou o recinto com urgência.

– Onde está a Bestemor?

Klaus franziu o cenho.

– Ela recebeu uma ligação logo que você nos deixou, ontem à noite, e precisou sair.

– Sair para onde? – Cherry estava ficando impaciente.

– Uma viagem para Moscou.

– Rússia? – Cherry parecia incrédula.

– Mor não disse quanto tempo ia ficar. Parece que houve algum tipo de problema. Mas ela não foi muito específica. Saiu às pressas.

Cherry sentiu o medo inundar sua alma. Seus olhos rondaram a sala.

– Onde estão os outros?

– Willa e Sander estão treinando no galpão. – Klaus a observou bem. – O que está havendo?

– Eu recebi uma ligação essa madrugada. Era Bestemor Fridda. Ela foi levada.

Klaus ergueu-se de sua poltrona num rompante.

– Como assim foi levada?

– Acredito que tenha sido raptada por alguém em nome de vingança. Ela disse “a vadia me emboscou”. Isso quer dizer alguma coisa para você?

Klaus franziu o cenho.

– Sua Bestemor tinha muitos inimigos. Pode ser qualquer vadia por aí que ela tenha deixado descontente. Tem certeza de que ela foi levada?

– Quando foi a última vez que falou com ela?

– Assim que deixou Nova York.

– Ela não te ligou quando chegou em Moscou?

Klaus balançou a cabeça, cada vez mais agitado.

– Acha que a levaram no aeroporto?

– Eu não sei. – Cherry o encarou com franqueza, em seu olhar se via o desespero transbordando pelas íris azul cobalto.

Klaus apanhou o telefone e em questão de segundos falava em russo com alguém importante do outro lado da linha. Cherry conhecia a língua o suficiente para entender o que o tio falava e antes mesmo que ele desligasse, já sabia o que diria. Fridda não chegou a se encontrar com quem tinha marcado o encontro.

– Eu vou para lá. – disse ela, voltando-se para o armário onde guardavam passaportes e demais documentos.

– Vamos todos, vou convocar a Família…

– Não. Eu vou sozinha.

Klaus estreitou os olhos.

– Esse é um assunto de Família, Cherry. Vamos todos cuidar disso, juntos. Sua fase solitária acabou na noite passada. Já teve sua vingança, agora agimos todos juntos como uma família.

– Está errado. Trabalho muito melhor sozinha. Quem quer que tenha levado Bestemor, mexeu diretamente comigo. Isso é pessoal. Fridda ligou para mim! Se ela quisesse que qualquer outra pessoa da família cuidasse disso, seria o seu telefone tocando no meio da madrugada.

– Não seja ridícula! Quer ir até a Rússia e procurar Fridda sozinha?

– Você precisa ficar aqui, junto com a Família. E se isso por uma armadilha para atrair toda a família para lá, onde estarão todos indefesos e expostos? Eu preciso de você aqui. Além do mais, eu sou a assassina da Família, aquela que resolve. Por que não me deixa cuidar disso, como cuido de tantos outros assuntos?

– Porque esse não é um simples caso de sequestro do nosso pessoal. É a minha mãe quem está lá fora.

– E quem melhor que eu para trazê-la de volta? Quem melhor que eu para pegar esses filhos da puta?

– Você não vai sozinha!

– Sendo meu tio, deveria saber que nunca estou sozinha. – ela acariciou a pistola presa no coldre da cintura, dando um sorrisinho pernicioso.

– Por que diabos continua sendo a mesma teimosa? Não pode realmente esperar que eu fique aqui, sentado, enquanto você vai atrás de Mor sozinha num país inimigo.

– Nunca esperaria isso de você, Klaus. O que quero que faça é que fique aqui, cuidando dos negócios da Família e me auxilie quando precisar de você. E, acredite, precisarei de todo apoio, dinheiro e armas que puder me oferecer.

Klaus a encarou por meio segundo, então se voltou para o telefone novamente e apertou duas teclas.

– Bestemor Fridda foi raptada. Moscou. Esta madrugada. Avise aos outros e prepare a Família para ficar em alerta. – seus olhos pousaram em Cherry. – Não. Estou enviando a melhor opção para resgatar Mor.

 

Em questão de minutos, a mansão Von Kern se encheu com todos os seguranças da casa e Cherry foi escoltada por Klaus até o Arsenal da Família. Sander estava ao seu lado em instantes, com uma mala de alças. Depositou-a em cima de uma bancada de vidro e foi enchendo todos os bolsos de balas, explosivos e adagas.

Willa os observava de longe, em silencio. Mas em seus olhos era possível ver a raiva brilhando. Fridda era importante para ela também.

Klaus colocou duas caixinhas pretas dentro da mala.

– Não sei o quanto a coisa pode ficar feia lá, então leve o máximo que puder. Não a quero desprotegida em país inimigo.

– Você e seus brinquedinhos. – Cherry abriu uma das caixinhas. Havia um adesivo transparente no formato de uma lente de contato.

– Não faz ideia da explosão que isso causa. Tire o invólucro e cole, aperte a parte superior e será ativado. Você tem um minuto e meio para sair. Boom.

Cherry assentiu, guardando de volta a caixa dentro da mala.

Willa se aproximou com um estojo de veludo vermelho.

– Não teve oportunidade de usar noite passada, talvez queira levar com você. Sander me disse que é sua favorita.

Cherry abriu o estojo.

A Magnum repousava, majestosa, no arranjo de cetim escarlate.

Os olhos da assassina brilharam, despertando a leoa adormecida e sedenta de sangue.

Seus lábios se repuxaram num sorriso sombrio e ela apanhou a arma cuidadosamente, sentindo o poder acender sua alma. Ela a guardou numa outra bolsa.

– Tem alguma ideia de quem possa tê-la levado? – Sander perguntou, atarefado.

– A Rússia é um país inimigo. Deixamos muitos insatisfeitos por lá.

– Os russos não gostam de nós há muitos anos, mesmo assim sempre resolvemos nossos negócios lá sem que haja mais problemas que uma discussão acalorada. Ninguém nunca foi tão longe a ponto de sequestrar alguém da família. Especialmente Bestemor Fridda.

– O que me faz pensar o que é que estão armando.

– Não foi uma vadia russa quem levou Bestemor. – Cherry disse e algo em sua voz ressaltou certeza.

– Acha que alguém de fora foi até Moscou apenas para leva-la? – Willa perguntou.

– Bestemor conhecia quem a emboscou. A forma como disse vadia denotava surpresa, o que quer dizer que não era para essa pessoa estar lá.

Willa fixou os olhos em Cherry e a assassina encontrou seu olhar cheio de suspeitas sombrias.

– Eu preciso que fique aqui, Willa. – Cherry foi enfática e Willa compreendeu muito mais do que foi dito naquelas palavras.

Cherry se voltou para o tio.

– Com quem Bestemor ia se encontrar? Para quem você ligou agora pouco para saber notícias dela?

– Ludwing Thorvaldsen. É nosso contato na Rússia, além de ser um antigo e fiel membro da Família. Mor sempre confiou nele.

– Vou precisar do endereço.

Klaus passou para as mãos da sobrinha um envelope.

– Aí dentro tem o endereço, três passaportes diferentes e alguns documentos que você talvez precise usar.

Cherry assentiu, guardando o envelope na jaqueta.

Sander se aproximou, o olhar carrancudo.

– Tem certeza de que não me quer junto?

– Nenhum de vocês vai se meter. Preciso que fiquem aqui e me ajudem quando precisar. Sou a única que vai manchar a alma com sangue desta vez, sinto muito. Mas eu prometo trazer a responsável por isso viva.

Seus olhos se voltaram para Klaus.

– Não deixe a casa desprotegida, mantenha os negócios em movimento e todos os homens que tiver, disponíveis. Vou precisar de alguém daqui de fora para me tirar de qualquer enrascada em que me meter.

– Estaremos aqui. O que precisar será seu. – Klaus fez uma mesura. – Traga Mor de volta para casa.

Cherry assentiu, prometendo não decepcionar a Família. Ela fechou o zíper da mala, carregada de armas.

– Entregue isso ao Zipper. Em meia hora estarei no hangar.

Cherry deu as costas e saiu andando em pose leonina.

– Vai se despedir do caçador ou convidá-lo para a caça? – Klaus perguntou.

– Isso depende… Da vocação dele para matar.

 

Cherry precisava pegar o restante de suas coisas para poder embarcar rumo a Moscou e pretendia convidar Halle para a caça. Mas ao chegar no Edifício Orn, deparou-se com o caçador em pé na sala de seu apartamento, a expressão congelada enquanto segurava seu celular pessoal próximo ao ouvido.

Naquele momento Cherry esqueceu a própria dor de ter perdido sua Bestemor. Jamais vira Halle tão devastado.

Ela se aproximou a passos largos.

– O que foi que houve?

Ele baixou o celular.

– George ligou. – sua voz saiu rouca. – Querem me reintegrar ao FBI.

Cherry recuou um passo.

– Eles disseram que há pistas sobre a morte de Betsy. Querem que eu encontre Caetano Velaskes, um dos traficantes de mulheres mais procurado da Europa. O FBI está certo de que Velaskes teve participação no tráfico de Betsy. Se eu aceitar e concluir a missão, serei reintegrado.

– Achei que o FBI quisesse você longe das investigações da morte de sua irmã.

– Eles sabem que sou o melhor para tarefas como essa.

– Então você aceitou.

– É a melhor chance que tenho de entender o que aconteceu com ela.

– Entendo. Sabe que isso nos coloca em lados totalmente opostos, não sabe? Se aceitar seu cargo de volta no FBI terá que me caçar e prender, você me terá como inimiga para sempre.

– Eu não… – ele começou a dizer.

– Eu trabalho para a Máfia! – Cherry o interrompeu. – Minha família inteira pertence à Máfia Escandinava. O FBI espera há anos para fincar as unhas nos Von Kern. O que acha que vai acontecer quando for reintegrado? Por que acha que George Aswood escolheu você?

– Para mim você sempre será Vicious. Cherry Vicious.

– Então parece que estou ainda mais encrencada. Cherry Vicious é uma assassina.

Cherry lhe deu as costas, dirigindo-se para o quarto. Ela apanhou uma mala velha e a jogou em cima da cama, escancarando as portas do guarda-roupas. Halle a seguiu, observando-a com confusão.

– O que é que está fazendo?

– Bestemor Fridda foi sequestrada. – disse ela, de má vontade, socando as roupas dentro da mala.

– Por quem? Onde?

– É o que vou descobrir. Como pode ver, minha família é alvo de ataques por todos os lados. Recebi uma ligação essa madrugada. Ela disse que alguém, uma mulher, a tinha emboscado. E pelo tom em sua voz, ela não simpatizava nem um pouco com quem quer que seja.

Cherry fechou a mala, apanhou mais algumas coisas dentro de seu criado mudo e deixou o quarto.

– Aonde você vai? – Halle a seguiu, preocupado.

– Caçar a maldita que ousou afrontar minha família. Eu te convidaria para a caça, mas pelo visto você abandonou o desejo por sangue. Agora vai se comportar como um selvagem adestrado.

– Nunca fui adestrado.

– Então espero que saiba fingir muito bem. Sabemos o que o levou a ser expulso do FBI. – ela fez uma breve pausa. – Procure por Madame Bordeaux. É como vai encontrar Velaskes. Ela me ajudou muito quando estive cativa, tem um bordel respeitável em Moscou.

– Cherry…

– Adeus Detetive Bennet.

 

Zipper esperava animadamente, sentado na escadinha de metal que alcançava o Dassault Falcon , as pernas pendendo no ar enquanto assoviava sua musica favorita. Ele era o melhor piloto clandestino que a Família poderia ter encontrado. E teve sorte por assinar um contrato sem revogação com os poderosos. Era um membro leal daquela organização e ficava feliz em poder levar cargas sigilosas para qualquer lugar, driblando a segurança aérea.

Naquela manhã foi designado a levar a assassina da Família até Moscou, sigilosamente.

Para alguém com seus truques, aquilo seria moleza para Zipper.

Cherry apareceu dali a meia hora, carregando uma mala e a expressão ressentida.

– Podemos ir, senhorita Vicious? Alguma outra bagagem?

– Tudo o que eu preciso está aí.

Cherry se dirigiu ao jato particular da família. Mas Zipper pigarreou sugestivamente.

– Vamos com o Alfredo. – disse ele, apontando para o fundo do galpão onde havia um pequeno e velho avião de carga. – Para não levantar suspeitas, se é que me entende.

Cherry assentiu, dirigindo-se para o outro lado. Aceitou a ajuda do rapaz para subir o degrau alto e se instalou na poltrona puída do copiloto enquanto a porta se fechava com um ruído metálico. Ela confiava em Zipper quase tanto quanto confiava em sua capacidade de matar. Era realmente melhor adentrar a Rússia de forma discreta.

Em algumas horas estaria em perfeita segurança em Moscou.

– Por que Bestemor Fridda não viajou com você? – Cherry perguntou, observando Zipper acionar o mecanismo daquela gerigonça.

– Eu ofereci meus serviços a ela, mas sua Bestemor preferiu viajar dentro dos conformes.

Cherry assentiu em silencio.

E enquanto o avião de carga deslizava pela pista de voo atrás da mansão em pequenos solavancos, Cherry acariciava a Glock presa no coldre da cintura. Podia sentir o sabor inebriante de sangue. O instinto de caçadora espreitava pela porta de sua alma, quase ao ponto de fazê-la ofegante. A leoa ansiava por se libertar e beber todo aquele sangue que a assassina dentro dela faria jorrar.

Sim, a temporada de caça estava aberta.

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