In the Depths of her Soul (Pt. 5) – Cinza Chumbo

 

natmorg

Por Natasha Morgan

 

Rachel deixou o carro estacionado numa das vagas do necrotério.

Para um sábado, a cidade até que estava tranquila. Algumas lojas de artesanato estavam abertas, uma chocolateria, o bar de Erin que, por sinal, estava bastante cheio, uma sorveteria. A igreja na esquina encontrava-se transbordando de gente, todos muito bem vestidos. Ao que parecia, aqueles religiosos levavam a sério frequentar a casa de Deus.

Rachel deu sorte de não encontrar Charlotte espiando a rua e, antes que pudesse ter uma surpresa, correu para dentro do edifício mórbido.

O cheiro de formol irritou seu nariz tão logo adentrou a recepção. Por mais que eles tentassem enganar o cheiro com produtos de limpeza, o odor forte sobrepujava o aroma cítrico.

A recepcionista séria a fitou por trás da mesa, os óculos pendurados no nariz anguloso.

– Preciso falar com a Detetive Dawson.

A mulherinha antipática a guiou até uma das salas particulares.

Dawson vestia o habitual blazer escuro por cima da blusinha de algodão.

– Ah, Srtª. Bones. Estou de saída. Como posso ajuda-la?

– Imaginei que estivesse saindo. E imagino que a senhora já tenha ligado os fatos das mortes nos arredores da floresta serem semelhante às mortes dos fugitivos de Cross Velk.

A Detetive Dawson ergueu as sobrancelhas.

– Fez seu dever de casa.

– O Xerife me passou os relatórios. Pensei que fosse uma boa ideia investigar essas mortes, dar uma olhada nos arredores e falar com os guardas responsáveis.

– Esse é meu trabalho, Srtª Bones. – a detetive deu um sorrisinho.

– Eu sei. Imaginei que estivesse indo e pensei que podia pegar uma carona.

– Acho que está se envolvendo demais com esse caso.

– Achei que esse também fosse meu trabalho. Se querem minha certeza sobre o que está matando as pessoas na floresta, precisa me manter a par de tudo.

A Detetive a fitou por alguns minutos.

– Certo. Vamos lá.

Rachel a seguiu pelos corredores.

– Você deveria pensar em seguir carreira de investigadora. Tem um faro investigativo impressionante. – Dawson resmungou.

 

Cross Velk localizava-se próximo à fronteira com o Canadá, nos arredores sem vida da Floresta. A construção de prédios de granito cinzento era cercado por muros altos e cerca elétrica, além de um sistema de segurança de tirar o fôlego instalado em cada portão de aço.

Rachel encarou aquelas paredes imensas e não conseguiu imaginar alguém escapando daqueles muros. Menos ainda passando pelas cercas elétricas ou alambrados com arame farpado como o portão baixo pelo qual passaram uns vinte minutos antes. A floresta ficava lá fora, por trás dos portões de arame. Para chegar até ali e se embrenhar pelo mato era preciso conseguir atravessar o muro.

A Detetive Dawson parecia familiarizada com o ambiente, como se já houvesse visitado o local algumas vezes. Conduziu o carro até o portão central, sendo barrada pela portaria. Dois guardas vestidos de verde escuro fizeram sinal para ela parar, frente á cancela enferrujada.

Dawson baixou o vidro do carro.

– Tenho hora marcada com o diretor. – ela foi direta, falando com o intendente dentro da cabine de vidro.

O homem a examinou com o olhar duro.

– Quem é a garota com você?

Rachel sentiu seu rosto queimar com aquela inspeção fria.

– A senhorita Bones é minha assistente hoje. – a detetive se manteve impassível.

Os olhos do guarda se demoraram mais na garota.

– Tudo bem. Elas podem passar. – fez um sinal afirmativo, mantendo o semblante sério.

Dawson apertou o botão automático para fechar o vidro do carro e continuou encarando o sujeito de forma impassível até que o vidro se fechasse completamente. A cancela se abriu e elas passaram.

– Não são conhecidos por sua hospitalidade. – a detetive comentou enquanto o portão pesado se fechava atrás delas.

Do lado de dentro a segurança não afrouxou. Havia guardas armados e com seus uniformes verdes por todos os cantos, alguns empinando seus fuzis de modo ameaçador, o semblante sempre fechado naquela carranca fria.

Dawson seguiu até o estacionamento aberto, onde deixou o carro numa das vagas vazia. Elas desceram e seguiram a pé pelo chão de cascalho até o corredor estreito cercado por alambrado.

Por onde quer que Rachel olhasse só via muros, cerca elétrica e cinza. Muito cinza.

Aquele lugar parecia um grande poço triste de horrores. E o cheiro… O cheiro era uma mistura de mofo, ferrugem e poeira. Cheiro cinza.

Logo a frente, no final do corredor, outra porta pesada feita com barras de ferro maciça. Três guardas mulheres tomavam conta do portão. A expressão tão séria e hostil quanto de seus colegas.

Dawson apresentou seu distintivo.

– Tenho uma hora marcada com o diretor.

– Pois não, detetive. – uma das mulheres retirou um molho de chaves enganchado no cinto da calça e abriu a porta de barras.

Rachel atravessou junto com a detetive e espiou os corredores frios ali dentro, sentindo um arrepio na espinha. Elas foram encaminhadas para o corredor oeste onde havia algumas portas de madeira fechadas. Tiveram que passar por mais dois portões de grade até chegar à sala sofisticada onde se lia Diretor.

O homem baixinho e barrigudo as esperava, sentado em sua poltrona de pele de leopardo. Rachel achou estranho toda aquela extravagância, ainda mais quando passou o olho rapidamente pelas paredes adornadas de obra de arte e cores um tanto forte para um gabinete de prisão. Mas não teve oportunidade de dizer nada, pois logo o homenzinho as cumprimentou com leve excesso de simpatia, oferecendo chá e biscoitos.

– Detetive Dawson, quanto tempo.

– Nem tanto assim, Reynolds. Ao que parece, não consigo ficar longe de seus portões.

O diretor pareceu encabulado, mas logo disfarçou a expressão com um sorriso.

– Ah, por favor. Quantas vezes preciso pedir que me chame de Manny? – disse ele, todo simpático – O que posso fazer por você?

Rachel percebeu que ele ignorou totalmente a insinuação da detetive. Também percebeu a forma impecável com que estava vestido. Aquele terno, com toda certeza, era Gucci e nem em um milhão de anos um diretor de presídio teria dinheiro para comprar um sapato de couro de jacaré como o que ele estava usando.

– Preciso abrir as investigações das fugas e mortes do ano passado, ocorridas aqui. – Dawson foi direto ao ponto.

– Apenas fugas. – ele coçou o bigode. – Nada de mortes por aqui.

– Preciso dos relatórios dos guardas, dos seus e também quero dar uma olhada nos arredores da prisão.

– Com todo respeito, Detetive Dawson, isso já faz um tempo. Fomos devidamente investigados e advertidos. Não há mais nada para acrescentar àqueles relatórios. É arquivo morto.

– Não quando há semelhança nas mortes ocorridas nas florestas próximas a cidade. Não quando há um animal selvagem atacando qualquer ser vivo que se mova nas florestas. Estou no meio de uma investigação e usarei todas as pistas e evidências que tiver disponível para solucionar este caso.

O diretor se remexeu em sua poltrona.

– Ouvi falar sobre o ataque na cidade. Dois rapazes que morreram passaram por aqui durante alguns meses. Hank Pushman ficou mais tempo, um ano e meio por furto. Não posso dizer que lamento pelas mortes.

– Meu trabalho não é lamentar, diretor, e sim solucionar os casos. – Dawson lhe deu uma alfinetada.

– Claro, claro. O que precisar.

Ele acenou uma vez com a mão e um guarda corpulento entrou.

– Por gentileza, Gabe, apanhe os relatórios do fatídico dia 19.

– Senhor. – o guarda bateu continência, como se fosse um soldado.

– Não, eu quero todos os arquivos. – Dawson disse e o guarda se interrompeu no meio do caminho.

O diretor olhou para ela, confuso.

– Quer todos os arquivos?

– Todos os arquivos de fuga e morte causada nessas florestas.

O diretor se mexeu, pouco a vontade.

– Detetive, isso aconteceu uma ou duas vezes.

– Reynolds, pelo que me consta nos arquivos de investigação contra a sua penitenciária, vocês têm mais de mil e duzentas fugas em menos de cinco anos. E pelo que está relatado na investigação, entre esses fugitivos foram encontrados doze corpos pela floresta. Dentre eles, resquícios de Tobias Hawke, desaparecido há três meses.

Reynolds empalideceu.

– O corpo de Tobias Hawke foi encontrado?

– O polegar. – Rachel soltou.

Os olhos astutos do diretor pousaram nela.

– Desculpe, mocinha, não estou ciente de quem é você…?

– Rachel Bones. Bióloga e responsável pela investigação.

– O que houve com o velho Lawson?

– Ouvi dizer que ele não trabalha muito bem. – Rachel disse, de forma um tanto ácida demais. Havia alguma coisa errada com aquele cara.

– A senhorita Bones está nos dando grande ajuda nessa investigação. Graças às habilidades dela poderemos saber o que está atacando as pessoas lá fora. Talvez isso o ajude a manter seus prisioneiros dentro dos muros.

– Meus prisioneiros estão sob controle.

– Engraçado dizer isso, Sr. Reynolds, considerando as últimas três fugas mês passado. – disse Rachel.

O homenzinho a encarou com raiva.

– Deve ser fácil para você criticar meu sistema. Deve achar muito fácil controlar uma prisão desse tamanho, onde não acontece quase nenhuma briga ou rebelião. Controlo muito bem meus animais.

– Quase nenhuma briga ou rebelião? – Rachel deu um sorriso isento de humor. – Achei que Tobias Hawke havia fugido exatamente numa rebelião. Pelo menos é o que consta em seu relatório.

– Isso foi um incidente lamentável que já foi devidamente corrigido. Achei que seu campo de investigação fosse a floresta, senhorita Bones. – o homenzinho rebateu.

– Absolutamente. Mas sou conhecida pela minha curiosidade e teimosia. Li muitas coisas a respeito de Cross Velk. E já que estou aqui pude observar muitas outras coisas interessantes. Por exemplo, é realmente muito intrigante o senhor ter dinheiro para ostentar um sapato como esse. Ou a sofisticação em residir numa sala como essa.

– Um presente de minha esposa. – Reynolds se apressou em dizer. – Ela é decoradora e faz questão de administrar a decoração de meu escritório. O que está querendo insinuar?

– Absolutamente nada, senhor. Sou apenas muito observadora. Sua esposa tem muito bom gosto. – Rachel se limitou a dizer.

– E um cartão de crédito ilimitado. – Reynolds disse, como quem precisa provar alguma coisa.

– Não sabia que era casado, Reynolds. – Dawson disse.

– Há longos e harmoniosos seis anos. – ele beijou a aliança em sua mão.

– Os relatórios, por favor. – pediu a detetive.

O diretor assentiu e Gabe saiu a passos largos.

Reynolds limpou o suor do bigode, o olhar era apreensivo ao fitar aquelas duas sentadas à frente de sua mesa. Em onze anos nunca tivera problema com seus relatórios diários. Nenhum descuido. E agora uma detetive estava à sua porta por descuidos de outro alguém. Ou seria o olhar abelhudo daquela bióloga que estava causando tantos dissabores?

Ele lançou um olhar carrancudo à menina.

Alguns minutos depois, Gabe voltou com uma pilha de documentos oficiais que depositou em cima da mesa de cerejeira. Seus olhos incrivelmente azuis fitaram o rosto marfim de Rachel e ele chegou a dar um sorrisinho.

A Detetive Dawson examinou a pilha de relatórios.

– Aqui diz que Tobias Hawke liderou uma rebelião no dia 27 de novembro do ano passado, reuniu mais sete companheiros e, sob ameaça de morte, conseguiram se esgueirar até o pátio dos fundos onde passaram por um buraco na parede e desapareceram na floresta.

A detetive ergueu os olhos para o diretor.

– Não há nenhum registro de Tobias ser um homem agressivo. Ele foi preso por furto em 06 de junho de 2014. Sem antecedentes criminais.

– Sem antecedentes criminais, nenhum registro de agressão. Isso não quer dizer que seja um ser pacífico, detetive Dawson. Esses homens aqui dentro podem nunca ter erguido a mão para uma mosca, podem estar aqui por motivos banais ou qualquer mal entendido, ainda assim, depois de semanas de detenção seriam capazes de assassinar um filhote de cachorro se isso resultasse em sua liberdade. Tobias não era dado a violência, mas em sua primeira semana aqui conheceu o terror desses muros cinzentos. O rapaz estava desesperado para fugir! Sequer deu atenção aos rumores sobre a floresta.

– Rumores sobre a floresta são constantes por aqui? – Rachel o interrompeu.

– Bem, sim. Com tantas fugas silenciosas e casos de corpos boiando no rio os presos e também as pessoas temem essas florestas. Geralmente meus detentos se recusam a fugir devido aos rumores de que quem sai por esses muros de sombras se perdem no cinza do céu lá fora.

– O que eu não consigo entender é como acontecem tantas fugas com esses rumores rondando esses muros há mais de anos? – a detetive perguntou.

– Como eu disse, detetive, o desespero pela liberdade fala mais alto.

– E o senhor considera sua prisão aterrorizante a ponto de fazer os detentos optarem por uma morte assombrosa ao lado de fora do que permanecer dentro desses muros? – Rachel o fitou com obstinação.

O homenzinho respirou fundo.

– Senhorita Bones, minha prisão é como as outras. Talvez um pouco mais rígida, mas ainda assim igual as outras. Estar trancado num edifício sem cores, afeto ou conforto faz um homem ficar maluco. Especialmente quando se tem que enfrentar inimigos de todas as partes. Tal experiência é assombrosa.

– Quão rígido é seu sistema? – seus olhos passaram pelos músculos gritantes de Gabe.

– Nada fora dos regulamentos.

– Eu li as críticas sobre sua penitenciária, senhor Reynolds. Não parecem muito certos quanto a sua direção. E, pelo que pesquisei, o senhor precisou responder a alguns processos.

– Processos infundados. O que se lê a respeito de minha prisão são pensamentos infundados de pessoas invejosas. Nunca houve uma penitenciária tão pacifica, tão ordenada em todo o país. Faço um excelente trabalho, senhorita Bones, e isso desperta a inveja.

Rachel não se manifestou quanto a isso.

A Detetive Dawson assentiu, prestando atenção a conversa.

– Tudo bem. Quero ver o muro por onde Hawke passou.

– O buraco já foi fechado. – Reynolds deu um sorrisinho.

– É óbvio.

O diretor suspirou.

– Ok. Gabe vai lhes mostrar o lugar.

Rachel lançou um olhar para Gabe e ficou claro que ela não queria ir a lugar nenhum sozinha com aquele homem gigante metido a galã internacional. Mas Dawson também se levantou e fez menção de segui-lo, junto com Reynolds.

Ah, claro. Ninguém xeretaria sua prisão sem sua presença.

O guarda corpulento os guiou por um corredor mais largo, fazendo uma pausa para abrir todos os portões no meio do caminho. O cheiro ali dentro era de mofo e o ar estagnado, como se os tubos de ventilação estivessem quebrado há anos. As paredes cinza chumbo pareciam se inclinar ameaçadoramente sobre eles, dispostas a enclausurar a alma dentro da construção de granito. Era apavorante estar ali.

Rachel já havia estado numa prisão antes, quando a busca por Dominic era o que a fazia viver. Mas nunca havia sentido aquela energia pesada vindo de uma penitenciária, por mais violenta que fosse. Havia alguma coisa de muito errado com aquele lugar. Era como se almas assombradas daqueles que morrerem dentro daqueles muros vagassem pelos corredores e roçassem os corpos dos vivos num alerta silencioso, um toque gélido e cheio de horror. O ar era tão pesado que os pulmões precisavam fazer força para respirar. E havia aquele aperto doloroso dentro do peito, como se mãos monstruosas estivessem pressionando o externo com a força abrasadora de tristeza.

Rachel se sentiu mal.

Eles passaram pelo refeitório vazio e tiveram que enfrentar mais uma caminhada até um dos portões de chumbo que dava ao pátio. Havia guardas por todos os cantos, no corredor espaçoso, no refeitório vazio e agora nas extremidades do portão.

Gabe abriu o cadeado, puxou a tranca e empurrou as duas folhas maciças da porta.

A luz do sol penetrou o edifício mórbido e foi preciso tapar aquele raio de luz antes que lhe cegassem os olhos.

O pátio era bastante amplo, cercado de alambrado e muros altos no mesmo tom de cinza. Os guardas que se postavam ali andavam armados e bem atentos, apesar de não haver um único preso solto.

Gabe os guiou até a grade de alambrado.

– Havia uma pequena falha na grade. Hawke e os outros haviam furtado alicates do quarto de ferramentas e usaram para larguear a abertura. Eles se aproximaram do muro bem ali – ele apontou para o muro alguns passos a frente, por trás do alambrado. – Com a chuva houve uma erosão no granito onde se abriu um pequeno buraco. Pequeno demais para uma pessoa se arriscar nele, mas os detentos o forçaram.

Rachel e Dawson se aproximaram do alambrado para poderem ver o muro. Havia realmente um remendo mal pintado.

– Por onde se tem acesso ao muro? – a detetive perguntou.

– Do outro lado. – Gabe apontou para uma portinha de chumbo do outro lado do pátio.

– Há quanto tempo havia essa abertura?

– O muro despencou naquela noite, senhora. Estávamos ocupados demais contendo a rebelião para ouvir qualquer barulho. Além do mais, esses muros internos abafam qualquer tipo de ruído.

A detetive assentiu.

– Aonde dá esse muro?

– Para a floresta. – o diretor se pronunciou.

– Foi para onde ele deve ter ido quando finalmente saiu. – Rachel disse, fitando o céu cinzento. Havia alguns abutres voando ao redor dos muros da prisão e ela se perguntou se não seria mau agouro.

– Vocês soltaram os cães quando perceberam que houve uma fuga? – Dawson perguntou.

– Como manda o protocolo. – Reynolds assentiu. – Os guardas os acompanharam, mas o rastro se perdeu próximo ao rio.

– Eles devem ter atravessado.

– Provavelmente. – Gabe disse. – Quando os detentos tentam fugir, a primeira coisa que fazem é tentar atravessar o rio em direção ao Canadá. Mas, às vezes, acabam tomando o caminho das montanhas, próximo a cidade.

– Tobias Hawke conseguiu chegar às montanhas. – disse Rachel.

– Talvez estivesse tentando se esconder nas cavernas. – Reynolds disse.

– Não seria o primeiro a tentar. – Dawson concordou.

Rachel lançou a ela um olhar de indagação.

– É comum os prisioneiros que conseguem fugir de Cross Velk tentarem abrigo nas montanhas isoladas na floresta. – a detetive explicou. – Por serem altas e quase inacessíveis, fica difícil uma investigação por lá.

– Especialmente quando sabemos que os ursos e pumas costumam habitar lugares como esse. – acrescentou Reynolds.

– Não há puma nenhum naquelas cavernas. Ou ursos. – Rachel resmungou.

O diretor franziu o cenho diante de tal comentário.

– O que quer que esteja matando as pessoas está na floresta. – Dawson começou. – Seria uma boa ideia investigar esse lado.

Raquel assentiu.

– De qualquer forma, Reynolds, vou ficar com esses relatórios. – a detetive balançou a pilha de papéis.

O diretor e o guarda Gabe as acompanharam novamente para dentro do prédio. Dali a alguns minutos seria hora do banho de sol dos detentos. As paredes cinzentas os engoliram novamente quando adentraram o portão de chumbo e aquele frio assombroso roçou-lhes as pernas conforme caminhavam.

Foi somente quando chegaram àquele primeiro portão feito de grades que Rachel conseguiu respirar tranquilamente. Quando o sol quase morno tocou seus cabelos avermelhados, ela sentiu algum calor por dentro.

Aquele lugar era de arrepiar.

A garota ficou contente quando a Detetive Dawson sugeriu que dessem uma olhada pela floresta ao redor de Cross Velk. Por segurança, o diretor pediu a Gabe que as acompanhasse caso precisassem de alguma coisa.

Como bióloga, Rachel foi na frente, analisando pegadas, cheiros ou alguma coisa errada no cenário bucólico. A detetive ia atrás, acompanhando a investigação da colega. Nada escaparia de seu faro investigativo.

As árvores longas e troncudas se espalhavam por trilhas íngremes e bem fechadas, de vez em quando o espaço se abria e era possível topar com algumas lebres perdidas no meio do caminho ou o roçar de um cervo há alguns quilômetros. A brisa era fria dentro da floresta, lembrando que o sol estava longe. E o aroma de casca de árvore era sobrepujante a qualquer outro.

Gabe as acompanhava em silêncio, atento a qualquer movimento ou ruído diferente. Tinha o rifle pendurado no ombro e uma expressão séria no rosto. Os funcionários de Cross Velk não confiavam naquela floresta.

– Não parece haver vestígio de cadáveres. – a detetive comentou, a voz levemente alterada pelo esforço.

– Duvido muito que vamos encontrar algo assim por aqui.

– Houve uma fuga mês passado. Talvez nosso predador tenha nos deixado alguma pista.

– Não sei. – Rachel mordeu o lábio, franzindo a testa para a floresta à sua frente. – Não há cavernas para esse lado. Acho que nosso predador reside nas montanhas.

– Mas sabemos que ele vem fazendo lanchinhos por aqui.

– Ou talvez esse seja seu território de caça e alguma coisa o atraiu para a cidade. – Rachel parou no meio do caminho. – Há quantas mortes registradas próximas à Cross Velk?

– Causada por algum animal selvagem? Cinco.

– Só? – Rachel pareceu desapontada.

– De todos que fugiram nos últimos cinco anos, apenas cinco mortes causadas por animais foram confirmadas dentro dessas florestas.  – Gabe disse. – O restante foram acidentes. Muitos morrem afogados.

– Você quer dizer corpos encontrados. Ou pedaços deles.

– Sim. – o guarda deu de ombros.

– E se não houvesse nada para se achar? E se esse predador não deixasse sequer os ossos para serem encontrados?

– Que tipo de animal faria isso?

Rachel ficou em silêncio, pensativa.

– Eu gostaria de chegar até o rio. – disse, por fim.

– São mais uma hora e meia até lá. – protestou Gabe.

– Que bom que você foi treinado para enfrentar esse tipo de situação, então. – a garota continuou a caminhada.

 

 

O rio se estendia em toda sua largura no fim da floresta, as águas escuras refletindo o brilho do sol. Não havia nenhum píer, apenas a borda de cascalhos naturais e areia cinza. A costa era toda ladeada de pedras escorregadias, que guiavam o rio até as proximidades da cidade. Podia-se ver o verdejante das montanhas ao longe, do outro lado do rio, e as sombras opacas das cavernas no alto das colinas. Daquelas montanhas misteriosas, o rio seguia em linha reta, passando as margens da floresta Cross Velk e seguindo rumo às florestas congelantes do Canadá.

Sempre havia os malucos que tentavam atravessar a nado. Alguns bons nadadores davam sorte e conseguiam chegar às margens frias. Outros acabavam boiando nas águas escuras. Alguns pescadores gostavam de aproveitar o rio numa tarde quente para apanhar trutas. E havia também as competições de caiaque das escolas.

Rachel se aproximou das águas calmas, fitando o horizonte. A detetive Dawson parou ao seu lado, observando a paisagem com um suspiro.

– É aqui que termina a trilha para os detentos. – disse ela.

– De um jeito ou de outro. – Gabe concordou.

– Tobias Hawke atravessou o rio. As pedras são escorregadias demais para uma pessoa conseguir chegar até o outro lado. – ela apontou para a cadeia infinita de pedras que ladeavam o rio até as montanhas selvagens do outro lado. – Ele deve ter entrado na água.

– Seguramente os outros também atravessaram. – disse Dawson.

– Ou podem ter seguido o rio até o Canadá. – Rachel apontou para o Oeste onde o rio fazia uma leve curva e voltava a seguir em linha reta. – Não há evidências de outros corpos.

A detetive Dawson assentiu.

– Ele deve ter conseguido chegar até aqui, atravessou o rio até o outro lado, adentrou as florestas e topou com nosso predador naquela clareira.

– Ou o nosso predador o seguiu até as montanhas. – Rachel cogitou.

– Uma pessoa não conseguiria atravessar pelas pedras, mas um animal ágil passaria com facilidade. – Dawson acompanhou o raciocínio da bióloga. – Ou nosso predador sabe nadar e seguiu Hawke rio acima.

Rachel parecia pensativa.

– Onde foram achados os outros cinco corpos? – perguntou à Gabe.

O guarda apontou para as pedras na costa do rio.

– Um deles foi achado ali, com o externo aberto. Os outros três foram encontrados espalhados pela floresta, próximos ao rio. Mesmo modus operandi.

– Qual o intervalo de tempo?

– Anos. Em cada seis fugas, um corpo achado. Não há um mês específico em que as mortes sejam frequentes, se é isso o que você quer saber. Variam as estações. Acha mesmo que este seja o território de caça desse animal?

– É provável. Esse lado da floresta é onde ocorrem mais desaparecimentos e mortes. Dentro das montanhas no alto da colina quase não se tem indício de mortes. É isso ou houve uma séria perturbação no habitat desse animal que o obrigou a fazer seu território de caça aqui e se abrigar nas montanhas próximo à cidade.

Rachel suspirou.

– De qualquer forma – ela continuou – Continuarei investigando até encontrar esse animal e descobrir o que está havendo. Sugiro que mantenha os prisioneiros dentro de suas celas. Não queremos oferecer um banquete ao que quer que esteja rondando as florestas. Esse predador não precisa ser atraído para seus portões. E, não duvide, se mais presos escaparem e adentrarem o território de caça dele, nada impedirá que o animal siga os rastros até a fonte. Não vão querer um problema como esse.

Gabe pareceu perturbado.

– Podemos defender os muros da prisão.

Rachel deu de ombros e seguiu a trilha de volta, acompanhada por Dawson e o guarda.

Rachel parecia desapontada. Realmente esperava encontrar alguma pista por ali, uma pegada na floresta, alguma evidência conclusiva. Mas não encontrou nada além de suposições e ruídos sombrios das árvores.

O diretor os esperava nos portões da penitenciária, um tanto nervoso.

– E então? – quis saber ele, com um sorriso fraco.

– Agradecemos sua generosidade em nos receber. – Dawson disse. – Por enquanto terminamos a investigação por aqui.

– Quando precisar, detetive. Quando precisar.

– Seria de bom grado o senhor alertar seus detentos de não tentarem atravessar o rio para se esconderem nas montanhas. Há um animal selvagem rondando essas florestas.

– Nenhum prisioneiro irá fugir, detetive Dawson.

– É o que o senhor diz em seus relatórios todo mês.

A detetive rumou ao estacionamento a passos largos. Parecia insatisfeita.

Rachel a acompanhou em silêncio.

– Há oito anos tento pegar esse filho da mãe e ele sempre consegue se safar. – Dawson resmungou, batendo a porta do carro com força. – Achei que, pelo menos dessa vez, eu poderia fazê-lo se encrencar por alguma porcaria que tenha feito. Mas olhe a ironia, o safado é inocente.

– Duvido muito que seja, detetive. – Rachel assegurou. – Há alguma coisa de errado nesse lugar. O terno e sapato que ele usa são caros demais para um salário de diretor penitenciário, assim como a decoração daquele gabinete. Há relatórios de um número absurdo de fugas. Como ele consegue manter Cross Velk e driblar as investigações?

– É o que tento descobrir há anos, senhorita Bones. Há alguém pagando Reynolds para ele deixar detentos escaparem.

– Mas como é que ele consegue driblar as investigações e fornecer relatórios plausíveis e aceitáveis?

– Você não sabe o tipo de falcatrua a que se prestam esses tipos.

 

Reynolds acendeu seu charuto cubano, vendo o carro passar pela portaria e desaparecer na estrada ao longe. Sacou o celular no bolso do terno e discou o número registrado com a maior importância em sua agenda telefônica.

Quando o contato atendeu, o diretor disse:

– Sua gente deixou pistas, meu amigo. Receio que estejamos com problemas.

 

Dawson deixou Rachel em frente ao necrotério.

– Obrigada pela carona, detetive. – a garota agradeceu. – E obrigada por me incluir na investigação de Cross Velk.

– Mesmo não tendo dado em nada conclusivo. – Dawson resmungou, adentrando o prédio de mau humor.

Rachel também lamentava ver suas suspeitas frustradas, mas tentou não se deixar chatear tanto. É claro que havia alguma coisa muito errada com Cross Velk, mas não tinha a ver com aquelas mortes na floresta.

Tobias Hawke estava no lugar errado e na hora errada.

A penitenciaria Cross Velk não tinha nada a ver com o animal selvagem solto nas florestas.

Ela estava pensando exatamente isso quando foi abordada próxima ao seu carro.

Moon parecia aborrecida. Aquele olhar penetrante instigando alguma resposta dos olhos de Rachel.

– Olá, estranha.

Rachel sorriu um pouco.

– Oi.

– Onde esteve o dia todo? Ficamos te esperando no bar.

– Sinto muito. –Rachel se desculpou com sinceridade – Tive uns problemas para resolver.

– Algo a ver com as investigações?

– Em parte.

– Bem, espero que tenha feito algum progresso.

– Nada de progressos. – Rachel fez um muxoxo.

– Então talvez seja uma boa ideia você aparecer no bar e tomar um café conosco. Erin é uma sentimental. Se não aparecer por lá pode ferir seus sentimentos.

– Sabe, Muffins e café me parece uma excelente ideia.

Moon abriu um meio sorriso, extremamente charmoso.

– Preciso resolver uma última coisa e dar uma passada em casa para tomar banho. Te encontro às oito?

– Tudo bem.

Rachel entrou no carro e partiu, deixando Moon parada na calçada.

A garota inspirou o aroma deixado pelo rastro de Rachel, tentava captar alguma coisa. Aquele cheiro impregnado nas roupas da garota lhe era familiar. Odor cinzento.

 

Ragnar desligou o telefone, furioso. Os olhos antes claros, tingiram-se daquele líquido inflamado, faiscando à meia luz da caverna. As unhas afiadas e escuras se alongaram ameaçadoramente quando ele fechou o punho e o malhou em cima da mesa, fazendo um buraco oco na madeira fosca.

Vex ergueu os olhos para ele.

– Aquela humana tola e intrometida!

– O que a garota fez desta vez?

– Essa maldita investigação vai acabar por nos expor! Cross Velk acaba de ser investigada pela Detetive e a maldita bióloga.

– Nós não deixamos pistas para trás. – Vex parecia tranquilo.

– Desta vez alguém deixou. Foram achados restos de um detento na floresta.

– Alguém está sendo descuidado.

A expressão de Ragnar se fechou ainda mais.

– Onde está Rudolf?

– Faz três noites que não volta para casa.

– O que o imbecil está pensando? Só porque a lua está minguando não significa que ele pode andar por aí despreocupado!

– Eu falo com ele. – Vex se ofereceu. – E quanto à garota?

– Vamos ter que lidar com ela. Não posso arriscar tanto com os caçadores tão perto.

– Moon não vai ter coragem de comer o coração dela.

– Não. Mas sei de alguém que não teria tais melindres.

– Não quer sujar o focinho com sangue inocente, Ragnar? – Vex provocou.

– Prefiro deixar à disposição de quem vai curtir a caçada.

– Vai querer cuidar da Detetive também. Não é sábio deixar os investigadores chegarem perto demais. Não é apenas a garota humana quem está bisbilhotando.

– Deixarei que cuide dessa parte. Sei o quanto você aprecia as morenas.

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