O Pianista

 

op3

Por Lillithy Orleander

– Muito bem, Andreas! – mas ainda não está perfeito.

A professora bateu em suas mãos com a régua de madeira, sorrindo sarcasticamente, como se sentisse prazer naquela pequena tortura.

Os dedos dele doíam, mas ela queria a perfeição. E a perfeição Andreas alcançaria.

A música soava doce, cheia de sentimento, enquanto a face de seu interprete, lembrava uma mascara de mármore. Uma estatua sisuda, o cabelo negro caindo sobre os ombros feito cortina, o suor escorrendo na fronte, e a madrugada como companhia…

Os anos passavam e com ele a velha professora faleceu, misteriosamente em sua sala de ensino, com uma xícara de chá, debruçada sobre o piano e repousando a cabeça na partitura de Moonlight Sonata. Ela odiava Beethoven.

Andreas olhava o corpo ser retirado da casa pela policia, e a chuva cantava sua triste canção, levando – o para longe da melodia macabra que a morte insistia em tocar.

As cordas do piano soavam magnificamente, era o primeiro concerto do qual Andreas participava. Se formara pela Jilliard com louvor. Aluno aplicado e decidido, com postura de um  músico experiente.

Quando ele tocava, o auditório se enchia, fosse para sorrir, chorar ou admirar, o piano se rendia aquela paixão.

Foi quando ele á viu…

A dançarina de balé, com madeixas alouradas, corpo esguio, olhos cor de céu e passos de um anjo, bailando com sutileza ao som que ele tanto amava.

A sala de espelhos refletia os passos da bela moça de modo suave e delicado, constante, soava triste e Andreas sabia por que.

Voltou para seu piano naquele mesmo instante, e rolou as partituras de maneira desordenada, enfurecendo – se ao pegar aquela que tanto lhe agradava.

– Sr. Andreas? –  a moça adentrava o recinto com os olhos arregalados, expressando susto. – Está tudo bem?

Ela sabia seu nome, ele a olhou com espanto, olhou as partituras no chão e em cada uma delas a mesma melodia estava descrita, como cópias de um mesmo texto, feitas para passar adiante. Seus olhos ardiam e seu peito arfava, Andreas lembrou – se de quando era criança…

” E vai ser sempre na música…

– Então afastarei ele dessa sina, você pensa que pode me fazer um mal desses e deixar que seu filho carregue essa maldição? – disse a mulher alta, de cabelos negros vestida num hobby para alguém que estava sentado no sofá.

O menino olhava tudo aquilo escondido da escada, a conversa era sobre ele e alguma coisa ruim que sua mãe não queria que acontecesse.

A voz do homem, soou baixa, como um sussurrar melódico.

– Eu sou quem sou e não posso mudar isso. Eu lamento.

– Ele tem dez anos e você acha que pode chegar aqui depois de ter nos abandonado e leva – lo pra longe de mim? Eu sou a mãe dele, eu sou a mulher que amou ele, antes mesmo de saber que o pai era isso. Como você ousa ao menos cogitar a ideia de me arrancar  ele?

– Você não vê? Ele canta quando as pessoas vão morrer, ele vai tocar e as notas musicais vão buscar – me para cumprir o destino de quem a ouvir. Ele é meu filho e uma hora ele sabe que vai tirar a vida de quem mais tocar – lhe a alma. Ele pode ser mortal, mas é tão meu, quanto seu, e você sabe disso.

Andreas ouvia tudo aquilo, sufocado e lembrando todas as vezes que sentiu vontade de cantar para alguém conhecido, de como imitava o canto de alguns pássaros e depois os encontrava mortos. Ele era ruim? Era isso que aquele homem estava dizendo?

– Ele é meu filho, e não seu. Eu vou cria – lo e você vai ficar longe. – disse ela furiosa

Andreas desceu os degraus apressado e correu sala adentro agarrando – se a cintura de sua mãe em meio as lágrimas.

– Eu não quero ser mau, mãe. Eu não fiz nada. Juro que não canto mais, não faço mais isso. Por favor.

– Você não é mau, Andreas. – disse o homem de olhos prateados, já ao seu lado. – Você tem um dom, extraordinário, que se manifesta ao som de sua música. Não é algo que você vá controlar, ele vai se manisfestar quando for a hora das pessoas ao seu redor, precisarem partir para um novo caminho.

– Você não pode falar com ele. Você não é nada dele!

– Eu sou o pai dele. Devo pelo menos isso á ele. Não me proíba, vai chegar uma época que só eu poderei ajuda – lo. Só eu poderei defendê – lo. Então não seja tão dura, Juliette.

O garoto olhava apreensivo para o homem a sua frente. O rapaz que mais parecia seu irmão, lhe sorriu e secou – lhe o rosto manchado pelas lágrimas. Colocou uma das mãos em seu ombro e lhe sorriu, o que lhe pareceu seu um sorriso frio.

– Olá, Andreas, sou Hypnos. Seu pai…”

 

Andreas ainda se lembrava com nitidez de cada palavra que o homem lhe disse naquele dia. Oito anos depois ele teve que testemunhar sua pequena “maldição” quando tocou o piano pela última vez para Juliette, sua mãe…

– Sr. Andreas? – perguntou novamente a moça esperando a resposta. Andreas a olhou se perguntando como ela sabia seu nome.

– Está sim , me desculpe srta.? – perguntou ele.

– Micaella. – respondeu ela passando pelas cadeiras para ajuda – lo a recolher as partituras.

– Não! – disse ele quando ela tocou uma delas e consequentemente encostaram – se as mãos.

– Schubert. – disse ela ignorando. – é minha favorita. – e sorriu lhe entregando o pedaço de papel amarelado.

O calor pulsou dentro de seu peito como nunca antes havia sentido, a vontade de abraça – lá e a aura brilhante que a circundava o deixaram cego.

O sorriso de Micaella tornou – se seu Sol particular… A bailarina e o pianista, a partitura de Morte, bailava todos os dias as vistas de Andreas, cada dia mais próxima de ser executada.

Era sorrir em teus braços, amar -te nas manhãs, beija – lá pelas tardes e chorar por todas as noites.

As noites… As traiçoeiras noites…

A chuva corria pela janela tracejando contornos e desenhos oblíquos, enquanto Andreas, com as mãos no bolso sentiu o ar se mover ao seu redor.

– Pai? – disse ele sem se mover de onde estava

– Andreas. – foi o sussurro que calou – se na noite.

A batida frenética na porta o arrancou do torpor e o fez descer irritado até a porta, pronto para passar o sermão da noite para quem ousava atrapalha – lo.

O fogo na lareira crepitou e iluminou os móveis de mogno, que possuíam um brilho meticuloso, sem se quer um dedo de poeira, a casa aconchegante ainda lhe trazia a presença da mãe…

– Eu espero que…

– Está acabando o mundo aí fora. – ele a olhou surpreso. A capa de chuva transparente escorreu pelos cabelos dela e as galochas vermelhas pingavam no carpete negro.

Andreas a abraçou imediatamente e sentiu o cheiro que saia de seu cabelo, ainda era o suor das coreografias. Micaella, era a primeira bailarina, para ela, Andreas jamais tocava, a partitura…

Ela o beijou fervorosamente, acariciando o rosto pálido, enquanto os dedos gélidos desabotoavam a camisa azul marinho, que agora se encontrava no chão.

As unhas de Micaella desciam pelas costas de Andreas, fazendo desenhos indistintos, ele a olhou e o brilho do fogo iluminou o olhar dos amantes, que mantiveram – se ali.

Corpo á corpo, unidos no sofá, apenas ouvindo o barulho da chuva que lá fora caia, as roupas espalhadas pelo chão, as taças de vinho vazias, o estalar da lenha, o silêncio suave…

Os dias passavam e Andreas afastava – se cada vez mais do piano, seu coração doía ao contar os dias que agora lhe restavam. Ele já tomara sua decisão, olhou novamente a gaveta acima de lareira e saiu.

Hypnos que a tudo via, apenas suspirou em desalento. Seu filho, aquele que muito amava… Micaella, a primeira bailarina.

Era a noite de estréia, Andreas antes de sair acendeu a lareira, queimou as partituras, abriu a pequena gaveta, tomou uma dose de conhaque e saiu para ver seu pequeno milagre dançar como se fosse um anjo.

O pianista não viria, a mulher entrará em trabalho de parto. Andreas fora pego de surpresa e não podia recusar – se a tocar.

Micaella estava atrasada, o primeiro ato seria feito por sua adjunta.

– Meu bem, por que você não me ligou, eu teria ido busca – lá.

– Meu carro parou de funcionar! Estou indo de metrô. – dissera ela. – Andreas?

– Sim. – ele sentiu o ar pesar.

– Eu te amo, meu amor! Me espere de braços abertos, chego em poucos minutos…

– Te esperarei. Micaella?

– Sim?

– Eu te amo…

Cada palavra daquele dialogo parecia uma despedida, os dois seguraram a linha como se quisessem dizer algo mais, o ruido fez com que o telefone parasse. Andreas o depositou no bolso e arrumou a gravata borboleta. Passou por trás das cortinas e sentou – se ao piano, junto á orquestra.

O maestro ergueu a batuta e para espanto de Andreas, os violinos anunciaram Serenade em alto e bom som, seu coração se negou, mas seus olhos vislumbraram a fatídica partitura.

Seus dedos correram pelas teclas grossas e pesadas com suavidade e de seus olhos brotaram  lágrimas que agora cortavam – lhe alma aos pedaços trazendo a lembrança de sua amada. Os violinos se calaram, e no recinto somente se ouvia o som triste do piano enquanto a bailarina dançava suavemente.

Os rodopios precisos e a serenidade da bailarina faziam os suspiros serem roubados e os lencinhos passarem de maneira disfarçada pelas faces muito maquiadas, na esperança de não desfaze – lá.

Micaella desceu do metrô as pressas, olhando para o relógio rapidamente e prendendo o cabelo em um coque alto. Um rapaz mal encarado empurrou – a zangado, parecia não ter tido um bom dia. Ela olhou para os dois lados da rua, estava já diante do teatro e o sinal havia fechado, com todos os percausos chegaria a tempo do segundo ato.

Andreas estava tocando, ela ouvia, sorriu e caminhou decidida ao som de sua melodia preferida. Depois de tanto tempo, ele tocaria e ela dançaria…

O som da buzina foi alto, o motorista jogou o celular no banco e tentou frear, mas era tarde. O corpo sem vida de Micaella cairá no quarteirão seguinte. O brilho nos olhos se apagava, enquanto os aplausos invadiam a rua e Andreas corria da orquestra.

Ele vira… Era parte de sua maldição… O último “eu te amo” fora dito…

O som das sirenes, adentrou o teatro, os socorristas tentavam a reanimação já na certeza de que de nada adiantaria. Andreas virou as costas e caminhou na direção oposta, adentrando o beco escuro.

– Andreas, não faça isso. – o rapaz estava a suas costas, com um olhar tristonho.

Ele engatilhou a arma, sem ao menos olhar pra trás e apontou – a na fronte.

– Micaella… – o baque surdo do corpo caindo ao chão e o estourou da arma foi escutado por muitos curiosos que reconheceram o pianista.

“Morre  vítima de atropelamento, a primeira bailarina Micaella Douessô .

Andreas Wagner comete suicídio.”

Era a manchete estampada em todos os jornais, na manhã seguinte…

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O teatro fechou meses depois.

O motivo? A noticia que saiu nos jornais, foi que o local havia sido vendido para um fabricante de sapatos e seria demolido em breve.

A verdade?

Me contaram porém uma vez, que ao cair da noite e durante os primeiros ensaios da manhã, o piano a muito tempo esquecido soava triste seus acordes e que um belo rapaz com o cabelo tão negro quanto a noite, que mais parecia uma cortina o tocava para a primeira bailarina, jamais esquecida…

O casal de fantasmas que ali morava com o tempo, tomou posse noite e dia de onde deveriam ter se tornado um, naquela fatídica noite.

A morte finalmente deixava a bailarina dançar o som da melodia de seu amado… o filho de Hypnos… Andreas, o pianista…

‘” E na calada da noite se via…

O bailar ritmado e a doce melodia.

A doce bailarina e o habilidoso pianista,

almas amantes na vida.

Fantasmas serenos na Morte querida…

Eis que jaz em dupla sepultura,

a mansidão tão preterida.

De Hypnos, o filho  e o amor de sua vida.

Vaga Andreas em tua doce sinfonia, enquanto Micaella dança com maestria.”

FIM…

 

2 comentários em “O Pianista

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