No Bosque da Solidão (Pt. I)

No Bosque da Solidão 01

“Disfarça e segue em frente, todo dia até cansar
E eis que de repente ela resolve então mudar
Vira a mesa, assume o jogo, faz questão de se cuidar
Nem serva, nem objeto, já não quer ser o outro
hoje ela é um também”

orn

Mel não aguentava mais dirigir, pouco acostumada com grandes distâncias. Na verdade, ela odiava fazê-lo mesmo em trajetos curtos. Tirara a carteira após muita insistência do pai, que alegava que isso a tornaria mais independente. Ele só não compreendia a ansiedade que a jovem sentia em colocar o pé na estrada. Estava quase surtando com a quantidade de caminhões, que passavam tão rápido que faziam seu Celta tremer. Nas subidas, o carro só faltava parar por causa do motor pouco potente.

A voz feminina do GPS lhe indicava os radares e lombadas, fazendo-lhe companhia, enquanto Delta Rae tocava no mp3 player. Seu destino ficava no litoral sul do Rio de Janeiro. A ilha de Umarama fazia parte do município de Paraty. Precisaria pegar uma balsa para realizar parte do caminho, e seu estômago revirava só de imaginar o balanço do mar. Tudo porque sua avó resolvera fingir que ligava para a família. Mel mal lembrava da aparência da mulher, salvo uma foto antiga que tinha dela, dos tempos áureos da juventude.

Sua mãe não costumava falar muito sobre, mas incentivou o contato entre as duas quando a carta chegou. “Quem ainda manda cartas?”, pensou Mel ao ver o envelope endereçado a ela. A caligrafia de sua avó era tão bela que a imaginara escrevendo com uma pena e tinta, em um escritório iluminado por velas. Ela insistia em uma aproximação entre as duas para tentar recuperar o tempo perdido, apenas no que dizia respeito à neta pelo menos.

Mesmo não acreditando que algo do tipo fosse possível, ainda assim respondeu a carta, dizendo que passaria um mês na ilha. Tinha acabado de se formar na universidade e precisava de férias após todo o estresse das provas e trabalhos finais. O episódio em que surtou graças ao seu orientador de TCC, que mandou Mel refazer um tópico inteiro do trabalho no apagar das luzes, também serviu de incentivo.

Com o fim do curso, sentiu um peso saindo das suas costas. Escolhera Pedagogia por causa de um sonho antigo de criança, quando desejara de todo o coração se tornar professora. Infelizmente, essa vontade foi se esvaindo aos poucos, começando pelo primeiro estágio. A imagem romantizada da profissão se perdeu, bem como a vontade de continuar na área. Então, apesar da insistência de alguns parentes para que fizesse vários concursos públicos, preferiu tirar um ano só para si, sem se preocupar com grandes responsabilidades.

Ao chegar no local de onde sairia a balsa, estacionou o carro e logo um funcionário foi até ela com uma prancheta em mãos. O olhar dele se prendeu em seus cabelos até notar que a encarava descaradamente, pigarreando e verificando algo nos papéis antes de falar:

— Boa tarde, a senhora pretende atravessar o carro também? — perguntou, olhando de soslaio para Mel.

Estava acostumada com olhares do tipo, afinal não era todo dia que as pessoas viam uma mulher com cabelo roxo andando por aí. Resolvera pintar no último ano na universidade, fazendo bastante sucesso entre os colegas e alunos do estágio, diferente da diretora da escola que não gostou nada.

— Boa tarde, isso mesmo — respondeu, passando a mão pelo pescoço tenso.

— E a senhora tem o comprovante de pagamento? — Ela assentiu, tirando um papel que avó enviara junto com a carta e o entregou.

Mel deu uma olhada em volta e viu poucas pessoas esperando, algumas parecendo turistas ao invés de locais. A ilha era um bom lugar para passar férias, pelo menos para as pessoas que gostavam de visitar zonas históricas ao invés de algo mais cosmopolita.

— Amélia McKenna de Oliveira — disse o funcionário em voz alta, ganhando uma confirmação em resposta. — McKenna? Como Josephine McKenna?

— Sim, minha avó.

Ele pareceu surpreso em ouvir isso, chamando outro rapaz em seguida, que correu na direção de ambos.

— Cuide para que o carro da Srta. McKenna não sofra um arranhão sequer — disse, estufando o peito e erguendo o queixo em uma postura autoritária, que quase arrancou uma risada dela. — A senhorita pode entregar suas chaves ao João, que ele irá estacionar seu veículo na balsa.

Sua mãe explicara que Josephine McKenna era uma mulher influente na ilha, sendo descendente dos fundadores do lugar. “Não se deixe levar pelo poder de influência dela, Amélia. É um grande erro”, dissera a mulher antes da filha sair de viagem. Duvidava que alguém que mal conhecia conseguisse exercer tal domínio sobre ela, mas não era estúpida ao ponto de ficar com um pé atrás.

Mel ficou feliz em se livrar da obrigação de dirigir e entregou as chaves, pegando o comprovante de volta. O funcionário desejou boa viagem e ela adentrou a embarcação, passando por um grupo de norte-americanos logo na entrada, que conversava animado.

O tempo estava nublado e tinha certeza que seu primeiro dia na ilha seria com bastante chuva. Do jeito que estava cansada, permanecer dentro de casa não parecia uma má ideia. Nunca fora de sair muito, preferindo ficar em seu quarto vendo um bom filme ou lendo algum livro. O jeito introvertido era motivo de brincadeira para alguns colegas da faculdade, mas pouco se importava. Não conseguia ver graça em sair para beber depois das aulas, ou até mesmo faltá-las para jogar conversa fora sobre assuntos desinteressantes.

— Nunca vai arranjar um namorado ficando presa em casa — costumava dizer uma de suas tias.

— E quem precisa de namorado quando se tem séries para assistir e uma lista infinita de livros para serem lidos? — rebatia em tom jocoso.

Com o balanço das águas, preferiu ficar perto da beirada caso precisasse vomitar. Ela respirou fundo, abaixando a cabeça e sentindo o mundo girar ao seu redor. “Ai minha Deusa, não deixa eu colocar meu café da manhã pra fora”, pensou, levando a mão à garganta e segurando o pentáculo por entre os dedos, preso a uma fita de cetim preta.

Ficou assim por um tempo, mas de nada adiantou. Ao erguer o rosto, a surpresa foi mais forte que o enjoo. A balsa se aproximava de um nevoeiro que a tragaria por completo. Mel engoliu em seco, preocupada em como o comandante avistaria a ilha. Não demorou muito para sentir a umidade na pele, literalmente, sabendo que isso seria péssimo para o cabelo recém-pintado. Para seu alívio, o casaco que usava era preto e não mancharia.

A visão cinzenta não parecia ter fim, como se singrassem rumo à outra dimensão. Mas depois do que pareceu ser uma eternidade, viu o primeiro morro despontar. Aliviada, mesmo com os fios de cabelo colados à testa, observou a ilha aparecer aos poucos no horizonte.

Uma sensação de familiaridade a acometeu, como um déjà vu, mas isso não seria possível sob seu ponto de vista, pois nunca visitara o lugar antes. Por um instante a visão ficou embaçada e a doca se transformou em uma miragem que tremulava entre o passado e o presente. Ela esfregou os olhos, fazendo tudo voltar ao normal, mas deixando um sentimento confuso em seu peito.

O resto do caminho pareceu passar um pouco mais rápido. Logo Amélia estava com os pés em terra firme e entrando no carro, esquecendo a impressão que tivera na embarcação. Antes de ligar o veículo, modificou o endereço no GPS e em poucos segundos uma nova rota apareceu.

Ela seguiu pelas ruas de pedra portuguesa, olhando vez ou outra as casinhas pitorescas enquanto o carro sacolejava. Apesar das cores vivas que algumas possuíam, a atmosfera da cidade era pálida. Alguns moradores olhavam para o carro, mas não havia curiosidade, acostumados com o ir e vir de turistas.

Amélia só interrompeu seus breves momentos de contemplação da cidade quando a tela do GPS começou a falhar, como uma televisão fora de sintonia. Seu mp3 player parou de tocar “Dead End Road”, e o chiado que começou a soar a fez parar o carro, levando as mãos às orelhas antes de desligar o motor. O som parou e o GPS desligou. A jovem não sabia se ficava aliviada ou preocupada, recostando no banco.

Ela soltou um suspiro cansado antes olhar pela janela ao seu lado.

— Cacete… — murmurou, surpresa.

Não se lembrava de ter visto tantas árvores durante o percurso, mas a estrada estava orlada por elas. Do seu lado, um portão alto de ferro onde glicínias lilases se enroscavam e, por entre as barras, um caminho que se perdia de vista. De repente o GPS reacendeu junto com o visor do mp3 player, e a voz feminina familiar disse:

— Você chegou ao seu destino.

N/F: Para quem não mora no Rio de Janeiro e não conhece o estado, a ilha de Umarama é um local fictício que criei para ambientar a história.

2 comentários em “No Bosque da Solidão (Pt. I)

  1. Texto muito bem desenvolvido! A gente já pode perceber o grau de habilidade de um autor quando ele é capaz de condensar uma história (ou a primeira parte dela, como é o caso aqui) em poucas palavras sem que se perca sua qualidade.
    E vale pontuar que a temática é interessante, envolvente, deixando o leitor ansioso pela continuação.
    Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

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